Mercenários

15 Capítulo 15


Notas iniciais
Boa leitura!

Mercenários

by Amanur

15

...



“Você ficou olhando para aquela caligrafia que já conhecia tão bem, por tantas foram as vezes que lera aquela história. Mas você custou a associar o bilhete ao segurança que acabara de lhe entregar. Que relação um tinha com o outro, por exemplo.


“O que achou do soldadinho e da bailarina?”


Num movimento brusco, assim que a fixa caiu, você se levantou. Hinata, concentrada no espetáculo que desenrolava no palco, a olhou surpresa.


— Preciso ir ao toalete. — você explicou — Será que algum de vocês poderia me acompanhar? — no escuro, os três pareciam a mesma pessoa, todos vestidos com ternos. Você não tinha notado a boina que o homem que lhe entregara o bilhete usava.

— Pode deixar que eu a levo. — Suigetsu, como um raio, deu um passo a frente. Mas a mente de Sasuke trabalhou ainda mais rápida e o cretino pisou no cadarço do sapato do outro, que arrastava no chão, fazendo, assim, com que o laço se desfizesse.

— Desculpe, pisei em seu cadarço. — ele apenas disse, cutucando o outro sobre o ombro.


Suigetsu olhou para os pés e praguejou. Ele estava louco para sair daquela sala porque não estava mais aguentando ficar de pé ali, parado como uma estátua. Aquelas peças de teatro, naquela época, realmente era um saco; duravam a noite inteira, e a pausa para intervalo parecia não vir nunca. Além disso, a mente dele era mais limitada do que o possível, de modo que não saberia, nem se quisesse apreciar arte. Assim que ele se abaixou para atar os sapatos, Sasuke tomou a frente oferecendo o braço a você.


— Eu a acompanho.


Como você não conseguia distinguir quem era quem (nem a voz dele dava para ser reconhecida, devido o barulho no palco), o olhou com desconfiança, mas nada disse. Então, foram em direção à porta. Assim que ele pôs a mão da maçaneta, eu entrei com Neji dando de cara com ele. Sasuke, imediatamente abaixou o os olhos, inclinando levemente a cabeça em direção ao chão e fazendo com que sua boina cobrisse parcialmente o rosto.


— Me dispus a acompanhá-la até o toalete. — ele se explicou.


Eu e Neji trazíamos bebidas nas mãos. Havíamos pedido para que entregassem aperitivos em nossa cabine, pois o horário para o intervalo se aproximava. Assim sendo, como estávamos com as mãos ocupadas, permiti que a levasse.


Vocês disfarçaram, mas saíram de lá ansiosos. Assim que fecharam a porta, ficando do lado de fora no corredor, você o olhou, mas não disse nada. Ele a seguiu, conforme havia dito que faria, até o toalete feminino. Mas você não entrou. Viu que estavam às sós no corredor e cruzou os braços, já o reconhecendo melhor.


— Como diabos você conseguiu parar aqui? — você indagou, desconfiada.

Mas antes de responder, ele tirou a flor do paletó, e a estendeu em sua direção. Você olhou surpresa para aquela simples flor; uma tulipa amarela. Havia tanto tempo que não recebia flores, que se sentiu acanhada. A última vez que ganhara foi no dia do nosso casamento, quando lhe vi antes de subirmos ao altar, você lembra? Comprei um buquê gigantesco de flores coloridas e caras só para ver aquele sorriso que você me deu... Se eu soubesse que nosso futuro seria esse, talvez, eu não teria me esforçado tanto...

— Eu não sabia que estava trabalhando para o seu marido. — ele comentou, observando-a pegar a flor.

— O que você faz para ele? — sem jeito, você a cheirou, sem saber o que dizer ao certo, diante daquele gesto.

— Trabalho como segurança. — ele deu de ombros.

— Só isso?

— Só.


Isso foi desapontador para você. Esperava que ele pudesse contar mais alguma coisa. Mas como você não era burra, logo desconfiou de que ele pudesse ter feito algum contrato de sigilo, ou qualquer coisa parecida — coisa muito comum em jornais.


Vocês continuaram ali, em silêncio, um olhando para a cara do outro. Ele observava o quão bela você estava — num vestido lilás, com rendas —; e você se perguntava o motivo por trás daquela tulipa, ao mesmo tempo que observava o quão melhor ele parecia naquele terno e boina. Parecia completamente diferente.


— Eles nos emprestaram isso. — ele comentou, como se tivesse lido sua mente. Na verdade, ele apenas reparou na maneira como você deslizou os olhos sobre ele.

— Oh... — você murmurou — E onde tem passado as noites?

— Numa cama confortável.

— Está comendo bem?

— Uhum.

— Eles o tratam bem?

— Uhum. — Utakata e Kakashi, pelo menos.


Você mordiscou o lábio inferior, seguido de um suspiro.


— Quem deu aquele tiro no menino sonhador?


Sasuke demorou a responder, olhando diretamente nos seus olhos — o que a deixou levemente encabulada. Ele estava tentando encontrar algo que lhe mostrasse que você estava genuinamente interessada no desfecho do conto, e não apenas tentando investigá-lo. Ao mesmo tempo ele tentava ganhar sua confiança, e queria também a seduzir. Aquela flor era o primeiro passo concreto que ele dava para por em prática seu esquema, já completamente arquitetado em sua mente. E você caiu na rede dele como uma mosca tonta. As palavras dele a sensibilizou, bem como aquele simples gesto. Mas você era um poço de gelo aos olhos dele, porque não queria demonstrar nada ainda. E ele resolveu se arriscar.


— O irmão dele.

— Por quê?

— Ele não sabe até hoje.

— Ele está procurando esse irmão?

— Desesperadamente.

— Esse menino é você?


Sasuke não respondeu essa última pergunta. Eu apareci de repente no corredor, querendo ficar de olho em você. Quando a vi conversando com ele, parados em frente ao toalete, desconfiei.


— O que está acontecendo? — perguntei.


Discretamente, você escondeu a flor atrás de si.


— Ela estava reclamando pela falta de sabão para lavar as mãos, no toalete feminino. — ele já havia criado essa desculpa, no momento em que percebeu que você não ia entrar — Eu estava prestes a verificar se havia algo no masculino, senhor. — e ele abaixou o rosto, novamente.

— Ah... Porcaria de espelunca. Vá buscar, eu faço companhia a ela.


Assim, ele entrou no banheiro, e logo voltou segurando uma pedra de sabão nas mãos para lhe entregar. Você o agradeceu e entrou no toalete feminino (sempre escondendo a tulipa da minha vista), nos deixando as sós.


Eu o olhei de canto sem muito interesse, e não disse nada. Eu já sabia que os três foram os encarregados pelo transporte das drogas que tínhamos no depósito, mas não queria me envolver de maneira alguma com ele. E Sasuke manteve seu silêncio ensurdecedor, parado como uma pedra, te esperando.


Você surgiu logo em seguida, sem nada nas mãos. E Sasuke notou.


— Eles ganham uma fortuna nos cobrando preços exorbitantes pelas peças! Não entendo como podem não ter sabão nos toaletes! Isso é um ultraje! — você resmungou.


Eu estranhei. De repente, você tinha voltado a si e estava falando como antigamente... Mas no fim, achei que fosse apenas impressão minha e lhe dei o braço. Voltamos em silêncio.


Terminamos de assistir a peça, depois do intervalo, e todos se dirigiram até a calçada onde havia carros e carruagens esperando seus patronos.


— Obrigado pela companhia de vocês. — eu disse formalmente a Neji e Hinata — Fora uma noite muito agradável. Espero que vocês duas tenham se divertido.

— Foi uma noite adorável, sem dúvidas. — Hinata não olhava para mim, enquanto falava; ela olhava para você, segurando suas mãos — Adorei a peça, de verdade! Os cenários, os atores, as canções, estava tudo muito encantador.


Você sabia que eu e ela compartilhávamos o passado, mas nunca soube exatamente até que ponto. Você desconfiava de que eu tivesse feito algo a ela, embora Hinata sempre negasse. De qualquer forma, você sempre estranhava a falta de cortesia dela para comigo.


Despedi-me de Neji, lhe dizendo que era possível que eu não fosse trabalhar amanhã, devido ao funeral do seu pai. Ele concordou, e entraram no carro que havia ganhado do nosso chefe, junto com os três seguranças. Eu vi como Sasuke ficou olhando pra você, meio de canto, tentando disfarçar, e você o encarando de volta, como se quisesse pedir desculpas por ter jogado fora a tulipa.


Voltamos para casa em silêncio, mas aquela troca de olhar estava me incomodando. Algum sininho começou a tocar na minha cabeça, me dizendo para me manter em alerta. Suspirei. Eu estava cansado, e você parecia perdida em algum lugar dos seus pensamentos, vendo a paisagem passarem por nós, enquanto eu dirigia.


Entramos em casa e subimos as escadas, ainda sem trocar uma única palavra. Enquanto eu tirava o terno, a observava se desfazer de suas jóias em frente a sua penteadeira.


— Estava mesmo uma noite agradável, não estava? Admito que me distraí com a peça... — tentei puxar conversa com você.

— Mentiroso. Você odiou cada segundo que eu sei. — você respondeu ríspida, jogando os sapatos no chão.


Bom, com isso, eu já comecei a me irritar porque eu estava tentando ser agradável e você me veio com aquelas patadas grotescas, sem motivo algum — bom, motivos, você tinha de sobra, mas sempre achei que deveríamos saber distinguir os momentos para tais explosões de fúria.


— Pelo menos eu tentei lhe agradar enquanto que nem para isso você não tem mais capacidade! — esbravejei.

— Você tentou me agradar, ou me manipular? Há uma grande diferença, Naruto! — eu fiquei chocado com essa sua acusação!

— E por que você acharia que eu tentaria te manipular? Que merda você acha que eu ganharia manipulando você? Esqueceu que você só me dá prejuízos?!

— Nossa, não sei. A herança que vou receber do meu pai e, que, automaticamente, passa para o seu poder, não me parece um prejuízo muito grande!


Trinquei os dentes e dilatei as narinas. Eu tentava ser um bom marido, lhe dava tudo o que você me pedia, e mais! A não ser por minhas explosões de raiva e o fato de não deixá-la fazer o que quisesse, não justificava você pensar tão mal de mim. Pois, acredite, nunca pensei nisso.


Não até aquele momento.


— É, você tem razão. Talvez, quando eu morrer, o agradeça por ter me concedido sua mão em casamento. Foi realmente um ótimo negócio!

— Você é um porco, Naruto!


Você se levantou, sem terminar de se trocar; saiu pela porta pisando forte, bufando de raiva. E eu fiquei ali, sem entender aonde havia parado a noite de trégua que tínhamos desfrutado anteriormente.


— Vai dormir em outro quarto? Ou vai escalar árvores? — ainda provoquei. Você jogou aquela pedra na minha garganta, e eu precisava fazê-la sair dali de alguma forma, mesmo que fosse pondo mais lenha na fogueira.


Só que você não deu bola, o que foi pior, eu acho. Você ouviu, mas não parou no caminho. Entretanto, foi assim que você soube que eu já sabia das suas escapadas. Mas digo que foi pior, por que aquela sua indiferença me afetou ainda mais, fazendo com que todos os nossos problemas conjugais se acumulassem ainda mais dentro de mim.


Enquanto isso, do outro lado da cidade, Sasuke, Juugo e Suigetsu desceram do carro do Neji, em frente à casa do meu subordinado. Assim que Hinata entrou no casarão, ele abriu a boca para falar com os três peões.


— Peguem um trem para voltarem aos seus postos. — ele tirou algumas notas do bolso da calça, para entregar a eles — Mas fiquem em alerta. Posso mandar algum recado, precisando de vocês outra vez.

— Siiiim senhooor! — Suigetsu resmungou, fazendo com que Neji levantasse a sobrancelha, incomodado pela petulância do outro.

— Algum problema?

— Não, senhor. — Juugo resolveu se meter — Só estamos cansados. Tenham uma boa noite. — ele foi esperto em puxá-lo para a rua.


Eles caminharam em passos apertados, quase correndo, até dobrarem a esquina e estarem longe do alcance dele.


— ODEIO gente metida! — o albino disse, cuspindo no chão — ODEIO gente rica! Se acham no direito de pisar nos outros só porque têm o quê? Mais dinheiro? Mais educação? Tsc! Se eu metesse uma bala na cabeça deles, queria ver no que tudo isso adiantaria! E garanto que ainda se borrariam nas calças finas.

— Você precisa aprender a controlar a sua língua, Suigetsu. — o ruivo grandalhão, resmungou.

— Sim, claro, para eles continuarem a pisar em nós como se fôssemos bosta de cavalo! Tsc.

— Não! — Sasuke ponderou — Para agir silenciosamente pelas costas deles.

— O que você tem em mente?

— Quando chegar o momento certo, contarei.


Eles mal conseguiram sonhar com alguma coisa, naquela noite. Três horas depois que se deitaram em suas camas, foram chamados para o funeral do seu pai. Eles não tiveram que fazer muito, na verdade. Só precisaram levar o caixão, que eu mesmo havia conseguido retirar da funerária. Eu queria me garantir de que o corpo do seu pai seria bem transportado, bem cuidado e... Bem enterrado. Além disso, Sasuke, Suigetsu, Juugo, Kakashi e Utakata ficaram afastados durante a cerimônia, olhando ao longe, mal ouvindo as preces do padre — queríamos alguém vigiando nossas costas, por medo de alguma retaliação, ou qualquer coisa parecida. Mas, claro, para eles, dissemos apenas que precisávamos de privacidade, e que eles não poderiam deixar ninguém da imprensa fotografar ou sequer chegar perto de nós... O que também era verdade.


Lá, estavam todos vestidos de preto, menos você que escolhera seu melhor vestido branco. Sapatos brancos, chapéu branco, luvas brancas... Achei que você tivesse feito isso só por rebeldia, por que não estava nem aí para a morte do seu velho, e briguei muito com você antes de sairmos de casa.


—... Às vezes, acho que você não passa de uma criança mimada, Sakura. Para quê chamar a atenção de todos com isso? É atenção que você quer? Você sabe o quanto a sua mãe vai sofrer ao te ver desse jeito! — eu estava perdendo a paciência com você, o que não era nenhuma novidade, é claro, e ainda por cima tinha a sensação de que estava falando com as paredes. Você ficou o tempo todo sentada naquela sua penteadeira estúpida, alisando os cabelos com sua escova como se eu não existisse.


Sua mãe, de fato, ficou uma fera. Tanto que sequer lhe dirigiu uma única palavra. Na verdade, ela sequer se aproximou de você. Vê-la ali, toda de branco, era uma afronta inexplicável. Todos, inclusive Hinata, comentou sobre sua atitude indigna. Você cumprimentava todos usando aquele sorriso aberto, teatral. Mas, no meio do falatório sem fim do padre, você saiu de fininho, sem que ninguém percebesse. Na verdade nem eu vi quando você sumiu do meu lado, tão preocupado com os olhares indiretos do Deidara, braço direito do Itachi, eu estava. Achei que ele fosse aparecer na cerimônia, já que se tornara quase amigo íntimo do seu pai, mas o desgraçado não compareceu — preferiu mandar seu lacaio para substituir sua presença. Além disso, eu tinha outros assuntos em mente, me preocupando mais, além da choradeira sem fim da sua mãe, que se agarrava no meu outro braço resmungando “Oh, Naruto, o que vou fazer, o que vou fazer?”. Desejei ter carregado uma garrafa de uisque dentro do paletó.


Eu não sei se algumas pessoas realmente têm mais sensibilidade do que as outras, ou se apenas elas têm menos preocupação do que as outras. Por que aquele maldito do Sasuke, de longe, viu que você era quem, na verdade, mais sofria dentro de toda aquela gente falsa e sínica. Afinal, estavam pessoas a quem seu pai devia, a quem ele enganara, os que ele menosprezara... E todas as pessoas que trabalhavam para ele. Afinal, quando se é uma pessoa de negócios, mais temos inimigos do que amigos.


Você atravessou o cemitério, para bem longe daquela multidão, e sentou embaixo da sombra de uma árvore. Havia uma placa de mármore no jazigo a sua frente, cujas letras você não conseguia ler porque seus olhos estavam inundados pelas lágrimas. Sasuke viu quando você se afastou, e sob o pretexto de “manter os olhos nela”, foi atrás.


— Você está vestindo branco por que quer celebrar a vida dele, não a morte... É isso?


Você não precisou virar o rosto para vê-lo, por que desta vez conseguiu reconhecer a voz dele.


— E ele odiava branco... Por que passou anos de sua vida, enquanto estudava, usando branco. Ele era farmacêutico...

— Então, por que fazer algo que seria contra a vontade dele?

— O que você acha que deve ser pior? Ter pais que nunca deram bola para você, ou nunca tê-los conhecido?


Apesar de ter sua resposta na ponta da língua, Sasuke não respondeu por que conhecera apenas um dos lados daquela moeda. Tudo o que fez, foi retirar um papel dobrado do bolso, e colocá-lo em suas mãos. Eu vi o momento em que ele se agachou em sua frente e tocou em suas mãos, porque foi quando o padre perguntou se alguém queria dizer algo sobre o falecido. Como não a encontrei ao meu lado quando sua mãe foi correndo tomar o lugar daquele senhor, me forcei a procurá-la com o olhar. Mas não vi o papel. Vi que ele teve a decência de não manter contato físico com você por muito tempo. Pois em seguida, sem esperar que você dissesse mais alguma coisa, Sasuke deu as costas voltando para o seu lugar. E você ficou ali, pensando se havia ofendido o rapaz como havia feito com a Hinata; mesmo sem saber se ele tinha ou não uma família.”

Notas finais
Algum comentário?
Já tenho o próximo capítulo pronto! :3
Amo feriados! T__T