Nem dá para se comparar a noite fria de ontem com o calor insuportável de hoje. Eu havia acabado de comer o resto das amoras enquanto lavava o potinho todo cheio de caldo roxo no lago. Não tinha tomado tanta água hoje, pois ela estava fervendo por culpa do sol. Eu estava com fome. A comida que tenho em minha bolsa não seria suficiente e ainda por cima se eu a comesse, morreria de fome pelos próximos dias. Eu preciso caçar. Mas com o que? Não tenho cordas, nem espadas, nem arco e flecha, nem nada. A única coisa que possuo são minhas mãos, e eu não aprendi a caçar só com elas. Quem era boa nisso era minha mãe.

Ela vivia caçando esquilos e usava sua carne para comermos assim que acendia uma fogueira. Mas ela nunca me ensinou. Eu tinha duas opções nesse momento: entrar na floresta e tentar achar um esquilo, tendo o risco de encontrar com o caçador também, ou ficar aqui protegida, porém morrendo de fome. Preciso tentar usar algo das coisas que tenho como armadilha, assim não fica tão difícil para eu caçar. Olhei em minha mochila. Havia uma faca para eu cortar o pãozinho que tinha, um rolo de barbante — que eu não sabia de onde tinha vindo -, algumas nozes que poderiam atrair um esquilo e os meus outros mantimentos.

Bem, eu não estava tão mal. Poderia conseguir a carne de um roedor com o que tinha. Peguei a faca, o barbante e as nozes e saí da caverna. Ao ar livre seria bem mais fácil planejar algo. Tentei pensar no que minha mãe faria nessa situação.

Ela me contou que fazia artesanato, e aquelas mãos práticas, ágeis e cuidadosas eram profissionais nesse ramo na minha opinião. Ela espalhava várias arapucas pela floresta e depois verificava uma por uma para ver o que conseguiu. Ela ia me ensinar assim que eu completasse doze anos. O meu aniversário é amanhã, mas eu vou ter que aprender sozinha. Continuei a pensar. Até que tive uma ideia.

Fui pela floresta adentro, procurando por gravetos, e assim que consegui o suficiente voltei para meu local de abrigo. Comecei a amarrá-los com cipós, formando uma espécie de caixa. Assim que terminei, pendurei com o barbante a caixa em um galho não muito alto. No chão coloquei algumas nozes, uma perto da outra, para atrair algum esquilo. Pronto. Acho que vai funcionar. Assim que o roedor for comer as nozes, eu corto o barbante com a faca e a caixa irá cair em cima dele. Depois é só fazer uma fogueira e assar o bichano. Tem que funcionar.

Enquanto esperava de cima de um galho algum animal aparecer para capturá-lo, avistei uma árvore frutífera não muito longe.

Sem perder tempo, deci aos pulos, o que causou um barulho suficiente para espantar qualquer um que estivesse ali perto, e fui correndo em direção à árvore. Era uma macieira. Só fui perceber que estava com a faca ainda na mão depois que cheguei. Mordi o cabo da faca e comecei à escalar. Assim que finalmente consegui ficar perto das maçãs maduras e vermelhas, peguei a faca e comecei à cortá-las. Fui colocando as maçãs em minha camiseta e às levei para minha caverna.

Fiz uma cesta improvisada com algumas trepadeiras e coloquei as maçãs. Antes de lavá-las para poder comer, decido ir checar a minha arapuca. Sei que não vai ter pegado nenhum esquilo, pois eu não estava lá para cortar o barbante. Mas eu preciso conferir se nenhum bicho comeu as nozes, caso contrário terei de buscar mais.

Enquanto caminhava, fui lembrando da canção que eu ouvia toda noite antes de dormir. Era cantada pela minha mãe até uns dias atrás. Ontem, antes de pegar no sono, percebi a ausência da música e comecei a sentir falta daquela doce melodia, cantada por uma maravilhosa voz. Minha mãe me contou que quem a criou foi minha tataravó. Ela cantava para sua filha para ela pegar no sono novamente após ter tido um pesadelo. Eu me encantei com isso. Essa música foi passando de geração em geração, até chegar em meus ouvidos. Não poderia morrer comigo. Eu precisava passá-la adiante. Tentei me lembrar da letra.

A noite está chegando, é hora de dormir
Durma bem tranquila que eu vou estar aqui
Ao amanhecer o sol vai brilhar
Iluminando a sua beleza através do ar
Para relaxar, pense em minha imagem
À te observar nessa paisagem
Seu sorriso é o que eu mais desejo,
E com ele... enfrentará seus medos!

— Sinto saudades, mãe — disse para mim mesma em um sussurro.

Estava perdida em pensamentos, à caminho da armadilha que havia feito. A lembrança da música me fez relaxar e, como a própria letra dizia, pensei na imagem de minha mãe nessa paisagem. Com aqueles cabelos perfeitamente lindos refletidos no maravilhoso lago em que a cachoeira despenca, sentada ao lado da rocha que é a minha caverna e seu sorriso tão branco...

— Muitas saudades mesmo. Você podia estar aqui, comigo — completei.

Voltei a me concentrar e prestar atenção ao caminho que estava fazendo. Não me lembrava de ter colocado a arapuca tão longe de meu abrigo, mas consigo saber que estou no caminho certo pela trilha de mato pisoteado pelas minhas botas. Eu esperava achar a minha armadilha imóvel, no máximo teriam sumido as nozes. Mas, para a minha surpresa, estava totalmente diferente.

O barbante havia sido cortado, a caixa de gravetos estava toda desmontada, os cipós arrebentados e as nozes estavam sendo comidas. Mas não por um esquilo, como eu esperava.

Era por um garoto.