Mercenário: reflexões sobre a morte

1 Mercenário: reflexões sobre a morte


Meu velho sargento de treinamento dizia uma frase que só fez sentido para mim algumas horas atrás. Se você fez e sobreviveu, provavelmente fez direito. Eu estava vivo. Isso significava que eu fiz direito. Significava que eu tinha cumprido o meu sonho de infância, a promessa que fiz no túmulo vazio do meu pai. Eu era um soldado. Eu era um guerreiro. E por minha lâmina, os inimigos do meu povo, do meu rei tinham caído e perecido. Mas então por que estava sentindo toda aquela agonia? Por que o meu peito se contraía, incapaz de sentir a alegria que agora se manifestava livremente em meus companheiros de armas? Por que o cheiro de sangue me revoltava as entranhas?

Afastei-me um pouco do acampamento. Aos que notaram minha presença e me interpelaram, disse que ira orar aos deuses, agradecendo a nossa vitória. Eles me conheciam, sabiam de minha história e formação, que em muitos pontos, eram a mesma história deles. Sabiam que eu era religioso e seguidor das tradições. E graças a isso não perceberam o pesar em minha voz. Afinal se percebessem não haveria mal algum: para se orar aos deuses a alegria do fim de um combate não parecia adequada. Fui até os limites do acampamento, onde começavam os restos do campo de batalha. Um batalhão de aves de rapina voava baixo no céu, esperando o momento certo de arrancar a carne e a carniça dos ossos dos inimigos mortos. Ao longe pude ver alguns grupos de recrutas em busca de sobreviventes feridos e, claro, dando cabo dos opositores sobreviventes. Era uma guerra aberta e sem limites. Não se faziam prisioneiros naquela região do mundo.

Sentei numa rocha, ao lado de uma poça de água e sangue. Poças assim estavam por todos os lados, como se uma nuvem tivesse sido ferida por uma espada e tivesse engasgado e cuspido sangue em todas as direções. A parca iluminação crepuscular dava espaço para a escuridão da noite e para as bruxuleantes luzes das fogueiras. Retirei meu elmo e olhei para ele. Era um meio elmo de couro e cobre, desenhado para proteger os olhos e as orelhas de seu portador. Tinha alguns cortes, uns arranhões e até mesmo um pequeno amassado. Mas como ela pesado e quente! Lembrei-me dele quase me sufocando no meio da batalha que passou.

Não longe de mim vi um dos oponentes. Era um rapazote como eu. Não deveria ter mais que a minha idade. Era magro e a armadura estava desajustada sobre ele. Provavelmente foi sua primeira e última batalha. O talho em seu pescoço não o matou imediatamente. Ele deve ter agonizado, sem forças, enquanto sua vida se esvaía pelo corte, por longos minutos. Seus olhos vítreos apontavam para o céu e sua boca entreaberta parecia estar esperando a conclusão de uma prece. Por que ele estava morto? Porque ela era o meu inimigo. Foi o rei do povo dele que invadiu nossas terras e forçaram o meu pai para uma guerra sem sentido. Foi o povo dele que assassinou o meu pai em campo de batalha. E era todo o seu povo, filhas e filhos, pais e mães que iam pagar cada noite de pesadelo que eu tinha tido desde que soube da notícia. Engraçado que a simples idéia de fazer um invasor do norte pagara pela morte do meu pai e de outros tantos pais de amigos meus costumava me encher de energia e coragem. Hoje, aquele pensamento parecia pequeno e sem graça. Afinal, aquele rapazote sem nome, assim como eu, deveria também ter um pai, uma mãe. Quem sabe irmãos pequenos, que vão olhar até o fim de suas vidas para a estrada a espera de uma pessoa que jamais virá. Quem sabe tivesse uma namorada que jamais vai poder deixar flores em seu túmulo. E agora estava morto, para além de qualquer redenção. Olhando aquele rapaz morto, parte de minha alma também morreu ali.

A espada em minha cintura ficou pesada de repente. Tudo o que eu queria era sair dali, largar todas aquelas ferramentas de morte e continuar correndo até esquecer quem sou. E eu teria feito isso, se não percebesse que estava cercado. Um grupo de quatro sobreviventes do exército inimigo deu um jeito de dar a volta em nossos recrutas e estava tentando fugir. Em seus olhos sedentos de sangue eu via o desejo de fugir a qualquer custo. Eles teriam de me matar para fugir. Não poderiam correr o risco de que um rapazote como eu desse o alarme. Tenho de vergonhosamente admitir que realmente pensei em deixar que eles cumprissem seu intento. Mas quando a primeira lâmina ergueu-se em minha direção o meu corpo, que ansiava por viver, agiu primeiro.

Foi um contragolpe rápido, com a minha adaga, aproveitando a brecha óbvia na defesa do inimigo. O corte foi profundo, indo do lado esquerdo do peito, passando por baixo da axila até terminar o contorno do coto do braço. O homem caiu no chão, a vida esvaindo-se pelo corte, e o braço paralisado pelos tendões cortados. Mas ele não gritou. Se gritasse, chamaria a atenção de meus colegas. E ele queria viver. Mas não viveu. Meu braço direito achou em meu cinto o cabo da minha espada e descendi sobre ele golpe fatal. Um estava morto. Três à minha volta.

Eles me rodeavam. Se não fossem bons combatentes estavam motivados a lutar por suas vidas. Que prêmio maior para um combatente? Um deles atacou, mas bloqueei com dificuldade. O segundo atacou aproveitando que estava a me flanquear. Defendi-me por pouco, o golpe resvalando nos anéis de ferro entrelaçados de minha jaqueta de couro reforçado. O terceiro hesitou. Eu não. O golpe jogou fora sua espada e enquanto ele ainda olhava para trajetória da arma perdida, ataquei novamente. A espada atravessou seu corselete de couro batido, perfurando o coração. Eu me abracei com ele, usando seu corpo como escudo. Senti sua respiração ceder um suspiro abafado e triste. Eu o larguei e com ele foi a minha espada, que deve ter ficado presa em algum lugar dentro dele. Estava quase desarmado, com mais dois oponentes com sede de sangue. Brandi minha adaga apenas para vê-la ser arrancada dolorosamente de minhas mãos com um golpe de maça. Esquivei do segundo ataque do soldado com a maça quando o outro me rasgou o ombro com um certeiro golpe de espada. Minha situação não era boa. Em poucos minutos a minha força seria totalmente drenada pelo golpe nas costas. Eu tinha de ser rápido. Firmei os pés no chão e esperei o ataque do homem com a maça. Como um relógio ele atacou. Avancei, agarrando o seu punho e golpeando o seu cotovelo com um soco forte. O som do osso quebrado foi a deixa. Tomei sua maça e desferi dois golpes nele. O primeiro o fez cair e o segundo arrancou dele parte da cabeça. Voltei-me para o último homem. Ele largou a espada começou a implorar, no indecifrável idioma dos homens do norte. Senti pena dele, mas precisava dar cabo dele. Era o meu dever. Ergui a maça e golpeei. Uma, duas, três… até que senti o cansaço tomar conta da minha vida e eu percebi que estava golpeando uma nova poça de sangue. A minha volta alguns soldados atraídos pelo som da luta. Eu desmaiei logo em seguida.

Acordei dias mais tarde, o corte quase curado. E uma nova frase de meu sargento surgiu em minha mente: matar fica mais fácil com a prática.

E terrivelmente mais saboroso.

Notas finais
Texto escrito em 2010 e revisado para publicação.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!