Mentalizada
5 Capítulo 4
— Bom dia aniversariante!
Fui acordada por uma voz tranquila e protegedora. Era tão bom acordar desse jeito. Tentei abrir os olhos para ver quem era e o que consegui ver foi a linda paisagem da cachoeira caindo no lago aparecendo pela entrada da caverna. No chão havia várias flores das quais eu reconheci o perfume. Eram aquelas que eu vi quando cheguei nesse abrigo.
Fora da caverna vi alguém aparecendo onde era pra estar a rocha. Era Leo, segurando a cesta que fiz com as trepadeiras e dentro as maçãs. Ele estava tão sorridente que seu sorriso brilhava refletido pela luz do sol.
— Bom dia, Leo! — disse enquanto me sentava e espreguiçava.
— Feliz aniversário! Um, dois três, quatro, cinco... — ele disse e começou a puxar a minha orelha — onze e doze!
— Ai, ai! Ha! Ha! Ha! Não precisava disso tudo. Mas obrigada por comemorar comigo. As maçãs estão boas?
— Estão, sim! Eu as lavei no lago. Pega! Não é bolo mas estão docinhas!
Peguei uma provei. Que delícia! Eu pelo menos soube escolher maçã. Esse poderia não ser o melhor aniversário de todos, mas era perfeito pra mim, pois pelo menos eu tinha uma companhia.
— Estão perfeitas! — disse.
— Então vem cá porque tem mais coisa — ele pegou minha mão e me puxou pra fora da caverna. Cerrei os olhos e coloquei a outra mão na frente do sol me acostumando com a claridade. Assim que meus olhos se acostumaram, senti a sua mão tapando-me os olhos e me impedindo de enxergar. Ele me conduziu até certo ponto e retirou sua mão.
— Surpresa!
A paisagem em minha frente era belíssima! O perfume das flores que senti quando lhe mostrei meu abrigo penetrava e enfeitava o lago de onde despencava a cachoeira. Ao lado havia uma toalha estendida com diversas frutas e alguns pães — que imagino ter pego de minha mochila -, como se fosse um piquenique. Também tinham três recipientes feitos por trepadeiras onde haviam mais maçãs. As rochas ao lado estavam geladas, o que achei estranho pois o sol estava de rachar.
— Uau! C-como.. como é que você... — ele me impediu de falar levando seu dedo indicador aos meus lábios.
— Apenas aproveite seu aniversário e não faças perguntas! — ele disse.
Não foi preciso dizer mais nada para que eu já estivesse a me sentar ao lado do lago e começasse a comer. Achei muito fofo da parte dele enfeitar o lago como flores perfumadas. Mas tenho quase certeza que assim que meu aniversário passar ele irá retirá-las e deixar o lago normal novamente. Era fácil prever isso. Ele era um garoto.
Aproveitei o momento de silêncio que se passava entre nós para eu lhe perguntar sobre algumas dúvidas.
— Leo, o que significa passar pelo RG? — ele abaixou os seus olhos e os mirou ao chão. Após uns segundos de silêncio ele me responde.
— Você não devia saber sobre isso. É muito nova ainda.
— Eu cansei de que me chamem de nova! — gritei — Minha mãe não quis me ensinar a caçar por culpa desse mesmo motivo. E agora eu estou aqui, sem saber o que fazer! Me responde, Leo!
— Certo, eu conto. Mas vai ter que colher mais maçãs pra mim depois.
— Fechado — e ele me contou.
Sua família foi morta por culpa do Registramento Geral. Também conhecido como RG. Após a guerra aqui na Califórnia, que acabou em 2064, todos habitantes devem ter seus nomes registrados em um livro. Os governantes controlam todas as pessoas que estão registradas. Elas tem seus direitos como cidadão, comida, emprego... Mas não tem liberdade. Todos os nomes escritos devem seguir a lei e quando completarem 64 anos... são mortos.Isso se conhece como idade-limite.
Existe um tipo de rastreamento criado pelo governo recentemente, aplicado àqueles que não passaram pelo RG. Essas pessoas são rastreadas e, caso sejam menores de 12 anos, são registradas. Mas as que são mais velhas, são mortas.
Os governantes também possuem direitos, muito mais comida e empregos. Mas a liberdade não. Até os membros da lei são mortos ao completarem a idade-limite. Não há nenhum tipo de excessão. Todos nós morreremos.
Não possuímos mais liberdade. Essa palavra foi desconhecida pelos cidadãos depois da guerra. O RG serve para advertir todos os rebeldes que desejam começar uma nova guerra e os proíbe de ter essa ideia. Isso é a crueldade. Isso é a injustiça. Isso é a atual Califórnia.
— Minha família foi morta pois já tinham completado a idade-limite — ele disse com lágrimas nos olhos.
— Já a minha mãe, minha única família, foi morta por não passar pelo RG.
— Está vendo só, Bella? — ele disse me olhando nos olhos e pude perceber a raiva em sua voz. — De quaisquer as maneiras a qual escolhermos iremos morrer! Se passarmos pelo RG, morremos aos 64 anos. Mas se não passarmos iremos morrer do mesmo jeito. É tudo um plano do governo para dominar a população mundial! Assim que a Califórnia for controlada, eles irão pelos outros países ainda restantes! Não temos liberdade e logo depois não teremos mais consciência!
— O que você quer dizer com não termos mais consciência?
— Esqueça, não é nada que você precise se preocupar — Havia uma pontinha de preocupação em meu olhar, que ele deve ter percebido para ter dito isso.
— Para com esse jogo, Leo! Eu quero respostas! Eu passei a minha vida toda na floresta, eu não sei como é a cidade. E eu preciso saber — ele não se convenceu com o que disse, tanto é que ele ficou calado. Então continuei. — Me conte tudo, ou nada de maçãs!
Dizer isso fez com que ele não conseguisse mais resistir. E ele continuou à contar. Isso me deixou satisfeita, pois pelo menos saberia mais sobre o que acontecia na cidade.
Seu pai era um membro do governo. Ele sempre chegava entusiasmado em casa e contava para Leo e sua mãe tudo o que acontecia em seu trabalho na hora do jantar. Mas um dia, ele ficou calado. Apenas dizia coisas como 'oi' e 'boa noite'. Na hora em que foi dormir, Leo colocou seu ouvido por trás da porta e escutou a conversa de seu pai e sua mãe.
Seu pai dizia que estavam planejando um soro controlador de mentes, que seria incluído junto do rastreador aplicado aos cidadãos. Esse soro poderia controlar milhares de mentes através de uma voz apenas. Isso significaria que perderemos a consciência do mundo ao nosso redor caso esse soro fosse aplicado ao nosso organismo.
O projeto ainda estava em desenvolvimento, mas logo iriam selecionar cobaias, já perto da idade-limite, para os testes. Caso conseguissem, iriam fazer com que todos tivessem o soro injetado em seu corpo, das pessoas mais novas até as mais velhas, e começariam a dominação mundial a partir daí.
— Meus pais completaram 64 anos dois dias depois. E... bom, você ja sabe o que aconteceu — ele disse se levantando. — E depois disso eu fugi para a floresta.
Eu fiquei calada enquanto ele ia andando em direção à caverna. Minha mente dizia que não era possível acreditar, mas meu coração retrucava com ódio por que existiam pessoas capaz disso. Mas de todas as coisas que eu pensei que poderiam ser o RG, nenhuma delas se comparava com a realidade.
O mundo é muito cruel. Foi o que consegui pensar naquele instante. Não precisavam fazer com que as pessoas sofressem com a morte para não haver mais guerra. Claro que tinha outra saída. Mas eles escolheram a pior de todas: a morte.
Era possível fazer algo para melhorar, para o mundo não ser cruel, para não matarmos uns aos outros por culpa da idade. Era possível. E eu não ia deixar com que isso passasse em vão.
Eu ia me vingar da morte da minha mãe. Eu vou vingar a morte da minha mãe.
Andei até a caverna e, só de olhar pela entrada, vi Leo sentado com os cotovelos nos joelhos e as mãos na cara virado para a parede. Entrei silenciosamente e fui em sua direção, sentando ao seu lado. Procurei por seus olhos, mas estavam fechados com lágrimas ainda.
— O que você quer? — sua voz era fria e triste. Agora sei que não sou a única a sofrer pela morte da minha mãe.
— Eu só vim ver se você estava bem — continuei procurando por seus olhos.
— Eu só quero ficar sozinho.
— Então vamos ficar sozinhos juntos. É mais legal fazer algo quando se tem uma companhia!
—Apenas me deixa, Bella.
— Certo, mas primeiro me responde uma coisa: o homem que matou minha mãe, era realmente um caçador?
— Bella, você está querendo saber de mais. E se você tiver a sua mente, que é cheia de pensamentos doces, divertidos e alegres, ocupada por informações obscuras e horríveis, então a Califórnia estará realmente condenad...
— Pelo contrário — interrompi-o levanto meu dedo aos seus lábios. — Se eu souber sobre essas informações horríveis sobre o governo e o RG, eu posso pensar em algo para tentar mudar isso. Posso fazer com que seja diferente, que haja uma outra solução, que mude o que o governo pense. Mas para isso eu preciso saber mais!
— Bella...
— Eu preciso saber como funciona a cidade, como são as pessoas de lá, como eu posso me proteger. Eu não ligo de me arriscar e acabar morta, mas eu quero morrer com orgulho de dar a liberdade a todos.
— Bella...
— Sabendo dessas informações eu posso sair da floresta e mudar a opinião de todos. Começando pela sua.
Ele se calou por uns segundos. Finalmente eu consegui encontrar seus olhos e o encarei. Ele me olhava de um jeito indecifrável. Eu não conseguia enxergar o que ele pensava. Até que ele respondeu.
— Acho que o sol te fez mal e você ficou louca. Não é possível uma garota como você salvar o mundo sozinha.
— Eu não vou sozinha. Vou com você — continuei à encará-lo.
— E quem disse que eu vou? — ele dizia com uma expressão de que começaria a ria em questão de segundos. — Se você quer morrer, vai lá. Eu vou ficar aqui nesse lindo abrigo que me foi apresentado — ele disse a última palavra lentamente.
— E eu que pensei que fosse meu amigo. Mas tudo bem! Eu, a louca aqui, vou ir lá e esfregar na cara do governo o quanto eles são burros por criarem esse RG! E eu vou sozinha! — gritei a última frase e saí batendo os pés para fora da caverna.
— Antes de ir, não se esqueça das minhas maçãs! — fingi que não escutei o que ele disse.
Contornei a caverna e encontrei algumas rochas grandes, que davam para ser escaladas. Peguei minha mochila e comecei a subir. Fui o mais alto possível — um ponto onde o Leo provavelmente não me veria — e deixei as lágrimas rolarem. Se alguém me perguntasse quanto eu chorei nesses últimos dias, eu literalmente não saberia responder. Chorei até meus olhos incharem.
E eu que pensava que havia ganhado um amigo em que podia contar. Me lembrei dele segurando os dois esquilos que eu tinha capturado, de ele me consolar com um abraço na caverna enquanto eu lembrava de minha mãe, de ele fazer aquela surpresa de aniversário para mim. Mas logo esses pensamentos foram tomados por lembranças não agradáveis. Como quando ele jogou na minha cara que eu ia morrer e não conseguiria salvar a Califórnia do RG. Eu não sei mais quem ele é de verdade.
— Ei! — ouvi um grito.
Olhei para baixo e dei de cara com a pessoa mais confusa que já conheci — embora só tenha conhecido três pessoas. — Sim acertou. O Leo.
— Se quiser tentar salvar o mundo — ele fez aspas com os dedos na parte salvar o mundo — é melhor ir em direção à cidade. E não é aí em cima.
— Eu acho que você me deve desculpas.
— E eu acho que você me deve maçãs.
— Primeiro me pede desculpas!
— Primeiro me dá as maçãs!
Ficamos discutindo parendo criancinhas de cinco anos. Até a hora que eu decidi descer. Estava indo tudo bem, mas meu pé escorregou em uma das últimas rochas e eu caí. Mas não no chão. E sim nos braços de Leo. Era a segunda vez que eu sentia aqueles braços firmes, fortes e seguros.
— Agora também está me devendo um obrigado! — ele disse ainda comigo em seus braços, me lançando um sorriso de lado.
— Obrigada. Agora me põe no chão!
Ele me colocou gentilmente na grama perto do lago. Mas uma coisa boa que ele me faz. Me salvou de cair de costas nas rochas. Como ele consegue ser tão gentil em certas horas, mas tão rude em outras?
— Me desculpe. Eu não queria ter dito aquilo para você. É que... eu acho que fiquei abalado de mais por me lembrar da morte de meus pais — ele se desculpou olhando profundamente em meus olhos. E eu consegui reconhecer sinceridade em sua voz.
— Eu te desculpo. Mas terá que responder às minhas perguntas.
— Fechado. Mas não polua sua cabecinha inocente com informações perigosas, certo?
Apertamos nossas mãos para confirmar o trato. Ele ficou me olhando durante um tempo. Que raiva, por que eu nunca conseguia saber no que ele pensava? Ele se aproximou de mim e sussurrou algumas palavras em meu ouvido.
— Sabe o que eu ia adorar? — sua voz estava como as dos atores de filmes. Maravilhosa e sedutora.
— O quê? — respondi com a melhor voz que pude, para combinar com a dele.
— As minhas maçãs! — ele disse com uma voz de brincadeira, estragando todo o clima.
Ele se afastou e sorrio me encarando. Pude entender que ele estava esperando eu ir buscar. Revirei os olhos e joguei minha mochila na caverna. Me voltei para ele e disse a última frase antes de ir em direção à macieira:
— Quando voltar, quero todas as informações. Desde as mais simples até os mínimos detalhes!
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