Menino do

1 Capítulo 1 - Sabrina


Sabrina morava em uma kitchenette, na qual seus pais ajudavam-na a custear. Ela abriu a porta, me avisou que ela ficaria descalça, mas que eu não precisava tirar o tênis, ainda bem, porque meu pé soava tanto devido ao calor lá de fora, que eu fiquei até com medo do chulé que iria subir se eu tirasse, fora que minha meia rasgada também não iria dar uma boa impressão. Vi ela jogando as havaianas rosas dela em um canto perto das vasilhas de comida e água do gatinho que veio prontamente miando nos receber, aliviada por finalmente poder refrescar os pés ao pisar no chão, e joguei minha bola de futebol no mesmo canto. O piso da casa dela parecia ter passado por uma limpeza milimétrica, era mais branco do que os resultados dos melhores cremes dentais. Ao meu lado direito havia a porta que dava acesso ao banheiro social da casa e ao lado esquerdo era a cozinha, aberta, sem divisórias com o resto da casa. Apesar de ser um local minúsculo, todo acabamento era moderno.

Antes de entrarmos para o quarto dela, passamos pela sala, que era à frente, só consegui reparar na imensa janela, nos sofás cinzas e na enorme TV. O quarto dela era composto por móveis amadeirados, de tom claro. Assim que eu entrei já esbarrei com um guarda-roupa de duas portas, em uma delas tinha um espelho e na outra várias fotos em polaroid, tanto de Sabrina quanto da Taylor Swift. A cama, a escrivaninha e a penteadeira, também com espelho, eram todas feitas do mesmo material. Acima da escrivaninha havia mais polaroids, todos de Sabrina. Sabrina no Cristo redentor, Sabrina na praia de Copacabana, Sabrina em um museu do lado de uma obra de arte, bem que ela me contou que era carioca, nascida e criada, que veio para Basília há dois anos com a família e odiava morar na capital.

Sabrina fechou o notebook dela, enquanto o gato preto dos olhos verdes a seguia miando pelo quarto inteiro. Ela também pediu desculpas pela bagunça, visto que havia canetas, livros e folhas espalhadas pela escrivaninha toda. Achei curioso o fato da cadeira dela ser verde-claro, mas uma das paredes serem lilás, era uma combinação até que interessante, que lembrava a primavera. Na penteadeira dela havia várias maquiagens espalhadas e uma delas, de cor avermelhada, estava esfarelada na superfície do móvel. Por fora eu disse que nem reparava nessas coisas, que nem estava bagunçado, mas por dentro eu já tinha visto outros quartos de outras meninas que eram mil vezes mais organizados.

Por fim, ela fechou a janela, abafando o barulho que via de fora, a maior parte das árvores e do vento e ficou apenas o barulho sutil do ar-condicionado do quarto dela. Fechou a cortina, também verde-claro, antes de se sentar ao meu lado, pois a janela atrás de mim esbanjava um brilho tão forte que nos ofuscava. No ato que eu tive de virar o rosto para olhar à janela, vi um poster enorme da Taylor Swift em uma roupa roxa estampada acima da cabeceira da cama dela, que logo ela comentou que era a capa de “Speak Now”, quer seja o que fosse isso, mas pensei que era provavelmente um álbum da cantora.

Em seguida, ela se aproximou de mim na cama, colocando a mão esquerda na minha coxa direita, rente à minha bermuda quadriculada na cor branco e azul-escura, que não combinava nada com o lençol lilás com flores brancas da cama dela. Cama super mole por sinal, daria para fazer um bom balanço aqui.

Ela cutucou minha a manga curta da minha camiseta azul-claro e brincou com o meu colar de prata, com seu toque leve e macio, enquanto eu olhava nos olhos verdes e esbugalhados dela. Passei a língua em meus lábios, que eu sentia arderem de tão desidratados, estavam sedentos pelos úmidos lábios dela e algo dentro de mim me fazia ter certeza de que ela também queria isso. Não entendi ao certo o que a entregava, mas talvez o fato de estarmos sozinhos numa cama hiper confortável na casa dela? Quer dizer, sozinhos se você ignorar o gato de quatro patas, porque, desde que estou aqui, Sabrina tem dois gatos em casa hoje.

Conseguinte, aproximei meus lábios do rosto dela, sentindo o cheiro de seu brilho labial de aroma de melancia. Eu estava a menos de um centímetro de seus lábios, comecei a sentir a textura grudenta do gloss, esperei que durante o beijo ela não sentisse o gosto de salgado que comprei para gente no quiosque antes de virmos para cá, mas ao invés disso ganhei um arranhão na testa.

Não desconfiei em primeiro momento, achei ter sido por acidente, portanto tentei tatear a alça da blusa azul-escuro e reluzente dela. A blusa era soltinha, o que não favorecia minha visão. Ela, por sua vez, repetiu o movimento de me afastar. Usou sua mão direta novamente e me empurrou pela testa. Por isso, grunhi e contestei.

— Desculpa — pediu ela, ajeitou-se na cama e se encostou à cabeceira e eu penetrei um olhar nela que iria desconcertá-la.

Eu refletia nas ondas dos cachos castanho-claros dela, contraste perfeito com o olhar, a sobrancelha grossa sem nenhum pelinho fora da modelagem, o nariz levemente arrebitado, mesmo que particularmente eu o achasse gordinho demais para um nariz, gostava da visão daquele momento presente. Sem me segurar, tateei o ombro e a alça da blusa azul-escuro dela novamente, dizendo:

— Você ainda está de blusa, deixa eu... — Antes que eu completasse a oração, senti mais um toque de repulsa dela, dessa vez no ombro. Não aguentei segurar a pose e alardeei: — Ou, por que você está me empurrando? Já é a segunda vez!

Eu senti minhas bochechas esquentarem, assim como percebi as bochechas dela ficarem mais avermelhadas. Confesso que minha mente é um pouco narcisista com uma pitada de imodéstia — não que seja algo ruim, claro — eu não via motivos para ela não querer um gato como eu, já que eu provia de um par de olhos verde-água, um cabelo tão loiro que o amarelo não dava conta, o platinado seria exagero e o dourado seria insuficiente, um rosto um pouco alongado, com um queixo no encaixe, não sou tão musculoso como Pedro, mas ganhei uma musculara legal por jogar futebol por muito tempo. E, claro, um pouco depois da ponta da sobrancelha esquerda — nem muito fina nem muito grossa —, uma pintinha: o meu charme essencial, com certeza a carta na manga que o fazia nunca levar um fora, eu estava convicto disso. Por que, então, ela agia de forma deliberadamente incomum?

— Desculpa. Eu acho que não deveríamos ter chegado a esse ponto. —Ela sentou mais distante dele.

— A que ponto, Sabrina? — investiguei e senti meu coração acelerar.

Talvez de frustração. Não de nervosismo. Nervosismo nunca. Eu nunca fico nervoso perto de mulher.

— Ao ponto do que estávamos fazendo... — assim ela respondeu. Nessa altura, ela falava um idioma jamais visto por mim.

Eu realmente nunca cheguei na parte em que uma mulher me recusa.

— Não devíamos ter começado as preliminares? Como não? Já estava passando da hora — provoquei.

Ela pestanejou um pouco, inclinando levemente a cabeça para trás, ela evitou me olhar diretamente, e senti sua atitude ficar mais fria do que o ambiente fresco da casa dela. Engolindo seco e ajeitando a própria postura, ela respondeu:

— Já estava passando da hora?! Não. Isso não. Não sem nos amarmos de verdade.

Eu, instantaneamente, me perguntei o que sexo tem a ver com amor.

— Por que não, Sabrina? É claro que poderíamos, estamos juntos para isso.

— Está dizendo que está comigo só por sexo, Bruno? — a voz dela, que estava baixa até agora, alterou consideravelmente, embora quase falhasse.

Percebendo a gravidade da entonação dela, eu disse com voz insegura, porque nem eu acreditava no que eu falava:

— Não... — mas quis dizer, sim.

— Sem compromisso, sem sexo.

Boquiaberto, eu soltei uma risada breve e, em tom esnobe, indaguei:

— Está louca? O que uma coisa tem a ver com a outra? — Continuei. Rindo.

Os olhos dela se abriram mais, eu nem sabia que tinham como ficar maiores, foi quando percebi que eu estava piorando a situação e não consegui rir mais quando a vi revirar os olhos, morder os lábios e, balançando a cabeça negativamente, com o olhar oscilando para longe novamente, ela respondeu:

— Se você não sabe, nem deveria estar na minha casa. — Cruzou os braços, olhando-me novamente.

— Beleza, então. — Me desfiz do olhar e me levantei decidido a ir embora, caminhando em direção à porta.

Eu tinha certeza de que ela viria correndo arrependida atrás de mim. Com um sorriso convincente, eu abri a porta de saída, com a certeza de que eu não precisaria sair ao corredor. Entretanto, ela segurou a maçaneta enquanto eu virei para ela, fitando-a com um sorrisinho malicioso. Odiei o fato de ela ainda estar vestida, eu estava desejoso para encaixar a mão na cintura dela e se livrar de cada peça de sua vestimenta.

— Quero viver esse momento com alguém que vai olhar para mim como se eu fosse a coisa mais preciosa que já se viu. Vai e só volta quando descobrir o que sexo tem a ver com amor e o que amor tem a ver com compromisso. Ou melhor, não volte — esbravejou.

O meu barato foi cortado pelo alvoroçado bater da porta, só quando o silêncio do corredor ecoou em meus ouvidos que eu vim perceber o que ela disse. Não consegui evitar cara de nojo para a coisa mais brega que eu já tinha visto na vida. Sem saber como assimilar uma coisa dessas com o que eu normalmente estou acostumado, indaguei a mim mesmo:

— O quê? — Fitei a porta sem entender.

Como uma mulher pode recusar sexo no século XXI? Nunca vi uma coisa dessas. Em que ano essa garota vive? Pensei e não poderia achar uma resposta, não entrava na minha mente o que acabara de acontecer.

Em meio aos meus reflexivos e vazios pensamentos, meu celular toca. Coloquei na orelha e atendi:

— Alô?

— E aí, meu mano. Onde 'cê tá? — questionou a voz rouca e conhecida, do outro lado da linha.

— Na Sabrina? — eu respondi, duvidoso da veracidade da minha própria informação. — E... — Antes de contar, meu amigo me interrompeu.

— Ah, desculpa. Não vou atrapalhar... — Também se vê interrompido.

— Não, Austro, relaxa. O que foi? — Eu sabia que tudo que tinha restante era aquela ligação.

— Ia te chamar para vir aqui em casa, vai rolar clássico, Flamengo e Atlético-PR.

— Ah, tinha que ser o mulambo, não é? Está bem, estou indo. — Fui desligar, mas ouvi um ruído na ligação, Pedro tinha dito mais alguma coisa. — O quê? — Voltei o celular na orelha.

— Eu disse que só se não te atrapalhar com a Sabrina.

— Relaxa, mano. Já falei que tô indo.

Antes de guardar o celular, vi o horário pela tela de bloqueio, tinha acabado de dar 17:00. Meio desconexo da realidade, eu nem percebi que estava tão tarde. E, por ainda estar em frente à porta do apartamento de Sabrina, eu andei até os três elevadores comuns, só que senti minhas mãos vazias demais. Franzi o cenho e procurei entender o motivo da centelha de instinto que me surgia naquele momento.

— Droga — grunhi para mim mesmo quando me deu conta e voltei à porta da menina, dando algumas batidas enquanto fitava o tapete cinza, escrito "BEM-VINDO" na cor preta, assim como também encarei uma plaquinha na parede do corredor, que dizia “Sorria. Você está sendo filmado.” Fui filmado no meio de uma humilhação, que legal. Espero que pelo menos o guardinha da guarita se divirta assistindo isso hoje.

Ela abriu e evitou colocar o rosto todo para fora e perguntou:

— O que foi? — Minhas sobrancelhas tremeram com a arrogância dela.

— Minha bola... — Eu pedi e percebi que os olhos verdes dela até desbotaram.

— Ah — respondeu seco, fechou a porta e abriu novamente. — Toma essa merda. — Jogou no chão, fazendo a bola quicar para longe, e se trancou novamente.

Foi inevitável não proferir alguns palavrões quando vi a bola indo com vontade pelas escadas de emergência no canto à esquerda dos elevadores. Eu corri para acompanhar o trajeto e acabei descendo oito andares pelas escadas, pois quando alcancei a bola, já não compensava mais voltar os andares.

Saindo do condomínio, senti o sol matar minhas retinas, que falta eu sentia de um boné! Óculos de sol também cairia super bem. Avistei estação Guará, que não era muito longe, caminhei por alguns minutos, rezei para chegar logo, pois não aguentava mais o sol queimando minha cabeça.

Quando fui passar a catraca, comecei a xingar mentalmente uma mulher velha, de blusa amarela e calca preta, que o cartão dela estava dando problema, na única catraca que estava funcionado na estação, essas coisas me faziam entender o porquê a Sabrina odiava Brasília. Eu conseguia ouvir e ver o metrô passando. Quando finalmente a mulher desistiu de insistir no cartão e foi procurar um funcionário para ajudá-la, passei meu cartão às pressas e corri para alcançar o metrô que ia para Águas Claras, onde Pedro morava, por pouco a porta do vagão não fechou em mim.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!