Mercenários
28 Capítulo 28
Notas iniciais
Boa leitura.
Mercenários
by Amanur
28
...
— Você não fazia idéia do que eu passava. — resmunguei.
Por um instante, achei que Sakura parecia ter voltado à sua consciência, embora ainda se negasse a falar comigo. Ela chorava em silêncio e ainda se balançava para frente e para trás, mas às vezes me olhava com aquela expressão de lamento, como se quisesse me pedir perdão. No entanto, nós dois sabíamos que qualquer desculpa seria inútil e em vão. Nada traria nossa saúde de volta, nada reconstruiria nosso passado de volta e nada melhoraria nosso futuro. Nós estávamos fadados e presos aos nossos erros do passado para sempre, e tudo o que nos restava era viver dele, porque o que aconteceu, não volta mais.
“Eu me lembro daquele dia como se tivesse sido ontem. Desde a morte da Hinata, você não falou mais comigo. Quando precisava algo de mim, sempre pedia a Jiraya para falar comigo porque sequer conseguia me olhar. Sua raiva e nojo por mim criascia a proporções catastróficas, e não havia nada que eu pudesse fazer para impedir isso, dado as circunstâncias em que vivíamos.
E aquele foi... O dia em que o inferno subiu a terra.
Neji ainda estava atordoado com tudo, e apareceu na nossa porta podre de bêbado, carregado por Juugo e Sasuke. Ele falava alto, fedia à álcool, e queria ir à festa do Itachi a todo custo, mesmo eu lhe dizendo que não deveria sair de casa, principalmente estando naquele estado.
— Mas é claro que eu vou! Estou louco para dar um abraço de urso naquele cara e aproveitar o momento para quebrar o maldito pescoço dele. — ele grunhiu entre os dentes.
Sasuke ouvia a tudo passivamente, mas morrendo de prazer por dentro, pensando que éramos todos merecedores das teias venenosas do Itachi.
Enfim, consegui fazer com que Jiraya entregasse um copo de água para o cabeludo, com um tranqüilizante no líquido. Ele se acalmou em seguida e dormiu.
E então, todos os olhos se desviaram para você, quando apareceu deslumbrante daquele jeito na sala de estar, onde todos a aguardava. Você demorou, principalmente por causa do seu cabelo que custou a ficar devidamente preso naquele coque elaborado que você conseguiu arrumar com a ajuda de uma de nossas empregadas, mas valeu à pena esperar por aquilo, embora você possa não acreditar.
Lembro de você ter chamado o nosso alfaiate, alguns dias antes, para tirar suas medidas. Você havia mandando confeccionar aquele vestido especialmente para aquela ocasião. Era de um tecido leve e fino, parecido com seda, num tom de cinza levemente azulado. A saia batia acima do seu joelho, com uma fita vermelha no quadril, e tinha... Aquela fenda enorme no meio do seu corpo, que a deixava praticamente nua!
Claro que você fez aquilo de propósito, e eu logo soube disso. Eu deveria ter adivinhado que você estava armando algo para mim, depois de todo aquele silencio da sua parte. Por que você sabia o quanto eu detestava aquelas suas idéias revolucionárias sobre o modo de vida das mulheres. Eu só não sei bem ainda se você apenas queria implicar comigo, ou se aquilo tudo era remorso seu por não ter feito a sua parte no “clube das desocupadas” quando pôde, e, de alguma forma, você ainda tentava se redimir pelo que não fez. Só sei que eu fiquei furioso por você estar mostrando tanta pele para os outros.
Chame como quiser: ciúme ou implicância, mas aquilo era inadmissível para nossa época, e eu sei que você sabia.
— MAS VOCÊ ENLOUQUECEU, MULHER? DÊ A MEIA VOLTA AGORA, E CUBRA ESSE CORPO! O QUE VÃO PENSAR DE MIM, SE A VIREM DESSE JEITO?
— É simples! Que você se casou com uma prostituta. É isso o que pensarão de você. — você respondeu, tranquilamente — Mas como o homem inteligente que eu sei que você é, e que sabe da verdade por baixo de um simples e insignificante tecido, não se importará com a opinião inoportuna e não solicitada alheia.
Me mordi de raiva e avancei para cima de você, agarrando o seu braço à força. Fui lhe arrastando até o corredor com Sasuke, Jiraya e Juugo atrás. E então, a empurrei para as escadas, lhe deixando cair de quadro sobre os degraus.
— Troque de roupa agora. — resmunguei entre os dentes.
Você se levantou lentamente, como quem não se importava com nada daquilo, e se pôs na minha frente, a centímetros do meu rosto, com aquele olhar gelado. Você ainda endireitou a coluna, empinou o nariz, e ergueu a sobrancelha.
— Ou o quê? Você vai me bater aqui, na frente dos seus empregados? Vai me humilhar, me espancar até quebrar meu nariz novamente?
Odiei com todas as minhas forças aquelas palavras jogadas na minha cara. Em parte por que eu sabia que era exatamente o que eu faria, e detestava o fato de você estar certa, mas também porque tudo isso me fazia me sentir ainda mais repugnante, próximo de um lixo.
E ainda assim, dei aquele tapa na sua cara, que poderia ter quebrado o seu pescoço. E então, me arrependi instantaneamente, quando você me olhou de volta com os olhos marejados, e eu não sabia se era por tristeza ou ódio a mim.
Sasuke havia dado um passo adiante para fazer alguma coisa comigo, embora nem ele mesmo soubesse o que faria, e, no entanto, Juugo pôs uma mão na frente dele. Sasuke ficou surpreso com a reação do grandalhão, mas Juugo sequer olhara para o lado. O ruivo nos encarava apenas, com a sobrancelha franzida, e Sasuke ficou na dúvida sobre o que o gesto do outro queria dizer.
Todos ficaram em silêncio por alguns instantes.
E você, sem dizer mais nada, empinou o nariz novamente e passou por mim demonstrando que estava disposta a ir contra as minhas ordens. Eu também não gostei disso, mas a mão que bateu em seu rosto tremia, me dizendo que passei dos limites mais uma vez. Então, desta vez, resolvi engolir o orgulho ferido. Sasuke foi logo atrás de você, a passou a mão em suas costas nuas (aquele vestido, para o meu desgosto, tinha decote na frente e atrás), e sussurrou perto do seu rosto.
— A senhora está linda.
Você sorriu de canto, enquanto se encaminhava até o carro. Todos me deixaram sozinho no corredor, seguindo você até a rua. Chutei uma mesinha que servia de apoio para um vaso chinês caro, de porcelana, e segui meu caminho.
Jiraya ficou encarregado de manter os olhos em Neji, enquanto passei o volante para o Juugo. Sasuke foi sentado no banco do acompanhante, e eu fui atrás com você.
à medida em que o carro ia se aproximando do local, Sasuke ia suando mais frio. Ele foi reconhecendo aquelas ruas, e soltou um longo e pesado suspiro quando o carro parou em frente ao casarão em que viveu com seu pai adotivo.
O casarão estava lotado. Sasuke estava nervoso. Haviam lhe dito apenas que iríamos a uma festa na casa do “todo poderoso chefão”, e claro que ele logo associou ao irmão, mas não tinha idéia de que Itachi ainda poderia estar ocupando aquele lugar. Alguns anos antes, pouco depois de sua “morte”, ele ainda tinha visitado aquele lugar, mas parecia abandonado. Ele estava realmente surpreso com aquilo.
Mas ao mesmo tempo, ele estava bem preparado para aquela noite. Ele tinha armas escondidas dentro do paletó, nos bolsos da calça, e facas em ambas as meias. Obviamente, ele tinha apenas um único objetivo naquela festa. E ainda assim, ele ficou o tempo inteiro atrás de nós, com a cabeça meio baixa, com os cabelos caídos pelo rosto, tentando ser discreto. Mas meus olhos estavam muito bem atentos aos que passavam por nós.
Mas assim que entramos no salão principal, eu me separei de você, por que sua presença me contaminava naquele dia. Não consegui suportar os olhares que todos lançavam a você. E tinha aqueles cochichos, aqueles sussurros...
Havia uma pequena banda tocando aos fundos uma musica animada. Sasuke estava tenso, e não percebeu quando você se aproximou dele.
— Eu realmente gostaria de poder dançar e me divertir uma vez na vida. — você disse, insinuantemente.
— Não sei se é uma boa idéia. — respondeu, olhando em volta.
— Só uma música. Ou... Você está com vergonha de mim também? — ao contrário do que você faria se estivesse falando comigo, sua pergunta não soou como uma ameaça furiosa. Você demonstrou a ele sua insegurança e medo, como nunca fez comigo, na verdade, e ele percebeu seu constrangimento.
— É claro que não! A senhora... Está linda, de tirar o fôlego, com todo o respeito.
Você sorriu para ele, e Sasuke olhou desconfiado para os lados, vendo que Juugo os observava. Mas o grandalhão logo desviou o olhar e deu as costas, como se dissesse que ele tinha passe livre para fazer o que quisesse. Como mais ninguém os observava, ainda hesitante, ele a levou para o meio do salão. E, então, o idiota ficou parado na sua frente, sem saber o que fazer.
— Eu não sei dançar. — anunciou.
— É fácil. Basta mover os pés para cá, e depois para cá. Como os outros fazem.
— Hum. Ok.
Meio sem graça, preocupado com os outros olhares, ele se aproximou de você. Delicada e suavemente, pousou a mão em suas costas, e tentou conduzí-la pelo salão. Você continha o sorriso para ele o tempo inteiro, notando que ele estava nervoso, enquanto ele tentava manter o foco nos pés, cuidando para não pisar em você. Mas de vez em quando ele a olhava também, e se forçava a sorrir de leve. E você achou que ele estava se saindo “melhor do que a encomenda” no meio da pista, embora algo nele estava a deixando levemente apreensiva.
— Obrigada... — você disse.
— Não há de quê! Eu que deveria pedir desculpas por não ter arrancado a cabeça do Naruto. Ele há de ser o homem mais covarde do planeta... Sempre batendo nos inferiores... — você percebeu que ele estava se referindo a si mesmo, no tom agressivo como disse aquilo.
— Vamos encerrar esse assunto, ok? Não quero pensar nele. Ou em qualquer coisa que faça parte da minha vida. Eu só quero... Estar aqui com você.
Nesse exato momento, Sasuke viu do outro lado do salão Shikamaru e Gaara conversando com um cabeludo que ele sabia não ser o Neji. O homem estava de costas para ele, mas os outros dois alternavam os olhos entre aquele homem e ele próprio. Logo, Sasuke sentiu que estavam falando dele.
— Eu já disse que você está muito linda, esta noite? — ele indagou, passando a mão no seu cabelo. Discretamente, ele pôs uma mecha que estava caindo sobre o seu rosto, e o prendeu atrás de sua orelha. Você sentiu um leve puxão de cabelo e ele pediu desculpas, dizendo que não se conteve em enrolar os dedos em seus maravilhosos fios sedosos, e você sorriu como uma tola com aquele falso elogio. — Estou com sede. — ele ainda disse para você — Gostaria de beber algo? — e, discretamente, entregou em suas mãos um pedaço de papel dobrado.
— Oh, ok. Aceito um ponche...
É verdade que Sasuke se sentiu mal por mentir para você, apesar de tudo. Qualquer um poderia ver seu lamento em sua expressão, e acredito que até mesmo você percebeu que havia algo estranho com ele naquela noite. Ele parecia mais nervoso, tenso, preocupado. Seu corpo estava ali, mas sua mente vagava em algum lugar obscuro que você não conhecia, mas desejava visitar. Sasuke já havia contado mentiras demais, mas também era fato de que elas eram o único meio de não envolvê-la em seus assuntos sujos. Às vezes, a mentira é a única aliada da salvação. Portanto, ele preferiu aumentar aquela gigantesca bola de mentiras só para não estragar ainda mais a sua noite — e ele sabia que não estava sendo o melhor acompanhante que você merecia ter.
Você notou como ele ficou mais sério, ao dar as costas, e olhou em volta para certificar de que estava tudo bem. Ao ver que, aparentemente, todos se divertiam distraidamente, você se afastou do salão para sentar em uma mesa vazia e aguardá-lo. Enquanto isso, você ficou segurando aquele papel em suas mãos, louca para ler o conteúdo, mas precisava manter os olhos atentos a quem se aproximava para não desconfiarem de nada e, por isso, achou melhor guardá-lo dentro do vestido. E ficou ali, aguardando o retorno de Sasuke, que não veio com seu ponche.
Você ficou ali plantada durante um bom tempo olhando as pessoas andar para lá e para cá, todos sorridentes, até que, de repente, uma mecha enorme caiu sobre seu rosto. Estranhando, você tateou a cabeça procurando pela presilha que deveria estar segurando aqueles fios, mas ela não estava lá. Você até contou quantas tinham em sua cabeça, lembrando-se bem de que a empregada havia comentado como estava surpresa por terem prendido tanto cabelo com apenas cinco presilhas. Mas havia apenas quatro em sua cabeça.
Só então você começou a suspeitar do Sasuke, lembrando daquele puxão que havia sentido a pouco tempo atrás, que veio junto com aquele elogio.
Mas Sasuke foi, de fato, até a mesa onde todos se serviam da bebida, embora fosse apenas como um pretexto para desviar a atenção dos homens. Enquanto ele servia duas taças, ele olhava em volta do salão, contando quantas saídas havia ali. Ao total encontrou quatro, bem como se lembrava de ser. E resolveu dar uma volta pelo casarão para relembrar algumas coisas — mas não sem antes se misturar entre a multidão e despistar os que estavam de olho nele. A primeira saída que utilizou dava para o pátio. Havia uma enorme piscina, cheia de árvores em volta, e mais um campo bem cuidado com bancos de madeiras, um balanço, e uma churrasqueira mais ao fundo. As lembranças do seu pai fazendo farra com homens da “alta sociedade” lhe inundou a mente. Sasuke odiava como aquele homem sempre trazia pessoas estranha, e como ele as tratava bem, enquanto mal lhes dava atenção (e menos ainda explicações). Eles eram todos bem conservadores, e nunca falavam sobre o trabalho na presença deles, mas agora Sasuke entendia o motivo...
A segunda saída dava para um corredor enorme até a garagem, onde Itachi mantinha agora quatro carros. Antigamente, havia duas belas carruagens, que deveriam estar apodrecendo em algum aterro agora.
Na terceira saída, ele subiu as escadas que davam acesso ao outro andar de cima do casarão. Ele andou pelos corredores, como quem não quer nada. Já havia largado as taças com a bebida na bandeja de um garçom que andava pelo salão, e buscava qualquer coisa que lhe fosse favorável.
Caminhando mais pelo interior, ele relembrou que os dormitórios ficavam no terceiro andar. No segundo havia uma pequena, mas bastante razoável biblioteca, além de uma sala de jogos e um escritório particular cuja porta estava devidamente trancada.
Tirando da manga do paletó a sua presilha, com um manejo bem dado, ele conseguiu destrancá-la (essa façanha era realmente possível graças à mecânica tosca das fechaduras daquela época). Ao ouvir o click, ele olhou para os lados mais uma vez para certificar-se de que não havia ninguém por perto, guardou de volta a sua presilha para mantê-la como lembrança e entrou no cômodo.
O escritório era enorme. Havia mais estantes com livros, e uma mesa de vidro no centro chamava toda a atenção com sua poltrona forrada. Sasuke nunca tinha pisado ali, na verdade. Seu pai adotivo jamais permitiu o acesso aquele lugar. Somente ele e outros homens estranhos poderiam entrar, e ele sempre se perguntou sobre os segredos que aquele homem guardava atrás daquela porta...
Enfim, ele se apressou em vasculhar tudo o que pôde, tendo a consciência de que não tinha muito tempo. Logo, perceberiam sua falta, e o procurariam por dentro da casa.
Mas quem realmente o procurava, naquele instante, era você. Desconfiada, depois de andar por todo o salão atrás dele, você entrou no casarão, como se já fosse alguém de casa. Afinal, você conhecia bem aquele lugar, graças ao seu pai, que tinha contato com Itachi, e, que antes dele, mantinha negócios com o pai deles.
Um garçom passou por você com uma garrava e várias taças vazias na bandeja para servir os convidados, mas ao invés de pegar uma delas, você roubou a garrafa, piscando o olho num tom meio sedutor e cumplice para o rapaz, que sorriu idiotamente para você. Apesar de suas desconfianças, você não queria arruinar aquela noite que tinha tudo (pelo menos, era o que você pensava) para ser maravilhosa — longe de mim, e ao lado dele. Então, enquanto desfilava pelos corredores, você bebia longos goles da bebida, sorrindo para todos, mas sem deixar de prestar atenção a todos os rostos que passavam por ti. E assim que conseguiu se ver sozinha no primeiro toalete que encontrou, você trancou a porta, sentou sobre a tapa do sanitário fechado, e tirou aquele papel de dentro do seu decote. Suas mãos já coçavam em tanta curiosidade, misturada com ansiedade, dentro daquele nervosismo crescente.
Você se assustou ao perceber que aquela era, na verdade, uma carta diferente das demais. Ela parecia mais pessoal, mais realista (de alguma forma), junto com aquela saudação que deu início a tudo, e isso lhe assustou.
“Estimada, Sra. Haruno.
Jamais subestimei vossa inteligência e capacidade de percepção, e por isso mesmo lhe deixo a única coisa que possuo de mais valioso em minha vida.
Minha história.
O início de seu fim.
Espero que algum dia possa perdoar meus atos.
Espero que algum dia consigas compreender minhas intenções.
Espero algum dia nos encontrarmos novamente. E quando esse dia chegar, espero que possa apertar o gatilho como prometera fazer, por que ninguém mais nesse mundo merece morrer por suas mãos, além de mim, aquele que traiu sua confiança... E eu imploro à senhora que o faça. Por que o monstro que vive em mim, não se calará sozinho.
O céu estava claro, sem nuvens, e mesmo assim chovia uma tempestade sobre a cabeça do soldadinho, agora sem coração. Ele havia voltado ao deserto, sem saber bem como, e andava sem rumo, sem direção. Aquela tormenta, talvez, simbolizasse a confusão que sentia em sua cabeça cheia de pensamentos contraditórios. Havia se passado muito tempo desde que fizera aquela troca, mas de repente, aquilo não fazia mais sentido. Nada mais fazia, na verdade. Ele se sentia estranho o tempo todo. Sem raiva, sem tristeza, sem solidão... ele não sentia mais nada. Nem mesmo alegria por estar com a sua perna recuperada. Tudo o que ele sabia era sobre aquela missão que precisava cumprir: recuperar a grande joia escarlate, perdida num troca injusta. Aquela joia pertencia a ele mesmo, e nunca deveria ter saído do seu lugar, por que era ela quem lhe dava tudo o que precisava ter. Infelizmente, ele percebeu isso tarde demais, e agora nem sabia ao certo quem havia lhe tomado aquela pedra. Tudo o que sabia, é que no local ocupado por ela, agora jazia apenas um profundo buraco vazio. Mas era dolorido e, com o tempo, parecia aumentar de tamanho, como uma chaga, como um câncer. Aquele buraco, aos poucos foi consumindo aquele soldadinho.
Sem saber quanto tempo se passou, mas já bastante exausto, no meio de sua jornada, ele encontrou um outro soldadinho no meio do caminho. Ao longe, ele lhe parecia familiar, mas não conseguia recordar de onde o conhecia. E quanto mais se aproximavam um do outro, mais eles se encaravam.
— Você foi amaldiçoado a perder algo em troca do que ganhar e, enquanto viver, sempre lhe faltará alguma coisa. — o outro soldado lhe disse, assim que cruzaram caminhos.
O soldado sem coração ficou observando outro se afastar. Ele viu que aquele outro soldado tinha suas duas pernas, parecia ter seu coração, e nada lhe faltava.
Desamparado, caiu de joelhos sobre aquela areia quente do deserto, com as lágrimas nos olhos. Mas ele não sentia tristeza, remorso, rancor... Não sentia absolutamente nada. E, no entanto, as lágrimas caiam sem parar do seu rosto sem expressão.
Ele compreendeu que o outro quis dizer que sua vida não tinha valor algum, por que não tinha propósito algum. Afinal, de que um soldado sem perna, ou sem coração, valeria?
Ele ficou hora ali, de joelhos, olhando para o nada. Até, que, de repente, decidiu fazer a única coisa que lhe restava. Ele decidiu que cumpriria aquela missão, e que ela seria a ultima de sua vida. Assim que recuperasse a joia, ele a destruiria, para nunca mais ter pelo que trocar e, assim, quebrar aquele ciclo vicioso sem fim, cheio de trocas injustas.
Nem que, com isso, ele tenha que dar um adeus definitivo à bailarina perdida em seus sonhos. Por que, aquele soldadinho de brinquedo, que deveria ter proporcionado muitos sonhos a uma criança, não preencheu seu propósito, nem nunca preencheria.
Por isso, ele tinha que fazer isso, não importa o que for.”
Você terminou de ler aquele relato com um gosto amargo na boca. Você não sabia exatamente o que ele significava, mas sentia que não deveria ser algo bom, pela sutil nota suicida. Então, imediatamente, você saiu correndo daquele banheiro, vasculhando todos os cantos daquele casarão. Mas você já estava bastante alcoolizada, e sua coordenação motora não era das melhores. Você tropeçava em tudo, e não conseguia se manter equilibrada por muito tempo. A necessidade de beber mais para calar aqueles pensamentos aturdidos martelava em sua cabeça, no entanto, você lutava contra aquela urgência. Pois a coisa que você tinha mais consciente em sua cabeça era a ideia de que precisava encontrar aquele soldado solitário, antes que fosse tarde demais.”
Notas finais
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