Mente pra mim
5 Capítulo 5
Sábado. Elena levantou tarde, quando seu irmão bateu na porta do quarto acordou assustada. Tinha demorado a dormir. Não parava de pensar no o que havia acontecido. E no que podia acontecer, teve pesadelos com John, no incêndio, com James a entregando a polícia. Ele sabia demais, de todos os seus segredos. E claro, sonhou com Oliver, intensamente, quase podia sentir suas mãos, seus lábios e seu calor.
– Elena, está ai? — John perguntou.
– Sim.
– Está sozinha?
– É claro que estou sozinha, o que você acha? — Ela pode ouvir a risada dele atrás da porta. — Entre logo.
Ele entrou com a mão na frente rosto para tapar os olhos e um sorrisinho irônico. Ela jogou o travesseiro nele.
– Seu idiota! Tira essa mão, eu estou muito bem vestida.
John tirou a mão dos olhos e se jogou na cama ao lado da irmã. Elena o abraçou forte, ficou assim por um bom tempo.
– Estou bem Elena. Bem mesmo. — ele retribuía o abraço e lhe deu um beijo na testa. — Eu vou tomar um banho, depois quero o seu café.
– Ok. Já vou.
– Deve ter ficado acordada até tarde, nunca te vi dormir tanto.
Ela olhou a hora no celular, 10:22. Nossa!
– É, realmente não consegui dormir.
– Não conseguiu ou não te deixaram.
– Acho que eu ainda consigo é te dar umas boas palmadas!
John ri.
_ Tem uma coisa que você não consegue.
– O que?
– Me pegar. — ele corre e chega ao banheiro antes que Elena o alcançasse.
– O que você pensa que eu sou, hem?
Ele abre a porta e a olha bem nos olhos.
– Eu acho que você é uma mulher adulta, linda e que tem que viver sua vida Elena. Não só por mim. — ela sentiu um nó na garganta. — Eu já sou bem grandinho, não precisa fazer tudo pra mim. A não ser o café. — ele fecha a porta.
Essa é uma coisa que ela sabia que não faria, viver por si mesma. Sabia que não poderia argumentar com ele sem ter que explicar o porquê de tudo aquilo.
– Okay, vou fazer o café. Apesar de você já ser bem grandinho pra isso!
O café estava doce e forte, como ela gostava, o que a fez lembrar-se da noite passada. Olhou para o balcão e desviou o olhar, encontrou a mesa de canto. Aquilo não estava ajudando em nada.
– John, o que acha de almoçarmos no restaurante hoje? Já está muito tarde para fazer.
– Acho ótimo, vamos no Phil?
– Pode ser, adoro as panquecas. E claro a companhia deles. Depois vou dar uma olhada no Mr. Carter. — Era como ela o chamava na presença de outras pessoas.
– Okay. Depois eu posso dar uma volta?
– Depende, aonde vai? Ver a Heather?
– É... ham, talvez. — Engasgou um pouco. — Acho que ela vai estar lá também. Vamos ao boliche.
– Bom. Então pode.
Ela se levantou levando as canecas até a pia e John foi para o quarto se trocar. A campainha tocou e Elena foi atender, quando abriu a porta deu de cara com Oliver.
– O que está fazendo aqui? — Perguntou surpresa.
– Bem, posso ir embora se quiser. — disse apontando para o elevador.
John apareceu atrás dela.
– Hey, você deve ser o "colega" da academia. Prazer. — John enfatizou a palavra colega fazendo "aspas" com os dedos.
Elena abaixou a cabeça, envergonhada e se deu conta de que estava de camisola. Droga!
– Acho que sim. O prazer é meu. John, certo? — Se cumprimentaram — Só vim trazer isto. — ele ergueu o livro que Elena estava lendo no outro dia. — Você deixou cair em meu carro. "Almas Atormentadas" Mary April*, gênero romance adulto. Leitura interessante!
E como se ela pudesse ficar mais envergonhada, o rosto queimou.
– Elena, você não vai convida-lo para entrar? — Ela olhou pasma para o irmão.
– Bem, nós estávamos de saída. — Fuzilou John.
– Acho melhor você colocar um casaco, está frio lá fora. — Oliver foi sarcástico.
Elena revirou os olhos e saiu batendo os pés em direção ao quarto.
– Já volto.
Ela ainda escutou John o chamando para entrar antes de fechar a porta do quarto. Não queria acreditar no que estava acontecendo.
John seu traidor!
Finalmente decidiu o que vestir, calça jeans, uma camisa cor de vinho e seu cardigã preferido. Não entendia porque tinha demorado tanto, era só um almoço com o irmão.
Quando chegou à cozinha eles estavam sentados na mesa do café conversando e rindo.
– Vamos? — Quem disse aquilo foi Oliver.
– Como assim, vamos?
– Eu o convidei e ele aceitou. — John disse.
Elena revirou os olhos e deu de ombros.
– Tá! Então vamos.
O carro de Oliver estava na garagem subterrânea. Não tinha reparado antes, mas era um carro e tanto. Ela não entendia muito, mas a reação de John ao vê-lo lhe deu uma ideia.
– Wow! É um Cadillac ATS Crimson Sport! Cara... que carro...
– Você gosta de carros?
– E quem não gosta.
– Até eu, que sou boba. — Elena sorriu. Realmente, nunca tinha visto um como aquele.
John estava impressionado com a visão daquele carro que ela mal sabia o nome, apenas que era um Cadillac.
– Você já tem carteira? — Oliver disse erguendo as chaves para ele.
Os olhos de John brilharam como faróis, mas logo a luz se desfez.
– Não, ainda não.
– Que pena. Outro dia então.
– É claro que não. — Elena disse em um tom grave. — Acha mesmo que eu vou deixar que dirija um carro desses? Parece uma máquina da velocidade. E se acontece alguma coisa?
– É um carro muito seguro, Elena. Além disso, ele já é bem grandinho e parece ter reponsabilidade. — Oliver disse.
– Eu te falei. — John completou.
– E você, não se intrometa. — Ela disparou para Oliver.
Ele revirou os olhos,
– Okay, vamos lá. Eu dirijo.
– Good.
John abriu a porta de trás para entrar.
– John. Não quer ir na frente? — Oliver olhou para Elena, ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços. Parecia que ele estava dando um castigo a uma criança rebelde. Ela apenas revirou os olhos e entrou na porta que John havia aberto. John sentou-se na frente todo animado.
Oliver fez questão de mostrar toda a potência do veículo, passaram o caminho todo falando de carros, enquanto ela só observava. Homens!
Mas ela estava feliz naquele dia. Permitiu-se sonhar com uma vida assim e gostou do que viu. Logo soprou aquele pensamento para longe.
– É aqui. — John apontou para o Bertolanni Ristorante. Era dos pais de Mathew, Phil e Cristina. Eles tinha se conhecido logo que John e Elena se mudaram, se tronaram grandes amigos. Sempre iam ao restaurante.
– Olhe quem voltou. — Phil com seu sotaque inconfundível. — Tutto bene John?
Ele é um homem maduro, de cabelos grisalhos e sua feição não nega em nada sua descendência italiana.
– Elena! Ele a agarrou em um abraço apertado, típico de suas raízes. — Cara mia!- deu-lhe um beijo no rosto.
– Oi Elena. — Cristina, mulher de Phil, era brasileira também, se conheceram em um supermercado, quando Elena pedia ajuda com os rótulos de alguns produtos. Depois disso se tornaram melhores amigas e por coincidência John e Mathew estudavam na mesma escola. — E quem é esse bonitão ai? — Cristina estendeu a mão para cumprimentar Oliver.
– Um... Amigo.
– Olá, meu nome é Oliver, é um prazer conhece-la Sra. Bertolanni.
– E ainda é um cavalheiro.
– Benvenuto amico! Amico de John e da bela Elena, é nostro amico também. Mathew, arrume a mesa de sempre.
– Sim pai. E ai John. Elena... — Mathew sempre ficava com cara de bobo perto de Elena.
– Oi Mat.
Todos se sentaram em uma mesa grande perto da janela, inclusive Phil e Cristina, como sempre faziam. Comeram, beberam vinho, conversaram e riram. Oliver parecia gostar daquilo, às vezes, olhava para Elena sorrindo — daquele jeito — e assentia, seu olhar era alegre.
Quando a hora ir chegou, Oliver não permitiu que Elena pagasse.
– Foi um almoço incrível. Faço questão.
Elena não insistiu. John já tinha saído com Mathew para o boliche.
– Okay. Se puder me levar para casa agora, eu ainda preciso trabalhar à tarde.
– Num sábado?
– Cuido de um senhor doente, tenho que vê-lo pelo menos uma vez ao dia. — Elena sentiu-se mal em falar sobre James.
– Ele não tem ninguém que o visite?
– Não. — Elena pensou em o quanto aquilo era triste. Apostava que era James quem tinha afastado a todos.
– Triste. — Oliver disse, lendo seus pensamentos. — Vamos então.
A cobertura de James era digna de um rei, com grandes espaços, salas, quartos, banheiros, cozinha. Tudo decorado com o que havia de mais luxuoso e caro. Elena detestava tudo aquilo. Toda aquela ostentação e soberba.
– "Onde está Elena?" — ela ouviu James gritando do quarto e foi até lá.
– "Eu não sei senhor. Deve estar chegando." — o mordomo disse.
– "Estou aqui." — Elena falava em inglês. Estava parada na soleira da porta. — "Fui almoçar com John." Não se atreveu a entrar em detalhes.
– "Sabe que não gosto que saia assim."
– "Acha que vou ficar trancada naquele apartamento o tempo todo?"
– "Você ainda é minha mulher!" — ele gritou.
– "Só porque você me chantageia para isso."
– "Você é minha, Elena. Minha, entendeu?"
– "Já vi que você está ótimo, James." — Elena virou-se e saiu do quarto. — Adeus.
– Já disse para falar na minha língua.
Elena já estava saindo. Foi até a cozinha e ajudou Mary, a cozinheira da casa, a preparar tudo que ele gostava, pelo menos tudo o que era saudável. E Mary a ajudou levar até o quarto.
– Thanks Mary. — ela apenas assentiu e saiu do quarto, todos na casa sabiam que o patrão não gostava que falassem com Elena.
– "Achei que tivesse ido." — James estava calmo agora.
– "Sei das minhas responsabilidades, James. Disse que cuidaria de você, é o que vou fazer."
– "Porquê não me ama Elena?"
Às vezes, Elena sentia pena dele. Um velho sozinho e amargurado que descontava suas frustrações em quem estivesse mais perto. No caso, ela.
– "Por que não muda James?" — Mas ela sabia que era tarde demais.
Ele baixou a cabeça e começou a comer. Em um canto no quarto, havia uma mesa de mármore pequena, mas pesada onde ele fazia as refeições, em sua cadeira de rodas. Na tinha saído do quarto desde... Desde o infarto. Era triste.
Elena chegou em casa e encontrou John e Heather assistindo um filme no sofá, parecia ser "Fast and Furious 9", ela pensou. Ficou feliz, ela parecia ser uma boa garota, mas preocupada também.
– "Oi Elena. Como vai?" — A garota perguntou com um sorriso simpático.
– "Olá Heather. Bem e você?"
– "Bem."
– Eu achei que fosse chegar mais tarde. — John estava sem graça.
– Achou ou esperou? Foi só por isso que a trouxe? Não queria que eu a visse ou só queria ficar 'sozinho' com ela?
– Não é o que você está pensando. Eu só...
Foi o mesmo que ela disse no outro dia. Pensou.
– Eu tenho confiança em você John. Só não perca isso.
É claro que Heather não entendeu nada, mas não se importou pelo que Elena podia ver. Deve ter achado que era conversa de irmãos, o que realmente era.
Elena sorriu para ela.
– "Vou tomar um banho e depois me deitar. Estou com dor de cabeça, vocês já jantaram?"
– "Já, na lanchonete do boliche."
– "Se comportem crianças."
John revirou os olhos e Heather ficou vermelha, o que de certa forma a deixou mais tranquila.
– Good night!
*"Almas Atormentadas" Mary April -Título inventado para este livro.
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