Mensagens

19 Descontando a raiva


\"\"

Estou na sacada de um prédio da Londres Trouxa. Está escuro e grossas gotas de chuva caem me molhando por inteiro. Um clarão no céu anuncia que a tempestade irá piorar.

- Ronald! – escuto um berro ao longe e olho para baixo.

E a vejo.

Ela não é mais que um pontinho no meio da rua, mas mesmo assim a reconheço.

- O que está fazendo?! – Hermione pergunta urrando.

- É para o bem da humanidade – eu sussurro me aproximando da beirada e abrindo meus braços.

- NÃO! – ela grita enquanto fecho os olhos e me inclino saltando do chão para o nada.

Me sinto voando e livre.

Me permito sorrir um segundo.

- Rony!

Abro os olhos assustado com o coração disparado.

Pesadelo!

Porcaria de pesadelo!

- Que bom que acordou – uma voz suave vinda da porta do meu quarto ecoou.

Essa voz.

Cara como meu coração salta forte só por causa da voz dela.

- Bom dia, Rony.

- Bom dia, Mione.

Eu sento na cama me descobrindo e coçando os olhos, bato a mão do meu lado pedindo para que ela se sente ali.

Precisava de uma coisa dela.

Assim que a Hermione sentou-se do meu lado a abracei.

- Que foi? – ela perguntou no meu ouvido sussurrando.

- Pesadelo – respondo apenas a trazendo mais junto de mim.

- Toda vez que tiver um pesadelo vai me abraçar forte assim?

- Provavelmente mais.

Ela riu e saiu dos meus braços.

A garota dos meus sonhos passou a mão por todo meu rosto analisando cada ruga e cada olheira que tinham surgidos.

- São as mensagens, não é? – ela suspirou – Que estão te deixando assim?

- Sim – eu confirmei.

- Você está acabado, Rony – ela fechou os olhos e deitou a cabeça no meu peito – Acho melhor parar de fazer essas missões.

- NÃO! – eu gritei a assustando – Desculpe, não posso.

- Por quê? – ela perguntou saindo de meus braços e olhando em meus olhos.

“É para o bem da humanidade” – respondi por pensamento.

- O que está fazendo aqui? – fujo de sua pergunta.

- Pensei em passar um dia aqui na Toca, lá em casa é tão horrível ficar solitária e tenho certeza que o telefone sobrevive um dia sem mim para atendê-lo.

- Eu e o Harry vamos procurar casas em Godric's Hollow.

- Godric's Hollow?

- Estranho, não é? Mas é lá que ele pretende morar e bom até que gostei da idéia de morar lá também. Quer ir com a gente?

Ela confirmou com a cabeça.

Aparatamos os três de mãos dadas, a Hermione no meio como nos tempos que caçávamos Horcruxes.

Eu nunca havia estado na aldeia antes, estávamos parados numa estradinha de pedra, o sol no alto do céu anunciava que estávamos no meio do dia. Havia chalés idênticos por toda extensão.

- Um desses chalés tem que estar a venda – eu disse olhando por toda rua vendo diversas casas até se perder de vista.

- E de fato está – Hermione ergueu a mão apontando um específico na cor amarela.

Nós três nos aproximamos dele e vimos uma enorme placa com os dizeres: “A venda”.

- Outro para você, Rony – Hermione mostrou o chalé do lado direito na cor marrom com outra placa anunciando que estava a venda.

Harry analisava a frente de sua suposta casa ignorando nós dois.

- Ah! Mas eu não vou querer morar sozinho – eu disse sorrindo para ela – É mais para depois de me casar.

- E quem vai ser a doida de cometer a loucura de se casar com você? – ela perguntou mordendo os lábios.

Eu sabia que era ela.

Ela sabia que era ela.

Mas sabe aquele jogo do “Vamos falar de nós mesmos na terceira pessoa”? Estávamos fazendo isso.

Eu engoli em seco criando coragem de falar umas palavras em voz alta.

- Eu acho que ela nem sabe, mas ela tem cabelos esvoaçantes e é obcecada por livros, é meio irritante, mas eu gosto.

- Acho que conheço ela – Hermione respondeu com um sorriso enorme e com seus olhos brilhando.

- Qual o problema de vocês dois? – o Harry gritou se aproximando de nós – Isso aqui não é um passeio, estão entendendo?

- Harry... – Hermione começou.

- Não fala nada! Vai defendê-lo! Estou de saco cheio disso tudo! – ele começou a andar pela calçada procurando outras casas.

- Não ligue para ele – eu disse pra Mione.

O rosto dela estava triste.

Droga é tão difícil arrancar um sorriso dela, o Harry vem e estraga tudo.

Estiquei meu braço como um pedido mudo para que ela segurasse e quando ela assim o fez caminhamos juntos atrás do meu melhor amigo, que agora pegava gravetos no chão e jogava com toda sua força para cima.

Ele fazia isso o tempo inteiro.

Acho que tentava descontar sua raiva.

- É o Harry, não é? – ela me perguntou.

Eu sabia que Hermione falava das mensagens.

- Sim, é ele.

- E esse passeio procurando casas em Godric's Hallow tem a ver com a solução do problema?

- Eu achei que tivesse, mas agora...

- Ele ta com raiva – ela constatou.

- Do que? – questionei.

- Do mundo?

- Não – eu disse.

- Ele se sente culpado...

- Do que? – volto a questionar.

- Pelas mortes na guerra. Pensa Rony, se o Harry não tivesse sobrevivido ao Avada Kedavra aquelas mortes na guerra não teriam acontecido, todas pessoas que se sacrificaram lutando contra Voldemort talvez não estivessem perdido seus entes queridos. Ele acha que toda dor no mundo é culpa dele, por isso a raiva.

- Isso é ridículo.

- Eu sei, só que o Harry não consegue enxergar a verdade.

- Preciso descobrir um jeito de fazer ele enxergar – disse mais para mim mesmo.

Hermione me olhava apreensiva.

- Não vai fazer besteira para concluir mais uma missão.

Eu não respondi.

Já sabia o que teria que ser feito com o Harry.

Teria que fazer ele mesmo admitir que não era culpado e já sabia como.

O problema é que a Hermione não podia estar presente.

- Mione, estou morrendo de fome, vai ali naquele mercadinho comprar alguma coisa para mim? – eu lhe entreguei uns sicles apontando um armazém na esquina.

Estávamos no cemitério, o Harry quis ver seus pais, eu nunca estive aqui mas depois de ver meu amigo olhar carrancudo para o túmulo deles, sei que essa missão vai ser mais difícil do que eu pensava.

- O que está tramando? – Hermione perguntou sussurrando para o Harry não ouvir.

- Nada, só estou com fome, juro – levantei a mão no ar aberta – Ah! Hermione! Estamos andando atrás de casas há muito tempo, não posso ficar com fome?

Ela pegou o dinheiro da minha mão sendo vencida.

- Seja o que for que vá fazer para ajudar o Harry faça rápido. Volto em dez minutos.

Vejo a Hermione andar a passos curtos para fora do cemitério.

É realmente impossível enganá-la.

Preciso ser rápido.

- Seus pais devem ter pena de você – eu disse.

O Harry olhou para mim confuso.

- É, sabe? Pena? Afinal todos achavam que você era o eleito e no fim deixou um monte morrer a custo de nada – continuei falando o mais normal possível que consegui.

- Como é que é? – Harry perguntou indignado.

- Oras Harry! Vamos ser sincero, você não fez muita coisa na guerra, não é? Destruiu uma Horcrux apenas e ainda foi com doze anos quando não sabia o que era Horcrux e depois fez o que? Derrotou Voldemort com um Expelliarmus... Expelliarmus?

Podia ver meu amigo fungando, seus olhos estreitos, suas mãos fechadas.

- Acho que se você não fosse o verdadeiro proprietário da varinha das varinhas nunca o teria derrotado. Expelliarmus? – eu ri debochando dele.

O Harry estava cada vez mais nervoso.

Chego perto do meu amigo e o agarro pelo colarinho.

- Sabe Harry. Às vezes eu penso que deve pagar por todo mal que fez a nós.

Tento parecer que estou fora de mim. Arrasto o Harry e o encosto em uma árvore e lhe meto um soco na cara.

Cara! Que dor.

Acho que os ossos de minha mão foram embora.

Vejo o nariz do meu melhor amigo começar a sangrar.

Vejo a fúria perpassar em seu rosto.

Sinto ele me empurrar.

E finalmente sinto a mão do Harry ir de encontro ao meu rosto.

- Você não sabe o que eu fiz quando fui naquela floresta!

Sinto o gosto de sangue na minha boca.

Sinto meu melhor amigo me empurrar me fazendo cair no chão.

- Não deve ter sido nada demais já que voltou vivo de lá – voltei a provocá-lo.

Teria que arrancar o que queria do Harry a qualquer custo.

Sinto os hematomas aparecendo nas costelas e no estomago.

- Eu perdi meus pais, meu padrinho, eu não tenho família e tudo por causa de um cara sem amor próprio.

Harry dizia cada palavra com um chute lançado contra mim no chão.

- Eu não queria que tivesse acontecido aquelas mortes todas. Não queria que...

- O QUE ESTÃO FAZENDO! – escutei o grito da Hermione.

Ela havia voltado.

Olhei para o lado que havia escutado a voz e a vi levantando a varinha:

- Protego!

E um escudo invisível me separou do Harry.

Droga!

- Eu nunca quis ser o eleito. Nunca quis ser aquele que deveria derrotar Voldemort... –

Harry continuava a urrar nervoso, mas agora metia as mãos fechadas no protego.

- Sério? – perguntei sarcástico.

- Eu não tive culpa naquelas mortes!

Ele finalmente pronunciou.

- Isso! – confirmei feliz.

- NÃO TIVE CULPA!

Eu levantei com dificuldade do chão.

- Não, não teve Harry.

Olhei para a Hermione e reparei que ela estava aflita esperando o desfecho.

- Espera ai! – o Harry disse passando a mão pelos cabelos tentando voltar a si – Isso foi de propósito.

- Foi – eu sorri sentindo todos meus ossos quebrados.

- Você é maluco?

- Ele é – confirmou a Hermione com a voz chorosa.

- Não! – eu gritei e minha cabeça latejou de dor – Só tinha que completar minha missão.

Harry olhou para mim intrigado e de repente parecia ter lembrado de algo.

- Aquele lance do 007 era verdade?

- Que? – perguntei confuso.

- Aquele negócio de mensagens com missões e peças de xadrez.

- Ah sim! E você era minha nova missão.

- E completou ela? – ele questionou.

- Não sei, completei? – voltei à pergunta para ele.

Ele bufou e olhou para baixo.

- Eu sei que não tive culpa de nada, ok? Eu sei.

- Então eu completei.

Olhei para a Hermione e a vi retirar o feitiço de proteção.

- Obrigado – o Harry me agradeceu antes de me puxar para um abraço.

- Vocês dois são dois bobos – ouvi a voz chorosa da Hermione ecoar antes de sentir seus braços envolta de mim num abraço triplo.

Notas finais
N/B: Meu Deus! Sabia que o capítulo teria socos, mas não pensei que seria tão tenso! Ahh, AMEI!
Aposto que esse último abraço deve ter sido dolorido para Rony, com os ossos todo quebrados e etc...
Finalmente Harry percebeu que não tem culpa de nada ;)

N/A: O cap foi tenso eu sei... O próximo tem Harry e Gina (sou péssima escrevendo eles)
Obrigada por não me abandonarem...

beijinhos