Mercenários
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Mercenários
by Amanur
22
...
“Você já parou para pensar como é engraçado o percurso que nossa vida vai tomando? Quando somos pequenos, temos uma visão limitada do futuro. E quando ele chega, coisas que jamais havíamos pensado acontecem. As pessoas se mudam, encontram parceiros, se casam, trabalham em coisas que jamais se imaginou trabalhando, tem filhos, sofrem acidentes, adoecem... E as pessoas que conhecemos mudam uma parte de nós. Eu pensava que jamais sairia daquele orfanato, por exemplo. E você pensava que seria a pessoa mais livre do mundo, por que contava nos dedos os dias para encontrar seu príncipe e se livrar da casa dos seus pais.
Mas não sei o que o Sasuke imaginava para si. Quando olhávamos para ele, a sensação que transmitia é de que não havia futuro para ele. Quero dizer, havia um vazio naquele olhar, e não aquele brilho de quem ambiciona algo.
Ele se aproximou do seu rosto, olhando diretamente em seus olhos, tocando suavemente sua pele. Vocês chegaram a sentir a respiração um do outro sobre suas faces. Ele até mesmo chegou a deitar sobre o seu corpo, e tocou a ponta do nariz no seu. Seu coração parecia sair pela boca, e você resolveu ousar tocando no rosto dele, mas os lábios se mantiveram intocáveis. E, então, como se quisesse apenas provocá-la de propósito, ele se afastou e fechou a porta atrás de si, deixando-a sozinha naquele quarto. Você ficou olhando para aquele vazio ocupado por ele instantes atrás, sem entender o que havia acabado de acontecer.
Sasuke poderia ter se aproveitado da situação para lhe agarrar, e feito o que quisesse contigo, mas cumpriu dois de seus principais objetivos, e não queria pô-los a perder.
— Quando você vai me beijar? — você ainda murmurou para si, tocando as pontas dos dedos em seus lábios, como se pudesse sentir os deles. Você se sentiu tão frustrada quanto aliviada, porque ao mesmo tempo em que ansiava para se ver livre de mim e agarrar com unhas e dentes a quem parecia realmente se importar, você não sentia-se preparada para se jogar nos braços de outro ainda. Então, você aproveitou aquele tempo, depois de um momento olhando para o livro de páginas em branco que ele lhe devolveu, para escrever algo...
Depois de bebermos, eu havia arrastado a Karin comigo até a sala de bagagens do navio para verificarmos pessoalmente as mercadorias que havíamos trazido. Eu precisava me certificar de que nada havia sido extraviado.
Mas Itachi havia armado uma espécie de emboscada para mim — o que era perfeitamente razoável para um cara como ele. As caixas que ele havia me entregado estavam cheias de pedras, para minha surpresa. Até mesmo a Karin estava com dificuldades para acreditar no que via.
— Ele deve ter pirado de vez! — resmungou.
— Não importa. Ajude-me a jogar essas caixas no mar... Diremos que o navio foi saqueado.
— Ele vai descobrir que não é verdade.
— Não se simularmos o assalto.
As coisas foram se ajeitando na minha cabeça, e o plano parecia perfeito. Com a ajuda dela, fui arrastando algumas caixas para fora daquela sala, tomando cuidado para não sermos vistos. Uma por uma, jogamos as cinco caixas ao mar.
Já estava anoitecendo, e haveria uma festa no salão principal Algumas pessoas já estavam se reunindo, enquanto caminhávamos pelos corredores. Peguei um charuto do bolso do paletó, enquanto observava os rostos.
— Você vai pedir para o seu novo capacho para fazer o trabalho sujo por você? — Karin indagou.
O plano parecia perfeito. E teria dado certo, se aquele imprevisto não tivesse acontecido... De qualquer forma, incubei à Karin a tarefa de avisar à Sasuke sobre o plano. Os dois deveriam começar a tomar as devidas providências, para que tudo saísse como o planejado.
— Naruto... Tome cuidado. — ela me disse antes de me dar as costas — Alguém pode apunhalá-lo pelas costas.
A observei se afastar, me perguntando exatamente o que ela queria dizer com aquilo. Desconfiei dela própria, por que sabia que guardava rancores de mim, mas aquela conclusão não parecia muito apurada, deixando uma sensação de perda; como se eu estivesse me esquecendo de algum detalhe importante.
Ela o encontrou, como esperado, em frente à porta do nosso quarto.
— Venha. — ela apenas disse, passando por ele.
Sasuke, à contra-gosto, a seguiu pelo corredor. Foram até o convés, onde grupos consideráveis de pessoas já circulavam, inclusive garçons servindo bebidas. Karin pediu para que ele pegasse bebidas antes de iniciarem aquela conversa, o que foi perfeito para Sasuke que pôde se distanciar da visão dela. Alguns instantes depois, ele voltou com duas taças nas mãos, e a ruiva estúpida foi direto ao plano, contando a ele tudo o que eu planejava. Sasuke apenas concordava com tudo sem dizer uma única palavra, observando-a beber sem parar. Até que ao final eles ficaram em silêncio, olhando um para o outro. Karin deslizava a ponta do dedo sobre a boca da taça, o olhando de forma séria, com o cenho franzido e cabelos ao vento, tentando decorar cada detalhe do rosto dele; ou talvez comparasse com o que tinha guardado na memória. Sasuke apenas balançava o corpo do copo na mão, olhando-a da mesma forma.
— Quando você vai me matar? — ela indagou, de repente.
— Não se preocupe... Você é a única que não vai sentir nada. — ele olhou para a taça que ela tinha em mãos.
E ela também olhou para o objeto, vendo aquele cristal brilhar a luz do sol entre seus dedos, e começou a rir.
— Obrigado. — disse ao final da risada. De repente, aquela piada não tinha mais graça, e lágrimas começaram a escorrer silenciosamente pelo rosto. — Aqueles pesadelos que eu tinha, você lembra? — ele balançou a cabeça afirmativamente — Eu vi meu pai matar minha mãe, por que ela tinha conseguido uma bolsa de estudos. Meu pai ficou com inveja dela, e a espancou até a morte. Apenas por pura inveja, consegue imaginar?! Acho que ele nunca estudou, porque tinha que ajudar os pais na fazenda que tinham. Depois, o cretino me estuprou, e me jogou no meio da rua... Até hoje tenho isso me assombrando em pesadelos. — ela desviou o olhar dele, deixando o vento pegar em cheio em seu rosto, olhando o mar mais além — Depois que saímos do orfanato, eles me ajudaram a procurá-lo. E eu o encontrei, dividindo um casebre aos pedaços com outros bêbados. Era um lugar pequeno e fedorento, com meia dúzia de móveis. Ele estava muito magro e muito sujo. Fiquei com tanta pena, e ao mesmo tempo senti tanto nojo, que pensei em não matá-lo só para deixá-lo sofrer ainda mais. Mas sabe o que eu fiz? — ele balançou a cabeça negativamente, e ela o olhou novamente, como se o desafiasse a enfrentá-la — Mandei arrombarem o rabo dele, espancá-lo como fez com minha mãe, e depois cortaram a garganta dele. Ele sentiu muita dor.
Ela tinha um leve sorriso no canto dos lábios enquanto contava aquela historia, e Sasuke a ouvia passivamente sem expressar emoção alguma.
— Mas seus pesadelos não passaram. — ele disse, por fim.
— Não, e eu realmente não me sinto melhor. Mas quem se importa, não é mesmo? Pelo menos, agora acabou. — e olhou para a taça em suas mãos.
— Quem lhe ajudou a encontrá-lo?
Karin sorriu abertamente, desta vez.
— Seu querido irmão.
— Você sabe onde ele está?
— Ah, meu querido, ele está em todas as partes, e em lugar algum! — ela se aproximou dele, e beijou-o de leve nos lábios.
E com essa resposta enigmática, a ruiva saiu rebolando pelo convés, pegando mais uma taça de bebida enquanto passava por outro garçom. E Sasuke ficou ali, vendo o mar, enquanto se perguntava se Itachi já saberia de seu retorno, e estava aguardando por algo.
Duas horas mais tarde, Karin foi encontrada morta no banheiro feminino. Uma senhora a encontrou deitada no chão. Ela tinha uma expressão tão calma que parecia apenas ter caído no sono, se não fosse pela posição estranha em que tinha desabado no chão. O comandante do navio se perguntou se deveria voltar para o porto de partida, mas, via rádio, o instruíram a manter o percurso e fazer a ocorrência no primeiro porto em que ancorassem, e deixasse para que a polícia local cuidasse do caso. Quando fiquei sabendo do ocorrido (um oficial dos vigilantes do navio me contou pessoalmente), logo desconfiei do Sasuke. Mas depois do que aconteceu à noite, essa hipótese sumiu.
Na verdade, acho que o Sasuke planejava me matar naquele navio também, mas as coisas acabaram não acontecendo de acordo com seus planos...
Quando a noite caiu, fui buscá-la no quarto para a festa descrita na programação de eventos do navio, que nos entregaram no embarque. Para a minha surpresa, você já estava vestida, sentada na cama, com as mãos sobre os joelhos. Mas estava com aquele enorme curativo no nariz, que parecia apontar para mim. Toda vez que eu olhava para aquilo, tinha a impressão de que aquelas gases e esparadrapos estavam zangados comigo, e me criticavam o tempo todo. E pra completar a cena, você não me olhava. Você não falou uma única vez comigo durante a noite, mas sorria para os outros convidados que nos cumprimentava.
À meia noite, quando todos estavam se divertindo no grande salão, ao som dos músicos que tocavam ao vivo, por questão de segundos, um grupo de homens encapuzados trancou o salão com metralhadoras nas mãos. Você dançava comigo, completamente distraída, com a cabeça em outro lugar. Você procurava o Sasuke pelo salão, na verdade, porque não o tinha visto durante a noite toda, e se perguntava quando ele a tiraria para dançar. Embora soubesse que eu jamais permitiria isso, você gostava de sonhar absurdos! Eu teria ficado bravo com sua desatenção se não estivesse tão preocupado com o tique taque do grande relógio de madeira no topo das escadas que levaria ao andar de cima, por onde Sasuke e Karin apareceriam anunciando o assalto. No entanto, quinze homens, todos vestidos em ternos negros com capuzes na cabeça, apareceram.
— Não queremos problemas. — o que estava mais atrás do grupo anunciou — Deitem-se todos no chão. Sigam nossas intuições, e ninguém sairá ferido.
A banda parou de tocar, e todos procuraram com os olhos pelos guardas do navio, mas os que estavam presentes no salão já haviam sido rendidos, discretamente, por outros homens do bando. Você me olhou de canto, cheia de terror nos olhos. No entanto, tudo o que fiz foi com que você deitasse no chão junto comigo. Fiquei procurando algum sinal do Sasuke, me perguntando o que teria acontecido a ele. Até que o vi num canto, na segunda bancada que havia no salão, próximo as escadas onde os bandidos estavam com um enorme rifle apontando para a cabeça do que parecia comandar aquilo. Eu pus a mão dentro do bolso do meu paletó, aguardando o primeiro tiro, e disse a você para manter-se ali, deitada; não importa o que acontecesse.
Mas Sasuke esperou que os homens descessem as escadas, e se misturassem à multidão, me fazendo pensar que o maldito pudesse estar ajudando-os. Mas ele estava sendo mais inteligente, na verdade. Por que com pessoas morrendo em lugares aleatórios, ficaria um pouco mais difícil distinguir de onde os disparos estariam vindo. Então, ele deixou que os homens começassem a furtar as pessoas, arrancando jóias dos homens e mulheres, para fazer o primeiro disparo. Em seguida, saquei minha pistola, e saí correndo no meio da gritaria e multidão para o mais longe possível de você, disparando nos outros.
Tanto eu, quanto Sasuke havíamos treinado tiro ao alvo, embora que em situações completamente diferentes — ele para sobreviver, e eu para matar — de modo que não errávamos. Corpos começaram a cair no chão, tanto dos bandidos quanto de pessoas inocentes que ficavam na frente da mira dos capangas. Sasuke começou a correr de um lado para o outro, pois acabou se deixando ver pelos encapuzados, mas ele se escondia bem entre os pilares e mesas e cadeiras. Eu também havia sido visto com a arma, e miravam em mim. Um deles conseguiu me atingir de raspão no braço, mas logo acertei o meio da testa do cretino.
A cada tiro disparado, as pessoas gritavam mais alto. No meio de toda aquela bagunça, acabei desviando meu foco, e a perdi de vista. Quando voltei ao ponto em que você estava, não a encontrei. Mas logo a vi sendo arrastada por um dos homens, que havia me visto com você. O cara se dirigia para a porta dos fundos do salão, com uma arma apontada para sua cabeça, e os olhos em mim. Ele parou por um instante e, com a outra mão, fez um sinal cortando o pescoço, em ameaça. Foi assim que logo soube que eles sabiam da minha pessoa, e que o negócio todo foi apenas uma distração.
Sasuke desceu correndo as escadas. As balas do rifle dele acabaram, e ele atirou a arma inútil num dos homens que corria, também sem arma, em sua direção. Ele deu uma coronhada na cabeça do homem, o fazendo desabar, e, rapidamente, sacou dos bolsos mais duas armas que as usou precisamente com ambas as mãos. Ele tinha muito boa mira e coordenação. Ele bem que tentou correr em seu socorro, mas chegou tarde demais. Quando o homem desapareceu pelas portas, Sasuke atirou nos últimos homens restantes, e um mar de corpos mortos e assustados cobria o salão.
— O que aconteceu? — Sasuke me perguntou.
Eu não o respondi, até me certificar de algo. Aproximei-me de um dos corpos dos bandidos mortos, e rasguei a camisa deles. E como suspeitei, tinham o corpo tatuado com os mesmo desenhos que nós.
— Itachi nasceu, isso é o que aconteceu! — resmunguei entre os dentes.
Sasuke me olhou surpreso, sem entender o que estava acontecendo, porque ele não sabia da briga interna no grupo. Fui marchando em direção ao meu quarto, com ele me seguindo logo atrás. Pelo menos eu sabia que eles não a machucariam, por que Itachi tinha interesses em você.
Como eu ainda não desconfiava do “Asuke” (como sendo Sasuke, isto é, por que até então Sasuke havia sido enterrado e eu estava no dia da pequena cerimônia que fizeram, e vi quando o caixão pesado desceu até o fundo do buraco e jogaram terra por cima), contei a ele todo o problema. Quero dizer, minhas desavenças com o chefe da máfia mais poderosa do Estado. Sasuke me ouviu calado, trincando os dentes.
—... O pai dele — e eu me referia ao homem que havia os adotado — na verdade era o chefe, mas com sua morte, Itachi tomou posse dos negócios. Ele tomou controle de tudo, e ainda expandiu sua área de domínio. Ele tem negociantes em quase todas as partes do mundo, agindo por baixo dos panos. Ele controla, inclusive, parte da polícia local. Mas o pai dele, pelo que sei, não queria uma expansão muito grande de território, para não chamar a atenção da polícia de outros Estados. Só que o Itachi não pensava dessa forma. Ele visava apenas o poder. Em minha opinião, ele arrisca demais o que tem, se envolvendo com gente perigosa. Traficantes de alto nível. E eu brigo com ele, porque ele nos acolheu — e aqui eu estava sendo reservado, sem querer informar a ele qualquer informação sobre o meu passado num orfanato, ou minha relação com os outros integrantes da “família” —, nos envolvendo nisso, sem ter nos colocado a par de todos os seus planos. E como agora sabemos de tudo, sofremos ameaças. Uma vez dentro, só sai morto.
— E por que ele o escolheu? — ele indagou. Mas isso foi uma sutil maneira de descobrir mais sobre o passado, que na hora não percebi.
— O pai dele seguia um outro tipo de filosofia, e os homens que trabalhavam para ele também. Eles apenas vendiam as mercadorias, se é que me entende. E se negaram a fazer o que o Itachi queria. Furtar bancos, furtar patentes, e se envolver com tráfico de prostitutas, inclusive. Esse é um negócio que dava bastante lucro, principalmente para o oriente. A Karin, inclusive, era a grande ajudante do Itachi nesse assunto. E como os homens do pai dele se recusaram, ele simplesmente os eliminou.
— O senhor quer dizer, que os mataram?
— Exato. Como acredito que devem ter feito com a Karin... Para matar um deles, ou o indivíduo é uma ameaça, ou ele é um completo incompetente. E isso eu sei que a Karin não era. Ela deve ter descoberto algo muito importante para terem-na eliminado... — fiquei uns instantes em silêncio, me perguntando o que seria. Lembrando-me do que ela me dissera antes — Mas como eu ia dizendo, então, eu entrei nessa fome de poderes junto com o restante. Concordei com o tráfico de prostitutas, e furto de patentes, mas o tráfico de drogas e roubo a bancos são negócios muito mais arriscados. Mas como eu disse, não temos muita opção.
— A senhora Haruno sabe o que se passa?
Fechei a cara para ele.
— A minha esposa não lhe diz respeito.
— Sei que o pai dela estava envolvido, e se ela também se envolve nesses assuntos, julgo que tais informações me serão imprescindíveis para a resolução do caso que se sucede neste navio, senhor. — ele disse categoricamente.
Fiquei olhando para o sujeito, enquanto eu coçava a barba rala, me perguntando de onde ele tirou tal postura. Para um pé rapado, ele se portava muito bem. E me referia não apenas em sua maneira, mas em sua fala. Além disso, comecei a analisar melhor o rosto dele, e aquela sensação de conhecê-lo de algum lugar havia voltado. Claro que comecei a achá-lo parecido com o Sasuke, mas como disse antes, eu havia visto o cara ser enterrado. Comecei a desconfiar que o “Asuke” pudesse ser algum parente distante, o que faria mais sentido com toda essa questão de sua postura. E se isso fosse verdade, o que a Karin havia me dito faria mais sentido. Mas achei mais prudente manter isso em silêncio por enquanto, e investigá-lo pessoalmente. Claro que isso teria que ser adiado para quando voltássemos. Mas manteria meu olho em seus passos.
— Ela não sabe de nada, e gostaria que tudo permanecesse assim... — resmunguei.
— Entendido. O que faremos agora?
Nesse exato momento, alguém bateu na porta, chamando nossa atenção.”
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