Mentiras, Verdades E Um Amor Real
19 Saudades, desabafos, Alex.
“– É uma tatuagem yin yang, mas com o detalhe de ser uma carpa.
– Se é Yin Yang, por que só ter uma carpa?
– É simples Jen, já deve ter ouvido falar que Yin Yang são dois símbolos que representam o inverso que se completam. A carpa é o simbolo de conquista, alcançar os objetivos.
– Tá então agora me explica o que você quis dizer com isso?
– Jen, só depois que eu conseguir isso eu vou terminar o desenho.
– Tá, então você quer dizer que quando alcançar seus objetivos e se sentir finalmente completo vai terminar o desenho, e quando vai ser isso Ryan, quando se tornar famoso e rico?
– Não Jen, quando eu finalmente estiver com você.”
“- Jen, esqueceu de mim? Estou esperado pela sua volta e sua resposta, sinto sua falta... ”
[POV Jennifer]
Acordei em um pulo, apesar de ser domingo, havia tido um sonho estranho naquela noite, a voz do Ryan ao telefone na noite do meu aniversario, mas logo mudava, o rosto e a voz de Tom me fizeram despertar. Levantei-me indo até a cozinha, me sentia estranha, a voz e o rosto de Tom não saiam da minha cabeça. Já se passavam alguns meses desde que eu havia partido do Brasil e mesmo assim eu ainda não tinha dado uma resposta adequada para ele. E por que justo agora sonhar com o Ryan do passado? Por mais que eu não quisesse saber daquilo agora, eu sabia que teria que me decidir sobre o Tom e também sabia que deveria contar toda a verdade para o Ryan, apesar de estarmos nos dando bem ultimamente, eu sabia que aquilo era errado e que não deveria continuar. Balancei a cabeça tentando me recompor, preparei um café, logo pegando o celular para verificar as mensagens.
Havia uma mensagem de Alex avisando que passaria naquela manhã para tomarmos café da manhã juntas. Alex era uma das poucas pessoas com quem eu podia contar naquele lugar, ela havia tentado fazer de tudo para que eu pudesse me sentir bem. Conversávamos sempre, as vezes saíamos juntas, mas mesmo assim, ainda não conseguira contar toda a verdade para ela. Olhei as horas no relógio, larguei a xicara na pia e sai para tomar uma ducha.
Estava em meu quarto esperando a chegada de Alex. Abri a gaveta da cômoda em meu quarto, peguei um embrulho que havia amarelado com o tempo, abrindo a caxinha que estava dentro dele. Lá estava, intacto aquele pequeno pedaço de metal prateado com sua pedra violeta, ainda brilhava, coloquei o em meu dedo, logo encostando a mão em meu peito, fechei meus olhos e respirei fundo. Meus pensamentos viajavam ao passado. Um tempo distante onde eu nem imaginava que poderia encontrar Ryan algum dia. Sem perceber uma lágrima escorria pelos meus olhos quando escutei alguém entrar em meu quarto.
– Jen? Está tudo bem querida? Eu bati algumas vezes na porta e como você não abriu, resolvi entrar. – Alex entrava vendo meus olhos avermelhados. – Jen, querida, o que houve? Por que está chorando?
Meu peito doía, era difícil demais aguentar tudo aquilo, longe da família, dos amigos, sem perceber havia entrado em prantos. Alex me abraçava.
– Está tudo bem querida, já vai passar. Deve ser difícil para você não é? Longe de casa, dos amigos. Eu nem imagino o que deve estar sentindo, mas Jen, estou aqui, olha, a algum tempo nos conhecemos e estamos sendo boas uma com a outra, se quiser conversar, se abrir.
– Alex continuava a me abraçar carinhosamente, abracei-a sem pronunciar uma única palavra.
Eram muitas sensações ao mesmo tempo, meus pensamentos, a saudade, tudo se misturava em um sentimento confuso. O pedido de casamento de Tom que estava ali a milhares de distancia de mim, martelava em minha cabeça. Poder ver pessoalmente o Ryan, minha paixonite de infância, frente a frente, sem conseguir lhe dizer a verdade, esperar pelo momento certo. Já não podia mais me aguentar com tantos sentimentos confusos.
– Alex, eu não aguento mais... – Em meio aos prantos eu tentei explicar a Alex, que me ouvia com muita atenção. Toda a história do passado. Toda a minha confusão desde que chegara ali. Meu peito começava a parecer mais leve enquanto as palavras saiam de minha boca.
– Eu me lembro de você, eu já conhecia o Ryan naquela época e.... Meu Deus Jennifer!! – Alex colocava a cabeça sobre as mãos pensando e logo voltava a me olhar assustada. – Querida eu nem imaginava, bom, foi ha muito tempo e olha, o Ryan mudou muito depois daquilo, nós não éramos e nunca fomos muito próximos, mas o Mark sempre foi o melhor amigo dele e eu sei através dele. Ele vivia dizendo que era bobeira do Ryan, que ele devia te esquecer e olha o que o destino foi aprontar. Mas se você é a Jennifer, aquela Jennifer, como o Ryan não te reconheceu? – Alex arqueava uma das sobrancelhas um pouco pensativa.
– O problema maior nisso tudo Alex... bem... o problema é que ele não me reconheceria. Eu menti para ele, mandei umas fotos e disse que era minha amiga, então você já deve ter entendido toda a confusão. – Respirei mais forte tentando me acalmar.
– E o que você quer fazer agora Jen? Pelo que eu percebi, você e o Ryan andam se encontrando, até quando você vai esconder isso dele? – Ela me olhava atenciosa. – Eu sei que está sendo difícil para você, mas pensa só Jen, ele está aqui agora e você está aqui, o destino aprontou para você. Será que já não está na hora do Ryan saber a verdade? Não é justo com ele, e também não é justo com você manter esse sentimento. Agora que está longe do seu noivo e perto do Ryan, o que irá fazer? Será que não é melhor você por todo esse sentimento a prova e ver se é isso mesmo o que você quer? Se casar mesmo com o Tom? E também acho que não é justo com o Ryan, acho que ele merece saber.
– Eu sei disso Alex, mas eu não pensei muito nisso, eu pretendia contar isso logo no começo, mas acabei me envolvendo sem nem ao menos perceber. Não é justo com o Ryan, sei que ele merece saber a verdade. Ele vai ficar furioso quando souber e com toda razão. Eu nem sei como fazer mais isso Alex, quanto mais eu penso, mais eu perco a coragem de revelar toda a verdade. – Eu baixava a cabeça desanima, estava sendo sincera com a Alex, mas no fundo eu tinha medo da reação do Ryan.
– Jen, talvez nem seja tão ruim assim, pensa, você e o Ryan tem saído. Pode ser que ele fique sim decepcionado, mas quem sabe ele possa te entender. Vocês andam se dando bem ultimamente e com jeitinho, você explicando tudo, quem sabe o Ryan possa entender o seu lado. Eu posso te ajudar. Podemos pensar em um jeito de você conseguir tomar coragem e dizer ao Ryan. – Alex olhava para mim sorrindo. – Confia em mim Jen, vou pensar em alguma coisa e vou te ajudar. Agora vamos sair daqui, estou morrendo de fome.
Eu me sentia meu peito mais leve depois que havia contado tudo para Alex. Talvez ela tivesse razão, talvez quem sabe o Ryan pudesse me entender. Eu era uma adolescente boba, com medos bobos, quem sabe se eu explicasse melhor. Saimos dali para um café enquanto conversávamos e a manhã toda se passava.
[POV Ryan]
Já passavam alguns dias desde que Alice e eu nos falamos. Não havíamos trocado nem mensagens, talvez ela estivesse ocupada com os projetos. O telefone insistia em tocar me acordando cedo em plena sexta feira. Atendi-o sem olhar quem era. Alice parecia bastante empolgada ao começar a falar.
– Não acredito que ainda está dormindo Ryan, já são 9 horas da manhã!
– Eu tinha em mente dormir até mais tarde sabe, o ensaio é só as 11 horas hoje. – Me levantei da cama ainda meio tonto encostando a cabeceira. – Mas por que resolveu ligar cedo? É raro vê-la tão empolgada pela manhã.
– Encontro em grupo conta como encontro? – Ela me perguntava.
– Acho que sim. – Respondi ainda meio que sem entender. – Por quê?
– Alex me chamou para viajar no final de semana, então liguei para saber se quer ir comigo. Seria legal, viajar com mais pessoas, o que acha?
– Acho é muita informação para quem acabou e acordar, mas se está me chamando, sim eu posso ir com você. – Fechei meus olhos bocejando – E para onde iremos?
– Acampar! Para dizer a verdade, eu nunca fui acampar.
– Precisamos de uma barraca eu suponho.
– Não, Alex disse que para onde vamos já faria as reservas e as barracas estariam prontas a nossa espera. – A garota continuava empolgada.
– Diferente.. – Disse um pouco surpreso por não precisar ter todo o trabalho que seria de montar uma barraca. – E quando iremos?
– Amanhã de manhã bem cedo, tem alguma coisa programada?
– Creio que não. – Respondi depois de pensar um pouco. – Mas se algo aparecer para hoje eu cancelo sem problemas, afinal, não é todo dia que você está tão empolgada. – Eu realmente gostava de ver Alice daquele jeito.
– Obrigada. Ok moçinho, preciso desligar agora te ligo mais tarde para alguns detalhes. Beijos!
Alice mal terminara de falar e escutei o telefone ficar mudo. Ainda era cedo, levantei calmamente indo até o banheiro. Tomei um banho demorado, pensando sobre a ligação dela, sorri ao me lembrar daquela empolgação não muito comum em Alice. Peguei algumas roupas me trocando. Já se passava das 10 horas quando saí de casa.
Após algumas horas de ensaio, apanhei o celular em meu bolso olhando-o. Havia várias ligações perdidas e todas elas de Alice. Ela realmente parecia um tanto empolgada pelo numero de ligações feitas, a garota nunca havia me ligado tantas vezes e insistentemente. Sorri e disquei o numero no visor retornando as chamadas.
– Que surpresa agradável ver o celular com tantas ligações suas, deve estar mesmo empolgada com essa viagem. Será que sua opinião sobre mim está mudando e quer tanto assim estar comigo? – Eu ria ao falar.
– Engraçadinho! – Alice ria do outro lado da linha – Eu estou meio perdida aqui na minha lista do que deveria comprar para a nossa viagem, quero dizer, a viagem que vamos fazer com o pessoal. Eu nunca fui acampar na minha vida e não sei bem o que comprar. – Ela parecia sincera ao falar.
– Está precisando de ajuda? – Perguntei.
– Deve ser por isso que eu te liguei, será que você ... – Alice parecia um pouco envergonhada ao perguntar. – Quer dizer, se não estiver muito ocupado pensei que poderia me ajudar, afinal, vamos passar o final de semana juntos.
– Hum.. me sinto até um pouco envergonhado você falando assim desse jeito tão convidativo. – Eu ria brincando. – Onde você está agora?
– Estou na Force, tenho algumas programações para fazer do projeto, mas não vai dar tempo de adiantar algumas coisas, enfim, vou sair daqui a 30 minutos, pensei em fazer uma lista das coisas que iremos precisar e ....
– Quer que eu vá com você? – Interrompi o que Alice dizia. – Estou saindo do estúdio agora, se quiser posso acompanha-la e ajudar com as compras. Acredito que seria até melhor, já poderíamos deixar todas as coisas arrumadas já que sairemos amanhã cedo.
– Ótimo, será de grande ajuda! Me espere lá embaixo, vou terminar de organizar umas coisas e já desço para te encontrar. – Ela disse por fim antes de desligar o telefone.
Me dirigi ao estacionamento daquele prédio enorme. Olhei para o relógio em meu pulso, Alice estava um pouco mais atrasada do que havíamos combinado. Voltei meu olhar para a porta e a vi, com seu velho coque desalinhado, jeans e uma camisa xadrez e blusinha branca. Ela caminhava em direção ao carro, toda apressada tentando arrumar as coisas dentro de sua mochila. Alice não era o tipo sexy, pensei, talvez a garota mais desleixada que eu já havia saído, mas por algum motivo estranho eu me sentia muito bem ao seu lado. Eu a olhava enquanto a via abrir a porta e adentrar o carro.
– Oi, me desculpe, fiquei um pouco atrapalhada com o projeto, não consegui terminar e ... – A garota encostava a cabeça no banco soltando um longo suspiro. – Okay, me desculpe, esse stress todo. – Ela sorria balançando a cabeça. – Vamos?
– Okay! – Eu ria ao vê-la toda desorganizada. – Onde pretendemos ir? – Perguntei esperando que ela me guiasse.
– Bem, Alex pediu que levássemos alguns mantimento, produtos de higiene pessoal, e acho que só. Ela disse também que levássemos toalhas e roupas. – Ela concluía os itens que a amiga havia pedido.
– Sacos de dormir? – Perguntei.
– Não, pelo que me parece nessas barracas já vem com cama ou algo do tipo, não entendi direito, apenas que levássemos mantimentos, toalhas e roupas.
– Ahn, okay, então.. – Fiquei pensando onde deveríamos ir. – Bom, se for apenas comida podemos comprar coisas que gostamos apenas, e marshmallow, não pode faltar. – Eu ria.
Após concordarmos, dirigi o carro até um mercado próximo a casa de Alice. Descemos e fizemos as compras necessárias. Ajudei a carregar as sacolas e então me dirigi a casa de Alice parando a porta.
– Vai me convidar para entrar? – Perguntei olhando a de baixo a cima.
– Ryan! – Ela esbravejava, logo depois rindo. – Até amanhã, esteja aqui as 5h em ponto ou ligarei mais vezes do que hoje, pode ter certeza. – Ela se virava de costas acenando com um tchau.
Eu a via, entrando na portaria de seu flat, Alice podia ser mesmo um tanto desajeitada as vezes, mas ela tinha um estranho poder de me deixar a vontade, algo que talvez nenhuma garota conseguira fazer até hoje, exceto uma, apenas uma garota do passado, eu me recusava a perguntar para Alice sobre aquela garota, mesmo com sua melhor amiga tão perto de mim. Fiz um sinal de não com a cabeça me desviando daqueles pensamentos. Jennifer era passado, um passado dolorido e que eu prometi a mim mesmo que deveria esquecer. Segui direto para casa, amanhã seria um longo dia e eu realmente precisava descansar.
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