Mentiras, Viagens e Um Mapa de Mochilão

1 Primeiro | Mentiras, sangue e rock and roll |


Notas iniciais
Espero que os capítulos agradem a todos. Sempre que possível, vou tentar indicar uma música para que ouçam com o capítulo (normalmente aqui nas notas iniciais dos capítulos). Mas não é REGRA e sim uma possibilidade randômica. No demais: espero que gostem, postem reviews e que me apontem erros e acertos.

Sem reviews fica difícil saber se as pessoas sequer lêem, gostam, desgostam, querem matar o autor ou algum personagem...

Música do Capítulo
I Want It All - Arctic Monkeys

O frio de Budapeste estava excruciante devido à nevasca que vinha enchendo a Europa inteira de neve desde o começo de Janeiro. Era meio fora do comum, mas o povo de Budapeste estava preparado para esse tipo de coisa. Pessoas soterradas de casacos e cachecóis segurando copos de café escaldante em uma mão e um bom cigarro nacional na outra era o como se via o povo bem humorado, nacionalista e acolhedor da cidade. Poucos turistas vinham para a Hungria para visitar nessa época do ano, mas os que vinham eram muito bem recebidos com muita cultura, muitas pessoas amigáveis e bonitas e principalmente programas dos mais variados gostos.

Aos mais velhos a cultura e história que Budapeste trazia em cada esquina era o ideal. Já aos mais novos a vida noturna era agitada, movimentada e muito bem servida dos mais variados pecados capitais. Se Las Vegas era a cidade do pecado, quem disse isso não conhecia Budapeste.

Aquele dia era esperado como o mais frio do mês e estava sendo. Dimitri estava tentando vencer tal frio com um cappuccino expresso e um cigarro na sua mesa habitual em sua coffee shop preferida na cidade. Também como de habitual estava ao seu lado Alexia, perturbando-o com detalhes de sua noite anterior na badalada House Of Transition. E como sempre ele estava tentando ignorar a menina.

– Você não tem noção do quão animado estava ontem amor! Você devia ter ido, sabia? – dizia Alexia com os belos olhos verdes vidrados no rapaz, um sorriso estampado nos belos lábios vermelhos. E tudo isso emoldurado por suaves cabelos negros como o mais nefasto breu noturno e em contraste com a pele branca

– Eu não estava disposto para ir à HOT ontem. Preferi ficar em casa ouvindo o CD do The Pretty Reckless. – respondeu o rapaz com um trago no cigarro, a fumaça saindo suavemente de seus lábios.

– Você anda muito desanimado eim, o que está te acontecendo? E olha pra mim enquanto eu falo com você, poxa! – a mão direita dela deu um leve puxão no rosto do rapaz pelo queixo, fazendo-o olhar dentro daquela imensidão verde. – Enfim, a Petrova ontem estava agarrando um italiano tãããããããão gato que estava botando inveja em todos na boate, sabia? Menos em mim, claro. Afinal, eu tenho o cara mais gostoso de toda a Hungria.

Dimitri estava demasiadamente perdido em pensamentos. Pensava em como o CD que baixara na noite anterior estava bom, em como estava frio em Budapeste e em como seu café e seu cigarro estavam ajudando-o a superar tal frio. Mas principalmente, ele pensava no por que de Alexia continuar a andar com ele depois da briga de dois dias atrás. Eles haviam gritado um com o outro, dito coisas que não queriam dizer, sangue havia rolado (não dela, claro) e o conturbado “relacionamento” que tinham um com o outro chegara ao fim. E Dimitri havia feito mais. Ele quase sempre era “vítima” desse mais quando brigava com Alexia.

Helga Petrova (Petrova para os amigos) era uma russa radicada em Budapeste e que desde quando havia chegado a Budapeste, dois anos atrás, e conhecido Alexia e Dimitri, tentava roubar o namorado da amiga. Seus cabelos curtos e loiros encaixavam perfeitamente na pele branca e levemente rosada pelo fraco mormaço de Budapeste nesta época do ano. Ela não devia ter mais de 1,71m de altura e um corpo magro e esguio, com porte de modelo. Seus olhos, ao contrário dos de Alexia, eram de um azul turquesa impressionante, quase impossível de se achar no mundo. Dimitri poucas vezes havia cedido ao longo desses dois anos de relacionamento, mas havia cedido. Sempre nos momentos de raiva ou depois de fortes brigas com Alexia lá estava Petrova, pronta para prestar “solidariedade” ao rapaz. Umas doses de vodka russa da reserva pessoal dela, alguns “Ela não te merece” e “Você sempre foi demais para a idiota da Alex” e ela conseguia o que queria de Dimitri.

Dois dias atrás havia acontecido à mesma coisa. Dimitri e Alexia haviam brigado depois dele comentar que estava pensando em viajar por seis meses por toda a Europa. O problema todo para ela era que o rapaz estava decidido a viajar sozinho. Por mais que Alexia soubesse que o namorado era assim, a menina não aceitava essa decisão dele. Já Dimitri estava decidido a deixar a namorada para trás e viajar sozinho. Já tinha tudo na cabeça e havia inclusive renovado o eurocard para poder viajar sem maiores problemas. Veria os pais em São Petersburgo e depois conheceria o resto do continente por si só. Alexia continuava convencida de que iria com ele e esperneava dentro do quarto no pequeno apartamento no qual ele vivia sozinho, no centro da cidade.

– Eu vou com você amor, não adianta! Você não vai me largar aqui em Budapeste sozinha por seis meses. São SEIS MESES Dimitri!

– Desculpe Alexia, eu vou sozinho e ponto final.

– Se você viajar sozinho eu termino TUDO agora! E você não vai precisar ter o trabalho de me procurar daqui a seis meses, ouviu idiota? – a ameaça pairava entre os dois com tanta força que chegava a ser palpável.

– Ótimo, assim eu posso voltar em um ano, ao invés de seis meses! Ou talvez nunca mais voltar, princesinha mimada! – “ameaça é um jogo para dois, Alexia”, pensou antes de continuar. – Sai daqui Alex, me deixa sozinho para pensar okay? – sentenciou o rapaz enquanto mexia nos CDs em sua prateleira, puxava uma de suas compilações e botava para tocar. A primeira faixa era de uma ironia triste e não tão cômica assim. “Born To Be Wild” tocava em alto e bom som nas caixas do home-theater enquanto Alexia deixava o apartamento.

– Você vai se arrepender disso Dimitri. – a porta bateu atrás do rapaz e logo ele estava sozinho.

A raiva crescia lentamente enquanto a música tocava e preenchia todos os cômodos do apartamento do rapaz. Não demorou muito e ele já estava gritando sozinho, reclamando de Alexia e exteriorizando a raiva que sentia da menina.

– Quem essa idiota acha que é eim? Ela não me conhece, não pode me dizer o que fazer ou deixar de fazer! Eu vou viajar sozinho e ponto final! – logo acendia um cigarro e o levava aos lábios, um longo e furioso trago antes de voltar a esbravejar com uma música alta e hipnotizante saindo das caixas de som, dessa vez “In The Dark”, do DJ Tiësto. – Ela quer me ameaçar? Ótimo, ela que se agarre com outros caras por ai! Eu vou me virar muito bem sem ela! – continuava a esbravejar até a campainha tocar e interromper seus devaneios de raiva. Um toque. Dois Toques. Três toques. Ele finalmente decidiu atender.

Sem sequer abaixar a música o rapaz foi ver quem era. Ao olhar pelo olho mágico da porta soltou um leve suspiro e abriu sem olhar para fora, as palavras saindo pesadas e cansadas de seus lábios, apesar de a raiva ter diminuído consideravelmente. – Pode entrar Petrova.

A menina não se demorou muito e entrou enquanto Dimitri fechava a porta atrás dela e voltava para a bancada da cozinha, a fumaça que soltava de seus lábios traçando a rota até lá. Logo ela também estava na cozinha, sentada na bancada ao lado do cinzeiro do rapaz, um sorriso sonso e inocente iluminando aquela face luxuriosa.

– Então Dimitri, vai me dizer por que eu estava ouvindo o seu som lá da rua, sendo que você mora do quinto andar, e o porquê dessa carinha emburrada? Ah, já sei! É a Alexia, certo? É sempre ela Dimitri, não sei por q...

– Me deixa em paz Petrova, você não veio aqui só para adivinhar o porquê do meu som alto e da minha cara emburrada. Diz logo o que você quer. – ele não estava para brincadeiras e deixou isso claro enquanto dava mais um longo trago e soltava a fumaça, finalmente olhando dentro daqueles belos olhos azul turquesa.

– Nossa você já foi mais gentil comigo. Mas você tem razão, eu vim te chamar para um show lá na Stereotype. Se não me engano é um show do Arctic Monkeys. E eu sei que você gosta deles.

– Que horas o show? – disse sem rodeios. Ele definitivamente não estava para brincadeiras.

– Às dez e meia da noite. – ela respondeu. Um sorriso de vitória já se formava em seus lábios.

– Me pegue as nove em ponto, eu não quero dirigir dessa vez. – decretou Dimitri enquanto apagava o cigarro e andava até seu quarto, para descansar. – Você sabe aonde é a porta, não esqueça de fechar depois de sair.

Petrova sorria como uma criança que acabara de ganhar um doce que queria há semanas enquanto saia do apartamento e o deixava sozinho para descansar. “Missão cumprida, Petrova” pensou a russa enquanto acelerava o carro e sumia da vista de qualquer um.

Era por volta de 20:45hs e Dimitri estava pronto e esperando Petrova na portaria do prédio onde morava com seu “look” clássico para shows: um par de all-star surrados, uma calça jeans preta e velha e uma camiseta preta da banda que faria o show da noite. Naquela ocasião a camiseta era do Arctic Monkeys e trazia uma foto da banda no tórax e a letra de uma das músicas deles nas costas. Quinze minutos depois (na hora marcada) Petrova virou a esquina com seu carro e parou em frente à Dimitri, o convidando para entrar. Sem muita demora ele entrou e a menina novamente acelerou o carro, virando outra esquina em direção ao show.

– Gato como sempre eim Dimitri.

– Você também está linda Petrova. – o rapaz disse após analisar o “look” completo da moça. Ela usava uma saia preta de látex, uma camiseta preta com a estampa “Keep Calm And Drink Vodka” e um coturno preto de couro com algumas tachinhas prateadas que refletiam a luz.

Logo o carro parou e Dimitri percebeu que já estavam na casa de shows lotada. Não reconheceu nenhuma pessoa e desceu à espera da russa. Ela não se demorara e começou a puxá-lo para a entrada VIP da casa de shows. Petrova sempre tivera seus contatos e entrava sem enfrentar qualquer fila em qualquer lugar que fosse.

Aquilo estava apinhado de gente. Dimitri se sentia em um formigueiro e cada vez que tentavam andar mais de dois metros em direção ao palco era como uma batalha colossal com milhares de braços, pernas e gritos escandalosos e ferozes de quem ansiava pelo início do show. Ao passo em que finalmente chegaram a grade que separava o palco do público, Petrova pegara em seu braço e o puxara para perto, falando em seu ouvido para que ele pudesse ouví-la com um mínimo de clareza.

– Bem melhor do que ficar em casa curtindo a fossa eim garotão. – ela disse, sorrindo angelicalmente.

– Não me provoca Helga. – ele rebateu, de repente com mal-humor.

– Então não me chama de Helga de novo, garotão. – ela decretou, no exato instante em que as luzes se apagaram e a banda entrou no palco.

O que se seguiu foi uma noite de rock pura e louca. Dimitri simplesmente se desligara do mundo enquanto cantava, dançava e pulava. Não ligava para Petrova, não ligava para Alexia, não ligava sequer para sua viagem. A única viagem que faria naquele momento era em seus pensamentos, embalado pelo som do Arctic Monkeys que, em noite inspirada, tocaram os maiores sucessos em conjunto com alguns singles do novo CD.

– Obrigado por tudo pessoal, a noite foi ótima! Amamos vocês Budapeste! – gritou o vocalista após a última música e enquanto a banda se retirava. Dimitri estava empapado de suor e sorria pela primeira vez na noite, o público se dispersando aos poucos e Petrova lhe oferecia uma garrafa de água.

– Obrigado. Nossa, foi demais o show! – ele dizia entre-goles.

– Eu disse que você não ia se arrepender, Dimi. Agora, vamos finalizar a noite aonde? Café na cafeteria de sempre?

– Claro, claro. Eu pago dessa vez. – ele decretou enquanto saiam da casa de shows, agora bem mais vazia e fácil de observar o espaço.

O camarote VIP tinha uma visão privilegiada do palco e estava sempre frequentado pelos riquinhos e metidos da alta-classe de Budapeste. Dimitri passou os olhos rapidamente por eles e logo seguiu andando sem se importar... pelo menos até ver Alexia descendo as escadas de acesso aos camarotes VIP com Igor agarrado em seus lábios. Petrova pareceu ter visto a cena e já pôs a mão no peito dele como que prevendo que ele iria tirar satisfações. Dito e feito.

– Aquela piranha... – e partiu em direção aos dois.

– Dimitri calma! Não vale a pena! – Petrova tentou impedi-lo, sem sucesso, e então foi atrás dele para talvez controlar os estragos.

– Nem um dia que estamos separados e você já está se agarrando com esse mauricinho, né Alex? Típico de você, mimadinha – gritava Dimitri, furioso sem nem saber por quê. Estavam separados, Alexia estar se agarrando com outro era tudo que ele poderia pedir. Certo? Ele não sabia responder essa pergunta.

Igor se metera entre eles e começou a ensaiar uma agressão verbal quando Dimitri o empurrou de lado – Não se mete Warsawia – logo ele encarou a ex no olhos. O olhar de raiva se dissolvendo e aos poucos sendo sobrepujado por uma extrema tristeza. Traição.

– Depois você vai se perguntar por que eu fui embora por um ano, Alex. E quando se perguntar isso lembre-se que eu fui por que no fim das contas você só mentiu – a voz dele voltou a tomar um tom alto, exagerado e raivoso. Até mesmo vexatório em alguns momentos. – Você achou mesmo que eu não sabia que você se agarrava com ele sempre que a gente brigava? Sempre que você saia sozinha você estava com ele. – Ele riu em tom vexatório e seguiu falando, como se estivesse contando uma simples ironia do destino em uma roda de amigos na cafeteria preferida. – Por um segundo você achou que eu não saberia Alexia? Você é realmente tão estúpida assim? Ou mentir sempre foi seu jogo preferido?

A menina estava sem palavras enquanto as lágrimas corriam de seus olhos e ela balbuciava o ensaio de uma explicação que ela sabia que não tinha. E Dimitri também o sabia. O rapaz se cansara daquilo, a cabeça explodia em dores e ele se virou para ir embora. Ao invés disso, porém, se deparou com o punho de Igor vindo em direção ao seu queixo. Ele não teve tempo de reação e quando voltou a si estava no chão com Petrova o ajudando a levantar-se. O sangue subiu-lhe o temperamento e toda aquela “frieza russa” que ele tanto se orgulhava de ter, desaparecera por completo.

– Você sempre foi patético, Ivanov. – Dimitri o viu limpar o punho e percebeu que o queixo estava com um corte grande e que provavelmente sangrava bastante. – Achou mesmo que você ia ficar com a Alex ao invés de mim? De verdade? Acho que o estúpido aqui é você, sabia?

O sangue do rapaz esquentou de vez e ele se viu devolvendo o soco bem na face esquerda do rapaz. Não tão forte quanto o que recebera, não tão bem dado à ponto de abrir um corte. Mas ainda assim ele se sentiu mais aliviado em dá-lo.

– Isso é por me chamar de estúpido, Warsawia – ele olhou para Alexia uma ultima vez e deu-lhe o mais sarcástico de seus sorrisos – e você, espero que seja muito feliz com o “defensor de sua honra”. Mas cuidado, a próxima menina que ele conhecer pode ser mais interessante do que você. – O rapaz se sentiu puxado por Petrova e deixou-se ir, saindo em direção ao carro. Já do lado de fora, ele se recostou no capô do carro da conterrânea e passou a mão no queixo empapado de sangue.

– Você é um idiota por entrar em uma briga por causa da Alex! Você sabia a meses que ela estava vendo o Igor e ainda assim entrou na briga! – Petrova passava um pedaço de pano, uma camisa extra que ela devia manter no carro talvez, no queixo de Dimitri e limpava o local, tendo certeza de apertá-lo bem forte em alguns momentos para fazê-lo sentir dor.

– Uma coisa é saber. Outra é presenciar com os próprios olhos. Ai! Isso dói Petrova! – um choque percorreu lhe toda a face, porém serviu para dar a ele a certeza de que nada estava quebrado. – Você é tão sutil quanto uma manada de elefantes, sabia? – um suave sorriso brotou nos lábios da menina e isso fez com que Dimitri se acalmasse um pouco.

Após observar que o sangramento havia estancado, Petrova abriu o carro e enfiou Dimitri nele, acelerando para a casa do rapaz. Já no apê, subiu com ele e terminou o curativo com mais uma meia dúzia de remédios que fizeram Dimitri chorar e reclamar como uma criancinha de 10 anos e Petrova gargalhar como uma de 5.

– Pronto, agora o curativo está feito.

– Obrigado. Café? – o rapaz caminhava pela cozinha pegando o pó e botava na cafeteira para preparar. – Eu te prometi um, lembra?

Ela riu e se sentou na bancada, observando aqueles belos olhos castanho-esverdeados que possuíam um suave toque de solidão e tristeza. Por fim o clima estava mais calmo e entre uma tragada e outra Dimitri até arriscou uma brincadeira. Ela não gostou e arremessou a mão aberta contra o peito do rapaz, que por sua vez riu.

– Eu tô mentindo por algum acaso? E essa é a segunda agressão que eu recebo hoje! Vou procurar a polícia e pedir escolta para andar por ai. Risco de vida sabe?

– Babaca – ela deixou a caneca sobre a mesa e pegou as coisas, saindo do apê. O rapaz então ligou o som em uma altura que não fosse acordar os vizinhos, mas que ele pudesse ouvir do banheiro enquanto tomava um banho.

Notas finais
Bem, após um capítulo, o que me dizem? Ele tem um tom mais introdutório, demonstra alguns personagens-chave ao longo de toda a trama. Espero que gostem muito. Quero os reviews eim.

;)