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22 O Bispo
Acordo com mordidas no meu nariz. É quase impossível ter uma noite razoável de sono e sempre chegam para me atrapalhar.
Finalmente abro os olhos e vejo aquela coruja cinza do “mensageiro” me encarando.
Nas suas patas um novo envelope.
Pego o papel com receio e vejo a coruja voar indo embora de meu quarto.
Rasgo e um bispo branco cai no meu colo. Nem me dou o trabalho de ver se tem o “RW” gravado na peça.
Abro o pergaminho e leio:
“Algumas missões fazem doer na pele.
O bispo é aquela peça que não se tem muitas opções de jogadas.
Será que seu movimento limitado irá derrotar o rei?
A metade daquele que se foi”
O Jorge.
Eu sabia que a missão do Jorge estava próxima, mas pensava que ia ser depois, ele é de longe a pessoa que mais está sofrendo com a morte do Fred.
Se bem que eu não o vejo há muito tempo, e olha que moro na mesma casa que ele.
Pior que nem sei do que preciso salvá-lo.
Levanto decidido da cama, se tivesse que ser feito que seja logo e rápido.
Saio pela porta do meu quarto e a primeira pessoa na qual me deparo é minha irmã.
- E ai? Preparado? Hoje é aniversário da Mione e...
- Não Gina – não permito que ela continue falando – Nova missão – mostro a ela o pedaço de pergaminho – Prioridade atual.
- Como assim? Tem que ser hoje Ronald!... – ela continuou falando bobagens e eu fingi ouvi-la.
Cheguei à porta do quarto do meu irmão e bati.
- Entra – a voz dele respondeu.
Bom, pelo menos ele está falando e não ta com a doença da mamãe.
Aliás a doença. Qual será a doença do Jorge?
O encontrei deitado em uma das duas camas que tinham no aposento. Senão tivesse ouvido a voz dele me convidando a entrar pensaria que estava tirando um cochilo.
- E ai Rony?
- Ei Jorge, está dormindo? – perguntei.
Eu sei que ele não está dormindo, mas é realmente estranho vê-lo com os olhos fechados falando normalmente.
- Estou acordadíssimo! – ele respondeu empolgado sentando-se na cama.
- É que seus olhos estão fechados – disse meio receoso.
- Eu sei não é empolgante? Você não imagina o quanto passa a se conhecer melhor com os olhos fechados.
- Como assim?
- Está ouvindo isso? – ele perguntou levantando os dedos apontando pra janela.
- Ouvindo o que? – a casa está no completo silêncio.
- Tantas coisas Rony, lá fora escuto um pássaro que acabou de se banhar no lago, escuto passos de um gnomo, escuto o papai mexendo na garagem, escuto a Gina batendo os pés levemente no chão do outro lado da porta. Coisas que não conseguia ouvir com os olhos abertos.
- Mas... – comecei a contestar.
- E o cheiro Rony? Consegue sentir o orvalho lá fora misturado com o café da manhã que a mamãe está preparando?
- Não – respondi.
- Os sentidos ficam mais apurados quando se resolver perder um deles.
- Resolve perder um dos sentidos? – perguntei abalado – Jorge você enxerga. Abre esses olhos!
Ordenei.
- Não! – ele negou nervoso – Estou a mais de um mês com meus olhos fechados e assim vou permanecer.
Merlin! O Jorge enlouqueceu!
- Mais de um mês – sussurrei para mim mesmo, tentando acreditar nisso.
- Rony venha aqui – ele me chamou e bateu a mão ao lado na cama.
Sentei ao seu lado.
- Feche os olhos – ele pediu, eu não obedeci – Vamos de uma chance – insistiu.
Como ele sabia que estou com os olhos abertos?
Enfim, o obedeci e fechei meus olhos.
- Está ouvindo as coisas com mais nitidez Rony?
Tento me concentrar mas não escuto nada. Absoluto silencio.
- É... – eu disse sem convicção.
- Eu sei, o começo é complicado, mas com o tempo você se acostuma e nota que viver com os olhos fechados pode ser proveitoso.
- Proveitoso? – questionei abrindo os olhos e saltando da cama.
- É cara! Sabe eu estava até pensando, posso até inventar um óculos que bloqueia a visão e vender nas “Gemialidades Weasley”, to precisando de novas idéias desde que o...
E então ele parou de falar.
- Tudo isso é por causa do Fred? – perguntei.
- Não – ele prontamente negou.
Cheguei mais próximo a ele e pedi num sussurro:
- Jorge, abre os olhos.
- Para que? – ele perguntou levantando da cama na qual estava sentado – Posso fazer tudo com os olhos fechados. É simples e me salva.
- Abre os olhos – voltei a pedir.
- Não! Ser cego é minha nova filosofia de vida!
- Ninguém adota o “não enxergar” como filosofia de vida! Abre os olhos – voltei a ordenar.
- Não é só porque você acha que enxergar é necessário que as outras pessoas pensam igual.
- É loucura Jorge, você enxerga! Devia colocar em uso esse sentido.
- Não consigo abrir meus olhos, não consigo – ele andou até a janela devagar e virou o rosto para eu não vê-lo – É mais simples viver sem enxergar, é menos doloroso.
- Não é mais simples e nem menos doloroso, é a saída mais fácil – eu lhe disse.
- É fácil pra você falar quando está de fora, quando não é você que abre os olhos e enxerga o Fred no espelho.
- Jorge...
- Não! – ele negou levantando a palma da mão para mim cansado – Não me peça para abrir os olhos. Eu simplesmente não posso.
- Por quê? – perguntei não esperando a resposta.
Jorge suspirou fortemente e começou a me explicar.
- Olhe para os lados Rony, para todos os lugares tem espelhos.
Espelhos? Olhei ao redor e vi somente um espelho pregado na parede.
- Não necessariamente espelho no sentido literal. Há reflexos por toda parte, no vidro da janela, na madeira da cama...
Reparei nos olhos rudemente fechados que meu irmão insistia em deixar.
- Quando abro os olhos o vejo.
- É você, não ele – sussurrei.
- É fácil para você falar quando não tem os mesmos olhos, o mesmo nariz, o mesmo cabelo, a mesma voz. Eu o vejo quando olho meu reflexo e isso acaba comigo. Então o ato de fechar os olhos é simples e menos doloroso.
Não consegui dizer mais nada.
- Eu tentei fazer meu caminho, eu tentei mudar esse conceito que pus em minha cabeça – ele virou seu rosto para mim, mas continuava com os olhos fechados – É melhor você acreditar que eu estou tentando superar isso.
O vi voltar a deitar na cama e envolver seu braço direito por cima de seus olhos.
O Jorge vê o Fred como um fantasma do passado, como um ser que ele era antes dele partir. Como o faço abrir os olhos?
“Encarando os fantasmas do passado” – respondo por pensamento
“Mas ele precisa abrir os olhos como faço para ele abrir os olhos?” – perguntei.
“Matando os fantasmas do passado” – respondo.
Fantasmas = Espelhos.
Já sei!
- Eu já volto – anunciei.
Quando abri a porta dei de cara com a Gina carrancuda com os braços cruzados.
- Agora não – disse antes que ela abrisse a boca.
Corri escada abaixo e encaminhei para fora de casa, fui para o velho armário de vassouras e peguei o bastão de batedor da época que jogávamos quadribol nos jardins. Parece que faz tantos anos.
Voltei rapidamente para o quarto do Jorge. Abri a porta arfando.
- Você tem que encarar os fantasmas do passado – anunciei.
- O que?
- Tem que parar de perseguir a sombra do Fred e encontrar a sua própria.
- Eu já disse que...
- Você esqueceu, ou fingiu esquecer, é mais fácil deixar “para lá”, é mais simples negar que o mundo de repente virou de cabeça para baixo. Onde está o chão que costumava pisar? Tudo desmoronou.
Jorge estava sentado em sua cama encolhido, tampando os ouvidos, tentando parar de ouvir minhas palavras.
- Mas o negar é o que te mata aos poucos, o ato de fechar os olhos é o que vai te cegar e não te deixar enxergar o alguém que você é sem ele.
- Cala a boca! – ele gritou apertando sua cabeça.
- Mate os fantasmas do passado.
Cheguei perto do meu irmão e o fiz sentir o bastão que havia levado ao quarto.
- O que quer dizer com isso? – ele questionou confuso.
- Acabe com os espelhos que te rodeiam Jorge.
- Como?
- Veja!
Levantei o bastão de quadribol e arremessei direto na janela do quarto fazendo o vidro se despedaçar.
- A mamãe vai te matar – ele exclamou.
Jorge estava olhando o estrago que eu havia provocado.
Sim! Estava vendo!
Com os olhos bem abertos aliás.
- Mate os fantasmas do passado.
Lhe entreguei o bastão.
Jorge levantou da cama decidido e com um ódio enorme golpeou o enorme espelho do quarto.
Um
Dois
Três
Quatro
Cinco
Perdi as contas de quantas vezes o bastão foi de encontro ao espelho.
Após um tempo, quando ele achou que fosse o suficiente, parou seu ato e encarou os milhares de rostos que se projetaram nos cacos rachados no chão.
Arfando e com lágrimas nos olhos ele me encarou e disse:
- Uma parte de mim morreu quando deixei ele ir.
Tentei abrir a boca pra falar, mas ele me interrompeu.
- Encarar os fantasmas do passado? Abrir os olhos? O que adianta? Nada mudou.
Enquanto o via encaminhar porta a fora e se trancar no banheiro notei que essa missão não havia acabado.
Notas finais
Mas uma coisa tenho que dizer... Para agluém com uma orelha, Jorge consegue escutar muuuuito bem, hein?
Ansiosa para o próx.!
Beijos ;*
N/A: Primeiro quero agradecer por não terem me abandonado... essa Fic é muito difícil de escrever e ter o apoio de vocês, me faz querer postar sempre... Então esse capítulo foi MUITO difícil de escrever... No principio ele ia se chamar “Espelhos”, mas como cada missão do Rony tem o nome da peça em um capítulo teve que ficar nesse...
O próximo capítulo vocês vão gostar, é a submissão maluca da Gina posta em pratica...
Me digam suas impressões da doença do Jorge... Beijinhos
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