Mercy, Mercy
1 Brincadeirinha
- Mamãe! A Joy não quer me dar o controle da TV! — A pequena gritava à sua mãe
- Eu cheguei primeiro! – Joy esticava os braços. Com um segurava o controle no alto, com o outro afastava a irmã mais nova.
- Mas já está aqui faz uma hora! – Ela tentava se esquivar os empurrões, sem sucesso.
- Tem quinze minutos que eu liguei a televisão, sua exagerada!
- Ei, meninas. Que confusão é essa aqui? – O pai separou as duas puxando-as pela parte de trás da blusa.
- Papai, ela não quer me deixar ver o desenho que eu quero.
- Por que vocês não vão brincar de pique lá no jardim? – Sugeriu ele, se sentando no sofá.
- “Pique”? – A caçula repetiu.
- É.
- E o que é isso?
- Você não sabe? – Joy virou a cabeça de lado e a encarou numa posição engraçada.
- Deveria?
- Você é uma criança estranha. Nunca brincou de Pique-Esconde? Pique-Pega? – A cada pergunta ela balançava a cabeça negativamente — Pique-Gelo? Pique-Fruta? Pique-Parede? Pique-Padre?
- “Pique-Padre”? – Riu.
- Tá, eu inventei esse agora. Mas, mesmo assim, como você pode não conhecer? Você brinca do que na escola?
- Eu brinco de boneca.
- Então vem cá que eu vou te ensinar a brincar de verdade. – Joy pegou na mão da outra e a levou ao jardim.
Apesar de ser verão, o clima enganava algumas plantas e estas enfeitavam o jardim atrás da casa. Elas se posicionaram no meio do canteiro. Os orbes castanhos da mais velha procuravam algum tipo de folha comprida o bastante para servir de venda. Como não achou, rasgou a barra do vestido e cobriu os olhos cinza da irmã.
- Agora conta até trinta. Devagar. Eu vou me esconder e você vai ter que me encontrar. Se conseguir vai ter que dizer meu nome três vezes, aí a brincadeira acaba.
- Por quê? – Ela tentava enxergar por entre o pano e o nariz.
- São as regras! Vai, começa – Dito isso ela saiu correndo casa à dentro.
- Um... Dois...
Joy entrou em todos os cômodos, retornando depois à cozinha.
- Mamãe, eu tenho que me esconder.
- Que tal no meu quarto? – A mãe estendeu a colher de pau com um pouco de massa nela.
- Obrigada. – Ela sujou o dedo e o pôs na boca, então foi ao quarto dos pais onde se escondeu embaixo da cama.
- Trinta!
Passou-se um bom tempo até que ela pudesse ver os tênis rosa correndo.
- Sis¹! Eu já estou cansada de procurar! Você ganhou! – Disse se sentando. Os pés eram balançados para frente e para trás, de um jeito que poderia bater na testa da menina qualquer hora. Percebendo, Joy segurou-a pelo tornozelo.
- Cuidado, Memi! – Falou e se arrastou para fora do esconderijo.
- Joy... – Ela enrolava uma mecha do cabelo loiro nos dedos
- O que? – Ela limpou a poeira da roupa
- Joy...
- Fala! – Ela desfez o rabo-de-cavalo.
- Joy, agora é o fim da brincadeira, né? – Sorriu.
- Mas eu que ganhei. – Apontou para si.
- Por quê?
- Porque você disse! A brincadeira acabou!
- Só acaba quando eu falo seu nome três vezes! Então eu ganhei, te achei antes.
Joy cerrou os olhos. Não gostava de perder. Sua irmã era esperta, não iria cair numa desculpa qualquer sobre novas regras. Levantou o tom da voz e disse:
- Você ia me chutar.
- E você não chegou para trás. – Levantou as sobrancelhas e colocou as mãos na cintura.
- Mesmo assim, a vitória é minha. E eu sou mais velha!
- Pare de roubar! São apenas dois anos! Você perdeu e ponto!
- Se é assim eu vou esconder todos aqueles bichos horríveis que você chama de bonecas!
- Não! Você que as me deu! E eu vou esconder as suas também!
- Eu não ligo. Eu consigo ir a todos os lugares da casa. – Um sorriso maldoso surgiu em seus lábios. – Diferente de você, irmãzinha.
- E-eu n-não sei do que você está falando... – Se virou de lado para não ter contato visual com a irmã. Era óbvio que mentia. Sabia exatamente sobre o que Joy falava.
- Não? Deixe que eu me explique. – Ela começou a andar em volta da Memi. – Sei de um lugar aqui... É escuro... Úmido... E tem um monstro... Você sabe o nome desse monstro?
Ela tapava os ouvidos inutilmente. Cada palavra entrava em sua mente sem interferência. Balançou a cabeça negativamente e fechou os olhos.
- Você sabe. É o “Arranca Ossos”. Uma criatura terrível de metal com fogo na boca. E, olha que interessante, ele vive com a gente. No porão! – Se sentou ao seu lado e a abraçou. – Lembra quando o Faísca morreu? É claro que sim, você chorou uma semana por aquele coelho. Lembra que de noite a gente foi pegar um copo d’água e vimos papai sair do porão com um saco? No outro dia quando eu mexi lá o que foi que eu achei? Os ossos do Faísca!
- É mentira! – Ela a empurrou.
- Será? – A outra assentiu. – Então vou fazer uma viajem com a Lisa. Você não se importa, não é?
Joy se levantou correndo para o quarto que dividiam. Havia uma boneca de plástico, cabelos claros e cacheados em cima do beliche. Ela a pegou e desceu as escadas, sendo seguida por Memi que chorava.
- Daqui você não passa. – Joy olhou nos olhos dela, fazendo-a perceber onde estava. Bem na porta do porão.
Memi deu um passo para trás:
- Me devolve!
- Então admite: você perdeu!
- Você perdeu!
- Desculpe-me, mas eu sempre ganho.
- A Lisa não tem nada a ver com nosso problema.
- É verdade. Você vai deixar ela se machucar por que você não me deixa ganhar?
- Mas...
- Vai? Pensa bem rápido. Em alguém com fome... – ela girou um botão na parede. Uma figura, agora, estava à vista das irmãs. Labaredas laranja se acenderam entre o metal, numa forma assustadora.
Memi tentou pronunciar o nome do que via, entretanto a voz não passava de um sussurro.
- “Arranca Ossos”, bonecas são gostosas? – Joy perguntou na direção da luz. Após um momento se silêncio voltou a pronunciar – Não sabe? Que tal descobrir?
- Não!
A mais velha ameaçou jogar a boneca ao fogo. Memi pôde sentir todo seu medo desaparecer. Inclinou o corpo para frente e obteve impulso para passar a barreira imaginária criada pela mesma há alguns anos. Foi na direção de sua irmã em velocidade alta, não podendo parar até que as duas já estivessem caídas. A menina de sete anos segurou com força nos cabelos castanhos da irmã para impedi-la de levantar.
Joy estava assustada. Sempre fez esse tipo de brincadeira e nunca viu uma reação assim. Geralmente ela chorava, gritava, pedia desculpas e então voltavam a brincar como se não tivesse acontecido nada.
- Memi! Sai! Está me machucando! – Tentava a tirar de cima de si. O efeito foi o contrário. Quando era empurrada a pequena puxava com mais força. – Memi!
Para sair daquela situação, Joy rolou e ficou em cima dela. Resolveu bater a cabeça da outra contra o piso. O rosto de Memi antes impossível de ser visto, pela posição das duas, agora estava sendo iluminado pela luz que vinha do fogo. Um sorriso no canto dos lábios. Ela ficou aterrorizada. Foi a única coisa que ela viu antes levar uma joelhada na barriga e ser jogada para trás.
A luta delas era silenciosa, nenhuma gritava apesar da dor. A maioria das vezes que brigavam, resolviam ali mesmo, os pais não interviam, eles nem mesmo sabiam. E seguia assim até que acabaram perto dos canos. Um deles passava na horizontal na altura do peito de Joy e ficou entre elas. Ao tentar acertar um soco em Memi seu braço passou por cima dele. Memi segurou o pulso da irmã e a puxou. Joy voltou a chegar para trás.
Uma ideia apareceu na mente da menor.
O cotovelo de Joy estava exatamente sobre o cano de ferro.
Logo, a articulação.
Memi simplesmente se agarrou no braço dela, tirou as pernas do chão e deixou que a gravidade fizesse o resto.
O cano se rompeu.
As pontas do ferro grosso fizeram com que a carne da menina ficasse agarrada nele, mas seu braço fora puxado para longe. Ela caiu ajoelhada sobre alguns pedaços de vidro que não puderam ser sentidos antes. Memi também tinha parte da coxa machucada por esses cacos. A menina tentava mexer o antebraço, mas estava deslocado e numa posição horrenda. O sangue de Joy jorrava em seu próprio rosto e roupas. Em alguns pontos era possível se ver o osso.
A causadora do acidente não se pronunciou. Apenas levantou e pegou a boneca que havia sido jogada longe. Uma deformidade que se assemelhava a uma cicatriz agora estava marcando o olho direito de Lisa. Memi se virou para Joy com raiva e ameaçou se aproximar.
- Papaaaaaaaaai! – O silêncio da casa fora quebrado pelo grito de medo e dor de Joy.
Não demorou muito para que o homem aparecesse e fosse socorrer a filha.
- O que aconteceu? – Ele tirou a camisa branca para estancar o sangue da mais velha. Logo estava tingida de vermelho.
Vendo que Joy não estava em condições de responder se virou para Memi.
- A gente estava brincando e ela escorregou. Ela tentou segurar o cano, mas calculou mal e acabou batendo com o cotovelo nele. – A voz de Memi estava sem emoção assim como seu rosto.
- Está bem, meu amor, vai lá ficar com sua mãe. Eu vou levar sua irmã — O pai pegou Joy nos braços – para o hospital.
Ele se retirou levando a menina que chorava.
Memi subiu vagarosamente as escadas de volta ao corredor. Uma trilha de sangue seguia em baixo de seus pés e outra lhe descia pela perna. No meio do caminho ela tirou um dos pedaços de vidro que estavam agarrados à sua coxa.
- Mamãe... – Falou ao chegar à cozinha.
- Minha filha! – A mãe estava chorando desesperadamente. – Você estava com a Jolie, não é? Vocês estavam brincando. – Ela se ajoelhou e lhe deu um abraço que não foi retribuído. – Não se preocupe com sua irmã, ela vai ficar bem. A Joy vai ficar bem. – Parecia que ela repetia mais para si do que para a pequena.
- Mamãe... Onde a minha irmã foi?
- Meu anjo, ela foi para o hospital. – A mãe tentava manter a calma que não tinha.
- Fazer o que?
- Ela vai tomar alguns remédios e depois vai voltar. É rapidinho.
- A Joy está doente?
- Não, meu amor, foi cuidar do machucado.
- Que machucado, mamãe?
- Como assim “que machucado”? O do braço.
- Como que ela se machucou?
- Memi... — A mulher se afastou para poder olhá-la melhor. – Está falando sério? Não quero brincar agora, entendeu? Não está na hora! – Ela sacudiu a filha.
- Mas eu não sei!
- Para, Memi! Não tem graça!
- Mamãe... Minha perna dói. – Foi então que percebeu o estado da garota. Ela estava pálida, olhos distantes, confusa.
- A perna? – ela passou o olhar no chão e percebeu que uma poça vermelha se formava em volta delas. – Aimeudeus. Vem cá.
Cuidadosamente a mulher a virou e levou até o banheiro. Ignorou todas as reclamações de dor ao retirar os cacos de vidro da menina e a colocar embaixo do chuveiro. A água quente fazia com que os azulejos da parede ficassem embaçados. Normalmente a pequena estaria fazendo desenhos em cada um deles, mas, naquele dia, ela não prestava atenção em nada que não fosse a água escorrendo pelo ralo.
Na mão da mãe, algumas bolhas de sabão ficavam estourando à medida que massageava o local ferido.
- Mamãe... O que tem no porão? – A garota não se virou para olhá-la
- Coisas perigosas. Não quero vocês lá. –falou rapidamente
- Mas o que exatamente?
- As janelas antigas, canos, pregos salientes, pontas afiadas, fogo...
- Fogo? De onde?
- Do aquecedor... Falando nisso... Está quente aqui dentro, não?
- Aquecedor? Ele acende com um botão na parede?
- Mais ou menos. Ele aumenta os graus de dentro da casa. A chama não apaga, só fica fraca ou mais forte. Vocês mexeram lá, não é?
- Eu não entro lá. Joy disse que tem monstro... – Os olhos cinza pararam nas roupas jogadas no chão. – Foi um monstro que machucou a Joy?
- Não tem monstro nenhum, Memi. Sua irmã estava brincando.
- Brincando no porão ou brincando que tinha um monstro lá embaixo?
- Os dois. – Fechou o registro. – Mas não vamos falar sobre isso. Se enxugue, vista um pijama e venha para o meu quarto botar um remédio nesse machucado.
- Mamãe... – a garotinha fez uma pausa longa, examinando a situação – Joy é uma tremenda mentirosa.
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— “Sis” vem de “Sister” que é “irmã”
Notas finais
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Fazer isso não vai fazer sua mão cair.
Talvez o próximo capítulo demore em pouco, depende.
Até a próxima.
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