Menos amor
1 Tudo o que quiseres te darei, ó flor
Embora saiba que me tens tão grande adoração
Eu sigo a ordem e essa é dada por meu coração
Neste romance existem lances sensacionais
Mas te dar meu amor, jamais
A gente ama verdadeiramente uma vez
Outras são são puras fantasias
Tudo, Menos Amor — Martinho da Vila
Tudo o que quiseres te darei, ó flor
Menos meu amor
De todas as qualidades e características que faziam Sasuke ser quem era, algumas vezes, Sakura gostaria de poder excluir uma só.
Embora gostasse do jeito sincero e verdadeiro do Uchiha, não tinha porquê ele usar de uma honestidade tão crua como quando afirmou que faria tudo para que fosse feliz e ficasse segura, mas não poderia jamais dar seu amor a ela.
A Haruno ficou boquiaberta. Ele acabara de pedir sua mão em matrimônio.
Aceitou a proposta ainda assim.
Durante os primeiros anos, pensava naquelas palavras como um desafio. O moreno tinha sofrido inúmeros traumas ao longo da vida; a pessoa que mais amara mentira para ele, manipulando-o, então não seria estranho que fosse tão cuidadoso para entregar completamente seu coração. A médica agiria com paciência e sabia que, pouco a pouco, conseguiria fazer com que o marido sentisse o mesmo que ela.
Quando engravidou, acreditou que o grande momento finalmente chegara e o desafio estava vencido. Sasuke a tratava com tamanha bondade, carinho e cuidado, sempre presente, segurando suas mãos, amarrando seus cabelos, massageando seus pés. E o olhar que ele devotou à filha no dia em que nasceu era de puro amor.
Porém, conforme o tempo foi passando, Sakura notou que o desafio ainda se mantinha. O Uchiha nunca deixou de tratá-la bem, mas não a deixava esquecer que o seu amor ainda estava fora de alcance.
Uma noite, após um tórrido momento de paixão, ele a puxou para o peito e permaneceu encarando o teto, pensativo e distante. Só a rosada sabia o que não faria para poder ler aqueles pensamentos, mesmo que por apenas alguns minutos. Ousada e curiosa, quis trazê-lo de volta para o presente. Puxou-o para um beijo que foi devolvido de imediato.
Quando se separaram continuaram a se encarar. A mão delicada da médica deslizou pelas madeixas negras enquanto o seu coração batia disparado, acelerado na mesma medida de anos atrás. Era loucura o quanto amava aquele homem e o tempo só fez com que o amasse mais e mais. Seus sentimentos eram tão intensos que, sem se dar conta, verbalizou-os.
Viu Sasuke arregalar os olhos e o choque instantâneo de constrangimento que fez o corpo masculino tremer.
A atmosfera de ardor, desejo e sexo desfeita em um segundo.
A mente da senhora Uchiha trabalhou violentamente pensando em uma forma para restabelecer a paz. Pensou em até mesmo explicar que não queria ter dito aquilo, apesar de ser mentira e ambos saberem disso.
De qualquer forma, não tinha volta. O moreno não respondeu nada. Deu um beijo em sua testa e ergueu-se. Sakura observou silenciosamente desesperada enquanto ele se vestia e o odiou naquele momento e odiou a si mesma.
Vestido e pronto, o marido deu um meio sorriso para ela e partiu para quem sabe onde e quando.
Tentou não pensar naquele desastre ao longo da semana e, a vantagem de ter uma criança em casa e um trabalho constante no hospital, é que quase não tinha tempo livre e seu objetivo foi conquistado sem muito esforço. No entanto, quando, na volta para casa depois de um dia árduo, encontrou Naruto e Hinata juntos pela Vila, sorrindo cúmplices um para o outro, sentiu como se um peso infinito tivesse sido jogado em seus ombros e paralisou.
Os Uzumakis estavam de costas para ela, observando a vitrine de uma loja de artigos para bebês. Bolt dormia nos braços do pai e Hinata estava com uma das mãos no ventre. Naruto estava tão feliz que parecia brilhar, iluminando a rua inteira, menos a escuridão onde a amiga se encontrava.
Sakura sentiu-se fria, obscura e melancólica diante daquela cena. Tão irônico.
Pensou no marido e na veracidade de sua palavra. Ele, de fato, fazia com que se sentisse segura e qualquer coisa que desejasse, ainda que ínfima, o Uchiha conseguiria para fazê-la sorrir. Amor, porém, não poderia dar a ela, mesmo que quisesse.
Era quase irreal o quanto a kunoichi o conhecia bem e o quanto conhecia o seu coração. Ele não precisava se confessar, ela sabia. Sasuke não poderia dar seu amor a ela porquê esse sentimento pertencia a outra pessoa e sempre pertenceria.
A ironia constava no fato de que a pessoa a quem o moreno entregou tão completamente o coração, também nunca corresponderia aos sentimentos dele. Essa pessoa era amada e amava verdadeiramente e o olhar carinhoso de azul e perolado era uma das provas.
Engolindo em seco, a médica deu um passo à frente, movida mais pela cordialidade e educação do que pela real vontade de falar com os amigos e paralisou novamente quando Naruto puxou Hinata pela cintura para um abraço apertado.
Desprevenida, a rosada levou uma mão ao peito apertado e quase deixou uma lágrima cair. Pobre Sasuke.
Abaixou a cabeça e preferiu afastar-se discretamente, surpresa consigo mesma. Não entendia como, justamente naquela situação, sentiu que seus sentimentos pelo marido tinham crescido e se fortificado e que estavam próximos de um jeito inédito e único. O amor não correspondido era um fardo que ambos compartilhavam.
Seguiu para casa com o peito pesado e o semblante soturno, mas fez questão de abrir um sorriso assim que abriu a porta. Sarada correu radiante para ela com os bracinhos erguidos, sendo seguida de perto pela avó.
O coração da Haruno aqueceu e ela abraçou a filha. Bom, pelo menos esse amor ela também compartilhava com o marido.
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