Menina Veneno
11 Capítulo 10
Deixe-me esclarecer esse ponto. Sei o que você está pensando, e não, eu não pretendia matar a Mary Margaret. Pensei que a esta altura você já me conhecesse um pouco mais, mas tudo bem. Vamos em frente para que você possa entender melhor.
No fim daquela tarde, eu me reuni com Tinker e Robin na sala do loft que eu mantinha apenas para entrevistas. Era espaçoso e feminino, decorado com espelhos por toda parte e obras de arte que pessoalmente eu não achava lá grandes coisas, mas que impressionavam.
–Ai, Regina, por favor, não faz isso comigo. — Tinker gemeu, nervosa, andando de um lado para o outro na sala ampla.
–Não estou pedindo nada que seja razoável. Você me negaria um favor? Um favorzinho de nada?
–Você sabe que eu te adoro e que serei grata pelo resto da vida por ter voltado naquele lugar e me tirado de lá, mas não posso simplesmente drogar uma menina.
–Não seja tão dramática. Você não vai drogar ninguém. Tudo o que precisa fazer é colocar um pouco desse pozinho inofensivo no que ela estiver comendo. — Estendi um pequeno frasco contendo um pó branco a ela. Tinker apenas o encarou. — Não fará mal, Tinker. Causará uma ligeira confusão mental, nada que ela já não faça por aí, como eu desconfio. É um tipo de boa noite Cinderela — Irônico não? — Embora seja muito mais fraco, a desorientação dura um pouco mais.
–E o que pretende fazer com ela depois? — Perguntou Robin, o quadril encostando no aparador e os braços cruzados. Talvez Tinker tivesse razão. Olhando-me daquele jeito sisudo, as sobrancelhas quase unidas, ele lembrava-me um pouco o Brad Pitt.
–Nada — respondi. — Mary precisa de férias. Farei com que descanse por uns tempos, na casa de campo em Storybrooke. Só preciso que ela fique fora por uns dias.
–E se ela não quiser ficar lá? — insistiu ele.
–Ela vai querer, Robin. Com a ajuda disso aqui. — Ergui o vidrinho contendo o pó branco. — Ela vai fazer o que eu disser por uma semana. É tempo suficiente para que eu possa ajeitar as coisas por aqui. Não farei mal a ela.
–E onde eu entro? — indagou ele, o rosto impassível.
–Você vai levá-la até a casa de campo, claro. Não posso colocar Mary num helicóptero. O piloto faria perguntas. Não confio nele tanto assim, Robin. Só em você. — Lancei a ele meu sorriso mais doce.
Funcionou como sempre.
Eu estava ciente da quedinha que Tinker achava que tinha por ele, mas ela também sempre soube que Robin me seguiria a qualquer lugar. Desde que ele chegara ao orfanato aos 9 anos tinha sido assim. Ele achava que deveria me proteger, pois eu não passava de um fiapo de gente com aspecto pouco saudável.
–Considere feito. — Ele assentiu uma vez.
Estiquei-me no sofá branco para apertar seu antebraço com delicadeza. Ele sorriu de leve.
Sabia que você não iria me decepciona, Robin.
Tinker bufou.
–Só me explica por que tem que ser eu a dopar a Mary.
–Não é dopar — corrigi depressa. — É apenas induzir a um estado de relaxamento. E tem que ser você porque eu nunca servi nada pra aquela peste. Você pega comida pra ela o tempo todo, porque Mary é tão preguiçosa que nem ao menos se dá ao trabalho de se levantar para comer. Ou você achou que eu não sabia dos seus serviços de garçonete, Tinker?
–Eu... eu só... não custa nada fazer um favor, Regina.
–E custa agora? Quando o favor é pra mim, de repente é difícil demais, é isso?
–Não! Não é isso. É que... Ai, você está me confundindo toda.
–Apenas coloque o pó na comida daquela praga. Eu mesma colocaria, se não corresse o risco de estrangular Mary. E Leopoldo, onde quer que ele esteja, ficaria muito chateado comigo se isso acontecesse.
–Sua lealdade a ele é tocante! — falou Tinker com ironia.
–Não use esse tom com ela. — Robin a reprendeu, se endireitando. — Você não tem o direito, Tinker. Ela sabe ser grata. Sempre foi leal ao marido. Eu sei disso melhor que ninguém... — concluiu, com um pouco de desespero distorcendo a voz.
Ah, meu fiel e leal Robin.
Mirei seus olhos azuis, fazendo um agradecimento silencioso. Ele retribuiu o olhar, e uma quentura gostosa começou a se espalhar pelo meu peito. Desviei a atenção para Tinker antes que aquilo saísse de controle.
–Você não precisa fazer nada que não queira, Tinker... — comecei. — Apenas pensei que poderia me ajudar com esse probleminha. Achei que ficaria contente por poder retribuir a ajuda que eu te dei durante todos esse anos. Não se esqueça de que, se não fosse por mim, você estaria na rua agora, fazendo Deus sabe-se o que para sobreviver. Mas não faz mal. Posso encontrar alguém que entenda o significado da palavra gratidão.
–Ai, Regina, sabe que eu sou grata por você. Sabe que eu te adoro! — Ela pressionou as têmporas, fazendo uma careta. — Argh! Tá certo, eu faço, coloco o remédio na comida dela. — Pegou o frasco da minha mão.
–Boa menina! — elogiei.
–Quando colocaremos o plano em prática? — Ela quis saber.
–O mais rápido possível. — Abri a bolsa e peguei o celular noco que eu comprara especificamente para aquele fim. — Troque o celular da Mary por este.
–Por quê?
–Porque se puderem contatá-la essa trabalheira toda não servirá de nada, Tinker — explicou Robin pacientemente, se levantando e indo em direção a porta.
Robin, um sobrevivente como eu, tinha um raciocínio espetacular, sempre em sintonia com o meu. Uma pena que eu não pudesse me permitir sentir atração por ele. Lamentável de fato.
–Exato — concordei. — Preciso ir a uma reunião na agência agora, depois Robin te deixará em casa. A peste deve estar em frente ao videogame. Logo que a droga fizer efeito, troque os aparelhos e me ligue, mas não passe o telefone para Mary. Enquanto ela estiver sob o efeito dessa fórmula, é importante que você não diga nada além de comandos simples, como entre no elevador, sente-se, essas coisas. O restante é comigo.
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