Dez de setembro de 1980. Aproximadamente dois meses que ao menos uma vez por semana que me encontrava com o João, fizemos algumas missões, ganhei alguns cruzeiros nessa brincadeira.

O dia hoje está diferente, está sol, e ainda faz frio. Saio do portão da escola e vejo novamente o 147 estacionado. Dessa vez, João fala para entrar no carro, onde será que a gente vai?

Todo esse mistério logo se resolve quando paramos em um bar de esquina, um pouco longe da minha casa. Há um pessoal ali, tomando uma cachaça, jogando um bilhar. Então vamos a uma mesa mais ao fundo do estabelecimento. Tem um cara fumando um cigarro, tomando uma cerveja. Aproximamos dele e já o reconheço. É um dos elementos que estavam comigo aquele dia. Ele veste uma camisa verde quadriculada e usava um chapéu de palha, tinha uma cara de cachaceiro.

João me apresenta a ele, seu nome é Roberto, me parece bem na dele, facilmente pode se esconder na multidão, porém, seu tipo parece ser perigoso. O esquema será o mesmo, só que no lugar de trabalhar com João, será com o Roberto.

A rotina o qual eu estou acostumado é a mesma, estou parado na frente de casa, e aparece o 147 vermelho. João estava dentro do carro junto com Roberto, entro no banco de trás e seguimos nosso rumo.

Chegamos ao centro da cidade e paramos em uma rua qualquer. Roberto olha para mim e me entrega um revolver. A última vez que eu peguei em um desses foi dia 21 de junho. Nunca me esquecerei daquele dia, ainda sonho. A diferença agora é que na arma não há munição.

Então Roberto me diz para assaltar um cara que anda sozinho pela rua. O cidadão está bem na dele, veste uma camisa branca e calça jeans, parece morar na região. Saio do carro, coloco o Chico Preto na cinta e vou em direção ao cara. Dou voz de assalto. A vitima coloca a mão para cima, porém quando ele percebeu que eu estava tremendo e que a arma estava sem bala, ele começa a caminhar em minha direção. Não adiantou em porra nenhuma a arma. Ele me deu um rodo, e caí de costas no chão. Então ele tira um revolver de sua blusa. E Aponta em minha face. Eu vejo que ele vai me matar.

Antes de ele puxar o gatilho, ouço um estalo seco, e então, o homem que ia me ceifar, cai no chão já morto. Olho em direção ao carro, e lá estava ele, Roberto, colocando uma arma em seu coldre. Levanto-me e corro até o carro.

O 147 sai torrando pneu em alta velocidade. Ao olhar para trás, vejo um Passat verde vindo em alta velocidade. Obviamente o Passat nos alcança. E começa a bater no para-choque traseiro. Eis que eles começam a atirar em nós. Abaixo-me, usando os bancos como escudo. O tiroteio acaba estourando o vidro traseiro. Estilhaço para todos os lados. No entanto, com algumas derrapadas, João consegue despistar os caras. Pergunto a Roberto quem eles são, mas sou brutalmente ignorado. Será que é uma gangue rival?

Volto pra casa e o pior será amanhã, terei que fingir que nada aconteceu.