Notas iniciais
"ela parecia aqueles fogos de artifícios tudo nela brilhava e queimava" — Ryane Leão, Tudo Nela Brilha E Queima Boa leitura!

IX.

Cheguei atrasada para a aula de fundamentos teóricos da magia que Alegreya ministrou nos jardins inacreditavelmente bem cuidados do palácio. Ela não pareceu gostar muito do meu atraso. Eu também não gostei, mas não era culpa minha. Mais tarde, quando perguntei, as garotas disseram que, por ser a primeira aula, nada realmente interessante foi dito. Apenas alguns livros recomendados, os quais fiz questão de anotar, para checar na biblioteca.

E até a aula de Sirena, à tarde, não foi muito proveitosa. Ela me encheu daquelas chicotadas por andar curva demais e, no fim do dia, eu tinha bem menos disposição para andar ereta do que antes de tudo isso começar. E eu não era a única.

Sirena nos permitiu almoçar nos jardins, mas o jantar deveria ocorrer no salão principal da ala oeste do castelo. Era um lugar vasto, com os símbolos das seis Marcas pendurados por toda parte: a rosa, a serpente, o galho, o cristal, o coração e a pena. Uma grande lareira crepitava no fundo e havia uma parede inteira com bustos de todas as Damas da Primavera anteriores. Elas eram desumanamente lindas. Ao menos, tanto quanto uma estátua de ouro faz parecer.

E, na presença delas, nós jantamos pernil de porco assado. Achei bem irônico. Todas nós, quarenta e oito garotas, mais nossas tutoras — Sirena na cabeceira da mesa — jantando juntas, diante de uma mesa de mogno desnecessariamente grande, como as pessoas civilizadas que éramos. Exceto que Frieda derramou molho “acidentalmente” em mim e Kendare não parou de trocar farpas com uma das garotas do dormitório dela.

Quando finalmente terminamos aquela tortura educada, a maioria de nós sem saber usar talheres — porque Sirena não deu aula sobre isso ainda —; e servindo de chacota para as bem-nascidas, eu pensei em ir para meu quarto, mas Kendare me parou e colocou um pedaço de papel em minha mão.

— É um mapa ­— ela disse — Com rotas seguras do castelo.

Por um instante, eu quase perguntei como ela havia conseguido aquilo, mas imaginei que a Marca no peito dela explicava muita coisa. Com a pena, vem o dom do conhecimento, a habilidade de saber das coisas, ver e sentir. Embora eu não soubesse muito como funcionava. Alegreya prometera explicar melhor no decorrer das lições.

— Preocupada se eu vou entrar em algum lugar perigoso, Kend? — provoquei, erguendo as sobrancelhas.

Kendare bufou com desgosto, os braços cruzados sobre o peito de um jeito pedante.

— Vou precisar que traduza algumas coisas daquele livro. É um mapa para que você me encontre hoje à noite, na biblioteca.

Ergui uma sobrancelha.

— Podemos mesmo andar por aí à noite?

— Não há nenhuma regra contra isso. Só não é recomendado. Mas, uma vez que eu eliminei o perigo dando a você uma rota segura, não há com o que se preocupar.

Encarei o papel dobrado em minha mão por algum tempo. Engoli o impulso de roer a unha.

— Tá, você não sabe a similare — comecei. — Mas eu sei. E você claramente quer traduzir aquele livro, o porquê eu não sei, mas isso não interessa agora. A questão é: o que eu ganho fazendo o que você quer?

Kendare estreitou os olhos, os músculos de seus lábios carnudos movendo-se apenas um pouco, mas ela não parecia surpresa.

— O que você quer?

Eu sorri do jeito mais arrogante que consegui. Confesso que tive de imaginar o sorriso daquele Duque maldito pra conseguir o efeito desejado.

— Que você responda às minhas perguntas diretamente quando eu as fizer.

Acho que deu certo, porque ela se remexeu, arrumou as dobras do vestido de musselina e transpareceu algum desconforto.

— Nós, Marcadas com a pena, não sabemos de tudo, vou logo avisando você.

— Mas sabem de muito. — Dei de ombros. Era um investimento a longo prazo, porque sou estúpida e não burra. Embora isso não faça sentido. — Só quero que você responda minhas perguntas com sinceridade. Eu não tenho muitas cartas na manga aqui, então eu vou usá-la sim, minha amiga, quando for conveniente. Deixarei você me usar também.

Estendi a mão para Kendare e ela ficou encarando meus dedos desnecessariamente tortos e minhas unhas roídas por algum tempo. Talvez estivesse sopesando os prós e os contras de fazer um acordo comigo. Finalmente, ela apertou minha mão, embora não parecesse realmente feliz com isso.

— Na biblioteca — disse. — Meia noite. Não se atrase.

Puxou a mão antes de mim, virou-se e sumiu pelos umbrais do salão.

Notas finais
Kendare Belladona Supremacy!!! Até mais!