ROMANCES MENSAIS

LIVRO V – MENTIRAS DE MAIO

CAPÍTULO II — PROPOSTA

— Meninas, está na hora de irmos. — Aviso as dançarinas na porta do camarim, pronta para a primeira apresentação da noite, usando minha peruca loira com quadrados rosas. As seis dançarinas da noite fazem os últimos ajustes de suas personagens. Em poucos minutos iniciaríamos a apresentação da noite.

Observo meu visual no espelho também. Tudo precisava estar perfeito. A roupa da noite era calça suplex cirrê e collant de manga longa pretos com tachas douradas sobre os ombros e botas cano curto de salto alto fino. Sorrio, satisfeita com o visual. No Hawkeye, eu não sou a tímida e invisível Ally Dawson. Com peruca e maquiagem extravagante de minha personagem, eu me transformo em Roxy Rocket, a confiante e sensual cantora principal das Beauty Swans.

As Beauty Swans são o grupo de dança que o dono do Hawkeye, Clint Barton, criou para entreter os clientes da casa de shows. Como trabalhamos por escala, cada noite temos dançarinas diferentes e cantoras diferentes, sempre com a formação de seis dançarinas e uma cantora no centro da apresentação. Fora dos palcos, todas as setes assumem o papel de garçonetes do Hawkeye. Realizamos três apresentações de dança diferentes todas as noites e o restante da noite o DJ assume o controle da pista de dança.

Eu sempre me impressionava com o talento das meninas. Para alguém sem talento algum para dança como eu, aprender três coreografias distintas em dois dias era surreal. Por causa da minha incapacidade de mover meu corpo de maneira sensual ou reproduzir qualquer coreografia minimamente parecida com uma dança, eu basicamente canto e interajo com o público, enquanto as estrelas da noite encantam a todos com o seu carisma, expressões sedutoras e movimentos de tirar o fôlego.

A energia do salão era contagiante. Mesmo nos bastidores do palco, era possível sentir e ouvir a animação do público, que dançava, gritava e cantava, divertindo-se ao som de Dallas, o DJ da noite. Mesmo sendo segunda-feira, a casa estava cheia. Não era de se esperar menos. Não importa qual dia da semana ou o horário que seja, a melhor e mais badalada casa burlesca da cidade nunca está vazia, para a minha felicidade e a de todas as integrantes do Beauty Swans.

Sob as orientações de Heather, a coreógrafa do grupo, nós subimos palco e cada uma de nós segue para a sua posição. Enquanto as meninas se preparam em suas cadeiras para realizar a primeira Chair Dance da noite, eu coloco os protetores auriculares e pego o microfone sem fio que Heather estende para mim.

Respiro fundo e aqueço minha garganta pela última vez antes de encarar Dallas e fazer o sinal, indicando que eu estava pronta. Ele sorri e assente, diminuindo o som até que parasse. O público reclama, mas ao ver as luzes da casa burlesca apontarem para as cortinas vermelhas que escondiam o gigantesco palco, eles se calam. Todos sabiam o que aquilo significava e a expectativa do público era quase palpável.

— Senhoras e senhores, com vocês, Beauty Swans! — Anuncia Dallas, animando a plateia.

As cortinas se abrem, a iluminação do palco diminui e a melodia de Earned It de The Weeknd se inicia, deixando o ambiente ainda mais envolvente. A plataforma onde estou posicionada começa a subir, completamente iluminada com uma forte luz branca. As dançarinas fazem os primeiros movimentos de sua coreografia e aquele é o sinal de que devo iniciar a minha apresentação.

I'mma care for you (Vou cuidar de você)

I'mma care for you, you, you, you (Vou cuidar de você, você, você, você)

You make it look like it's magic (Você faz parecer que é mágica)

'Cause I see nobody, nobody but you, you, you (Porque eu não vejo mais ninguém, ninguém além de você, você, você)

I'm never confused, hey, hey (Nunca fico confuso, hey, hey)

And I'm so used to being used (E eu estou tão acostumado a ser usado)

Como ensaiado, deixo-me ser envolvida pela música, entregando-me por inteira a cada verso da canção. Mesmo não levando o menor jeito para a dança, utilizo todo o meu espaço para atrair a atenção do público e transmitir toda aquela confiança que eu só possuía em cima do palco. Eles vibram, encantados com toda a magia daquela apresentação.

So I love when you call unexpected (Então eu amo quando você liga de surpresa)

'Cause I hate when the moment's expected (Porque eu odeio quando o momento é previsível)

So I'mma care for you, you, you (Então vou cuidar de você, você, você)

I'mma care for you, you, you, you, yeah (Vou cuidar de você, você, você, você, sim)

'Cause, girl, you're perfect (Porque, garota, você é perfeita)

You're always worth it (Você sempre vale a pena)

And you deserve it (E você merece)

The way you work it (A maneira como você lida com isso)

'Cause, girl, you earned it (Pois, garota, você mereceu)

Girl, you earned it, yeah (Garota, você mereceu, yeah)

Mais gritos e aplausos tomam conta do lugar quando as dançarinas elaboram um movimento mais complicado. Sinto toda a adrenalina correr pelas minhas veias ao encarar do alto os rostos embasbacados do público. Era como se eles estivessem hipnotizados. Aquilo me dava ainda mais inspiração para cantar. Eu amava aquela sensação e toda a diversão presente nos olhos de todos que nos assistiam. Não importava gênero ou idade, todos pareciam se envolver com a apresentação e se apaixonar por todo o nosso trabalho duro.

You know our love would be tragic (Você sabe que nosso amor seria trágico)

So you don't pay it, don't pay it no mind, mind, mind (Então você nem dá, nem dá atenção, atenção, atenção)

We live with no lies, hey hey (Nós vivemos sem mentiras, hey hey)

You're my favorite kind of night (Você é o meu tipo de noite preferido)

So I love when you call unexpected (Então eu amo quando você liga de surpresa)

'Cause I hate when the moment's expected (Porque eu odeio quando o momento é previsível)

So I'mma care for you, you, you (Então vou cuidar de você, você, você)

I'mma care for you, you, you, you, yeah (Vou cuidar de você, você, você, você, sim)

Não consigo evitar o sorriso ao ouvir os aplausos e os gritos pelo meu nome artístico dos clientes mais frequentes. Apesar de ser uma casa show, o Hawkeye tem essa aura familiar. Por isso, todas nós do Beauty Swans amamos trabalhar nesse lugar e damos nosso melhor em cada apresentação. Essa é a nossa forma de retribuir o amor que recebemos.

'Cause, girl, you're perfect (Porque, garota, você é perfeita)

You're always worth it (Você sempre vale a pena)

And you deserve it (E você merece)

The way you work it (A maneira como você lida com isso)

'Cause, girl, you earned it (Pois, garota, você mereceu)

Girl, you earned it, yeah (Garota, você mereceu, yeah)

Quando a canção e a coreografia terminam, minha plataforma volta a posição inicial. Nós nos reunimos de mãos dadas e reverenciamos, agradecendo ao público. As pessoas gritavam e pediam para que nos apresentássemos mais uma vez. Sorrimos e descemos do palco, acenando. Havíamos feito uma apresentação incrível.

Descemos do palco pela parte da frente, onde recebemos as bandejas das mãos de Black que usava máscara preta, roupas da mesma cor e a letra "B" na cor dourada estampada em seu peito em seu típico traje extravagante. Cumprimentamos alguns clientes frequentes no Hawkeye, que nos parabenizavam pela excelente performance. Ainda apresentaríamos mais duas coreografias Chair Dance na noite e pela primeira apresentação, eu não tinha dúvidas que as pessoas ficariam para assistirem as outras.

Seguimos para o balcão onde Mon-El, o gerente do Hawkeye, devidamente caracterizado como Lar Gand, seu nome artístico, preparava os drinks com todo o seu talento como bartender. Levaríamos os pedidos feitos durante a apresentação para as mesas, como de costume. No entanto, para a minha surpresa e desespero, encontro os dois alunos populares da minha escola, Benjamin Florian e Austin Moon no balcão, encarando-nos com admiração. Havia um terceiro garoto que estava com eles, que reconheço como Barry Allen, primo de Elena Gilbert, uma das dançarinas dos Beauty Swans e uma de minhas amigas do lugar.

Barry se levanta de uma vez e vejo Cait Snow, mais uma de minhas melhores amigas e líder das dançarinas prender a respiração e ficar tensa. O ambiente entre nós fica um pouco estranho. Austin me encarava intensamente e eu esperava que ele não me reconhecesse. Quer dizer, nós nunca conversamos antes e eu estava muito diferente do que geralmente aparento na escola.

— Cait? — Sussurra Barry, reconhecendo a colega e parceira do projeto que eles estão fazendo para a faculdade. Eu não conhecia muito de Barry, mas pelo que eu sabia, Cait sempre teve medo de que ele descobrisse que ela trabalha no Hawkeye e acabasse espalhando para a faculdade, ainda que Elena garantisse que o primo jamais faria algo assim.

— Merda. — Responde Cait, virando de costas para ele. A garota com a peruca branca encara Elena com desespero. — Você precisa assumir o meu lugar.

— O quê? Por quê? O que aconteceu? — Pergunta Elena, mas ao olhar para o balcão, logo entende o que acontecia com a amiga. — Bom, ele está vindo.

— Droga. — Resmunga Cait, começando a correr para o meio dos clientes que já haviam voltado para a pista de dança, enquanto ia em direção à área de funcionários.

— Cait! Espera! Nós precisamos conversar. — Pede Barry, pegado no braço de Cait para impedir que ela continuasse sua fuga. — Por favor.

— É melhor deixá-los sozinhos e voltarmos ao trabalho. — Sugere Elena, dando um suspiro cansado. — Eu tenho a impressão de que teremos que substituir a Cait por muito tempo.

— Sim. — Concordo, indo em direção ao balcão com Elena, Susan, Wanda, Emma e Gwen para pegar os pedidos e servir os clientes.

Evito ao máximo olhar na direção de meus colegas de escola. Eu sabia que as chances deles me reconhecerem era alta, mas eu precisava manter a calma. Se eu começasse a agir com naturalidade, talvez eles apenas me achassem parecida com a estranha e desajustada Ally Dawson da escola. Na verdade, como eu não sou o exemplo de popularidade como eles por ser apenas uma bolsista pobre, é capaz deles até mesmo não saberem o meu nome.

— Ally Dawson? — Questiona Benjamin, assim que chego ao balcão. Prendo minha respiração e evito olhar para o filho do diretor da Auradon High School. Talvez assim ele apenas achasse que havia se confundindo. — Você tem razão, Austin. É ela mesmo. Uau! Que surpresa encontrar você aqui. Sua voz é incrível. Eu fiquei arrepiado com a sua apresentação.

— Obrigada. — Agradeço, timidamente. Nesse instante, encontro os olhos castanhos de Austin sobre mim. Eles eram intensos e pareciam ler a minha alma. Engulo em seco. Por algum motivo, eu me sentia nervosa pela forma como ele me encarava. Eu me sentia totalmente exposta e vulnerável. — Bom, eu preciso voltar ao trabalho.

— Ah, claro. — Concorda Benjamin, sorrindo de maneira simpática.

— Roxy, poderia levar essas bebidas a mesa quatro? — Pergunta Mon-El, aparecendo com dois drinks coloridos que ele havia feito. Ao notar que os dois jovens me encaravam intensamente, ele lança um olhar intimidador a eles. — E vocês dois, nada de incomodar as garotas. Aliás, onde foi o pirralho mais velho? Ele estava aqui agorinha.

— Ele reconheceu a Cait e foi tentar conversar com ela. Acho que seus conselhos surtiram efeito. — Responde Austin e novamente seus olhos caem sobre mim.

Assustada, apenas coloco os drinks em minha bandeja e saio para atender o pedido que Mon-El havia me passado. Eu precisava focar minha mente e voltar ao trabalho. Austin e Benjamin são apenas mais um dos clientes da noite. Não importa se eles são da minha escola, tudo o que eu preciso fazer é sorrir, levantar a cabeça e dar o meu melhor, como minha mãe me ensinou.

No entanto, assim que termino de servir a mesa quatro, quando me viro para atender uma mesa que havia me chamado, encontro Austin mais próximo de mim do que eu esperava. Prendo minha respiração mais uma vez e sinto que meu coração poderia sair pela boca a qualquer momento, tanto pelo susto quanto pela proximidade do lindo rapaz. Por alguns instantes, tudo o que fazemos é nos encarar sem dizer nada. Seus olhos castanhos, mesmo no escuro da casa de show, brilhavam com tanta intensidade que me hipnotizavam.

— Ally, eu sei que está ocupada, mas será que podemos conversar? — Pergunta o garoto, parecendo hesitante. Seus olhos transmitiam todo o nervosismo dele e de alguma forma, eu acabo me sentindo ainda mais inquieta.

— Roxy! — Ouço o chamado de um dos clientes que estava na mesa ao lado e acabo me despertando. Rapidamente, afasto-me de Austin e, com muita dificuldade, desvio o olhar para encarar o homem que me chamava.

— Sim? — Respondo, sorrindo com simpatia ainda alternando o olhar entre Austin e o cliente, que logo reconheci como um dos jovens que vem com bastante frequência ao Hawkeye. — Como eu posso te ajudar hoje, Larry?

— Ah, você é sempre tão incrível. Ainda me surpreendo em como sempre lembra do nome de todos os clientes do Hawkeye. — Comenta o homem, sorrindo. — A apresentação de vocês hoje foi realmente espetacular. Sua voz doce sempre me deixa encantando.

— Muito obrigada. Você é muito gentil. — Agradeço, sentindo-me realmente feliz por ele ter gostado. — E qual será o pedido do dia? Drink de abacaxi com hortelã?

— Você sempre sabe o que eu quero. Talvez eu deva me casar com você. — Galanteia Larry e eu acabo rindo um pouco sem graça.

— Infelizmente terei que recusar a oferta, mas seu drink estará pronto em dez minutos. — Aviso, pegando a comanda para anotar o pedido do rapaz.

— Obrigado. — Agradece, dando um sorriso compreensível. Pelo seu olhar, eu sabia que ele não insistiria mais na proposta.

Essa era outra coisa que eu gostava no Hawkeye. Apesar de sempre ter um ou outro engraçadinho que tentava ultrapassar a linha com as garçonetes, no geral, todos os clientes são sempre muito gentis e compreensivos. Eles também não medem esforços para nos proteger. Mesmo estando a pouco tempo aqui, já perdi as contas de quantas vezes vi clientes enfrentando os forasteiros quando desrespeitavam qualquer uma das dançarinas.

Assim que me viro novamente, noto que Austin continuava próximo de mim e acabo suspirando. Sem realmente saber o que deveria fazer, pego no braço do rapaz e o conduzo por entre as mesas, cumprimentando alguns outros clientes e agradecendo aos elogios que recebia pela recente apresentação. Paro no balcão, onde Ben bebia seu refrigerante com uma expressão nada agradável. Faço sinal para Mon-El que se aproxima, assim que termina de entregar uma bebida a uma cliente.

— Algum problema, Roxy? — Pergunta Mon-El, encarando Austin com uma expressão um pouco ameaçadora. — Austin está te incomodando?

— Eu só queria conversar com ela. — Resmunga Austin, como uma criança tímida.

— Ele não está me incomodando. Eu só... — Suspiro, encarando o rapaz, que se encolhe levemente. — O Larry pediu a bebida de sempre. Ele está na mesa doze. Poderia pedir para uma das meninas levar para ele? Eu vou conversar com o Austin na sala de descanso.

— Tudo bem. Mas não demore. A Cait saiu e sem você, ficamos com pouca mão de obra por aqui. — Orienta o gerente, sorrindo compreensível. Ele então encara Austin como um pai ciumento. — Eu não sei o que você tem em mente, mas é melhor não a envolver. Ally é uma boa menina que já tem problemas demais para lidar. Se aprontar qualquer coisa com ela, no lugar de Clint, eu mesmo vou dar o seu castigo. Você entendeu, Austin?

— Sim, tio Mike. — Concorda Austin, parecendo nervoso.

— Só quero lembrar que você e Barry fizeram uma promessa para mim e não estão cumprindo com ela. — Resmunga Ben, voltando a beber o refrigerante dele de maneira mal-humorada. Era até engraçado como ele se parecia com uma criança naquele momento.

— Eu prometo que vou compensar e será muito rápido. Logo, logo eu estarei de volta. — Garante Austin, dando um sorriso sem graça para o amigo, que bufa e assente, concordando.

— Certo. Vamos lá. Eu realmente preciso voltar ao trabalho. — Afirmo, puxando o pulso de Austin até chegarmos à área destinada apenas a funcionários.

Uso minha digital para abrir a porta e conduzo o rapaz pela escada até a sala de descanso. Suspiro aliviada com o silêncio que se fazia naquele lugar e como estava fresco. Austin encara a tudo, curioso com cada detalhe daquela sala. Observo o rapaz, um pouco incerta sobre como deveria reagir. Por fim, decido que era melhor começar pela parte que mais me surpreendeu naquela noite.

— Como você descobriu que era eu? Quer dizer, na escola eu sou praticamente invisível. E aqui eu estou completamente diferente. Tanto em aparência quanto em personalidade. — Comento, sentando-me no sofá de descanso. Austin me encara e parece pensar por um momento.

— Você só colocou uma peruca e está com mais maquiagem. — Conta, sentando-se no outro sofá. — Na verdade o que me surpreende é descobrir que você trabalha aqui, ainda estando no ensino médio. Imaginei que você tivesse dezesseis anos.

— Dezoito. — Corrijo e dou de ombros. — E esse é um excelente lugar para trabalhar. Tanto os clientes quanto os funcionários são ótimas pessoas, posso treinar a minha música, o salário é bom o bastante para me ajudar a pagar todas as contas, sem atrapalhar os meus estudos. É um pouco cansativo trabalhar de noite, mas é por escala, então não é todo dia.

— Seus pais não recebem bem no trabalho deles? — Pergunta o loiro com curiosidade.

— Minha mãe morreu quando era criança e meu pai levou um tiro na cabeça quando ainda estava no exército. Milagrosamente ele conseguiu sobreviver, mas ficou com sequelas graves. Ele perdeu grande parte da capacidade motora dele e da fala. Por causa disso, ele acabou sendo aposentado. Como eu não tenho contato com nenhum outro parente e moro sozinha, eu basicamente preciso trabalhar para me sustentar e conseguir pagar o tratamento do meu pai. — Conto e Austin parece arrependido pela pergunta feita. Sorrio para o garoto, tentando tranquilizá-lo. — Está tudo bem. O importante é que meu pai está vivo e eu tenho certeza de que com o tratamento que ele está fazendo, logo ele voltará a ser o homem ativo e extrovertido que ele era.

— Ally, eu realmente sinto muito. — Afirma Austin e ele parecia estar sendo sincero. Sorrio agradecida. — Não deve ser fácil para você ter que lidar com essa situação.

— Não é tão ruim quanto parece. Assim que eu completei dezoito anos, eu fui convidada por Clint a trabalhar aqui no Hawkeye como garçonete e cantora das Beauty Swans. Eu estou muito feliz por ter encontrado um ambiente de trabalho tão tranquilo, divertido e que paga muito bem. Esse último detalhe com certeza fez toda a diferença em minha vida. Com meu pai piorando seu estado de saúde, seus remédios se tornam cada vez mais caros. Seu salário da aposentadoria sozinho não dava para pagar as contas de casa, o hospital psiquiátrico onde ele está internado, seus medicamentos de alto controle e todos os outros aparelhos e acessórios que ele precisa que são pagos por fora, eu não tive escolha além de sair em busca de um emprego.

"O grande problema foi encontrar algum lugar que aceitasse uma estudante do ensino médio que pagasse bem e que pudesse trabalhar no período da noite, já que de manhã eu estou na escola e a tarde cuido do meu pai e faço alguns bicos como faxineira em algumas grandes empresas para conseguir pagar todas as contas. Graças ao salário do Hawkeye, eu consegui diminuir a minha carga horário de trabalho e a quantidade de bicos que faço." — Conto ele abre e fecha a boca várias vezes, parecendo não saber ao certo como reagir. — Além disso, por causa dos amigos que fiz aqui, dos meus vizinhos e dos meus amigos na escola, eu não me sinto tão sozinha quando você deve estar imaginando.

— Você é mesmo incrível. Eu sempre te vi andando com Trish, Dez e Mal na escola, mas nunca pensei que você pudesse ter uma história de vida tão complicada. — Sussurra o garoto, encarando o teto da sala de descanso com um olhar distante. — De repente, os meus problemas parecem bem bobos se comparados aos seus.

— Está tudo bem? — Pergunto, preocupada. De alguma forma, aquela última frase havia soado depressiva demais para o rapaz que estava sempre com um sorriso no rosto quando estava andando com Ben pela escola e das vezes que eu o vi conversar com Mal.

— Está. Eu acho. — Responde, dando um fraco sorriso enquanto me encara. — Tio Mike tem razão. Eu não posso envolver você em meus problemas.

— Você disse que queria conversar comigo. Sobre o que você queria conversar? — Questiono, tentando incentivar o rapaz a falar. Eu estava morrendo de curiosidade para saber o que o rico e misterioso Austin Moon queria comigo desde a hora que ele pediu para conversar. Agora, diante de suas reações e principalmente de sua hesitação enquanto me encara, a minha curiosidade parecia triplicar de intensidade.

Austin permanece em silêncio por um tempo, como se estivesse ponderando suas escolhas. A falta de respostas estava começando a me deixar ansiosa. Ele então suspira. Talvez as palavras de Mon-El ainda ecoassem em sua cabeça, incomodando-o a ponto de não saber se deveria me contar o que realmente gostaria de conversar comigo ou não.

— Você é bonita, educada, gentil, inteligente e extremamente talentosa. Está sempre sorrindo e as pessoas parecem te amar. Mesmo você supostamente sendo tímida, parece ter muita facilidade em fazer amizades e apesar de todas as dificuldades, está dando tudo de si. — Responde Austin, surpreendendo-me com os elogios repentinos. — Apenas pensei que você seria perfeita para ser a minha namorada de mentira.