Mentiras de Maio
14 Ameaça
ROMANCES MENSAIS
LIVRO V – MENTIRAS DE MAIO
CAPÍTULO XIII – AMEAÇA
A ilha Thunderbolts de longe é um dos lugares mais bonitos em que eu já estive. Não importa quantas vezes eu visite a ilha, todas as vezes que eu encarava o mar de águas cristalinas, a areia branca e a linda vegetação que rodeava toda a cidade, eu me sentia em paz e nostálgico. As lembranças invadem a minha mente e tudo o que consigo fazer é sorrir e aproveitar o ar puro e relaxante desse paraíso.
Para mim, essa ilha significava lembranças familiares. Nesse lugar, criei memórias únicas e especiais com tio Clint, meus pais, tios e primos. Foi nessa ilha que eu dei o meu primeiro beijo, que eu aprendi a nadar e a surfar e que tive o meu primeiro contato com a música. Ter Ally ao meu lado durante essa semana que tinha tudo para ser a pior da minha vida, tornou esse lugar ainda mais especial para mim.
Com os dois cocos em mãos, suspiro e acabo rindo de minha idiotice. Ao mesmo tempo em que busco formas de ver novos lados de Ally e descobrir como ela agiria em determinadas situações, eu ainda era incapaz de me manter indiferente a presença dela. Não havia sido fácil manter o controle de meu corpo, enquanto nos beijávamos de maneira intensa na praia e sentir seu corpo tão próximo ao meu na cama daquele quarto sem poder tocá-la também havia sido uma verdadeira prova de resistência.
Perto dela, eu me sentia uma criança inexperiente, que vivia sua primeira paixão. Estar com Ally é como andar em uma montanha-russa de sentimentos, apaixonando-se por sua personalidade doce, determinação e força, para em seguida estar completamente entregue ao desejo e a tentação ao sentir seus lábios carnudos e suas mãos pequenas mãos deslizarem as unhas pelos pontos sensíveis de meu pescoço. Tudo sempre em uma intensidade inexplicável.
Saindo do quiosque que havia próximo a pousada, respiro fundo algumas vezes para tentar colocar minha mente no lugar. O dia nem mesmo havia começado e somente a imagem de Ally de biquíni havia sido o bastante para me fazer ter pensamentos inapropriados. Em poucas horas minha família inteira estará na praia e eu não posso continuar agindo como um maldito pré-adolescente que não consegue controlar seus hormônios
E é com esse pensamento que decido voltar para o local onde havia deixado Ally, no entanto, para a minha infelicidade, Aaron aparece na minha frente com seu sorriso debochado. Tento passar por ele e ignorar sua presença, mas é claro que não seria tão fácil assim. Meu irmão mais velho se coloca na minha frente e vai para os mesmos lados que eu ia, apenas para me provocar.
— O que você quer comigo dessa vez, Aaron? — Pergunto, frustrado. — Será que dá para fingir que eu não existo e desaparecer daqui?
— E qual seria a graça disso? — Responde, retirando os óculos de sol que usava. Seus olhos me encaram com ironia e eu sentia vontade de enfiar aqueles dois cocos em minha mão na garganta dele. — Além disso, eu vim apenas te cumprimentar o meu doce irmãozinho.
— Me poupe das suas farsas, Aaron. Já não basta você ter engravidado a Brooke e se casar com ela? Isso não deveria ser o suficiente? O que mais você quer de mim? — Questiono, cansado. Essa minha briga com Aaron já havia saturado. Eu só queria viver em paz.
— Eu quero a presidência do IU Health Methodist Hospital. Não é óbvio? — Fala, aproximando-se de maneira traiçoeira de mim.
— Se quer tanto isso, peça ao vovô Richard. Eu não possuo controle algum sobre o hospital. Eu nem mesmo queria estar nessa disputa idiota. Então o convença que você merece a droga da presidência daquele lugar e seja feliz com sua esposa e filho. — Respondo, encarando-o com ironia. Eu sinceramente não estava mais com paciência para entrar nos joguinhos de Aaron. — Vocês se merecem e foram feitos para ficarem juntos. São as pessoas mais traiçoeiras, cruéis, gananciosos e covardes que eu conheço.
— Como será que você vai ficar quando eu conquistar a sua doce Ally? Acho que farei questão de gravar um vídeo dela gemendo o meu nome, quando eu a comer tão facilmente como eu fiz com a cadela da sua amada Brooke. — Comenta Aaron e isso é o bastante para me enfurecer. Jogo os cocos no chão e dou um soco no babaca, que cai rindo.
— Lava a merda da sua boca para falar da Ally. Ela não é como a desgraçada da sua futura esposa. — Digo, sentindo meu corpo inteiro em chamas pela raiva que eu sentia. Aaron ri ainda mais, levantando-se. Ele limpa o sangue que escorria de seu nariz e sorri. Aquilo com certeza me deixaria encrencado com meus pais, mas eu não me importava.
— O quê? Ela é diferente? — Pergunta Aaron, rindo ainda mais. — Ela é só mais uma vadia que se vendeu facilmente depois de receber a sua proposta de bancar o tratamento do pai dela. Acha mesmo que ela está apaixonada por você? Logo você? Ela só está interessada no seu dinheiro, assim como todos que se aproximam de você.
— Eu já falei para você não falar dela! — Grito e avanço para cima de Aaron.
A fúria me consumia a cada soco dado em meu irmão mais velho. Ele nem mesmo fazia questão de se defender e isso me ensandecia ainda mais. Tudo o que eu desejava era acabar com aquele sorriso irônico que ele continuava a exibir mesmo eu o socando diversas vezes. Em algum momento, quando eu começava a perder as minhas energias, Aaron soca o meu estômago e aproveitando que eu havia me afastado com falta de ar, ele me empurra.
Aaron se levanta com o rosto completamente machucado. Ele cospe o sangue que estava em sua boca e parece ter dificuldade para se manter de pé. Seu nariz sangrava, havia um corte em sua sobrancelha direita e as bochechas estavam vermelhas. Eu tinha certeza de que acabariam ficando roxas. Meu irmão mais velho me encara com aquele maldito olhar superior, que me intimidava mesmo ele estando tão ferido.
— Ally... ela nunca... cairia em suas... armações. — Respondo, deitado no chão, ainda respirando com dificuldade. — E você...sabe disso.
— É... Merda! Você realmente... bateu forte. — Resmunga Aaron, mexendo no próprio queixo com cuidado. Ele me encara com um sorriso doloroso, mas era evidente o quanto estava satisfeito pelo que eu havia feito. Isso com certeza me traria graves consequências. Não apenas com meus pais como eu provavelmente teria que lidar com as interferências de meus avós maternos. — Pode ser verdade o que você diz, mas eu não sei se você pode dizer o mesmo de Gavin Young.
Levanto-me com dificuldade e encaro o babaca do meu irmão mais velho, tentando entender o motivo dele estar falando sobre o famoso cantor de country, Gavin Young. Aaron ri e resmunga em seguida, sentindo as dores dos socos que eu havia dado. Eu poderia acabar me encrencando gravemente com a família, mas eu não me arrependo nenhum pouco de destruir a cara desse maldito. Aquilo com certeza valeu a pena.
— Por que eu... iria me preocupar com um cantor... country? — Pergunto, levantando-me com dificuldade. O único soco dado pelo desgraçado do meu irmão havia doído muito mais do que deveria. Ele ri com ironia e balança a cabeça em negação.
— Essa sempre foi a nossa maior diferença, Austin. — Responde, aproximando-se de mim com um sorriso perigoso em seus lábios. — Eu sempre estarei a cinco passos a sua frente. Não importa o quanto você lute. Enquanto você buscou seguir a ideia de troca de tio Clint para conseguir que ela fosse a sua acompanhante no casamento, eu fui além e descobri o passado dela. E eu no seu lugar, iria agora mesmo atrás da sua doce mentira, antes que além de receber a dura punição da família, você acabe perdendo a sua acompanhante para o cantor country.
Encaro Aaron por alguns instantes, tentando entender o que ele estava falando. É tão que me lembro que havia deixado Ally sozinha na praia. Ignorando o olhar e o sorriso maldosos de meu irmão mais velho e corro para onde a garota e eu havíamos colocado nossas coisas. E para a minha surpresa, assim que começo a me aproximar do lugar, consigo ver Ally de pé, de costas para mim, acompanhada de algum homem alto. Isso só me faz apressar ainda mais o meu passo.
— Vamos conversar, por favor. — Essa é a primeira frase que escuto de Gavin Young assim que alcanço Ally. Ele a encarava com intensidade, enquanto a garota parecia atordoada.
— O que você quer com ela? — Pergunto, chamando a atenção do cantor e de Ally, que me encara surpresa. Aproximo-me ainda mais e a puxo de maneira protetora, encarando Gavin com seriedade. — E então?
— Austin... — Sussurra Ally, surpresa. Ela suspira e se afasta de mim. Gavin continuava a nos observar com uma expressão indecifrável. — Está tudo bem, Austin.
— Ally, eu entendo que esteja com raiva de mim, mas eu te a...
— Eu não quero conversar, Gavin. Na verdade, não temos mais nada conversar. — Ela interrompe o rapaz, fazendo com que ele se encolhesse. — Eu não sei o que está fazendo aqui e sinceramente, eu não quero saber. Apenas peço que vá embora assim como você fez sem qualquer explicação três anos atrás.
— Ally, me escuta, por fa...
— Ela já disse que não quer conversar. Que parte dessa frase você não entendeu? — Questiono e Gavin me encara por alguns instantes, antes voltar sua atenção para Ally. O desgraçado havia mesmo me ignorado?
— Por favor, Gavin. — Pede a garota, soando cansada.
— Tudo bem, Ally. Eu vou embora, mas eu não vou desistir. — Responde Gavin com determinação. Ally suspira e desvia o olhar.
Gavin então nos dar as costas e vai embora. Ally suspira aliviada e me encara com um fraco sorriso. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, mas a presença do famoso cantor country parece ter mexido com suas emoções e a deixado extremamente frágil. Sorrio compreensivo e a puxo para um abraço sem fazer qualquer pergunta. Eu sentia que o que ela precisava naquele momento era de apoio e não de mais perguntas que ela provavelmente não estava pronta para responder.
Ally aperta o abraço, escondendo seu rosto em meu peito. Permanecemos assim por um tempo, ouvindo apenas as ondas do mar, os cantos dos pássaros e a respiração desregulada da garota. Quando ela parece um pouco mais calma, eu a afasto levemente e encaro seu bonito rosto. Ela sorri agradecida e eu não resisto a acariciar seu rosto. Com as bochechas coradas, Ally abaixa o olhar e vejo sua face assumir uma expressão de preocupação.
— O que aconteceu com você? — Pergunta Ally, colocando a mão sobre o local onde eu recebi o soco de Aaron. Encolho-me de dor e ela me encara ainda mais preocupada e assustada. — O que foi isso, Austin?
— Vamos dizer que a pessoa que causou isso ficou ainda pior. — Brinco e ela arregala os olhos ao ver o estado de minhas mãos que ainda estava sujas com o sangue de Aaron.
— Ai meu Deus! Austin! Por favor, não me diz que você brigou com o Aaron. — Implora a garota, desesperada.
— Tudo bem. Se você não quer que eu diga, eu não direi. — Respondo, tentando soar divertido, mas recebo um tapa no peito como resposta. — Aí.
— Isso é sério, Austin! Você poderia ter se machucado feio. E o Aaron casa daqui quatro dias. Sua mãe vai enlouquecer. — Ally leva as mãos ao rosto, enquanto balança a cabeça em negação.
— Está tudo bem, Ally. Não precisa se preocupar. Não foi nada demais. O máximo que eu devo receber é um longo sermão dos meus pais. — Minto, tentando acalmar a garota. Ally me encara desconfiada e acaba suspirando. Ela se abaixa e pega uma garrafa de água dentro da bolsa.
— O que eu faço com você? — Resmunga, colocando a garrafa com cuidado sob o local roxeado. Arfo, incomodado e ela me encara com preocupação. Dou um fraco sorriso e ela volta a prestar atenção em meu machucado.
— Como você conhece Gavin Young? — Pergunto, sem conseguir esconder a minha curiosidade e insatisfação pela presença do músico.
— Quem não o conhece? Ele é um cantor country bem famoso. — Desconversa a garota, mas ao ver meu olhar de quem não havia acreditado em sua resposta, ela suspira. — Ele... ele foi o meu primeiro amor.
Ally suspira mais uma vez e se afasta, sentando-se na areia. Sento-me ao seu lado e passamos a encarar o oceano em silêncio. Eu não sabia bem como reagir quanto essa informação. Ao mesmo tempo em que me sentia incomodado pelo primeiro amor de Ally parecer ainda despertar algumas fortes emoções na garota, eu sinto raiva de Aaron por ter sido tão baixo ao ponto de trazer o passado nitidamente doloroso de Ally apenas para me atingir.
— Gavin e eu nos conhecemos quando fizemos um testa para uma gravadora em Hawkins a quatro anos atrás. Infelizmente eu não consegui passar no teste, mas como era de se esperar, ele conquistou o contrato da gravadora. Ele era muito talentoso e bonito. Eu fiquei muito triste naquele dia e ele me consolou. Não demorou muito para que nos tornássemos amigos inseparáveis. Parecia que não havia nada que ele não fosse capaz de fazer. — Conta Ally, dando um sorriso magoado. — E quando eu menos percebi, estava completamente apaixonada por ele. Gavin sempre me incentivava a cantar e a escrever. Ele se tornou a minha inspiração. Eu sentia que estava vivendo um conto de fadas e como uma boba, eu confiei cegamente nele. Talvez esse tenha sido o meu maior erro.
— O que ele fez? — Pergunto, sentindo que não gostaria nenhum pouco da resposta. Ally suspira de maneira tão dolorosa que sinto meu coração se apertar.
— Ele me fez acreditar que ele me amava, quando na verdade eu não passava de uma ferramenta que ele usava para conseguir músicas e apresentar para a gravadora dele. — Responde e eu sinto a raiva dentro de mim aumentar ainda mais. Que desgraçado! — Durante um ano, ele me manteve presa em uma relação incerta, onde ele não me assumia, mas também não me deixava sair. Enquanto ele me apresentava a todos como sua amiga e ficava com várias garotas, Gavin me impedia de olhar para qualquer outro garoto que não fosse ele. Eu era controlada vinte e quatro horas por dia, incapaz de me impor, cega demais para perceber que ele não queria nada comigo. Que suas palavras doces não passavam de um perigoso veneno que ele usava para me manter na palma de suas mãos. Eu escrevi mais de quinze músicas que ele entregou a gravadora e dizia que eram de sua autoria. Quando ele lançou o primeiro CD dele, Gavin se tornou extremamente famoso. Ele então foi embora sem me dizer nada e depois de uma semana sem dar notícias alguma, ele apareceu na mídia dizendo estar namorando uma outra cantora.
— Que filho da puta! — Exclamo e Ally ri com amargura, balançando a cabeça em concordância.
— Foi muito difícil superar meus sentimentos por ele. Se não fosse por Mal, eu acho que estaria até hoje sofrendo por Gavin. — Afirma, dando um profundo suspiro. Ally então encara o bonito céu da ilha por alguns instantes. — É por isso que eu entendo como você se sente, Austin. Confiar em alguém, que trai a sua confiança e quebra seu coração por completo. Acho que a diferença entre mim e você é que ele e eu nunca fomos namorados, então como eu poderia exigir fidelidade dele? Mas confesso que isso não fez meu coração doer menos.
Ally me encara e vejo uma lágrima teimosa descer pelo seu rosto de maneira silenciosa. Respiro fundo e abraço a garota com intensidade. Eu nem mesmo sabia dizer o que eu estava fazendo. Talvez uma tentativa infantil de tirar qualquer lembrança ou sentimento que ela pudesse sentir por aquele desgraçado que teve coragem de usar uma garota tão incrível quanto ela.
— Ally, eu não sei o que o futuro nos reserva. E sinceramente, eu não tenho confiança na maior parte das coisas que eu faço, mas eu prometo que darei tudo de mim para nunca partir seu coração. — Prometo, afastando-a para encarar seus lindos olhos castanhos. — Você poderia confiar seu coração a mim?
— Ele já pertence a você, Austin. Muito mais do que você imagina. — Afirma Ally com seus olhos brilhando com tanta doçura e carinho que meu coração parece que iria explodir de tanta felicidade.
E tudo o que posso fazer diante daquele lindo sorriso presente em sua face é beijá-la. Sentindo uma felicidade que nunca havia sentido antes, pela primeira vez em minha vida eu tenho alguém por quem lutar. Não importa quem eu tenha que enfrentar, darei tudo de mim para defender esse amor que sinto por Ally. Nem que para isso, eu tenha que desafiar a minha própria família.
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