Mentiras dos garotos
16 Capítulo dezesseis - Para você é Campbell.
Notas iniciais
Capitulo dezesseis
Juliet Campbell
Eu estava literalmente sem palavras. Eu, Juliet Campbell, a garota que sempre tinha palavras para tudo, até quando não era preciso, sim, essa garota. Essa tal garota que nesse momento está olhando para o resto do seu cheeseburger e se perguntando como pode ser tão estúpida.
Não tenho ideia.
Se eu fosse uma pessoa masoquista até bateria em mim mesma agora, por que além de ser idiota ao ponto de beijar o cara que eu mais odeio, trai minha melhor amiga e meus ideais, agora eu estava magoando um garoto que sempre se importou tanto comigo.
Tenho vergonha de mim mesma, posso dizer. Eu não queria beijar Blake, não queria, mas sempre que uma pessoa dúvida de mim eu fico assim, como se o mundo estivesse em pane e eu só pudesse fazê-lo voltar ao normal se aceitasse o desafio.
Odeio desafios. Vi Blake sair correndo atrás de Math e soltei um suspiro, não adiantará de nada eu falar com Math agora, ele estava de cabeça quente e provavelmente não irá querer me escutar. E afinal, Blake já estava lá.
Como eu pude ser tão estúpida?
Olhei para os lados, todas as pessoas ainda olhavam para mim e eu me senti com sorte por não conhecê-las, mas talvez, mesmo se eu conhecesse não daria a mínima de tão irritada comigo mesma que eu estava agora. O sol estava quente lá fora e eu deixei meus ombros caírem ao notar que eu havia perdido minha carona.
Isso mesmo, agora eu iria ter que voltar no sol escaldante para casa.
Eu estou cansada de mim, essa é a verdade. Ultimamente parece que eu faço tudo errado, além de ser egoísta, não ligar para os sentimentos das outras pessoas e ser a maior babaca do século. O problema é que eu sou o problema e eu sei que para isso não há solução. Mas pelo menos a geleira que eu sempre fui está se derretendo.
Prendo meu cabelo por que o calor quase me mata, o Satans School for boys não é muito longe, mas eu sempre fui preguiçosa quando se fala de andar. Suspirei mais uma vez, se eu pegasse uma insolação seria tudo culpa de Blake, ele podia ter voltado, ou pelo menos ter deixado “acidentalmente” a chave do carro comigo.
Pelo menos essa caminhada até o colégio me fez chegar a conclusão que Blake será um péssimo irmão mais velho.
Quase tive um ataque quando vi os portões fechados, já passava do horário estabelecido pelo colégio para entrar e quem ficasse do lado de fora perderia a aula. Ótimo, sem estudar e sem aula, minha vida estava perfeita. Sentei na calçada, eu iria para casa, mas antes disso precisava mostrar para Blake o quanto eu estava, realmente, irritada com ele. E que se ele aparecesse na minha frente, eu o impossibilitaria de ter filhos pelas próximas cinco gerações. Até lá, por sorte, ele já estaria morto e eu poderia dançar Sultans of Swing em cima da sua cova.
Mas pelo visto ele evitou tudo isso ao me mandar uma mensagem.
Blake (filho da mãe) Walker: Foi mal, Math não quis me ouvir e foi para casa. Espero que você não seja morta por nenhum tarado J
Essa era a desculpa dele? Ele podia pelo menos ter dito “desculpe” no final da frase, mas pelo visto aquele idiota não sabe o significado dessa palavra.
Eu: Onde é a casa dele?
Ele não demorou muito para responder, logo o celular estava vibrando na minha mão.
Blake (filho da mãe) Walker: O.o Eu não vou te dizer, vai que você é uma psicopata e quer mandar meu melhor amigo para o inferno? Ele ainda tem muitas cestas para fazer por mim.
Eu: Se eu fosse uma psicopata já teria te matado, me dê logo o endereço.
Blake (filho da mãe) Walker: Ah é, você é só louca mesmo. 8613, MALLARD RESERVE DR UNIT 201. Espero que você leve uma porta na cara.
Eu: :P
Coloquei meu celular no bolso, o endereço era um pouco longe dali e com toda certeza eu precisaria de um carro. Fui correndo para casa, tudo parecia normal e Jared, o porteiro do condomínio, nem ao menos estranhou o fato de eu ter chegado mais cedo. Entrei de fininho em casa, a chave da garagem estava atrás da porta e com sorte Frida não me...
-O que você está fazendo aqui a essa hora mocinha?
Pelo visto, a sorte não está do meu lado hoje.
-Er... Oi Frida, eu vim pegar o carro.
-Seu pai sabe disso?
Vamos lá, uma desculpa Juliet, uma desculpa.
-Ele que pediu.
-Para?
-Que interrogatório todo é esse, Frida? Você não confia em mim?
Ela riu balançando seu corpo para um lado e para o outro, o pouco cabelo grisalho que tinha estava preso em um coque e ela tinha um pano de prato – com o qual ela costumava bater em mim quando eu era pequena e comia cookies demais – pendurado nos ombros largos.
-Confiar em você Juliet? Cuido de você dês de que tem cinco anos, já entendi que não devo confiar em você.
Suspirei, Frida estava certa e era melhor eu contar a verdade. Bah, até parece que eu vou fazer isso.
-Eu preciso do carro para ir a casa de um amigo.
-Um amigo garoto?
-É.
Ela balançou a cabeça, mas deu as costas para mim e voltou para a cozinha.
-Não se esqueça de trazer de volta a chave da garagem!
Mordi meu lábio inferior e fui correndo para a garagem, entrei no meu lindo carrinho vermelho e dirigi a toda a velocidade. A chave da garagem ainda estava no meu bolso, mas ninguém iria saber por que eu voltarei até a hora do jantar, se não antes, quem sabe, vai que Math bate mesmo a porta na minha cara.
Arregalei os olhos ao passar pela avenida e entrar na rua do bairro de Math, esse é um dos bairros mais carros de Tampa e eu não conseguia entender o porquê de Math estudar em uma escola pública se ele morava em um bairro como asse. Estacionei o carro na frente da casa de número 8613, eu não conseguia ver a casa, ela estava além dos portões de ferro forjado que davam vista para um lindo jardim, a estrada para a casa dele fazia um L na vertical e eu apenas conseguia ver um pouco de uma enorme casa branca, de telhas tão novas que poderiam ter sido compradas ontem mesmo.
Suspirei apertando com força a direção. O que eu estava fazendo ali ao final das contas? O que eu era do Math? Uma amiga? Uma amiga que nem ao menos sabia que ele era extremamente rico? Vamos encarar os fatos, eu não sei nada sobre Math além do que todas as outras pessoas sabem.
Soltei a direção, ele merecia ouvir minhas desculpas, não que eu tivesse feito algo de errado contra ele, mas vamos lá, eu gosto de Math e não de magoá-lo. Desci do carro e segui até o portão, apertando o interruptor. Não demorou muito para uma voz irritante sair do aparelho.
-Quem deseja?
Engoli em seco antes de dizer, com a voz tão esganiçada como uma galinha:
-É uma amiga do Math. Juliet.
A voz não respondeu, mas o portão fez um clic e se abriu. Segui o caminho em L até a casa, ela era realmente majestosa. Com paredes cobertas por pedras calcarias e telhas de um azul profundo, era tão linda que fazia meus olhos brilharem. Minha casa era sim bonita, mas aquela ultrapassava os níveis normais das casas de Tampa.
A porta principal estava aberta e quando entrei dei de cara com uma mulher já idosa e de aparência cansada.
-Não precisa se assustar querida.
Disse ela passando as mãos pelos cabelos grisalhos, pelas roupas eu podia dizer que ela era a dona da casa. Antes que eu pudesse cumprimentá-la pelas lindas roupas e o casaco de cashmere, senti algo peludo se enrosca em minhas pernas e soltei um grito estrangulado.
-O-O que é i-isso?
A mulher soltou um sorrisinho, vindo lentamente até mim e pegando a coisa peluda com as mãos.
-Minha doninha – ela alisou o pelo daquela coisa medonha e olhou para mim – Deve estar fugindo daquele cachorro abominável.
-Você tem uma doninha de estimação?
-Claro.
Ela disse como se fosse a coisa mais normal do mundo uma família americana do estado da florida ter uma doninha peluda e obesa como animal de estimação, pelo menos se eu vir um alce por aqui não vou me abalar e sair correndo.
-Er, eu queria falar com Math.
A mulher soltou um grande suspiro.
-Claro que você quer falar com Math, que esperanças eu tinha de você ter vindo aqui para me ver? Apenas aqueles velhos chatos e carecas do grupo de idosos vêm aqui me ver, nenhum jovem, todos querem ver meu neto, mas a mim? Daqui a alguns dias vão me colocar em um asilo e...
-Vovó, está falando sozinha de novo? – uma voz perguntou brigalhona e meu coração deu um salto, Math entrou na sala e quando olhou para mim seu sorriso desmanchou como uma avalanche — Juliet?
-Oi Mathews.
Disse e a avó de Math olhou para nós dois como se estivesse assistindo uma peça de teatro.
-Vamos Donna, somos velhos demais para essa sala.
Ela disse para a doninha e saiu lentamente para fora da sala, Math seguiu-a com o olhar até não ser mais possível vê-la e então me fitou, não parecia estar com raiva e sim curioso. Ele parecia ter acabado de tomar um banho e talvez estivesse me olhando assim pelo estado lastimável das minhas roupas.
-Como descobriu onde eu moro?
-Er...
Eu estava pronta para dar qualquer desculpa esfarrapada quando uma confusão de cabelos loiros entrou correndo pela sala.
-Math meu amor! – a garota exclamou, levantei uma sobrancelha ao ver que ela usava apenas um biquine de bolinhas e um roupão, que nem ao menos estava fechado – A piscina está com uma cara ótima, eu pensei que nós pudéssemos dar um mergulho e tomar um daqueles coquetéis espetaculares que só Frank sabe fazer.
-Linda.
Pelo visto o nome dela fazia jus a pessoa que ela era, linda era pouco até. Os cabelos eram loiros e cheios, descendo em ondas macias e brilhantes por suas costas esquias. Ela era um pouco menor que Math, o rosto era inocente e doce como de uma boneca e seu olhar era simpático. O sorriso de dentes brancos, a bochecha levemente corada e a pele branca como leite. O corpo dela era tão bem feito que ela poderia ser confundida com alguma modelo da Victoria Secrets. Linda era a garota mais doce do mundo.
E eu a odiei no mesmo minuto que notei isso.
-Oh, desculpe, não havia te notado.
Levantei uma sobrancelha, segurando minha vontade de dar um tapa naquele rosto bonito por estar segurando o braço do garoto que deveria ser meu.
-Claro que não notou.
-Juliet, essa é Linda... – ele tossiu, quase como se não quisesse mais falar – minha noiva.
Curso circuito.
***
-Noiva?!
Perguntei assim que Math me deu o copo d’água. Estávamos na cozinha e Linda estava aproveitando a piscina depois de insistir por horas para Math passar protetor nas costas dela. Finalmente ela havia desistido e nos deixado a sós, sem nem ao menos desconfiar do por que de eu estar ali.
-É uma longa história.
Math disse passando a mão pelos cabelos, indeciso entre falar ou não.
-Se você não percebeu, eu já perdi minha aula mesmo.
-Você que deveria me dar explicações, não eu.
Corei e tomei mais alguns goles de água.
-Você não é meu namorado.
-É, mas se você não se lembra, o cara que você beijou tem uma, eu quero disser, namorada.
-Eu sei – disse deixando meus ombros caírem, Math pegou o copo das minhas mãos e levou-o até a pia gigantesca de mármore do outro lado da cozinha – A culpa é minha, foi eu que o beijei.
-Não vi Blake negar o beijo.
-Ele estava surpreso.
Math se virou para mim, os lábios contraídos em um sorriso.
-É mesmo difícil não beijar você.
Olhei irritada para Math, mas soltei um riso.
-Não seja bobo. Foi só uma aposta, não é como se eu tivesse apaixonada por Blake, nem nada do tipo.
-Mesmo?
-Mesmo.
Disse e aquele parecia um lindo final de novela se Math também não me devesse explicações. Olhei incerta para grande janela de vidro, lá embaixo na enorme piscina de águas azuis estava Linda passando protetor. Math seguiu meu olhar e suspirou.
-Nossas famílias sempre foram amigas, nossos pais querem que nos cassemos, mas eu nunca gostei de Linda. Namorei com ela por uns tempos, mas como eu já disse, foi uma das piores decisões da minha vida.
Mordi meu lábio inferior, incerta. Tantas coisas que eu não sabia sobre Math...
-Acho melhor eu ir embora.
-Juliet...
Soltei um pequeno sorriso e fui até Math, dando um beijo em sua bochecha.
-É Campbell para você. Nos vemos depois.
Segui para fora da casa, aquela hora eu só queria ir para casa, dormir e processar aquilo tudo. Por sorte não dei de cara com a Linda horrorosa quando sai da casa, só peguei meu carro e fui para a minha própria casa.
Quando estacionei as luzes já estavam acesas, papai com certeza ainda não estava em casa, mas Kathy já devia ter chegado. Abri a porta e coloquei a chave da garagem atrás da porta para o caso de Frida ter um ataque, subi as escadas e entrei no meu quarto, ligando as luzes.
Eu nunca fui de chorar, por isso peguei meu Ipod, coloquei a música mais melosa que eu tinha e cai na cama, pronta para passar a noite inteira me punindo com Kylie Minoque por ser tão estúpida.
Notas finais
Bem, eu tenho que ir lavar meu cabelo e parar de jogar The Legend of Zelda, então, que a sorte esteja com vocês semi-deuses!
Juro, parei.
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