Mentes Entrelaçadas
15 A Estranheza do Dia-a-Dia
Parecia que todos estavam agindo estranho comigo nesses últimos dias. Melissa dizia-se muito ocupada e sempre dava desculpas para não me encontrar, o que me faz pensar que ela sabe ou desconfia de alguma coisa. Peter fazia perguntas estranhas e eu continuava com a mesma rotina de sempre. Do escritório de fachada para a casa, de casa para o escritório. Pelo menos os blecautes e as dores de cabeça haviam diminuído.
Às vezes, quando não estava um sol escaldante e um odiável calor, sentava-me em um banco do parque apenas para observar as pessoas passando, de bicicleta, caminhando, correndo, fazendo exercícios, jogando com as crianças, em suas saudáveis vidinhas comuns. Que agradável!
Foi quando eu comecei a observar um jovem de aproximadamente 20 anos, de aparência comum, que costumava correr pelo parque todos os dias. Comecei a correr também, sempre no mesmo horário que ele, só para poder observá-lo em seu momento de solidão. Como era de praxe, comecei a ficar obcecado, mas, dessa vez, não procurei saber mais sobre a vida dele e nem pretendia, pois sabia que acabaria perdendo o interesse. No fim, ele seria apenas mais um cara normal, de classe média, que estuda em uma faculdade mediana e coisas do tipo.
*
Mais um dia entediante nesse escritório. Pensei, pela milésima vez só naquele dia, prometendo a mim mesmo começar a guardar dinheiro para ir embora de vez dali. Foda-se Peter. Foda-se Alexandria. Foda-se Melissa. Foda-se tudo. Foda-se também essa vozinha que insiste que eu não conseguiria abandoná-la. Ignorei essa voz, tentando me concentrar em outras coisas para não me lembrar do sorriso apaixonante de Melissa, que toda hora vinha a minha mente, como queria beijar aqueles lábios novamente...
Meu devaneio foi interrompido por alguém batendo em minha porta. Era Peter, o agradeci mentalmente.
—Hendrick, posso lhe fazer uma pergunta nada importante? — ele fala, meio misterioso.
—... e o que seria?
—Se não fosse... bom, o que você é hoje, como acha que seria a sua vida agora? — pensei por alguns segundos, com a mão no queixo, ele nunca havia me feito esse tipo de pergunta. —Pense bem e me responda...
—Um escravo feliz... — respondi.
—Não entendi... O que quis dizer?
—Acho que seria outro daqueles workaholics... Nem feliz, nem infeliz, só repetindo a mesmice um dia depois do outro...
—Mas não é exatamente o que você tem feito? — ele diz, com um sorriso irônico no rosto. Fiquei lá, boquiaberto, o encarando, ele raramente tomava alguma atitude ou falava o que pensava, por isso me surpreendeu.
Confesso que fiquei com vontade de perguntar: "Quem é você e o que fez com Peter?", riríamos e marcaríamos de beber alguma coisa no mesmo bar de sempre. Mas como, se Peter já não era o mesmo de sempre? Eu ainda estava com a mesma cara abobalhada quando ele saiu, sorrindo vitorioso. Tinha que descobrir o que estava acontecendo, custe o que custar.
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