Menoria
1 Prologo - A Primeira Cidade a Morrer
Prólogo – A Primeira Cidade a Morrer
O vento estava suave naquele dia, trazendo com ele o som dos pássaros, que começavam a voltar do sul e estavam a cantarolar contentes naquela manhã fria de fim de inverno. O povo de Thrinmare estava ansioso por aquela primavera, mais pelo calor, mas também pela ansiedade de que novos aventureiros voltassem a percorrer aquelas estradas: viviam no norte do continente de Novandra, e em uma das suas frentes – que cobria uma grande parte da sua fronteira norte – no extremo norte, tinha o reino caído dos elfos, El’Lomir, que agora estava povoado por goblinoides, orcs e outras criaturas não muito adoradas pelos povos humanos.
Claro que, apesar da queda do reino élfico, aquilo não simbolizou realmente o fim daquela raça orgulhosa, ainda mais com tantas variantes existentes além dos altos elfos que costumavam compor El’Lomir. Inclusive, na taverna de Thrinmare, uma elfa da floresta trabalhava lá.
Elfos da floresa, apesar de terem muitos traços dos Altos Elfos, é uma das sub-raças menos orgulhosa dos elfos – apesar de ser não tão desconfiada quanto os elfos do mar. Normalmente eles vivem isolados em suas florestas, vivendo em comunidades por muitas vezes nômades, mas, desde a queda de El’Lomir, muita coisa mudou sobre como os elfos se relacionavam com as outras raças.
Mellanis costumava viver em uma dessas sociedades nômades, assim como seus pais, mas quando a sociedade élfica foi abalada pelo advento da sua queda, sua família decidiu se separar dos seus semelhantes e procuraram futuro na cidade humana de Thrinmare. Seu pai logo estava entre os números do exército humano, enquanto sua mãe aproveitou do dom natural dos elfos para magia e rapidamente era uma maga alquimista vendendo poções. Mellanis era nova, para os elfos, em seus joviais 160 anos trabalhava na taverna para ter um lugar para dormir e comer: seus pais tinham seus próprios dormitórios, então, restou a garota a ter de se virar. Não que isso a incomodasse; elfos são muito mais independentes da família do que os humanos.
E, além do mais, a beleza exótica dos elfos da floresta foi um dos grandes motivos que teve um aumento na clientela desde que ela começou a trabalhar por ali. Seus cabelos hora verdes e hora loiros, dependendo da iluminação, costumavam deixar muitos homens simplesmente hipnotizados tentando acompanhar a mudança desses tons; e seus olhos verde-dourados prendiam a atenção daqueles que os olhassem.
Tudo corria conforme seria o normal naquele dia: os clientes chegavam para o desjejum, aqueles que eram empregados costumavam enrolar ao ponto de seus próprios patrões aparecerem para os expulsarem da taverna e voltarem ao trabalho. Logo em seguida, Mellanis prosseguia a limpar a casa num passe suave e rápido que fazia lembrar sobre sua raça, além dos traços únicos dela, como o cabelo e as orelhas longas e pontudas, apesar de suavemente curvadas para baixo. Antes que percebesse era hora de preparar as coisas para hora do almoço.
Seu patrão, Vivare, e o cozinheiro, eram provavelmente os únicos que não ficavam embasbacados pela beleza élfica da garota, mas muito mais provavelmente pelo convívio diário com ela. Vivare era um homem forte, já nos seus quadragésimos invernos, da sua barba e cabelo preto já apareciam diversos fios prateados.
– Sabe, sei que já disse isso antes, mas sempre me lembro quando você começa a trabalhar... – Ele começou a falar, Mellanis acabou sorrindo de leve já sabendo o que ele iria dizer.
– Que é muito bom ter uma elfa como empregada por que somos muito mais eficientes do que suas humanas? – Mellanis se virou para Vivare com um sorriso longo e convencido nos lábios, um dos eternos lembretes que ela ainda era tecnicamente uma adolescente entre os elfos.
– É, e orgulhosa também. – O homem quarentão sempre tinha um riso calmo para dar entre cada copo sendo limpo. – Mas, você consegue fazer o trabalho de duas garotas; sabe o quanto de dinheiro você me compensa com tudo isso? Muito. Consegui até comprar mesas novas para as duas últimas brigas de bar que aconteceram aqui.
– Que ela foi o motivo do começo de tudo e eu que apartava! – A voz que veio da cozinha logo foi acompanhada do seu dono, um homem de pele escura e muito alto, tinha um sotaque eterno que sempre denunciava sua origem da cidade do deserto. – Honestamente velho, você dá muito mais crédito a ela do que ela merece.
– Ah, mil perdões, Grande Senhor do Sopão! – A elfa se curvou numa mesura exagerada para o cozinheiro, claramente segurando o riso. – Perdoe-me por minha grande leviandade sobre como minha competência e minhas capacidades estão distantes de merecerem seus créditos! Mas, devo lembrar-te que sua comida nunca mais teve que servir de alimento a grande mãe Terra, graças aos erros das suas tão adoradas humanas!
O cozinheiro apontou a colher para ela, cerrou os olhos conforme ela se levantava e o fitava diretamente nos olhos, zombando-o ainda, até que por fim ele recuou de volta para cozinha resmungando. Vivare riu alto, batendo a mão na bancada do bar.
– Viu?! É por isso que te adoro, Mellanis!
– É bom saber sobre isso. – O tom zombeteiro rapidamente sumiu de sua face e logo estava substituído por uma feição amável e calma, realmente apreciando o afeto não mal-intencionado de Vivare.
– Mas, de todas as formas! Temos que ajeitar isso tudo aqui, não vai ser fazendo corpo morto que as mesas vão se arrumar e os pratos vão estar no lugar!
Nessa mesma hora, as portas fechadas foram abertas com um estrondo e a placa de fechada foi ao chão, e quase que um guarda novato e afobado a acompanhou na queda. Mellanis rapidamente pegou a vassoura, um resquício de quando vivia na floresta, mas logo reconheceu o cabelo castanho claro que saia por entre as frestas do elmo. Bufou indignada, se aproximando em passos rápidos e se abaixando para ajudar o guarda a se levantar.
– Renard, seu idiota! Já te avisei para tomar cuidado correndo com essa armadura pesada, você ainda não está acostumado com ela.
O rapaz era um humano, o cabelo rebelde e teimoso sempre escapava do elmo e os olhos cor-de-mel logo se assustaram quando viu Mellanis de perto, recuando quase instintivamente e fazendo uma pose de sentido.
– Perdão senhora! Di-Digo, senhorita! Madame!
–... Você não tem jeito. – Um sorriso despontou no canto da boca da elfa que estava com as mãos na cintura.
Renard engoliu em seco, sua mão tremia visivelmente para Mellanis, que estava frente a ele. Algo fez um frio abraçar a boca do seu estomago. Sentiu que algo estava errado.
– Renard, o que aconteceu? – Por incrível que parecesse, a voz era de Vivare, e estava extremamente sério.
O jovem tremeu de leve e olhou para baixo, entrando num breve conflito interno, mas logo o toque gentil nos seus ombros e o calor quase emanado da elfa na sua frente o fez olhar nos olhos reconfortantes da garota.
– Por favor, se acalme e nos conte o que há.
–... Senhorita, seu pai... – Imediatamente o chão pareceu ceder nos pés da Mellanis, os olhos até então calmos ficaram numa grande urgência. -... Está na frente da cidade. Tivemos um ataque surpresa, senhorita.
– São os goblinoides de volta?! – A raiva e o desespero logo ficaram claros, e se o metal não estivessem protegendo os ombros do pobre rapaz, ele provavelmente teria sentido as unhas apertando contra sua pele. – Por favor, me conte o que está acontecendo!
– Se-Senhorita, a senhora não entende. – Renard se enrolou um pouco, tendo que respirar um pouco para reunir as palavras e poder tocá-la nos ombros, olhando-a diretamente nos olhos. – Eu fui mandado por ele para evacuar a cidade, começando pela taverna.
O rapaz praticamente foi empurrado, dando alguns passos em falso para trás até recuperar o equilíbrio, surpreso e assustado. A figura até então calma e passiva estava furiosa e parecia prestes e pular como um predador sobre sua presa.
– Ele e você estão insanos se acham que podem sugerir o que devo fazer. Eu vou vê-lo, queira ele ou não.
– Mellanis, isso é perigoso! – Vivare logo avançou por trás, o cozinheiro tinha até saído da cozinha com as vozes exaltadas. – Nem sabemos quem está nos atacando! Devemos fazer o recuo!
– Cale a boca você também! – A elfa gritou, se virando para seu chefe e batendo o pé de forma firme e forte no chão, rosnando praticamente. – Minha mãe, todos dessa cidade, meu pai, eles estão em perigo! Preciso ajudar!
– Senhorita, você não entende! – Renard começou a falar novamente, tentando alcançar a garota fora de si. – Eles não são nada do que enfrentamos antes.
Quando Mellanis se virou para gritar com o pobre rapaz, o que parecia um homem entrou pela porta, mas o cheiro que o acompanhou e sua aparência logo deixaram claro uma coisa.
O que quer que fosse, não era humano. Sua pele estava pálida, mas algo tão doente que estava até verde nas partes mais moles do corpo, a pele no seu rosto estava seca a ponto de mostrar o contorno dos ossos; os olhos, com pupilas azuis e brilhantes, pareciam até estar saltando para fora de tão fundos que estavam. E estava avançando para a criatura mais próxima dele.
– Renard, cuidado!
O guarda tentou se virar para verificar, mas a criatura caiu sobre ele, o empurrando contra o chão e apertando sua cabeça contra o chão, mas fora salvo daquela força descomunal graças ao metal do elmo. Mas aquilo não impediria a boca aberta avançando em direção a qualquer pele exposta do rosto.
Mellanis agiu rápido o suficiente nessa questão, chutando a criatura na boca, fazendo um som estalar da sua mandíbula. A pele pálida e com alguns buracos que deixava amostra a carne debaixo dela, se estendeu do lado direito, deixando claro que aquela parte da mandíbula estava apenas presa pela própria pele.
Entretanto, num movimento absurdamente rápido, a criatura liberou a cabeça de Renard para agarrar a perna da elfa, puxando-a com uma força absurda que a fez cair dolorosamente no chão. Um chiado semelhante a um rosnado fugiu da garganta da criatura, que agora a fitava com os olhos fundos e sem vida. O tornozelo da elfa foi apertado ainda mais, arrancando um grito de doloroso da elfa assustada.
– Mellanis! – Renard se contorceu, aproveitando do alívio para dar um forte cutucão com o cotovelo na lateral da barriga do humanóide, a ponta de metal da cotoveleira chegou a afundar na carne da criatura, mas isso não a parou, puxando Mellanis para perto de si, fazendo a saia levantar ainda mais ao mesmo tempo em que ela tentava se segurar em qualquer coisa dentro do seu alcance, com lágrimas nos olhos nessa altura, começou a chutar a cara da criatura.
– Me solta, maldito! Me solta!
O pé da elfa foi então parado quando o humanóide mordeu-o com a parte ainda “boa” da sua boca, e mesmo com a bota a protegendo, o couro não agüentou direito a força da mandíbula. Outro grito assustado saiu da elfa, que agora por fim tremia e tentavam se movimentar para se ver livre, apenas piorando a dor na sua perna.
Foi então que, finalmente, após um som metálico cortando o ar e ela sentir sangue respingando na sua pele, que o aperto no seu tornozelo e no pé aliviou, acompanhados de um expirar longo de ar logo abaixo dela.
Trêmula, a elfa abriu os olhos, vendo uma espada cravada no meio da testa da criatura, para logo em seguida ela se desfazer em pó.
– O-O que... Era... A-Aquilo? – A voz chorosa de Mellanis se esforçava para manter sua orgulhosa dignidade, conforme a espada recuava do ar e Renard se levantava para ajudar a elfa.
– Mortos-vivos. – Vivare respondeu logo acima dela, sendo ele o dono da espada que deu o golpe mortal, e seu rosto estavam sombrio e sério. – Mas, esse era mais forte do que um zumbi normal. E eu nunca vi um com as pupilas daquele jeito...
– Senhorita... – A voz atenciosa e jovial a sua frente chamou a atenção da elfa, que deu até um pequeno sobressalto. – Está tudo bem? Consegue se levantar?
Com a ajuda do guarda, a elfa se levantou. Sua perna esquerda, a que tivera o tornozelo dolorosamente apertado, doía um bocado para ela se manter de pé, e quando tentou, cambaleou de leve, sendo imediatamente amparada pelo atencioso Renard. Ela afastou os braços dele, ainda tremendo com toda aquela situação.
– E-Eu... – Respirou fundo, tentando se acalmar para poder pelo menos falar sem gaguejar. – Estou bem... Minha perna dói um pouco só.
– Precisamos sair daqui, Mellanis. – Brutus, o cozinheiro, se adiantou, e dessa vez ele carregava uma maça pesada, o avental e a roupa de cozinheiro estavam caídos do lado, revelando que o volume dos músculos também era por conta de uma cota de malha que carregava também o símbolo do deus da guerra Hares. – E vamos fazer da maneira difícil.
Brutus bateu a maça na outra mão, apertando seu cabo de leve e dando um sorrisinho estrado. Vivare simplesmente bufou e girou os olhos.
– Não tenho tempo pra isso de volta. – Ele se virou para Renard e Mellanis, que estavam tão confusos quanto surpresos. – Garoto, cuida dela, ela não vai conseguir andar direito, eu e o Brutus cuidamos de qualquer distração, ok?
– Espere, espere, você ta esperando que nós simplesmente ignoremos o fato que você sabe lutar com espadas e ele tem o símbolo de Hares no peito? – Mellanis começou a falar novamente. – Você ta realmente esperando que vamos simplesmente ficar quietos e apenas deixar vocês--!
Antes que ela terminasse, Vivare bateu de leve com a parte não cortante da espada longa no tornozelo ferido da elfa, que soltou um urro entre dentes de dor, sendo imediatamente amparada por Renard.
– Vamos. Dessa vez você cala boca. Garoto, cuida dela, vamos na frente.
Renard apenas acenou positivamente de maneira tremida. Olhou para a elfa, que parecia extremamente descontente, mas pelo menos a raiva a fez parar de tremer tanto.
– Se precisar se apoiar em mim... – Ele começou a falar, já estendendo o braço direito para ela se apoiar no seu ombro.
– Não preciso da sua ajuda. – A elfa recuou, virando a cara emburrada.
Enquanto isso, Renard e Vivare avançaram para a entrada, olharam para fora e sinalizaram para eles os seguirem. Mellanis deu o primeiro passo com o pé esquerdo, e logo estava quase caindo. Renard a segurou e a forçou de leve a se apoiar nele, passando seu braço esquerdo por cima do seu ombro e a abraçando de lado. Resmungando, Mellanis não ofereceu resistência, mas manteve a cara virada.
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Os corpos já estavam criando pequenos montes na frente dos muros do leste da cidade. E, para o terror dos humanos, os corpos caídos estavam se levantando novamente para o combate poucos minutos após sua queda, alguns até mesmo em segundos.
Tudo aconteceu tão rápido. Fazia cerca de uma hora desde que um dos vigias anunciou que havia um pequeno exercito vindo em direção da cidade, depois de 20 minutos perceberam que o batedor que haviam mandado não retornou; às pressas, reuniram um contingente de soldados em 20 minutos. E fazia 20 minutos que a batalha havia começado.
Larariel não tinha um alto cargo entre os humanos, sofria preconceito por ser elfo, mas sempre ignorou. Os mais sensatos reconheciam o seu valor, e era isso que se importava. Negaram-se a ouvi-lo quando disse que reconhecia os inimigos e que eram perigosos; negaram-se a ouvi-lo em pedir ajuda dos clérigos e magos, se negaram a ouvi-lo para evacuarem a cidade. Fora obrigado a pedir para alguns dos poucos recrutas que o admiravam para realizarem a evacuação. Renard tinha potencial e era um bom homem, por isso mandou ele para cuidar daquilo que lhe era mais precioso.
Em meio à batalha, pensou em Naliel, sua amada esposa. Havia mandado o recruta Richard para cuidar da evacuação pela região em que ela trabalhava.
Seu florete cortou cabeças num movimento constante, quase como se fosse o próprio vento, se movimentando entre as dezenas de corpos mortos e que não deveriam nem estar se movimentando mais. Seu robe cinzento estava até num tom escarlate de tanto sangue que pingara nele, tanto dos inimigos quanto dos seus próprios compatriotas, mesmo seu cabelo não escapou impune das manchas de sangue.
Ordens eram gritadas, seus chefes finalmente percebiam seu erro imprudente. Tolos. Elfos caíram pelo próprio orgulho, e eles mesmos iriam naquele dia. A única coisa que desejava era que Mellanis sobrevivesse. Sabia que ele iria morrer.
E iria dar sua vida gratamente se pudesse salvar sua filha.
Enquanto estava em seus pensamentos, seus movimentos ficaram mais lentos, e isso acabou dando abertura para um inimigo logo ao seu lado. Claro que percebeu as unhas longas vindo em sua direção, preparadas para arrancar sua vida, preparadas para tirar dele sua consciência e razão.
A dor foi agonizante, as unhas penetrando sua carne seguida pelos dedos, sendo agarrado pelas costelas quando a criatura mordeu a base do seu pescoço, sentindo a carne descolando tão facilmente diante daquela força inumana. Gritou de dor, largando sua arma e tentando instintivamente se libertar daquele monstro. O seu sangue quente agora empapou seu robe, e logo mais daquelas criaturas pularam em cima dele, enfiando suas garras em cada espaço possível.
Sua consciência começava a desvanecer quando escutou um grito que reconhecia muito bem. Olhou para a entrada da cidade, vendo Naliel gritando na língua élfica para ele, sendo contida por diversos guardas que insistiam para que recuasse e o deixasse.
Quis sorrir por saber que ela o amava, mas seu corpo não o obedecia mais. Seus nervos paravam de transmitir a dor surreal que sentia e era levado pela escuridão, sabendo que em breve iria se tornar mais um daqueles monstros.
E assim, morreu.
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A taverna do Porco Bêbado ficava na parte alta da cidade. Thrinmare era realmente grande e foi construída ao redor da capela que ficava no alto de uma colina íngreme, que naqueles dias já era uma belíssima catedral. Após saírem da taverna, Mellanis e o seu grupo tiveram a visão de toda a cidade: as pessoas sendo guiadas por alguns guardas para a saída sul da cidade, mas muitos daqueles monstros já estavam correndo soltos pelo lugar, pois escalaram os muros que os rodeavam em busca de mais presas.
Estavam cercados.
– Não vamos sobreviver. – Mellanis disse em meio à corrida, a dor na sua perna parecia até distante por aquele breve momento de desesperança pura.
Renard a olhou surpreso e tentou dar um sorriso esperançoso, apertando de leve.
– Ei, vamos conseguir sobreviver, ok?
– Pare de mentir. – Ela falou, de modo seco, olhando para baixo, sem realmente olhar algo. – Olhe... Todos estão morrendo e se tornando mais dessas... Coisas.
A elfa abaixou a cabeça, se inclinando de leve em direção a Renard e sentindo lágrimas querendo sair tão desesperadamente quanto eram contidas.
– Quanto tempo até nós nos tornarmos mais um deles? Renard... Eu... Não quero morrer.
O rapaz ficou sem fala. Apertou os lábios e tentou se controlar quando ouviu os soluços de choro vindos dela, olhando para frente e se esforçando para seguir em frente, mesmo que ela estivesse naquele estado.
– Você não vai morrer, eu te prometo.
A decisão em sua voz provavelmente acalentou um pouco a desalenta elfa, que simplesmente expirou lentamente, mas pareceu se esforçar um pouco mais para andar.
Não muito a frente deles, Brutus e Vivare abriam caminho com golpes diretos e com muita vontade, quase como se sentissem falta da ação e do sentimento da batalha, algo que certamente o casal logo atrás deles não compartilhava.
Não faziam idéia de quanto tempo havia passado quando conseguiram alcançar o próximo nível da cidade, cada vez mais próximos da saída sul, que definitivamente era melhor que a leste, que Renard contou que era de onde vinham os ataques, e a norte, que muito provavelmente estava cheia de goblins apenas esperando para dar emboscadas em qualquer desgraçado.
Instintivamente, Mellanis olhou para a saída leste quando teve a chance, e lá, seus olhos mais capazes que os olhos humanos, permitiram a ela identificar um homem que conhecia muito bem ser praticamente derrubado no chão com vários mortos-vivos pulando em cima dele. Os gritos da sua mãe fizeram um arrepio descer pela sua espinha, e lágrimas fluíram mais uma vez pelos seus olhos.
Sabia o que havia acontecido e sabia o que iria acontecer. Seu pai se levantou dentre os mortos-vivos, praticamente irreconhecível diante de tanta carne furada e a falta das partes devoradas. Sua mãe estava desesperada e simplesmente estendeu as mãos a sua frente, liberando uma rajada de frio muito forte, mas que não foi o suficiente para impedir a investida dos inimigos. Ela apertou o ombro de Renard quando as criaturas passaram pelo portão leste, quase devastando completamente os humanos.
– O portão leste caiu. – Murmurou quase para si mesma, mas Renard a ouviu, e ficou assustado quando viu a situação.
– Brutus! Vivare! Não temos tempo! O portão leste caiu!
A dupla parou brevemente o massacre que estavam fazendo para atestarem em temor o que lhes foi comunicado.
– Por todos os deuses... – Brutus murmurou, engolindo em seco.
– Vamos logo! Temos que ir!
Vivare gritou, e por fim eles voltaram a correr ao máximo que conseguiam.
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As ruas estavam cheias de corpos mortos, mas, diferente dos outros guardas, Richard não era somente um soldado que usava armadura pesada e saia fazendo barulho por ai para anunciar que o rei teve um filho ou para levar algum bêbado para a prisão. Na realidade, mal era notado por todos aqueles mortos-vivos quando passava por eles.
Quando Larariel lhe deu a missão de evacuar aquela parte da cidade, sabia que ali era onde teria muitas baixas por ser a região mais baixa e mais próxima dos ataques; mas isso não seria um problema para um soldado que na realidade era um ladrão.
Seus passos leves e furtivos eram rápidos, e em menos de cinco minutos, no que normalmente seria quinze de caminhada, estava entrando na tenda de Naliel.
– Minha Senhora! – Gritou, seu cabelo ruivo semi-longo estava preso na altura da nuca, e os olhos azuis buscavam cada canto em penumbra daquela tenda que sempre dava um ar místico. – Senhora Naliel, temos que evacuar! A cidade está em perigo! A sua vida está em perigo!
Richard andou um pouco, meio incerto com a falta da resposta. Teria chegado tarde demais? A boca do seu estomago já começava a apertar diante da incerteza do que iria encontrar. Porém, de trás do balcão não havia nenhum corpo, apenas ervas e outras poções. Passou pelos panos que escondiam a parte posterior da loja, mas não encontrou qualquer um lá também.
Foi então que percebeu... Chegou tarde demais sim, mas não tarde demais de salva-la...
Tarde demais de impedi-la.
O cheiro adocicado de incenso o deixou tonto por um momento, e logo se apressou em sair da tenda de alquimia, buscando ar fresco, mas logo foi lembrado que aquele ar estava era completamente impregnado pelo cheiro acre de sangue e morte.
Olhou para cima, sem destino, sem saber o que fazer.
Apertou os punhos, e seguiu para a saída sul.
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A saída sul estava logo à frente deles. Mas, logo entenderam por que ninguém estava conseguindo sair da cidade vivo.
Duas criaturas de armadura completa estavam guardando a entrada. Suas bocas estavam amostra, mesmo que o elmo cobrisse completamente suas cabeças e até mesmo os olhos, mas as narinas tinham um bom espaço, e a boca livre se aproveitava para se alimentar dos corpos das pessoas que morreram em suas mãos. As armaduras eram pesadas e eles eram gigantes, provavelmente tinham mais de cinco metros de altura, e a pele deles do pouco que se podia ver, estava tão pode que até mesmo escurecida se encontrava. Os dentes em parte estavam quebrados e podres, outros perfeitos o suficiente para mastigar.
Enquanto comiam, repousaram as espadas bastardas. O grupo se escondeu atrás de um monte de barris, Brutus e Vivare discutiam em voz baixa sobre como que fariam para derrotarem aqueles gigantes.
– Poderíamos tentar acertar eles pelas pernas para derrubá-los, primeiro. – Apontou Brutus. – Parecem ser finas o suficiente para isso.
– Mas nem sabemos se eles vão ser capazes de desviar. Digo que deveríamos pular em cima deles de uma altura boa o suficiente, cair em cima de suas cabeças e cortara-las fora.
– Você é idiota? As chances de você morrer nisso são altas demais.
– Eu não disse que eu tinha que fazer.
Brutus estreitou os olhos e acabou bufando, dando uma espiada na dupla que os impedia de alcançar a liberdade.
– Pelo menos o que aqueles malditos metem as mãos não se levantam novamente.
– Justo.
– Não podemos simplesmente dar a volta? – Renard murmurou, meio desesperado enquanto abraçava Mellanis, que estava encolhida e fazia um tempo que ficou completamente quieta.
– Infelizmente vai ser muito difícil garoto. – Brutus foi quem respondeu dessa vez, suspirando. – Veja bem, nenhum de nós é exatamente bom em andar sem ser percebido, e nem sabemos o que esses caras são capazes de fazer...
– Além do mais, precisamos pensar na passagem de qualquer outra pessoa que ainda possa estar viva... Eles não vão conseguir lidar com eles. – Adicionou Vivare.
Houve um breve momento de silêncio entre eles, até que Vivare enfim respirou fundo e fechou os olhos.
– Foi bom ter lutado do seu lado, Brutus.
– O que? Do que ta falando?
O homem deu um sorriso breve antes de levantar num pulo, subir sobre os barris e em movimento ágeis, algo que até mesmo pareceria improvável na idade dele, conseguiu escalar a parede para alcançar o alto do prédio. Uma das criaturas notou o movimento e logo rugiu alto e em fúria, já se abaixando para pegar a arma gigantesca.
Entretanto, antes que um dos alvos pudesse fazer algo, Vivare pulou dando um grito poderoso, fincando a espada longa com as duas mãos na espinha dorsal de uma das criaturas, que urrou tomado completamente pela dor. O morto-vivo se balançou, tentando jogá-lo para os lados inutilmente, mas Vivare conseguiu firmar os pés nos vãos da armadura completa colossal e começou a esfaqueá-lo com a espada longa.
– Aquele idiota! – Brutus imediatamente se levantou, quando notou que o segundo estava indo em direção daquele que fora atacado. – Andem logo e saiam daqui!
Foi o que disse antes de avançar rapidamente na direção do que estavam começando a querer realizar uma investida contra o próprio companheiro em busca de anular aquela ameaça estranha. Brutus conseguiu correr a tempo de bater com a maça em uma das pernas da criatura, fazendo-o cair no meio da corrida e se bater contra o outro gigante, que pareceu empurrá-lo irritado, sendo interrompido por outra esfaqueada da arma.
– Agora Mellanis! – Renard forçou a elfa a ficar de pé e começou a correr junto com ela, mesmo que ela parecesse tão distante.
Quando a dupla saiu detrás do esconderijo, os olhos esverdeados da garota finalmente procurar olhar algo, e o choque de ver aquela batalha finalmente a fez acordar.
Vivare estava em grande perigo, pois estava nas costas de uma daquelas criaturas, e ele estava indo em direção a choque contra a parede logo atrás dele. Imediatamente se soltou de Renard, que tentou chamá-la, mas sua mente nem mesmo parecia raciocinar mais. O tempo pareceu diminuir naquele breve instante antes do seu pé tocar o chão.
Não fazia a mínima idéia do que poderia fazer, mas tinha que fazer algo.
– Vivare!
Sua voz quebrou aquela espécie de encantamento que deixou o mundo mais lento. Seu coração ardia no seu peito tanto quanto seus olhos que agora não derramavam mais lágrimas. Com um grito de fúria, olhou poucos passos a sua frente, vendo uma lança no chão. Com um plano rápido formado em mente, pulou para cima da lança, pegando-a para logo em seguida rolar a frente, dando um pequeno salto no fim daquele rolamento e se lançando em direção da criatura que Vivare estava preso em.
O morto-vivo notou a elfa que se lançava em sua direção, levando a mão esquerda para tentar apanhá-la enquanto a direita ainda tentava libertá-lo do humano nas suas costas. Mas, ele estava acostumado a matar humanos, não elfos.
Quando a mão chegou perto o suficiente de apanhá-la, Mellanis inclinou o corpo no ar, praticamente jogando a lança a sua frente para fincar bem no vão entre o dedão e o restante da mão. O monstro deu um urro dolorido, e ela aproveitou esse tempo para usar a arma para lançá-la mais a frente, levando-o junto com ela.
Caiu bem no ombro da criatura, mas o metal era liso e deu um piso em falso, que a fez quase cair direto contra o chão, mas se segurou em uma das placas da armadura, se aproveitando dessa também para dar um impulso necessário para terminar de escalar a criatura, subindo pelo seu ombro esquerdo.
Ali, se segurou firme no que parecia um maço de cabelos que saia do elmo gigantesco, ajeitou a lança na sua mão direita e se pendurou logo abaixo da mandíbula da criatura. Firmou os pés no peitoral e fincou a lança na parte mole da mandíbula, forçando-a o mais profundo que conseguia.
Entre dentes, houve um expirar alto e lento do morto-vivo. Ele se reclinou para cair, e, Vivare, percebendo que ele iria cair, tirou a espada e pulou para o lado, rolando para amortecer o impacto. A criatura gigantesca caiu com um baque alto, que fez a terra ao redor dele estremecer de leve. Mellanis caiu logo do lado, atordoada pelo impacto.
Renard estava parado em completo choque conforme a elfa se levantava. Os cabelos extremamente longos pareceram deixar um rastro que acompanhavam seus movimentos, e agora recaiam tão quietos, conforme ela se levantava. Não havia brilho no seu olhar, por mais que por um momento tivesse parecido tão viva quanto costumava ser.
Seus olhos voltaram ao silêncio opaco.
– Mellanis...
Antes que Renard pudesse fazer qualquer gesto em direção da elfa, um grito muito próximo fez um arrepio cruzar sua espinha, acompanhado com o som de ossos se quebrando e sangue caindo no chão.
Brutus era esmagado com apenas uma das mãos da segunda criatura, que apenas agora foi lembrado que existia. A elfa imediatamente virou o rosto em direção daquele ocorrido, estremecendo completamente diante do que via. O corpo do ex-cozinheiro moreno recaia sem vida pouco antes de o gigante o jogar contra Vivare com toda força que possuía. O quarentão voou contra a parede com a força descomunal daquela arma improvisada, fazendo com que alguns tijolos caíssem no chão e ele próprio abaixasse a cabeça inconsciente.
– Não... – A elfa caiu no chão, sem forças para lutar, conforme lágrimas inconscientes corriam pelas suas bochechas. – Não... Que seja uma mentira...
O recruta correu na direção da elfa, tentando ignorar a cena grotesca que acabara de desenrolar e tentou puxar pelos ombros.
– Mellanis, vamos! Por favor, tente lutar contra isso! Temos que ir!
Porém, por mais que ele insistisse, sua mente já não respondia mais, apenas observando conforme o gigante agora se encaminhava na direção dos dois, erguendo o punho. Renard notou seu olhar e a única coisa que pôde fazer antes do impacto foi abraçá-la e tentar protegê-la.
A dupla foi jogada com toda força contra o outro lado da rua com apenas aquele golpe, e a dor a acordou mais uma vez. Percebeu finalmente os braços a envolvendo e Renard gritando de dor. O abraçou meio que instintivamente, se encolhendo conforme atravessavam o ar e batiam contra o chão, rolando até baterem contra um monte de caixas. O monstro comemorava, batendo no peito com os punhos fechados e urrando.
Soluçou, tanto de dor quanto de tristeza dessa vez. Ouviu Renard se engasgando, e logo aliviou o abraço, mas não tinha coragem de o olhar nos olhos.
– Desculpe, Renard. Foi minha culpa. Eu deveria... Eu deveria ter tentado mais... – Sua voz estava sendo interrompida pelos soluços, mas o que sentiu foi a mão do rapaz que tocou o alto da sua cabeça, acariciando gentilmente seus cabelos.
– Não... Não é... Não se culpe...
Entre soluços e palavras de consolação, ambos perderam a consciência. Cada um carregava consigo seus próprios pensamentos naqueles momentos finais, mas certamente ambos não conseguiam tirar da mente a imagem que viram pelas ruas dos mortos-vivos devorando os corpos dos caídos, aquela violência, aquela monstruosidade.
Mesmo que sobrevivessem, aquilo nunca iria curar.
Mas, havia realmente um sobrevivente?
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Na penumbra da tenda, Naliel abria os olhos novamente.
Claro que sabia que aquilo tudo iria acontecer, mas, sabia que não tinham nada no poder deles que poderia impedir aquilo. Era algo fadado a acontecer, e, mesmo que algum mago pudesse usar todo seu poder para tentar impedir aquilo tudo de acontecer, seria inútil, pois não se pode alterar o destino.
E, infelizmente, era o destino de milhares de pessoas morrerem naquele dia. Mas não, não todas.
Apesar de não ser capaz de usar magias poderosas em combate, Naliel era excelente em ver o futuro, além de fazer poções, é claro.
E, foi utilizando essas magias que davam muito mais suporte fora de combate que mandou um pedido de ajuda para alguns grupos que passavam por aquela região naquela hora, e mandou o alerta para os reinos vizinhos.
Dentre um dos grupos que conseguiu achar, havia alguns batedores élficos, muito provavelmente altos elfos que estavam retornando de El’Lomir, provavelmente de alguma expedição.
Juntando suas coisas, saiu antes mesmo de Richard ter chegado na tenda e correu pelo distrito comercial. Temia pelo seu marido, pois não conseguiu ver o futuro dele.
Se pudesse deter a morte dele... Se pudesse fazer algo que fosse.
Rezou para todos os deuses que chegasse a tempo, mas...
O que encontrou foi o fim pelas próprias mãos do homem que amou, não que aquilo fosse realmente ele, se não um monstro.
Um morto-vivo.
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