Merveilles
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Disse isso tão de repente que eu fiquei desnorteado. Olhei no fundo dos olhos de Tetsu, tentado compreender o que ouvia.
- Como assim, Tetsu-san?
Ele parecia pálido e cansado, com olheiras que denunciavam a falta de sono, e parecia reunir cada milésimo de sua coragem para me dizer aquilo. Mesmo assim, eu tinha esperanças de estar enganado.
- Mana-san, por favor. Eu sei que pode parecer egoísmo, mas acho que tenho que trilhar meus próprios caminhos.
Tá, agora ficou realmente estranho. Desde quando Tetsu usava frases filosóficas às 11 da manhã? Que será que ele tomou de café da manhã? Certamente não fez bem.
Ao ver meu olhar indagador, ele disse:
- É que eu não me identifico mais com o estilo do Malice. É um jeito de vocês, mas não o meu... eu quero seguir sozinho.
Ao dizer isso, baixou a cabeça, num gesto cansado. Eu estava abismado. No ano passado, tive uma conversa semelhante, mas com GAZ, nosso agora antigo baterista. Nem bem fizera um ano que contratamos Kami para substituí-lo, agora Tetsu vem com essa história. Tudo bem que a desempenho dele estava indo de mal a pior, e eu já havia cogitado a possibilidade de tirá-lo da banda, mas partir dele? Por essa eu não esperava.
- Bem, Tetsu-san, eu não posso fazer nada quanto a isso. Se a decisão é sua, então creio que você deva saber o que é melhor pra você. Mas será uma grande perda para o Malice.
Dizia isso pensando no quão cínico eu era. Grande perda? O desempenho dele estava horrível. Pelo menos me poupou o trabalho de mandá-lo embora. E agora eu voltaria ao inferno do ano passado, quando GAZ viera no meu apartamento, assim como Tetsu agora fazia, e dissera que iria sair da banda, alegando problemas pessoais. Fiquei muito intrigado na época, pois sabia que ele e Tetsu eram muito amigos, e de repente se afastaram. Depois de uma verdadeira caçada pelo Japão, achamos o Kami.
Fico imaginando se a saída de Tetsu não tem alguma relação com GAZ... Minha imaginação pode ser bem vasta. Mas seria algo que eu jamais descobriria.
Tetsu então ergueu os olhos com uma certa expressão de alívio. Será que ele estava realmente com medo de mim? Certamente seria uma hipótese lógica.
- Arigatou, Mana-san. Era só o que eu tinha a dizer. Espero que tudo dê certo pra você e para o Malice.
Cretino! Por que não morre? Além de me deixar com uma bomba nas mãos, me desejava "boa-sorte"? A minha real vontade era de quebrar a cara dele, arrancar cada dente daquele sorriso amarelo e forçado que ele agora exibia pra mim. Como eu queria jogar ele da janela da sala. Às vezes, morar no vigésimo andar tinha suas vantagens. Mesmo que meu rosto não mostrasse alterações, talvez meu olhar denunciava que eu estava à beira de um ataque de fúria, pois Tetsu se despediu apressadamente e se retirou logo dali. Ao ouvir a porta do elevador se fechando, peguei o vaso de flores sobre a mesinha de centro e atirei-o contra a porta.
Que ódio! Minha raiva era tanta que minha cabeça começava a latejar. O que aquele imbecil tinha na cabeça? Seria um tormento achar um cantor novo agora. Larguei-me no sofá atrás de mim, sentindo nova onda de dores na cabeça, e sabia que agora elas seriam constantes, pelo menos até eu conseguir um substituto pra Tetsu.
Entrei na cozinha e escancarei a porta do armário, procurando pelo pacote de aspirinas. Ao alcançá-las, enchi o copo mais próximo de água e joguei uma delas lá dentro. Enquanto observava as bolhas se desprendendo, pensava no tormento que seria dali em diante. Fiquei tão distraído que quase grudei no teto quando o telefone tocou. E não foi com uma voz suava que atendi.
- Moshi moshi.
- Nossa, Mana-chan! Isso é jeito de atender o telefone?
- Fala, Közi.
Do outro lado da linha veio o som da risada melodiosa de Közi.
- Sempre bem-humorado, esse meu chefinho...
Revirei os olhos. Mas, o quê mais eu poderia esperar vindo do Közi? Seriedade é o que não seria.
- Fala, Közi. — repeti, ainda na mesma secura.
- Credo... Se você continuar economizando palavras assim, vai perder a voz de vez... — então acrescentou apressadamente — Antes que você desligue na minha cara, como aliás já fez muitas vezes, eu liguei pra perguntar onde você vai almoçar. Então. Onde você vai almoçar?
Franzi o cenho. Eu não estava esperando uma pergunta dessas.
- Não sei, Közi. Por que quer saber?
- Por nada... É que se você fosse almoçar na sua casa, eu ia te chamar pra almoçar comigo. Quer almoçar comigo?
Considerei a proposta por um momento, e, enquanto pensava, ouvia Közi do outro lado da linha murmurando "tic-tac". Por fim respondi:
- Não sei, Közi... Hoje o meu dia não começou bem, acabei ficando com uma enxaqueca irritante.
- Hum. — um momento de silêncio — eu se um ótimo remédio pra dor de cabeça...
-...
- Sorvete, Mana-chan! Sorvete! O que você pensou que fosse?
- Nada, Közi, nada...
Eu disse que minha imaginação era vasta.
- Então, posso passar aí pra te pegar mais tarde?
- Como se você não fosse passar se eu dissesse não.
- Então, estamos combinados. Passo aí depois do meio-dia.
- Hai.
-...
- Que foi, Közi? — tinha até medo de perguntar.
- Você vai de vestido?
Fiquei estático. Sinceramente, não seria uma boa idéia sair de vestido ou saia com o Közi. Ele desenvolvera o hábito de tentar levantar as minhas saias pra ter certeza de que eu continuava sendo homem.
- Quem cala consente? — perguntou Közi.
- Não.
- Que pena...
- Közi!
- Bom, te vejo mais tarde! Ja!
- Ja.
Desliguei o telefone e tomei água com aspirina. Fui até meu quarto procurar alguma roupa masculina que pudesse ter permanecido ali. Arrumei uma calça larga e preta escondida no final do guarda-roupa, com uma camisa igualmente preta. Ficaria de luto hoje.
Prendi o cabelo num rabo-de-cavalo, coloquei uns óculos escuros que estavam em cima do criado-mudo e apanhei um bloco de papel com uma caneta, utilizados quando eu saio em público com alguém. Detesto falar com pessoas estranhas olhando, mesmo com meus amigos. Assim, desci para esperar Közi no hall do prédio.
Nem bem o relógio marcara 12:10, vi o carro de Közi parando em frente ao edifício. Levantei-me e fui apressadamente para dentro do carro. Ao fechar a porta, notei que Közi parecia triste. Olhei para ele intrigado, perguntando com o olhar.
- É que... você veio de calça... — respondeu.
Olhei pra ele, incrédulo. Como podia caber tanta besteira numa pessoa só? Virei o rosto para a janela, como que ignorando-o.
- Ei! Não me ignore! Ou eu vou roubar um beijo seu!
Me virei pra ele, assustado. Sabia que ele seria capaz de uma coisa dessas. Nunca duvide de um louco.
- Nem pense. — disse secamente.
Ele riu.
- Acha mesmo que eu faria isso com você? — ergui uma sobrancelha. — Ah... esqueci que você me conhece a muito tempo...
Ligou o carro e começou a dirigir até a tal sorveteria. Ficava mais afastada do centro de Tokyo, mas era bem grande, com um amplo espaço para mesinhas com cadeiras. Por ser hora do almoço e fim da primavera, tinha uma quantidade razoável de clientes. Közi estacionou o carro bem próximo da entrada e desceu apressadamente, abrindo a porta do passageiro e estendendo a mão para me ajudar a sair.
- Senhorita...
Lancei um olhar de "eu vou te matar", mas aceitei a mão que me fora oferecida. Caminhamos lado a lado até entramos na sorveteria, e escolher uma mesa mais afastada. Közi puxou a cadeira para mim, novamente num gesto galanteador. Sentei olhando desconfiado.
- Então, o que te deixou mau-humorado dessa vez? — ele fez questão de enfatizar as duas últimas palavras.
Peguei o bloco de papel e a caneta, escrevendo rapidamente:
* O Tetsu apareceu na minha casa agora de manhã e disse que ia sair da banda. *
Realmente, escrever era melhor do que falar. Parece que as palavras ditas ajudam a consolidar o fato. Közi leu e soltou um suspiro.
- Suspeitei que isso fosse acontecer.
Franzi o cenho. Como assim, ele esperava? E, devido a anos de amizade, Közi sabia exatamente a minha pergunta, mesmo que eu ainda estivesse de óculos de sol.
- Ele comentou comigo. Sabe como é... Precisava de um ombro amigo. Mas eu esperava que essa decisão partisse de você.
Peguei o bloco novamente. Enquanto escrevia, Közi tamborilava os dedos na mesa.
* Eu já tinha em mente demiti-lo. Apesar de boa pessoa, ele anda muito mal. O problema agora é achar um vocalista novo. Você ainda lembra o tormento que foi pra achar um baterista descente, não lembra? *
Ao ler, ele soltou uma risadinha.
- Se lembro. Andamos o Japão quase inteiro. Sorte que achamos o Kami. — o sorriso dele abrandou — Vai ser chato, mas vamos achar. É só você colocar uma saia curta que vão aparecer aos montes...
Közi foi salvo de mais um olhar assassino pela chegada da garçonete. Antes que ela sequer perguntasse, ele foi dizendo:
- Duas taças grandes de chocolate com calda.
Ela anotou o pedido e foi até o balcão. Quando Közi olhou de novo pra mim, foi recepcionado com um olhar gélido.
- Não me olhe assim! Você sabe que é verdade.
Minha expressão não se alterou.
- Tá bom. Mas você conteve seus impulsos assassinos quando o Tetsu te contou?
Ergui as duas sobrancelhas. Ele sorriu.
- Que bom. Era esse o motivo do seu mau-humor?
Acenei afirmativamente com a cabeça, agradecendo que a maldita dor de cabeça tivesse passado, e ele sorriu de novo. A garçonete voltou trazendo duas enormes taças de sorvete de chocolate pingando calda. Ela depositou as taças na nossa frente, e, antes que se afastasse, Közi piscou pra ela, que ficou escarlate e saiu apressada para atender outra mesa. Retomei o bloco de papel.
* Será que você poderia conter seus hormônios??? *
Ao ler o papel, Közi riu divertido.
- Não acredito! Ficou com ciúmes?
Mais um olhar mortífero, que lancei mais por costume, pois sabia que não teria efeito algum.
- Não adianta me olhar assim, você sabe...
Concentrei-me em devorar o sorvete à minha frente, apenas ouvindo outra risada de Közi. O sorvete ocultou o meu sorriso da visão de Közi, e, mesmo sabendo que me irritaria muito mais com ele, também sabia que seria uma tarde agradável e que iria me descontrair. Afinal, é o Közi.
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