Mercenários
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Mercenários
by Amanur
26
...
“Na medida em que os dias se passavam, a boneca de porcelana ia se afundando cada vez mais na tristeza. Afundava tanto naquele poço de lágrimas, que começou a se afogar e sua melancolia transbordava a bela gaiola que começava a enferrujar. Ela foi esquecida ali dentro, suspensa no teto, ouvindo o som da solidão lhe entorpecer. Na medida em que as crianças iam crescendo, o quarto ia se modificando, e tudo a sua volta, quando se deu conta, não era mais o mesmo. Os outros brinquedos que, de alguma forma, mesmo que sutil, lhe faziam companhia, lhe foram arrancados para algum deposito do esquecimento. E lá ficou, lá sobrou, sozinha, presa na gaiola que às vezes balançava com o vento que invadia o quarto pela janela.
Até que, num não tão belo dia, as duas crianças entraram no quarto trazendo uma caixa de papelão, envolta num belo papel de presentes e muito bem enlaçada com fita vermelha. Afobados, sem paciência e sem o menor cuidado, as crianças arrancaram tudo até revelar o conteúdo daquela caixa de papelão. A boneca pensou que seria mais um carrinho de madeira que o menino sempre ganhava, para adicionar à sua coleção sem sentido, ou mais algum vestido para a menina adicionar à sua própria coleção de exibição. Mas, para a surpresa da boneca, viu que, na verdade, se tratava de um boneco de porcelana. Meio desconcertada, sem saber o que pensar sobre aquilo, ela percebeu que o boneco, a princípio, era muito parecido consigo, e tinha tudo o que também tinha: cabelos sedosos e bem penteados; olhos grandes e coloridos; roupas finas, bem feitas e bem costuradas; sapatos de couro bem lustrados; e o rosto tão bem modelado que pareciam irmãos gêmeos. Era uma nova peça de exibição que ficaria largada como a boneca. A única diferença é que o boneco não ficaria numa gaiola. Ele ganhou privilégios; ficaria na cama do menino, sobre os travesseiros macios e confortáveis, e só por que era mais novo e ainda guardava o cheiro da fábrica.
De repente, o pânico lhe veio, e ela pensou que também seria jogada no deposito do esquecimento para ser substituída por aquele boneco — que apesar de serem muito parecidos, ele era novo em folha, e não guardava consigo nenhum pó sobre a cabeça.
Mas ao ver as crianças, agora adolescentes, se afastarem sem sequer dirigir o olhar para ela, a boneca se acalmou. E até se alegrou com o novo morador daquele quarto. Ela ficou muito contente por poder ter com quem passar suas noites frias e solitárias naquela gaiola, na verdade.
E, assim, a primeira noite foi como ela havia imaginado. Enquanto os adolescentes dormiam, eles, entre sussurros jogados ao vento, tiveram uma animada conversa sobre suas origens. E enquanto ele falava, a boneca percebia o quão encantador era o boneco, sem muito requinte nas palavras, mas muito atencioso e polido em suas maneiras. Logo de cara, ela se encantou com os brilhantes olhos azuis do boneco, que sempre lhe sorria e fazia piadinhas sobre as crianças, lhe fazendo sorrir. Aquela tinha sido uma noite mágica e inesquecível para a boneca solitária. Por que, pela primeira vez, ela pode descrever com as próprias palavras o que era amar alguém.”
“Sasuke leu aquela carta repetidas e incontáveis vezes, sem acreditar no que aquelas palavras estavam querendo significar. Apesar de o papel não ser o mesmo do tão conhecido livro, a caligrafia era inconfundivelmente sua. De repente, a frustração e tristeza surgiram para lhe abater, e não conseguiu dormir bem pensando naquela história.
Você deixou o muquifo do Sasuke no final da tarde, quando o sol já estava se pondo e as ruas escureciam. Mas antes, você pegou emprestado um casaco dele para se disfarçar, e ao invés de ir direto para casa, você foi ver o seu amigo gay.
Sai estava preocupado, roendo as unhas, colado em seu radio velho, atento às noticias. Ele ouviu os nossos nomes na lista de envolvidos no incidente, e não sabia mais o que fazer. Ele chegou a pensar em ir até nossa casa, mas sabia que seria escorraçado na esquina se mostrasse sua cara na minha casa. Você nunca soube disso, e por algum motivo ele nunca lhe contou, mas na noite anterior ao nosso casamento eu o ameacei de morte se o visse novamente. Eu o odiava por exercer tão forte influencia sobre a minha mulher. Talvez você pudesse dizer que eram ciúmes ou inveja, mas eu não o queria perto de você e ponto final, e me afirmava nesse raciocínio por ter o apoio do seu pai nessa idéia. Mas, no final das contas, acho que só ele sabia o quanto você foi apaixonada por mim, a ponto de levar para o tumulo aquele segredo em respeito aos seus sentimentos...
Mas voltando ao caso, naturalmente, Sai se surpreendeu quando te viu na porta do seu apartamento.
— Criatura divina, o que você está fazendo aqui? Não sabe que a polícia está te procurando? A cidade inteira está te procurando!
— Só preciso de uns minutos para alertá-lo sobre algo. — você disse, entrando naquele antro colorido.
Rapidamente, ele fechou a porta, mas não sem antes se certificar de que não havia ninguém por perto os vigiando. Em seguida, ele lhe serviu mais um daqueles chás horríveis, sem gosto, mas que você tomou assim mesmo.
— Agora, desabafa tudo! O que aconteceu? — ele perguntou, sentando ao seu lado.
— Eu não sei ao certo. — você disse, pegando o maço de cigarros baratos da mesa de centro dele. — As coisas ainda estão meio confusas, mas desconfio que o problema seja ainda maior do que me disseram. Sasuke me resgatou do seqüestro, e me explicou algumas coisas que o Naruto anda aprontando. Escute bem o que vou te dizer agora, Sai. Eu quero que você entregue isso à polícia, caso eu desapareça novamente. — você tirou do bolso do casaco do Sasuke uma folha de papel dobrada. — Mas antes, faça uma cópia e entregue à Temari. Ela precisa ler isso. E assim que fizer isso, quero que você desapareça. Vou lhe entregar uma boa quantia para isso, até o fim de semana. Esteja preparado.
Ele engoliu a seco, mas concordou, vendo que a situação era ainda mais grave do que imaginava.
— E você, o que fará?
— Vou voltar para casa.
— Você está louca?
— E vou ficar ainda mais... — você disse, sem saber o poder que aquelas palavras teriam sobre si.
Dalí, você foi a passos apressados soltando fumaça pelo caminho até nossa casa, e apesar de sempre olhar para o chão, você prestava atenção em quem caminhava ao seu redor. E antes de apertar a campainha, você tratou de jogar no lixo do vizinho o casaco do Sasuke.
Jiraya a atendeu, obviamente surpreso, mas você pediu para não anunciá-la, pois você mesma faria a surpresa. Como eu não estava no escritório, nem bebendo na sala de estar, você subiu as escadas até nosso quarto.
Naquele instante, eu me afogava na banheira, de olhos abertos e as mãos pendendo para fora da água quando vi sua silhueta do lado de fora me observando. Quando emergi, tomando uma grande quantia de ar de volta para meus pulmões, você cruzou os braços com aquela sua expressão irritante de nariz empinado porque aquela cena pareceu algo completamente diferente para você.
— Então eu sou seqüestrada, e você volta para casa para relaxar na banheira?!
Sem dizer nada, estreitando os olhos, apenas olhei para você, dos pés a cabeça. Você parecia perfeitamente bem e inteira. As pessoas, inclusive, seriam incapazes de deduzir que você havia acabado de fugir de seu raptor. Parecia que tinha apenas saído para dar uma volta, e, como sempre, fiquei bastante intrigado com essa sua capacidade de esconder o que sente. Aquilo só poderia ser um dom!
Levantei da banheira, e peguei a toalha pendurada no suporte atrás da porta. A enrolei na cintura e fui até o quarto. Peguei uma carteira de cigarros na gaveta do criado mudo e o acendi, enquanto você escorava na porta, ainda me observando, esperando por uma resposta. Tranquilamente, dei a primeira tragada sem dirigir meu olhar a você. Só depois da terceira foi que a olhei novamente.
— E o que você está esperando? — indaguei.
— Do que está falando?
— Da explicação, Sakura. Estou esperando que você me dê uma maldita explicação!
Você sorriu de canto, e se aproximou de mim, vindo com aqueles passos de gato desfilando no muro, sinuosamente. Ainda com aquele sorriso torto, cheio de malicia, completamente teatral, você se curvou sobre os apoios de braço da poltrona em que eu estava, e ficou a poucos centímetros do meu rosto. Nunca tive tanta certeza de que estávamos nos vendo pela primeira vez, olhos nos olhos, quase de igual para igual. Eu me via refletido em seus orbes verdes, ao mesmo tempo em que via seus lábios sedutores me dizerem aquilo, lentamente, como se pudesse degustar aquelas palavras.
— Eu. Matei. O. Homem. Que. Me. Levou. — você disse pausadamente cada palavra. E ainda manteve o sorriso torto, meio sádico, enquanto eu ainda respirava o seu hálito. Você merecia o melhor prêmio da época pela atuação, por que aquele seu olhar frio me convenceu de que estava falando a verdade.
Mas só por alguns instantes.
Logo comecei a rir tão alto e histericamente que você teve que se afastar, mudando de expressão. E, então, comecei a bater palmas para você que me olhava com desprezo estampado no rosto. Mas logo, minhas risadas se transformaram em tosses. E não eram tosses quaisquer; elas doíam no peito e pareciam carregadas de secreção. Meio desconfiada, você se afastou, e voltou logo depois com um copo de água para me dar.
Depois que me restabeleci, fiquei olhando para o espaço vago a minha frente, sem nada em particular na cabeça. Fiquei apenas observando aquele vazio.
Não trocamos mais palavras àquela noite. Acho que foi a noite mais estranha da minha vida.
Na manhã seguinte, enquanto tomávamos o café da manhã, silenciosamente, recebemos aquele convite do Itachi para comemorar o fechamento do ano. Era, supostamente, uma celebração para mais um ano bem sucedido de sua liderança nos negócios que foram do seu pai, mas na verdade era apenas uma falsa fachada para acobertar os últimos acontecimentos envolvendo seus homens.
Enquanto eu lia o convite, você ligou nosso aparelho de som para ouvir as notícias, e voltou para sua cadeira. Depois de alguns anúncios de pouca importância, para nossa surpresa, o interlocutor começou a falar sobre suas amigas.
“—... Quatorze, das vinte e três moças do grupo feminista que lutava por seus direitos, foram dadas como desaparecidas na noite passada, segundo uma denuncia feita anonimamente para a polícia. Até então, não se sabe informações exata sobre o momento do desaparecimento, nem quem as teria levado.”
Eu vi que você deixou sua xícara no ar, olhando para o nada. Continuei calado, observando-a, até que você arrastou seus olhos aos meus. Você ia me dizer algo, até chegou a abrir a boca, mas foi interrompida pelo cara da rádio que continuou seu trabalho.
“—... E agora voltando ao assunto da chacina no cruzeiro 6583, foi encontrado morto mais um homem. De acordo com a polícia, Kiba Inuzuka tinha 27 anos, e estava no porão do navio. O homem estava com uma corda de arame em volta do pescoço, com profundas lacerações. Fora isso, não havia nenhum outro sinal de luta no local. Até o momento, essas são as únicas informações liberadas a seu respeito.”
— Morto? — indaguei tão confuso quanto atônito com a notícia, porque até então eu pensava que ele estava trabalhando para outra pessoa, ou que ele fosse o próprio comandante da traição. Aquela morte não fazia sentido.
Arredei a cadeira, e me levantei da mesa, resmungando que precisava fazer uma ligação. Você veio atrás, como uma sombra, sem dizer nada. Fui até o escritório e disquei os números do telefone do Itachi, sem perceber que você estava atrás da porta ouvindo. Eu fiquei tão atordoado com tudo isso, que achava que estava prestes a enlouquecer com tudo o que estava acontecendo.
— Já está sabendo sobre o Kiba? — ele se quer me deixou dizer algo, sem saber ao certo se era eu ou não na linha. Suspirei.
— Acabei de ouvir no rádio...
— Tens alguma teoria sobre o que isso significa?
— Achei que fosse algo pessoal, contra mim, mas a morte do Kiba não faz sentido. Mal nos falávamos. Não sei mais o que pensar a respeito...
— Entendo. De qualquer forma, quero que continue afastado de qualquer negociação. Pelo menos por enquanto. Mas compareça à festa. Creio que já recebestes o convite, certo?
— Sim. O senhor tem alguma idéia do que pode estar acontecendo?
— Na verdade, sim. E se tudo der certo, ele vai cair na minha armadilha... — e então, ele encerrou a ligação.
Eu fiquei olhando para aquele aparelho na minha mão, me perguntando de quem ele poderia estar falando, e que armadilha seria essa. Uma corrente elétrica passou correndo por minha espinha, me informando que mais coisas ruins estavam prestes a acontecer. Enquanto isso, você saiu de fininho de trás da porta, e foi até nosso quarto. E ficou lá a manhã inteira, olhando para as paredes floridas, se perguntando como poderia o Sasuke ter sabido sobre a morte do Kiba antes de ela ter sido anunciada...
Quando subi, uma hora depois, a encontrei sentada na beirada da cama, com a cabeça entre as mãos, meio encurvada. Você estava pensando sobre o noticiário que ouvira, e não percebeu quando entrei. Sentei atrás de você, e apoiei a cabeça em seu ombro curvado, cheirando seu cabelo. Obviamente você estranhou aquela minha aproximação, mas logo sentiu meu cheiro de álcool.
— Não acha que está cedo demais para se embriagar, Naruto?
Não lhe dei ouvidos, e comecei a beijar seu pescoço. Eu estava desesperado de carência, e sentia muito a sua falta. Eu precisava sentir novamente a sua pele, e esquecer todos os meus problemas, mesmo que por um breve instante. E você sabe o que dizem sobre o sexo... O melhor remédio para o estresse.
Agarrei seus seios, puxando-a para mim, e você começou a se debater.
— Naruto, me solta! Está muito enganado se acha mesmo que ainda tenho alguma vontade de ficar perto de você!
— Fique quieta! — murmurei, tragando ainda mais seu perfume, à força.
Como você apresentava resistência, a joguei deitada na cama, de bruços e me sentei em cima de você. Em seguida, levantei sua saia e arranquei sua calcinha. Rapidamente, me desfiz do cinto, abri a calça, e forcei meu membro dentro de sua bunda, enquanto a prendia pelo pescoço com uma mão.
Eu urrava enquanto socava dentro de você meu membro rígido e pulsante. Você estava tão quente, tão apertada, tão macia, que realmente consegui me livrar de todos aqueles pensamentos que me atormentavam. E você odiou com todas as forças estar ali, embaixo do meu corpo, sentindo o meu calor, sendo forçada àquilo. Apesar disso, no entanto, você relaxou percebendo que seria melhor não resistir mais. Mas as lágrimas correram quentes pelo seu rosto a cada embalo meu, fechando os olhos com força para se concentrar na sua noite com o Sasuke. Contudo, eu estava sendo tão cruel que você mal conseguia visualizá-lo dentro de suas pálpebras. E então, você sentiu meu jato quente dentro de si, e desabei ao seu lado, com suor escorrendo pela testa.
Você se levantou, cuspiu na minha cara, e se fechou no banheiro.
E eu sabia que não deveria ter feito aquilo.
À tarde, você me pediu permissão para ver suas amigas, ou o que restou delas, e a permiti desde que estivesse acompanhada pelo Sasuke e suas duas sombras. Assim sendo, mandei Jiraya chamá-los, mas nenhum deles foi encontrado. Claro que isso lhe foi uma grande decepção, já que estava louca para revê-lo, e se perguntou onde poderiam estar. Eu, no entanto, já tinha uma idéia de que o Neji os teria alugado para alguma tarefa relacionada à Hinata. Portanto, restou a mim e o próprio mordomo acompanhá-la.
— Não preciso de duas sombras, Naruto. — você resmungou. Já estávamos na rua, dobrando a esquina.
— Depois de ter sido seqüestrada, você ainda me diz isso?
— Como se você se importasse... — você resmungou, virando o rosto.
Apertei o volante até esbranquiçar os nódulos da mão, mas me contive por estarmos em publico. Caso contrário, não sei o que teria feito. Talvez jogado-a contra a parede e lhe dado um belo tapa na cara para acordar daquele mundinho mágico ao qual você parecia estar presa. Era preciso muita paciência para lidar com você, realmente.
Apesar de termos seguido o restante do caminho em silêncio, percebi que você estava preocupada com suas amigas, porque balançava a perna esquerda e roia a unha do polegar. Ao chegarmos ao prédio em que vocês se reuniam, você desceu do carro às pressas e foi correndo bater na porta. Você batia sem parar, achando que a cada batida não atendida era uma amiga a menos. Até que, finalmente, a porta foi aberta timidamente por uma moça que você não conhecia.
— Sim? — ela nos olhou dos pés a cabeça, desconfiada, sem abrir totalmente a porta para entrarmos.
— Cadê a Temari? — você indagou.
A moça, que aparentava ter não mais que vinte anos, nos olhou novamente.
— Quem são vocês?
— Eu sou amiga dela! Você poderia chamá-la, por gentileza? Eu tenho pressa!
— Bom, ela não se encontra no momento.
— Mas ele vai voltar, certo?
— Espero que sim...
— Como assim? — você cerrou os punhos, já prevendo o que ela diria.
— Ela foi uma das moças levadas...
— E Tenten?
Em resposta, a moça balançou a cabeça afirmativamente. Você se virou para em encarar, com os olhos cheios de lágrimas, mas com aquela sua expressão de fúria.
— Por que está me olhando assim? — perguntei.
Você não disse nada e passou reto por mim marchando em pisadas fortes até de volta ao carro. E cruzou os braços, sem mais me olhar nos olhos. Eu sabia o que você estava insinuando, mas fingi não saber de nada, porque me assustava a idéia de que você pudesse, mesmo que remotamente, desconfiar do que eu fazia. Por isso, eu não disse mais nada e voltamos para casa, novamente naquele silêncio irritante.
Fale com o autor