Menor Aprendiz

8 Não quero mais


Notas iniciais
Ultimo capítulo da série

Primeiro de outubro de 1980. Sem pensar duas vezes, a pé e sozinho, vou correndo pra casa do Josias.

Está quase amanhecendo, chego ao restaurante chinês e subo ao segundo andar, bato a porta de forma desesperada. Um século pra abrir essa porra.

Eis que o cara abre a porta, é cedo já, mas parece que ele não dormiu de madrugada. Ele pergunta se eu preciso de ajuda, digo que sequestraram minha mãe e que preciso urgentemente falar com João.

Para minha sorte, ele me deixou usar o telefone, a ajuda está a caminho.

Nos reunimos. O plano será o seguinte. Estarei armado e estarei sozinho, João estará escondido caso dê merda. Ao entregar minha mãe. Alguém o atirará, o matando. Parece-me simples até. Só espero que dê tudo certo.

Duas horas da manhã. Eu me encontro com João e Roberto. Eu vou de carona com o João, enquanto Roberto vai em um caminho alternativo. Durante a rota, João me explica tudo o que não devo fazer, porém de tanto nervoso que nada parece entrar na minha cabeça.

João me deixa meio longe dali, mais ou menos dez quadras do local enquanto ele leva o carro pra estacionar em outro lugar. Ando até lá tremendo de medo, ansioso e muito nervoso. Estou levando comigo o revolver, mas eu não vou conseguir usar. O céu está estrelado e as ruas estão vazias. Não faço a ideia com o que ele quer comigo. Mas estou aqui, com a cara e com a coragem.

No horário exato, no lugar exato. O Passat verde estaciona na travessa. Desce o careca do carro, mas nenhum sinal da minha mãe. Sem pensar duas vezes, eu tiro o revolver, miro pro cara e grito.

— Onde está ela!?

Porém ele não responde, nem nada, e está vindo em minha direção. Tento atirar nele com o revolver, mas a arma falha em todas as tentativas. Eis que ele chega perto e me dá um soco na cara, caio no chão, não sei o que acontece, estou zonzo pra caralho. Levo um chute no estômago que me faz cuspir. Não consigo me mexer. Então. Um disparo. O cara cai no chão antes que eu levasse mais um golpe. Vejo o João com uma arma indo a minha direção.

Tomei uma verdadeira surra com dois golpes. João me ajuda a levantar e vai me apoiando até o carro onde ele deixou estacionado, na rua de trás. Ao lado do 147 estava o Fusca de Roberto. No entanto, parece que Roberto está meio estranho. Ao desconfiar, João segue de maneira sigilosa o carro de Roberto.

Passamos por um estacionamento e o seguimos até encontrar um galpão enorme. Sem pensar duas vezes, Roberto entra com o fusca e João deixa o dele estacionado do lado de fora.

Ele me fala pra ficar, e eu mesmo, com dor, me recuso. Entro junto com ele por uma porta lateral. Tudo tá escuro. Não vejo nada. Ao caminhar próximo ao centro do galpão. Ouço um barulho enorme, acendem-se as luzes. Emboscada.

Lá está ele. Josias ao lado de minha mãe amordaçada e amarrada em uma cadeira no segundo andar de vista pra gente. Atrás de nós estava Roberto, empunhando uma metralhadora. Traição da pior categoria. Então João, com ar de raiva, xinga os caras e pergunta o motivo de tal traição.
O motivo é simples, puramente dinheiro, e pela quantia que iriam receber na facção, dividir por três seria pouco. A intenção era atrair nós e executar nos de maneira humilhante.

Eu não consigo me calar diante a está situação.

— Ei cara! Não envolva minha mãe nisso!

— Filho, você me respeita, que sou seu pai.

Ao dizer isso, eu entrei em estado de choque. Nada mais fez sentido pra mim. Caio de joelhos e a ordem do Josias é me matar por primeiro. Roberto, ao mirar pra mim com a metralhadora prestes a atirar. Sem ninguém perceber, João se aproveita da falha, e dá um soco no Roberto e grita pra minha fuga. Corro sentido a umas caixas que há no local. Vejo Roberto alvejar João. Fujo pra fora daquele local. Não acho mais nada além de uma chave de roda do lado de um carro estacionado.

Me escondo em um escritório, fico atrás de uma porta. Eu posso ouvi-lo andando para esta direção. Meu coração está palpitando demais, mas a raiva contida me deixa focado em destruir ele pra sempre. Ao perceber que ele parou na porta do lado de fora. Ficamos em silêncio por alguns segundos quando ele arrebenta a porta com um chute e minha resposta a isso foi dar uma chaveada bem na sua fuça, ao cair no chão eu não vou parar até ele não respirar mais. Minha camisa está respingada de sangue. Minhas mãos estão tremulas e tirei todo meu ódio na cara dele. No entanto. Ainda falta um.

Pego a metralhadora do João e vou sentido ao galpão onde eu estava. Entro por onde tinha saído escondido. Parece que não estou mais com tanto medo. Ele ainda está no local onde estavam ainda com a arma apontando pra mãe. Então, há um interruptor próximo a porta e apago a luz, apenas a luz do luar iluminava o local. Ouço para sair do meu esconderijo ou ele matará minha mãe.

Embora ele ameaçasse, ele precisa ainda de mim, não vai matá-la enquanto eu não estiver morto. Então, para resgatar ela, preciso fazê-lo gastar munição, tenho certeza que há seis capsulas no tambor do .38, a única maneira de se fazer isso é trata-lo feito idiota, atirando.

Então, eu corro atravessando ao lado do pátio. O Idiota atira e erra completamente. Corro mais cinco vezes. Certeza que não há mais munição. E quando ele tenta dar seu último tiro.

Pego a metralhadora e atiro atingindo seu tronco. Não tenho certeza onde acertei, mas ele está agonizando neste instante. Acendo a luz novamente e subo até o segundo andar.

Vejo que ele ainda está vivo, desamarro minha mãe na frente dele. No entanto parece que ela tem algo a me dizer. Ao tirar a mordaça ela grita por cuidado.

Ela entra na frente minha, Josias pega o revolver e atira nas costas dela. Paguei pelo meu erro. Devia ter resgatado assim que eu o abati. Agora está tudo praticamente acabado pra mim. Eu vejo em seus olhos o último adeus enquanto ele dá risada no fundo. Meus olhos se enchem de lagrimas e meu coração de ódio. Realmente era seu último abraço, mãe. Não deu tempo nem de falar adeus.

FILHO DA PUTA. Aproximo do cara, e vejo que ainda está vivo, mas não por muito tempo, ele já está agonizando.

— Filho, eu estou com orgulho de você.

— Eu não sou seu filho.

Pego a metralhadora, porém não vou atirar. Mas sim, usá-la como bastão e acabar com ele. Nunca bati tão forte. Conforme batia meus olhos se encham de lagrimas. Ao terminar, ando até minha mãe e a abraço forte, estou chorando feito uma criança. Tudo isso veio acontecer por minha culpa.

Percebo que está amanhecendo e que vão abrir a fábrica. Não há muito que a se fazer a não ser fugir dali. Saio pelos fundos, pulo o muro e vou em direção ao nada. Fujo daquela cidade só com a roupa do corpo. Jogo meus documentos o qual eu levava fora e parto para uma nova vida. Uma nova identidade. O que eu levo na carteira é apenas a foto da minha mãe, única pessoa que sempre esteve presente comigo até nos momentos de infelicidade. E agora estou nesta situação, sozinho no mundo entregado a sorte. O que será que irá acontecer comigo a partir de hoje? Só o destino dirá.

Notas finais
Obrigado Leitor
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!