Mergulhando em Segredos
1 Mergulhando em Segredos
Quaritch decidiu abrir os olhos de forma brusca ao sentir uma presença insistente e penetrante sobre ele. Apesar de um mês casado, parte do seu treinamento como um soldado atento, o deixava alerta a qualquer movimento, incluindo de sua própria esposa, a quem ele ainda não conhecia muito bem e, ele sabia muito, era uma mulher traiçoeira.
—Se permita baixar a guarda, apenas por um breve momento, marido — ela disse de forma agradável, usando um tom aveludado — o que foi que o perturbou?
—Talvez você nem queira saber a resposta — ele retrucou, ainda um tanto mal humorado pelo sono.
—Pelo contrário — Varang respondeu, sentando-se de pernas cruzadas na frente dele — não deve haver segredos entre nós.
—É muito cedo pra isso, eu não quero jogar seus joguinhos agora, está bem? — ele a cortou, tentando focar em despertar por completo, o que a deixou de ego ferido.
—Então quer dizer que toda vez que falo com você é um jogo? Que quero algo de você? — Varang impostou a voz de forma ameaçadora, chegando a direcionar o pescoço para frente.
Aqui, ele sabia que era melhor dobrar a língua e se retratar.
—Eu não quis ofendê-la, olo'eyktan — ele disse de forma humilde e respeitosa.
Ao ver como ele tinha se rendido, ela jogou a cabeça para trás, soltando uma grande gargalhada. Miles franziu as sobrancelhas, sem compreender ao certo o que tinha acontecido, chegando a cogitar que a esposa na'vi era de fato, louca.
—Joguinhos, você diz — ela disse entre risos ainda, voltando a se controlar — eu entendo, eu tenho um modo de agir com você específico, mas é só porque me dá prazer ver suas reações peculiares.
—Muito bem, sou seu... alvo de piadas — Quaritch apenas suspirou, passando uma mão pelo rosto, um tanto frustrado.
—Você não é uma piada para mim, eu levo nossa aliança muito a sério — Varang voltou a ficar mais concentrada — eu apenas gostaria de levá-lo a um lugar específico hoje, verificar algumas de suas habilidades.
—Não pode me dizer que habilidades seriam essas? — ele tentou perguntar.
—Eu direi quando chegarmos lá — ela então voltou a sorrir misteriosamente, no que o marido a respondeu com outra careta descontente.
—Vamos — ela se levantou de uma vez, se ajoelhando atrás dele, apoiando-se em seu ombros, começando a beijar o ombro direito, docemente e delicadamente, chegando a seu pescoço — prometo que irá agradá-lo...
Antes que ela chegasse à sua orelha, ele se levantou com cuidado, para não assustá-la ou machucá-la, disposto a segui-la para onde quer que ela quisesse. Apesar de detestar o jeito mandão e condescendente, Miles tinha que admitir que ela o encantava cada vez mais.
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Saindo do vilarejo, o casal tomou um caminho que pelo menos Miles conhecia bem, estavam à beira da praia outra vez, o que o fez olhar para o mar e logo em seguida para Varang, ambos convidativos.
—Está um bom dia para nadar — ela contou o que pretendia — acredito que saiba nadar, não é mesmo?
—Pode apostar que sim — ele cruzou os braços, de modo desafiador — quer ver em primeira mão?
—É pra isso que viemos aqui — ela respondeu, já correndo em direção ao mar.
Não tinha como Quaritch não se apaixonar pelo jeito confiante dela, só restou segui-la em direção à água.
Ela deu um mergulho e ele fez o mesmo para alcançá-la, exibindo as braçadas habilidosas e os braços definidos. De repente, sentiu algo puxando seus pés e um certo medo se instaurou nele. Seu sentido alerta se acendeu outra vez e achou se tratar de uma criatura marinha. De repente, sua mente o levou a imaginar que Jake Sully o atacaria a qualquer momento.
Com um sobressalto, Miles emergiu da água, assustado, respirando profundamente, buscando o fôlego em falta. Varang surgiu logo depois, observando sua reação.
—Fique calmo — ela tocou seu peito e suas costas delicadamente — era apenas eu brincando com você, ninguém aqui fará mal a você, não se depender de mim, eu garanto.
Aos poucos, a respiração dele foi voltando ao normal até se regular por completo.
—Não foi minha intenção assustá-lo — sua esposa garantiu, vendo que ele continuava calado, com os olhos um tanto arregalados.
—Eu sei, não se preocupe — ele retrucou, voltando ao habitual — são só más lembranças.
—Não queria fazê-lo lembrar delas — curiosidade tomou conta de Varang sobre o que poderia ser isso, mas ela não insistiu.
—Vamos criar boas lembranças no lugar delas, então — ele decidiu.
Mostrando que estava se sentindo melhor, Miles se aproximou dela, curvando a cabeça até que seus lábios se tocassem. Varang retribuiu o gesto envolvendo o tronco dele em seus braços.
Realmente era o começo de uma boa lembrança criada ali.
Havia uma sensação mista entre confiança e tranquilidade, como se beijar a esposa fizesse Miles se sentir totalmente no controle da situação, tanto de qualquer gesto que ela fizesse a seguir, como sua mente ocasionalmente perturbada.
Realmente tomando as rédeas da situação, ele desfez o beijo e a puxou pela mão a trazendo de volta à praia.
Dessa vez, o consorte sentou-se primeiro, enquanto a olo'eyktan, de pé, o observou, intrigada. Ele ajeitou as pernas de modo que ela se sentasse em seu colo, dois tapas em seu joelho foram suficientes para que ela entendesse que ele queria que ela sentasse ali.
Com toda graça da sua forma esguia, Varang se aconchegou ao colo do marido, deixando que ele a envolvesse em seus braços fortes.
—Obrigado — o próprio Miles decidiu quebrar o silêncio, o que fez Varang se sentir mais intrigada ainda.
—Por que me agradece, marido? — ela fez questão de erguer a cabeça e olhá-lo em seus olhos.
—Pelo que tem feito de bom pra mim — ele citou — podia ter me matado, mas não, me deu uma vida de conforto.
—Você tem valor para mim, Miles, é um prazer poder servi-lo — ela explicou, mas com um sentimento genuíno perceptivo em sua voz — só gostaria de fazer de forma mais efetiva.
—Acredite, tudo que faz está de bom tamanho — ele deixou claro.
—Mas meu julgamento pode estar errado, acreditei que gostaria de nadar, mas minha brincadeira foi uma má ideia — ela voltou ao assunto.
—Não, não foi — ele negou rapidamente, dando um longo suspiro a seguir — como eu disse, o que você fez me trouxe más lembranças, eu...
—Eu gostaria de saber, não quero fazer exigências, mas... — Varang se interrompeu, cedendo à compaixão — eu o serviria melhor se soubesse.
—Você sabe que vim parar aqui muito fraco e desgarrado do meu grupo — ele decidiu contar o que julgou suficiente para conter a curiosidade dela — eu tive uma luta com Toruk Makto em pessoa, ele pensa ter me matado, ao menos é o que dá pra pensar baseado no que eu me lembro, então... eu sobrevivi a quase morrer afogado, foi isso que passou na minha cabeça quando estávamos na água.
—Uma lembrança ruim, mas também muito corajosa — Varang refletiu depois de ouvir a história — isso só o torna um guerreiro de valor para mim, Miles, um verdadeiro sobrevivente, você entende o que é lutar para sobreviver. Lembro de quando você chegou até mim, me questionou porque eu escolhi você como meu marido e não um na'vi, aqui está um dos motivos, você e eu somos guerreiros, somos feitos da mesma garra, não haveria união mais apropriada.
Todo o comentário soou como um elogio inesperado para Miles, a mulher peculiar em seus braços tinha visto algo promissor em sua tragédia. Antes que ele fosse capaz de responder algo à altura, Varang o beijou com toda intensidade que podia, o segurando em um abraço firme, deixando sua presença bem real marcada na mente de Miles.
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