Mercenários

16 Capítulo 16


Notas iniciais
Boa leitura!

Mercenários

by Amanur

16

...



“Alguns dias depois do velório, como previsto, o advogado do seu pai bateu em nossa porta para me entregar documentos de transferência de bens. Sua mãe ficou com uma boa parte dos negócios dele, mas a maior (e melhor) parte ficou para você, que era filha única. E por direito, tudo ficou em minhas posses já que mulheres não deveriam lidar com as questões financeiras.


— Tudo o que as mulheres sabem fazer, é gastar... É uma pena que ele tenha deixado algo para a viúva. — ainda tive que ouvir o advogado comentar, enquanto eu assinava alguns dos papéis. Eu sorri meio de canto só por uma questão de educação, porque, acredite ou não, eu discordava dele. Afinal, eu havia me casado com uma mulher inteligente, capaz de muita coisa.


Pensando bem, talvez esse tivesse sido o meu maior medo, durante todos aqueles anos que passamos juntos. Se pudesse, eu sei que você passaria a perna em mim, e era justamente por isso eu a mantinha sob rédeas curtas. Ou tentava, pelo menos.


Quem não gostou, com todas as forças, da noticia da morte do seu pai foi o Itachi. Por que assim sendo, ele logo percebeu que eu poderia estar quase aos seus pés — em questão de poder. Junto com a fortuna e os negócios do seu pai, eu me tornaria tão, ou quase, rico quanto ele. E por isso, no dia seguinte, o maldito enviou Deidara em pessoa até nossa casa.


— Devido aos últimos acontecimentos com sua falta de comprometimento e responsabilidade, Naruto, teremos que rebaixá-lo de cargo. — o cretino me disse, com toda sua solenidade. Até se recusou a sentar na poltrona do meu escritório.


Mas eu sabia que aquilo era o de menos. O Itachi apenas estava com medo de perder o posto naquela cadeia mafiosa. Ele era o poderoso chefão e, diabos, eu sabia que ninguém naquela posição iria querer perder também. Então, o que eu poderia ter feito? Apenas rebaixei os olhos e concordei.


— O quão rebaixado serei? — perguntei.

— Não muito. Apesar de tudo, o chefe reconhece o seu talento. Então, você apenas vai trocar de lugar com o Neji. Agora você trabalhará para ele.

— Uhum...


Chutei portas, cadeiras, mesas e paredes quando o miserável foi embora. Todos que trabalhavam na casa ficaram assustados, inclusive você. Poderia ter sido muito pior, mas em seguida me dei conta do porque de não ter sido... Eu tinha tudo o que o Itachi quis ter, e ele iria me usar.

Foi então que a fase mais obscura do nosso casamento começou...


Passei a receber ordens do Neji, que sempre me solicitava para fazer contatos e conexões com as pessoas mais nojentas. Ao mesmo tempo, comecei a liderar o laboratório de pesquisa do seu pai, em busca da droga mais poderosa e cara. Tudo sem que você remotamente desconfiasse. Enquanto isso, Itachi tentava me manipular — já que sabia que eu não venderia o laboratório. E isso tudo me deixava três vezes mais estressado.


— Fiquei sabendo, através de alguns dos meus contatos, que estão desenvolvendo uma pesquisa muito interessante no Japão, Naruto. Você não estaria interessado em ir prospectar? Pago todas as suas despesas, e você pode levar a Sakura. Imagino o quão abatida ela deva estar, após a morte do pai... — Itachi me disse, quando fui vê-lo em seu escritório.

—Na verdade, ela está muito bem. Aliviada, eu diria até. Ela nunca teve uma relação boa com os pais.

— Entendo... Mas sabe como as mulheres são mais sentimentais. Garanto a você que ela está apenas escondendo o que sente. Imagino o quão solitária ela deva estar se sentindo. Ainda mais agora, que você vai assumir a posição do seu pai. Isso deve deixá-la ainda mais desconfortável, e desamparada...

— Uhum... — resmunguei. Na verdade, não havia pensado nisso.

— Sei também que você anda deixando-a trancada em casa... Pobrezinha. Sabe, Naruto, as mulheres não são animais para viverem engaiolados, apesar de podermos compará-las a felinos... Você sabe como os gatos são. No momento em que você a libertar, tome cuidado. Tome cuidado para que ela não saia correndo para os braços de outros... Aliás, falando nisso, já ouvi alguns dos boatos que andam circulando pelos corredores ao meu respeito... — nesse instante, ele se acomodou sobre sua poltrona e forçou um sorriso amigável que doeu nos meus nervos — Certifique-se de que eu não esteja na frente dela, nesse dia.

— Uhum...


É claro que eu percebi a ameaça entre aquelas linhas. Eu podia estar no comando do dinheiro do seu pai, mas toda a fortuna continuava a estar em seu nome. Se nos separássemos, algo que era visto como absurdo naquela época, o dinheiro ficaria em mãos do próximo homem com quem você se casasse.


— Mas voltando ao assunto... Que tal alguns dias no Japão? Ah, mas como houve aquele pequeno incidente — e ele acentuou a palavra propositalmente, o que logo me levou a conclusão de que ele desconfiasse de algo — com o senhor Haruno, vou ter que enviar a Karin com vocês... Ela continua me incomodando com a falta do que fazer.

— Vou pensar sobre isso.

— Claro, faça isso. Pense...


Saí daquela sala sentindo nojo de mim mesmo. Fiquei com nojo daquelas paredes, daquele oxigênio que circulava ali, com nojo de todos os rostos por quem passei até chegar à rua.


Quando cheguei em casa, você estava deitada na cama olhando apática para o teto, pensando seriamente em seguir o plano do Sai. Claro que eu não fazia a menor idéia disso, e me joguei ao seu lado afundando o rosto no travesseiro. Eu estava exausto, tanto física quanto mentalmente. E você me espiou de canto, estranhando meu silêncio, lembra? Jamais me esqueci daquele jeito arrastado com que você me olhou.


— O que houve agora?


Antes de responder, fiquei olhando para o seu rosto limpo, sem maquiagens, sem expressão, sem nada. Seus cabelos estavam espalhados pelo colchão como um mar de rosas, e o seu perfume fresco invadia minhas narinas. Itachi disse que você estaria desamparada, mas acho que esse era eu.


— Você acreditaria se eu dissesse que odeio minha vida?

— Tsc. Nem um pouco. — e então você voltou a encarar o teto, e odiei aquele seu menosprezo.


Por que você tinha que fazer aquilo? Bom, hoje reconheço que tivemos um déficit enorme de diálogos em nossa relação — o que certamente agravou tudo —, mas por que você não poderia ser como eu? Afinal, eu também tinha minha lista de reclamações a seu respeito, e nem por isso eu ficava remoendo aquilo vinte e quatro horas por dia como você fazia. Mas suponho que isso fizesse parte da sua natureza. Você me odiava, odiava seus pais, odiava a si mesma... Você até mesmo invejou o Sasuke, por toda a liberdade que ele teve e não aproveitou. Mas o que você amou, Sakura? Por que, naquele instante, duvidei que você tivesse amado alguma coisa, alguma vez na vida. Ninguém conseguia ser tão desagradável quanto você. Nem mesmo o Itachi.


Eu tive que sair daquele quarto, por que sua presença começou a me incomodar — Para ver a que ponto chegamos! E você continuou ali, mas agora pensando em outras coisas. Como aquele papel que Sasuke havia te entregado. Você o lera algumas vezes, durante o tempo em que passei fora, naquele dia.


“O soldadinho sem perna acordou num campo de batalha. Aquilo foi muito estranho para ele, por que era como se tudo, até então, não passasse de um sonho. Ele se encontrava numa terra completamente estranha, desconhecida para ele. Não fazia a menor idéia de como havia ido parar ali, ou quem o carregara até lá.

Com muita dificuldade, o soldadinho conseguiu se levantar. Seus braços, sua perna, sua cabeça... Tudo estava se movendo. Ele não era mais um brinquedo, que precisava da manipulação de alguém para se locomover. Ele acabara de ganhar vida própria! Esse era o sonho de todo brinquedo.

A princípio, aquilo tudo o encheu de alegria, pois estava finalmente livre daquele engessamento! Mas além de estar sem uma de suas pernas, ele estava sem dinheiro, sem nome, sem lugar para onde ir. E onde quer que o soldadinho olhasse, além de terra, apenas encontrava inimigos. E, então, o doce sorriso da bailarina começou a lhe fazer falta quando bombas começaram a explodir ao seu redor, liberando o fétido odor daquela realidade. No meio de todo aquele ruído, gritos de dor e desespero explodiam junto em seus ouvidos.

— Onde estou? Por que isso está acontecendo? — ele perguntava, mas ninguém respondia. Pois, quando olhou novamente a sua volta, percebeu que estava completamente sozinho, sem nenhum aliado para lhe amparar.

O soldadinho se jogou no chão, para se proteger, e teve que rastejar como um verme pelo chão, implorando para que alguém o tirasse dali. Mas seus inimigos riam da sua cara, da sua incapacidade para correr, da sua desvantagem em viver. As risadas maléficas dos inimigos encobriram os estrondos das bombas, o deixando ainda mais atordoado por que ele não compreendia como aqueles desconhecidos poderiam menosprezá-lo tanto. Que motivos tinham para ignorá-lo, para odiá-lo? O que sua condição tinha a ver com sua dignidade?”


A estória tinha sido mais curta desta vez, e você entendeu a metáfora que ele escondeu por trás daquelas palavras. A primeira vez que leu aquelas letras, seus olhos se encheram de lágrimas. Se eu tivesse visto, teria me surpreendido por saber que ainda tinhas alguma capacidade para chorar. Mas acho que você reservava isso para mostrar suas lágrimas em ocasiões especiais, como quando pretendia me envergonhar na frente de alguém...


Enfim, você quis dar mais uma de suas escapadas, mas se surpreendeu quando viu que mandei arrancar aquela maldita árvore em que você escalava (mandei que a arrancassem enquanto estávamos no funeral do seu pai). Você me odiou tanto por isso que, se pudesse, se associaria a uma dessas seitas de magia negra para me amaldiçoar de verdade. E confesso que passei boa parte da nossa vida esperando por esse dia...


Mas mudando de assunto, houve um dia em que o Utakata adoeceu e não pôde fazer as entregas. Isso foi a algumas semanas depois de tudo isso o que aconteceu. Ele estava com febre alta e com dores por todo o corpo. Kakashi chamou um médico para ir vê-lo, e mandou que Sasuke liderasse a carruagem de entrega. Ele estava com tuberculose, e precisaria ficar de cama por um bom tempo.


A estrada estava lamacenta por que havia chovido por três dias interruptos, e ainda se sabia que saqueadores passavam por aquele caminho. Mas isso não preocupou nem um pouco os rapazes, apesar de estarem carregando um grande lote de drogas — a essa altura, todos eles já sabiam com o que estavam lidando. Muitos ainda a usavam para fins medicinais, mas já se sabia bastante sobre seus efeitos colaterais.


Enfim, eles conseguiram fazer as entregas sem problema algum. O confronto veio quando eles estavam voltando para o posto. Um grupo de homens mais velhos do que eles os cercaram.


— O que estão carregando, meninos? — indagou o mais mal encarado deles.

— Nada... — Suigetsu respondeu tranquilamente.


Os homens trocaram olhares uns com os outros, duvidando da afirmação, e o idiota do Suigetsu, que sempre gostou de se exibir, riu da cara de paspalho dos homens. Claro que isso só serviu para atiçar a raiva e curiosidade dos intrusos que os olharam dos pés a cabeça.


Num piscar de olhos, todos eles, incluindo o bando do Sasuke, tinham suas armas sacadas e apontadas na mira. Os bandidos tinham quatro armas ao todo, mas Sasuke carregava duas, uma em cada mão, assim como seus companheiros que totalizavam seis pistolas. Mas a desvantagem do outro grupo não era tanto, por que eles estavam em número maior. Por isso, nenhum dos dois grupos recuou.


— Crianças, se eu fosse vocês, largaria esses brinquedos. Vocês não sabem com o quem estão se metendo. — disse o mais velho, em tom de deboche e ameaça.


Mas nenhum deles moveu um dedo sequer. Os outros homens começaram a ficar nervosos com a tensão, e respiravam profundamente. A calma dos três rapazes, que não tinham medo de entrar numa briga, tornava as coisas mais complicadas, até que um deles resolveu atacá-los. Aí, a confusão foi armada. Tiros voaram por todos os lados. Pedaços de madeira e pedras foram atirados por cima de todos, de modo que não se sabia mais quem estava do lado de quem.


Os três tiveram que se afastar da carruagem para entrar na batalha corpo a corpo. Juugo ganhou uma bala no ombro, e Sasuke ganhou uma de raspão no braço. Suigetsu saiu da briga sem balas, mas com o rosto inchado, com a boca ferida e o nariz quebrado. Os outros dois não estava muito diferentes, fisicamente. Juugo até recebera uma mordida na mão de um dos bandidos. Mas no fim, como eles eram mais novos, tinham mais vigor, velocidade e energia do que os outros acabaram derrubando todos eles.


Quando os três chegaram de volta ao depósito, deram de cara com três homens estranhos de pé ao lado do Kakashi. Além disso, eu estava sentado conversando com o homem, e Neji de pé ao meu lado. Nós os aguardávamos, enquanto eu movia alguns dos meus pauzinhos para atingir o Itachi, pela ameaça que o cretino havia me feito. Afinal, Neji também não ia com a cara do Itachi, e havíamos conversado sobre nossas ações por trás da mascara de bons empregados que colocávamos quando tínhamos alguma reunião com ele. Neji estava tão ansioso por derrubá-lo do topo quanto eu!


— Eu tenho um trabalho especial para vocês, meninos. — cocei a barba, sorrindo em ver o estado em que os três estavam; sujos de lama e sangue.


Notas finais
Algum comentário?
Em seguida, responderei os comentários do cap anterior.