Mentiras de Maio
27 Tentativa
ROMANCES MENSAIS
LIVRO V – MENTIRAS DE MAIO
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CAPÍTULO XXVII — TENTATIVA
O dia finalmente havia chegado e o nervosismo não poderia ser maior. Depois de quase duas semanas de preparativos, Barry, Ben e eu conseguimos organizar tudo o que faltava para que eu fosse capaz de encarar a garota de cabeça erguida. E é observando a paisagem da cobertura da escola, com o celular exibindo uma foto nossa na tela, sinto meu coração bater forte e ansioso. Não havia sido fácil ficar tanto tempo longe de Ally. Foi como se uma parte de mim estivesse sido arrancada a força.
Mesmo eu repetindo a mim mesma diversas vezes que aquela dor em meu peito era temporária e que se tudo desse certo, em breve Ally estaria em meus braços novamente, eu continuava a sofrer dia após dias. A minha verdadeira vontade era correr até o Hawkeye ou a sala de aula de Ben e Mal e implorar o seu perdão. Eu me sentia um idiota por ter desistido tão fácil, ao invés de ir atrás de alguma solução e agir como um verdadeiro Barton.
Respiro fundo, tentando manter calma e no mesmo instante meu celular começa a tocar. Encaro o número desconhecido com estranheza. Como uma forma de segurança, eu evitava atender ligações realizadas por números que não conheço. Geralmente essa é a forma mais comumente usada pela mídia para grampear os números de celebridades e pessoas importantes para descobrir segredos de suas vidas e os chantagear. No entanto, naquele momento, meus instintos me diziam para atender.
— Alô. — Digo, assim que levo o celular ao ouvido.
— Austin? — A voz feminina questiona docemente do outro lado da linha.
— Tia Tasha? Por que está me ligando de um número desconhecido? Você sabe que eu geralmente não atendo ligações assim. — Relembro a mulher, que dá uma risada anasalada. — E então? Me diz que você tem boas notícias para me dar.
— É claro que tenho. Quem você acha que eu sou, Menino Lua? — Brinca a mulher e eu acabo rindo, sabendo que minha pergunta havia sido patética.
Natasha Romanoff é uma das melhores agentes da CIA. Inteligente, bonita e perigosa, tia Tasha é a última pessoa que deve ser desafiada. Ela namorou com tio Clint por um pouco mais de um ano e se tornou alguém realmente importante para a família Barton. Nós sofremos bastante quando ela foi embora. E assim como sua partida repentina a dez anos atrás, logo após a morte de Sara, sem qualquer explicação, ela retornou a cidade para desvendar um caso que Barry está cuidando na delegacia de Hawkins.
O maior desejo de todos de nossa família é que tia Tasha e tio Clint voltassem a ficar juntos. Eles formavam um casal incrível e ainda é evidente o quanto ele a ama. Eu realmente sentia falta de ter toda a família reunida em volta de uma fogueira em um dos acampamentos de tio Clint, enquanto a agente do CIA contava uma das suas inúmeras histórias de combate contra o crime. Poder contatá-la depois de tanto tempo me acende a esperança de um dia ver a nossa família reunida mais uma vez, relembrando os velhos tempos.
— Certo. Me desculpe, tia Tasha. — Lamento, fazendo-a rir. — E então? O que descobriu?
— Uma história interessante sobre Gavin Young. Depois de trair a atriz Aubrey Hill com Valerie Parker, a presidente da McCann, uma das maiores agências de publicidade do país, a Aubrey decidiu processá-lo. Nesse momento, Aaron interferiu, convencendo-a a desistir de Gavin e ainda pagou um valor de quatro milhões de dólares a ela. E bom, eu consegui uma gravação de Gavin confessando que roubou as músicas de Ally para produzir o seu primeiro e segundo álbum, além de ter usado a Aubrey e Valerie para ter sucesso. Eu acabei de enviar essa gravação para a polícia e para a imprensa. Eu diria que dentro de vinte e quatro horas, Gavin vai passar de o príncipe do country para o falso Dom Juan. — Revela tia Tasha, eu não consigo evitar que um grande sorriso se forme em meus lábios. — Se tudo ocorrer como eu planejo, muito em breve ele estará falido e sendo desprezado por todas as mulheres do país.
— Como você conseguiu essa gravação? — Pergunto, animado.
— Eu... — Tia Tasha suspira, parecendo um pouco incomodada. — Clint enviou para mim.
— Tio Clint? Vocês voltaram a se falar? — Questiono sem esconder a minha esperança.
— Não. Ele entregou a uma agente especial muito próxima dele, que me deu a gravação. Parece que o colar que você deu para Ally tem um microchip que funciona como localizador e gravador de voz. Quando eles se encontraram pela última vez, Gavin contou a Ally o que aconteceu. — Responde a ruiva do outro lado da linha. — E sobre o pedido que você me fez para descobrir quem estava por trás da invasão ao Instituto Psiquiátrico McLean, eu identifiquei duas revistas importantes envolvidas, a Cheetah Beat e a Leopard Magazine. Eu investiguei as duas a fundo e descobri a relação das duas companhias em esquemas ilegais não apenas contra Ally como contra diversos artistas. Os presidentes das duas revistar terão que prestar depoimentos em um prazo de até vinte e quatro horas. Com esses escândalos, muito em breve as companhias devem fechar as portas. Eu não tenho dúvidas que agora todas as revistas de fofoca vão pensar duas vezes antes de mexerem com vocês mais uma vez. Por questão de segurança, irei colocar dois agentes meus para seguirem sua amada de maneira discreta e impedir que paparazzis voltem a persegui-la. Então agora você pode respirar aliviado. A sua garota está a salvo. Clint e eu garantiremos que vocês dois nunca mais voltem a se machucar por causa do abuso da mídia.
— Você é incrível, tia Tasha! Obrigado! Você mais uma vez apareceu quando nós mais precisávamos. — Comento, sorrindo agradecido pela mulher.
— Vocês são como minha família, Menino Lua. Eu sou uma espiã russa que trabalha para o governo norte-americano. Durante a minha vida inteira eu pensei que por não ter nenhum parente vivo e pela minha vida, eu jamais entenderia o que é fazer parte de uma família. Mas vocês e seus primos me mostraram que eu estava errada. Mesmo que não esteja tão presente em suas vidas como antes, vocês ainda são muito importantes para mim. E é por isso que eu estou sempre protegendo vocês de longe, tentando garantir sua segurança. Infelizmente, parece que todos os sobrinhos de Clint têm tendências a se envolver em problemas. Vocês podem não compartilhar o mesmo sangue, mas são incrivelmente teimosos, curiosos e inteligentes. Não conseguem aceitar um "não" como resposta quando colocam algo na cabeça. — Resmunga tia Tasha e eu tinha que concordar com ela.
— Bom, a cabeça da nossa família é o excêntrico Clint Barton e o nosso lema é "Seja teimoso e inteligente como um Barton". Não pode esperar que a gente seja muito normal. — Comento e ela bufa, fazendo com que eu risse.
— Eu acho que na verdade, no momento em que vocês nasceram, Clint implantou algum chip na cabeça de vocês para controlar suas ações. Não é possível. Até mesmo Eleven, que é a mais nova sobrinha de Clint está envolvida com Mike Wheeler, o filho do presidente do laboratório que ela foi mantida presa por anos e um dos garotos mais visado pela mídia. Eu tentei de todas as formas deixar Barry longe de um dos casos mais complicados que eu estou trabalhando, mas além dele se envolver, ainda trouxe a namorada para me deixar ainda mais preocupada. Ben também está em um relacionamento com uma garota que tem um passado complicado com um criminoso perigoso da cidade. Aaron manipulou toda a família e tudo se tornou uma bola de neve, onde foi preciso a interferência da CIA para controlar a situação. É impressionante como vocês parecem procurar problemas. — Conta, expressando toda a sua indignação. — Quando vocês vão parar de me preocupar?
— Desculpa, tia Tasha. — Lamento, sabendo o quanto ela deveria estar com os nervos à flor da pele com todos os problemas que nossa família tem a tendência de se envolver. — Eu queria dizer que os Barton vão melhorar, mas eu estaria mentindo e você é esperta demais para acreditar nisso. Mas prometo que farei tudo o que estiver ao meu alcance para não fazer você se preocupar mais comigo.
— Apenas faça Ally te perdoar e seja muito feliz, Menino Lua. — Responde tia Tasha com o tom de voz amoroso. — Eu sou a sua tia Tasha. Não importa quanto tempo passe, eu sempre irei me preocupar com você e seus primos. Então apenas me mostrem que todo o esforço que estou fazendo para garantir a segurança e felicidade de vocês não foi em vão. Seja teimoso e inteligente como um Barton e recupere a sua amada.
— Obrigada, tia Tasha. — Agradeço, sentindo-me muito mais leve e confiante para ir atrás de Ally. — Eu farei isso. Eu prometo.
— Certo. Agora, eu preciso voltar ao trabalho. Veja os noticiários a noite e aprecie a minha obra de arte. Tenho certeza de que você vai gostar de assistir os presidentes da Cheetah Beat e da Leopard Magazine serem presos e Gavin Young ser exposto na televisão. — Avisa tia Tasha, deixando-me ansioso.
Nós nos despedimos da ligação e eu não consigo evitar um sorriso agradecido. Sem que nem mesmo Barry e Ben soubessem, eu entrei em contato com tia Tasha para me ajudar a impedir que a mídia parasse de perseguir Ally, mesmo que para isso precisasse usar a força. Enquanto a agente da CIA investigava, preferi me manter afastado de Ally. Ao mesmo tempo que isso se tornou torturante, essa foi a forma que eu encontrei de não interferir nas investigações de tia Tasha.
Respiro fundo e encaro o bonito céu de Hawkins. Nesse instante, ouço a porta da cobertura se aberta. Sorrio e desvio o olhar para encarar Ben que estava na porta. Ele possuía uma expressão determinada e parecia tão ansioso quanto eu.
— Está na hora de colocarmos a Operação FADA em ação. Meu pai já convocou todos para fazer seu discurso no auditório da escola sobre o baile de formatura. Barry já chegou também. Ele está nos bastidores do auditório, montando os instrumentos. — Informa meu primo e nesse momento sinto o nervosismo e o frio na barriga aumentarem. — Você está pronto?
— Acho que sim. — Responde, aproximando-me do meu primo.
— Eu tenho certeza de que você vai se sair bem. Nós ensaiamos muito e você é Austin Moon. A música corre pelas suas veias. — Afirma Ben, passando o braço pelo meu ombro, enquanto me conduz em direção ao auditório.
— Espero mesmo que você esteja certo. — Comento, dando um fraco sorriso. Meu estômago estava se embrulhando.
A Operação Fazer Austin se Declarar para Ally ou simplesmente Operação FADA como Barry e Ben irritantemente tem chamado durante as últimas semanas era basicamente me fazer aproveitar a competição estranha da nossa escola para declarar meu amor a Ally e implorar seu perdão. Acontece que todos os anos, faltando um mês para o baile de formatura, os alunos começam a competir para ver qual garota faz o convite mais criativo para levar as garotas ao baile. Quem fizer o melhor pedido ganha um prêmio incrível do comitê de formatura no dia do baile. Eu sempre achei isso ridículo e aqui estou eu prestes a fazer uma loucura em frente a toda a escola, correndo o risco de ser punido de forma severa pelo tio Adam na esperança de ser perdoado por Ally.
Enquanto seguíamos pelos corredores da escola, é possível ver inúmeros anúncios sobre o baile que esse ano teria como tema "Baile de Máscaras". Assim que chegamos ao auditório, seguimos direto para os bastidores. Como Ben havia me informado, Barry já estava posicionado atrás das cortinas com uma bateria, o meu violão e um teclado. Vejo um rapaz ruivo, magro e alto, usando roupas extravagantes conversando com meu primo e não demoro a perceber que aquele era Dez Wade.
Eles provavelmente acertavam os últimos detalhes da apresentação surpresa que faríamos. Ele era o presidente do clube de mídia da escola, então em todos as apresentações no auditório, o ruivo fica responsável pelo som e as luzes do palco. O plano era atrapalhar o discurso de tio Adam, algo que ninguém em sã consciência faria, e cantar a canção que compus para Ally. Algo teoricamente simples, mas que eu esperava ser o bastante para mostrar a ela que eu estou disposto a lutar por nós.
— Oi. — Cumprimento Barry e Dez com um sorriso nervoso.
— Cara, isso vai ser demais! — Comenta Dez, animado.
— Obrigado por nos ajudar, Dez. — Agradeço, sorrindo com sinceridade.
— Está tudo bem. Nós somos amigos, certo? — Responde com aquele jeito maluco dele. Rio e balanço a cabeça, concordando. — Agora eu vou para a cabine de controle. Preparem-se. O diretor já deve estar chegando.
— Obrigado, Dez! — Agradece Barry, acenando para o ruivo, que sai apressado. Meu primo então se vira para nós e sorri animado. — Prontos?
— Não. — Digo ao mesmo tempo em que Ben afirmava que estava. Eles me encaram entediados. — Eu não sei.
— Bom, então trate de se preparar, porque Evie acabou de me avisar que meu pai chegou. — Responde Ben, olhando em seu celular. Arfo, surpreso. — Está bem. Vamos repassar o plano. Meu pai vai subir no palco agora. Quando ele começar o discurso, Dez vai silenciar o microfone dele e você invade o palco, começando a falar com o pessoal. Nesse momento, eu levo meu pai para o canto do palco e tento o convencer a não te atrapalhar. Você começa a cantar, eu vou para a bateria e ao fim da apresentação, você implora o perdão da Ally.
— Certo. — Concorda Barry, entregando o microfone que eu usaria. Coloco em meu ouvido e preparo o violão.
E não demora muito para que tio Adam subisse no palco. O silêncio se faz presente na plateia. Todos temiam despertar a fúria do diretor conhecido como A Fera. No mesmo instante assumimos nossa posição no canto do palco. O diretor inicia seu discurso e segundos depois seu microfone para de funcionar. Ele tenta fazê-lo voltar, mas nada parece surtir efeito.
— Bom dia, Auradon! Sejam bem-vindos ao melhor convite de suas vidas. — Anuncio, entrando no palco junto com Ben, que imediatamente empurra o pai para o outro canto do palco. Paro de frente para a plateia e a minha voz parece sumir. As cortinas se abrem, revelando Barry no teclado e a bateria que Ben tocaria. Permaneço em silêncio por alguns minutos com a mente em branco, sem lembrar do que eu deveria dizer.
Essa era a primeira vez que me sentia tão nervoso em cima de um palco. A escola me encarava com curiosidade. Tio Adam não parecia muito feliz pela interrupção, mas Ben parecia ter convencido o pai de que aquilo era importante. Olho para meu primo, que sorria, tentando transmitir toda a confiança que eu não tinha naquele momento. Desvio o olhar para Barry sentado no teclado, que parecia questionar a minha demora em começar a cantar.
Eu estava tão inseguro que havia me esquecido até mesmo de quais cordas eu deveria tocar no violão para começar a música. Barry faz sinal para Ben, que notando que eu estava hesitante, suspira e sussurra algo para o pai antes de se aproximar. Os alunos já murmuravam, estranhando meu comportamento, sem entender o que eu estava fazendo.
— O que foi? Por que não está cantando? — Pergunta Ben, assim que me alcança no palco. Meu nervosismo é quase palpável. — Essa é a sua chance. Não vou conseguir segurar meu pai por muito tempo.
— E se ela não me desculpar? — Questiono, quase em pânico. Ben suspira mais uma vez e coloca a mão em meu ombro.
— Ao menos você tentou. A Ally te ama, Austin. Se você colocar toda sua sinceridade nessa canção, eu tenho certeza de que ela vai entender. E se ela não te ouvir ou não entender, nós mudamos a tática. Enquanto você não desistir, ainda haverá uma esperança. Então respira fundo e faça o que você sabe fazer de melhor. — Aconselha Ben, sorrindo com compaixão. Sorrio para meu primo, sentindo-me muito mais calmo.
— Obrigado. — Agradeço e assim como ele havia dito, respiro fundo tentando me recompor. Eu precisava manter a calma ou todo o esforço de meus primos terá sido em vão.
Ben faz sinal para Barry, como se avisasse que eu estava pronto. Ele então dá dois tapas encorajadores em meu ombro antes de voltar para o canto do palco, escondido ao lado de tio Adam. Ele fala algo para o pai e corre para a bateria. Respiro fundo mais uma vez de olhos fechados, procurando toda a minha coragem. Engulo todas os meus medos e finalmente me sinto pronto.
Encaro a plateia que me observava com curiosidade e em meio a enorme quantidade de alunos presentes no auditório da escola, eu a encontro. Seus olhos cor de chocolate ainda possuíam a mesma doçura e calor. Ela ainda possuía a mesma beleza e o encanto angelical de semanas atrás. E mesmo assim, eu continuava a me perder em cada detalhe de Ally. Ela continuava sendo a única mulher que me causava tanto medo e coragem. Tudo ao mesmo tempo. Eu precisava a ter de volta, custe o que custar.
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