Mentirosos
14 Capítulo 13
Notas iniciais
June tinha todos os motivos para ficar irritada com Christian, uma vez que o rapaz lhe roubara mais um beijo, apesar de todos os seus esforços em deixar evidente o quanto ela se incomodava com atitudes arbitrárias. Entretanto, mesmo sendo difícil reconhecer, sabia que não poderia amaldiçoá-lo pelo gesto. O arrependimento que sentiria caso tivesse sido responsável por contar toda a verdade para Winter talvez fosse mais amargo do que qualquer toque de lábios.
O beijo de Christian, na verdade, lhe salvara.
Em parte.
Porque mesmo com toda sua boa intenção, Dimitri ainda sentia-se traído.
Com razão.
Em um misto de vergonha e culpa, June afastou-se de Christian e buscou se esconder no conforto dos lençóis da própria cama. Ao longe, escutou o burburinho da conversa de Winter com Dimitri e, logo em seguida, de Dimitri com Christian. Mesmo não estando no mesmo cômodo, a jovem era capaz de sentir toda a decepção que o loiro evidenciava para o amigo.
Quando todas as luzes do apartamento foram apagadas, June chegou a esperar por uma entrada furtiva de Dimitri em seu quarto, desejando que pudessem conversar sobre o que ela havia feito e, quem sabe, resolver o problema da forma como sempre faziam. Entretanto, a cada minuto que arrastava-se com uma lentidão excruciante, a garota tornava-se mais consciente do fato de que o outro não apareceria. A dor de decepcionar a pessoa que mais amava no mundo aconchegou-a, então, pelo tempo que restou até o nascer dos raios de sol do dia seguinte.
Na manhã seguinte
O peso de uma noite mal dormida caiu completamente sobre os ombros de June no momento em que ela começou a recobrar a consciência, não sendo necessário abrir os olhos para perceber o cansaço físico e mental que sentia. Uma parte de si queria que aquela percepção só houvesse lhe atingido ao levantar-se da cama, entretanto, as coisas nem sempre aconteciam da forma como os filmes hollywoodianos costumavam mostrar. O despertador acordou-a abruptamente, lhe negando possíveis horas a mais de descanso.
Ao menos, pensou com o olhar sobre a janela, está nevando.
June gostava, particularmente, das vezes em que o clima escolhia combinar com seu estado de espírito. Aquela sincronia lhe fazia sentir acolhida pelo universo, como se ele quisesse lhe dar um abraço apertado ou soprar um sussurro em que dissesse “eu compartilho da sua dor, os dias alegres e quentes serão reservados para outras manhãs”.
Um dia com neve, portanto, era como uma mão afagando suas costas. As coisas estavam ruins, mas ao menos não seria forçada a fingir uma felicidade que não sentia, poderia compartilhar a melancolia que parecia vir com a imensidão branca.
Quando saiu do quarto, a percepção de que Winter não dormira no apartamento, como havia feito durante a última semana, fez June se encolher ainda mais, sentindo uma pontada de culpa em seu estômago. O silêncio começava a lhe soar opressor, os espelhos lhe julgavam e a porta fechada de Dimitri com o aviso “não perturbe” lhe machucava.
Mas ela havia pedido por isso, não pedira? O que esperava que fosse acontecer ao contar a verdade para Winter?
A raiva de Dimitri se fazia completamente plausível dada a situação.
Com uma última olhada no aviso que pedia espaço, June caminhou para escola, decidida a passar o primeiro período de aula no conforto do terraço da Academia St. Swithin’s. Queria a solidão para refletir sobre tudo o que vinha acontecendo, para tentar compreender o porquê de Winter lhe irritar tanto. Será que havia um motivo específico? Precisava de um motivo específico?
Não sabia responder.
E talvez o fato de não saber responder, de não ter o que pensar, muito menos compreender o que a levara a fazer justamente o oposto do que Dimitri queria, talvez todos esses fatores juntos a deixava tão frustrada. E inegavelmente triste.
Era como se ela tivesse crescido muito durante todo esse tempo que pôde ter a liberdade de viver fora daquilo que sua família esperava de si, mas ao mesmo tempo, quando parava para julgar suas últimas ações, via o eco da garota que costumava ser. Aquela June que existia antes de Dimitri, a que não podia lidar com ações contrárias ao seu desejo.
Ela não deveria ter mudado? Será que a corajosa e desbravadora June só existia ao lado de outro alguém?
A jovem se negava a acreditar naquilo.
Queria a independência dos libertos, não a necessidade dos dominados.
O barulho de seus coturnos ecoou pelos degraus ocos de madeira enquanto ela subia para o andar mais alto da academia, fugindo de todas as obrigações que pudesse ter. Naquele horário, não havia o temor de que alguém a escutasse ou seguisse, porque chegara muito cedo. E, também, completou seu cérebro, achava difícil alguma presença ser capaz de fazê-la mais infeliz do que estava.
A questão era, refletiu após subir o último lance de escadas, que já fazia muito tempo que as coisas não eram da forma que costumavam ser. Antes de seu pai perder a fortuna, a jovem costumava ter muitos amigos com quem combinava viagens e compartilhava o tédio de participar de eventos beneficentes e festas de gala. Quando percorriam, ela e seus amigos, os corredores da rica escola primária que frequentava, June podia sentir o respeito e a admiração que os outros tinham por eles. Eles eram as crianças que futuramente estariam nos cargos de grande poder.
A garota crescera, então, acostumada a ter empregados para escolher sua roupa, cozinhar seu café da manhã, esconder suas mentiras e ajeitar suas bagunças. Durante boa parte da vida, vivera imersa em uma bolha de mármore, dólar, jóias e meias verdades, completamente indiferente aos sujeitos que sofriam para que seu luxo pudesse ser bancado.
Ainda não tinha a consciência da luta de classes.
Foi Dimitri que finalmente lhe tirou das amarras que a prendia na escuridão.
Com ele, pode ver um mundo através de um olhar completamente diferente de tudo aquilo que havia sido exposta. Seus pais o odiavam, mas não percebiam que o apelo do garoto era grande demais para uma jovem, tendo o seu primeiro amor, resistir. Dimitri, para além de seus sorrisos com covinhas e seus fios dourados, era a personificação da sagacidade, do mistério e da aventura. Passar um dia com o garoto parecia a experiência de uma vida inteira.
Aos poucos, para além de visitar lugares inexplorados e criticar formas consagradas no sistema político, Dimitri lhe ajudava a se conhecer. Muitas vezes ela ansiava por sair com o loiro porque aquilo significava se ver em outras situações e descobrir como seu corpo e mente lidavam com tudo. Como uma criança, ela aprendeu a se tocar, a sentir o mundo em seus diversos sons, cheiros e cores.
Tornou-se mais resistente.
Por isso, quando a maré da falência bateu com força contra a sua família, ao invés de cair como seus pais, June manteve-se de pé.
Cambaleante, aterrorizada, perplexa, mas de pé.
Perdeu amigos, viagens, hábitos e festas.
Sentia que tudo escapava de suas mãos.
Mas não perdeu nem a Dimitri, nem a si própria.
Foi duro deparar-se repentinamente com uma nova realidade onde precisava fazer tantas coisas por ela mesma, onde seus desejos já não eram atendidos com um mero estalar de dedos, onde o seu nome já não ganhava presentes luxuosos ou atendimento especial. Foi duro, realmente, mas ela conseguiu sobreviver, com Dimitri ao seu lado durante todo o processo. O loiro serviu de apoio quando aqueles que ela considerava amigos lhe viraram as costas, quandos os convites para festas deixaram de chegar, quando não pôde bancar a comida de seu restaurante preferido, quando os espaços vips lhe foram negados e quando os presentes de estilistas deixaram de aparecer em sua porta.
Ela já não era a grande June Silver, ao invés disso, tornou-se a filha de um falido empresário.
Tornara-se apenas mais uma matéria de capa que apagaria-se com os anos e seria esquecida pela sociedade.
Sem o dinheiro, já não havia mais as farsas de interesse e restavam apenas aquelas que realmente se importavam.
No caso, Dimitri.
Nesse período, June aprendeu a ser amiga de Elle, mas propositalmente fechou-se para relacionamentos profundos com outras pessoas. Apesar de ser bastante requisitada pelos estudantes da academia e ter vários daquilo que denominam como “colegas”, suas amizades se restringiam a Elle e Dimitri. Desaprendera a confiar.
Sem ter outras pessoas para compartilhar segredo e lhe servir de apoio, June percebia que talvez o que sentia por Winter fosse medo, porque ela vinha afastando Dimitri cada vez mais de si.
E talvez perder Dimitri fosse um pequeno passo de perder a si mesma. Porque talvez todo o avanço que tinha feito nos últimos anos ainda não era o suficiente para ter atingido sua tão amada liberdade, talvez sua força só resistisse por tê-lo ao seu lado.
E ela já havia perdido tanto, tanto, tanto, que não se surpreenderia se acabasse perdendo a si mesma durante esse processo.
A mera perspectiva disso lhe assustava.
Apavorava.
Durante as horas que deveria ter descansado para o segundo tempo, perdeu-se em pensamentos acerca de seu futuro. O arrependimento de suas duras palavras lhe parecia cada vez mais amargo e intragável. June afastava todo mundo e possivelmente seu destino era aquele.
Ser só.
—Trouxe seu café da manhã. -Christian falou com cautela, o rangido da escadaria velha devia ter alertado June da presença do estranho, mas ela estava tão imersa nas próprias dores que a outra presença lhe causou espanto.
—Pensei que você estivesse em aula. -respondeu baixinho, estendendo as mãos para receber o café quente.
—Eu estava, mas fiquei entediado. Será que os professores não se cansam de dar as mesmas aulas e usar sempre os mesmo exemplos? -perguntou em um revirar de olhos, dramaticamente exasperado.
June sorriu com timidez.
Às vezes Christian conseguia ser divertido.
—Obrigada. -agradeceu com sinceridade, levando o café quente aos lábios. Sentia-se um pouco melhor com aquele gesto de conforto.
—Você acordou mais cedo do que o costume. -disse, mantendo o tom da conversa ameno.
—Não consegui dormir muito bem. -June respondeu, tentando manter-se indiferente a tudo o que havia acontecido na última noite, entretanto, o leve tremor de sua voz fez-se perceptível e o peso da briga já não era capaz de ser ignorado.
—Você deveria falar com ele, sabe? — Christian comentou cautelosamente, fazendo a garota interromper o café da manhã para observá-lo.
Ele parecia verdadeiramente preocupado com toda aquela situação. Provavelmente devia estar surpreso pela primeira briga que presenciava entre os dois. June até queria poder fazer algo, mas sentia-se do mesmo modo. Não sabia agir com Dimitri, porque nunca chegaram a se irritar de forma tão perigosa.
Soltou um meio sorriso.
O vento balançava os cabelos negros dos dois, mas June sabia que só Christian conseguia tornar-se mais belo em todo o cenário melodramático. Apesar da forte irritação que sentia por ele durante todos aqueles anos, devido ao seu modo de tratar as mulheres, nunca conseguira negar a beleza do rapaz. Christian possuía uma aura que misturava calmaria e tristeza, fazendo todos os olhares voltarem-se a ele quando ele passava, no entanto, um alarme de cautela e perigo sempre soara em seu âmago, porque os olhos não eram capazes de esconder a alma. E havia um misto de amargura e inconsequência no azul de seus olhos. Seus lábios, também, brincavam de forma torta e astuciosa.
Olhar para Christian era como ver a personificação de um verso da música Suck it and See, do Arctic Monkeys. “You’ve got that face that just says baby I was made to break your heart”. Ele parecia ter nascido para partir corações.
Dimitri, pro outro lado, tinha uma beleza radiante. Com seus olhos brilhantes e sorriso largo, era capaz de fazer até a mais fria das pessoas, se apaixonar por ele. Seus discursos de liberdade encantavam qualquer um, sua perspicácia era admirada por muitos. Inclusive, os pais de June, que revezavam entre a admiração e o ódio. Se Dimitri possuísse uma considerável quantia no banco, ela sabia que a bênção do casamento já havia sido dada.
June sentiu uma pontada no coração com a mera lembrança do loiro.
—Não posso. -respondeu para Christian, incapaz de explicar o temor que sentia pela mera possibilidade de não ser perdoada por Dimitri.
Christian sentou-se ao seu lado e encostou o ombro no seu.
—Tenho certeza que vocês vão ter uma longa conversa mental e logo voltarão a se falar normalmente.
—Eu nunca vi Dimitri tão irritado assim. -admitiu, encolhendo-se com o misto de medo, tristeza e frio.
—Bem, eu já. Mas o bom da personalidade dele é que, com a mesma rapidez que se irrita, ele se acalma.
June ergueu os olhos azuis, evidenciando o desamparo que sentia. Sua alma, tempestiva e sagaz, não era acostumada ao conjunto de temores que lhe consumia. Se fosse em um outro dia, talvez tomasse mais cuidado em esconder o seu assombro, talvez não mostrasse a fragilidade para uma pessoa que não confiava tão fielmente.
Mas era inverno, estava frio e June não sentia reservas.
Ao menos não quando a possibilidade de perder Dimitri lhe assustava como a urgência de uma faca sobre sua garganta.
Christian parecia surpreso ao vê-la daquele modo.
Será que ele pensava que ela não sofria?
Sou como qualquer outra pessoa, queria dizer. Ao invés disso, manteve-se calada.
Sem dizer nada, ele passou um braço sobre o ombro de June e deu um leve aperto sobre seu ombro. Ela apreciou a intenção, sentindo-se acolhida pela tentativa muda de fazê-la sentir-se melhor.
—Ele te ama, sabe? Quando eu fui morar com vocês, ele estava tranquilo com toda a situação. Não perguntou porque eu saí de casa, ou como seria a situação do pagamento, não perguntou dos meus possíveis atos estranhos. Dimitri realmente me acolheu de braços abertos. A única coisa que ele falou para mim foi que você estava fora dos meus limites. -os olhos de Christian tentava ler o que se passava da mente de June, mas uma diversão podia ser escutada em seu tom de voz, como se a incredulidade do aviso mistura-se à surpresa. Deu de ombros. -Ele sabia de todo o meu histórico e queria se certificar que eu não faria algo com você, que eu não a machucaria como fiz com as outras. -suspirou, enfim -Depois, sei lá, isso já não era possível porque era claro o quanto não nos suportávamos.
—Eu não sabia disso. -respondeu, um esboço de sorriso escapava de seus lábios, com a tentativa de visualizar a cena da conversa.
—Há muitas coisas que você não sabe.
A neve havia começado a cair com mais força e derretia ao entrar em contato com a sua pele. June estava reconsiderando sua decisão de permanecer ali, quando Christian, mais uma vez, quebrou o silêncio.
—Você tem a intenção de assistir alguma das próximas aulas?
—Por que?
—Poderíamos assistir algum filme durante o resto desta manhã. Não quero ter que lidar com a biologia dos répteis. Eles não gostam de mim.
June assentiu minimamente, feliz por ter uma escapatória do opressivo ambiente escolar.
Fugir do cotidiano lhe faria bem.
—É melhor sairmos logo, não quero perder a próxima sessão. -ela disse, por fim.
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