Menina Veneno
16 Capítulo 15
Notas iniciais
O som abafado pelas paredes grossas do salão fazia a atmosfera daquela noite pulsar com um ritmo próprio.
Entrar na festa não foi tão complicado; me infiltrar na equipe de garçons, menos ainda.
Você deve estar pensando que enlouqueci, não é? Camisa e calça pretas dificilmente podem ser consideradas disfarce. Deixe-me dizer uma coisa: ninguém se lembra das pessoas de uniforme. É quase uma capa de invisibilidade. Você pode até ver a pessoa na rua com roupas normais e achar que a conhece de algum lugar, mas não vai conseguir fazer a ligação. Acredite, sei do que estou falando.
Contudo, apenas por precaução, encaixei o boné com o logo do bufê no rabo de cavalo, deixando a aba meio abaixada, e retirei todo a maquiagem. Não me lembrava da última vez em que eu aparecera em público de cara lavada. Possivelmente pouco depois de conhecer Leopoldo. Meio que me sentia nua.
Eu estava no fundo da cozinha improvisada, procurando a fórmula de que precisava dentro da bolsa quando fui interrompida. Fechei os dedos em torno de três pequenos frascos e os enfiei no bolso da calça.
– Aqui, leva isso. — O chefe da equipe empurrou uma bandeja pra cima de mim. — Circulando, anda, garota!
Entrei no salão lotado de estudantes equilibrando as bebidas. A bandeja ficou vazia em segundos. As luzes coloridas iluminavam parcamente o ambiente espaçoso tomado corpos em movimento, facilitando que eu me misturasse. Perambulei um pouco enquanto checava o terreno. Nem sinal de Mary e seus sete "amigos complicados".
Dei um tempo, ficando escondida em um canto, apenas observando. A banda que animava a festa deu inicio a uma nova canção. Uma bem ruim, mas que nos últimos tempos não parava de tocar no rádio.
– Você é meu vício, meu maal, tipo uma heroína que me entorpece a cabeçaaaa. Preciso cair fora da sua vidaaa, antes que eu me afunde nessa merda federal.
A galera devolveu num coro de Al. Al. Al. Federaaaaal...
Olhei para o palco e avistei o rapaz de cabelos loiros. David estava absorto em sua guitarra, os olhos fechados em êxtase.
– Só pode ser brincadeira — resmunguei, abaixando ainda mais o boné.
– Cê não foi paga pra ficar vendo show, não garota! Se liga! — Uma das garçonetes me disse, me dando um encontrão.
Não olhei pra ela. Minha finalidade era passar despercebida, e atrair atenção criando caso com aquela garota desagradável, que parecia ter esquecido metade da roupa em casa, era última coisa que eu precisava. Eu já me dirigia para a cozinha quando avistei Graham.
E ele não estava sozinho: atrás dele, mais seis rapazes e uma garota. Mary estava abraçada a dois, rindo feito uma hiena, o olhar vago como se tivesse meia alta. Na verdade, Mary Margaret e seus sete "amigos complicados" pareciam compartilhar aquele espírito, se é que você me entende.
Virei o rosto e passei por eles. Enchi outra bandeja na cozinha e voltei apressada. Nenhum deles prestou atenção em mim enquanto pegava os copos. Não que isso fosse surpresa, vindo de Mary.
– Cara, tô cheio de fome. Não vai ter nada pra comer? — perguntou um deles.
– Tô varado também.
– Somos dois — Mary riu.
– Eu trago alguma coisa pra vocês — falei, mudando a voz para que Mary não me reconhecesse, mesmo com toda a gritaria dos Charmings ao fundo.
Voltei para a cozinha em busca de comida. Encontrei uns salgadinhos e enchi a bandeja. Olhei para eles e tentei adivinhar qual apeteceria Mary. Qualquer um, decidi.
– Droga!
– O que está fazendo? Não pode amontoar tudo desse jeito! — repreendeu o chefe dos garçons, se aproximando e ajeitando os petiscos de modo que formassem o desenho de uma flor ridícula. Tão logo ele se satisfez, voltei a festa e parei logo na entrada. Peguei um dos frascos que havia guardado no bolso e tentei identificar o conteúdo pela cor. O problema foi que, com aquela luz tremulante, todos pareciam iguais.
Deixe-me explicar. Sou uma mulher prevenida e sempre carrego diversas fórmula, coisas que uma mulher pode precisar. Nunca se sabe quando um imprevisto pode acontecer.
Uma delas me pareceu mais clara que as outras. Escolhi uma empada, afastei-a das demais e fiz um furo minúsculo na massa, derramando o pozinho dentro dela. Coloquei o frasco no bolso junto com os outros, endireitei os ombros e mirei em Mary Margaret.
Fiz o possível para parecer relaxada e evitar que o andar da passarela me dominasse.
Passar despercebida, entregar a empada, nublar a cabeça de Mary Margaret e dar o fora. Simples, limpo e eficaz.
Bom, teria sido, se aqueles universitários não fossem uns mortos de fome.
Antes que eu pudesse chegar a cinco metros de Mary, fui atacada por umas trinta pessoas que só não levaram a bandeja porque eu a segurei com força. Não consegui identificar qual delas havia pegado a empada batizada. Porém, não demorou muito para que um rapaz magrelo começasse a se abanar e do nada tirasse a roupa, se esfregando nas garotas mais próximas.
É, eu me enganei com a fórmula e acabei usando a da luxúria.
Eu poderia lhe dizer que não sei como aquilo foi parar na minha bolsa, mas nós dois sabemos que eu estaria mentindo, e essa não é minha intenção. Ás vezes uma garota, maios de idade e viúva, precisa dar uma certa mãozinha a certos assuntos. Não me julgue.
Um sorriso lento se espalhou no meu rosto. Aquele rapaz teria problemas. Iria arder até que aplacasse aquele fogo todo e, a julgar pelo jeito que as garotas o afastavam, suspeitei que ele teria uma noite insone.
Tive que começar tudo de novo, e dessa vez encontrei umas tortinhas de maçã, além de mais empadas. Mary tinha uma verdadeira obsessão por tortas de maçã — um gosto que tínhamos em comum -, então separei a mais bonita e me esgueirei pelas sombras. Peguei outro frasco e polvilhei a mistura sobre a gosma brilhante. A geleia absorveu o pó em instantes. Estava guardando os frascos no bolso quando um empurra-empurra vindo da pista de dança me fez recuar, mas não a tempo. Um dos vidrinhos caiu e espatifou no chão. Aquele que ainda estava cheio. Tudo bem, eu não iria precisar dele.
Consegui sair do tumulto e me aproximar do grupinho patético. Mal endireitei a bandeja e várias mãos surgiram à minha frente. Bati de leve na que se atreveu tocar na torta batizada.
–Esta eu trouxe especialmente para a menina — falei, com a voz animada. — É a mais suculenta.
–Nham! Adoro coisas suculenta. Obrigada, fofonete. — E pegou a torta.Seja franco: mesmo se eu estivesse tentando envenenar Mary, você não poderia me culpar, poderia?
Prendi o fôlego ao ver Mary Margaret levar o doce a boca. A massa calórica estava a centímetros de seus lábios entreabertos. Só mais um pouquinho e...
Um dos sete idiotas — o moreno, ombros largos, mãos grandes — inesperadamente se lançou sobre Mary, deu um beijo rápido na boca da garota, roubou a torta e correu.
–Não! — gritei.
–Zóião!- repreendeu ela, rindo.
Mas ele já enfiara tudo na boca.
Observei aquele idiota mastigar e engolir. Eu não tinha mais nada na bolsa. Não pensei que precisaria de mais de uma tentativa. E por causa daquele energúmeno esfomeado, minha vida todo ia pro ralo.
Ah, sim, Mary logo recuperaria a memória, se é que já não se lembrava de tudo. Ressurgiria das cinzas, como uma Fênix. A imprensa amaria.
"Modelo dada como morta está viva e bem, morando numa república com sete homens lindos".
Falariam dela por semanas. Mary Margaret apareceria em todos os programas de TV. As revistas e jornais se estapeariam para conseguir uma exclusiva. Ela seria o rosto do Menina Veneno. David descobriria que eu menti uma ou duas vezes e me daria o pé na bunda. A infelicidade liberaria centenas de toxinas em meu organismo, as células murchariam, e minha nota no Divina Proporção despencaria.
Maldita Mary Margaret.
–Ainda bem que sobrou uma. — Mary pegou a última torta.
Estarrecida, enraizado no piso, encarei o futuro decadente que me aguardava enquanto a pirralha dava uma mordida na torta de maçã.
E é aqui que eu queria chegar. Quero que preste bastante atenção nesta cena. Ela é crucial, e foi o que trouxe você até a mim. Mais tarde vai se perguntar se eu não adicionei algo sem que tenha lhe contado — e não, eu não fiz isso. Relatei todos os meus passos, sem deixar nada a dizer. Quero apenas que preste muita atenção.
Enquanto eu permanecia ali, assistindo à minha queda iminente, várias coisas aconteceram. Zóião colocou a mão na barriga e fez uma careta. Um homenzarrão, alguém que eu conhecia a vida toda, abriu espaço mancando entre as pessoas. Os olhos de Robin buscaram os meus, depois Mary e um alívio desprezível inundou sua face. Porém logo foi substituído pelo completo horror. Voltei minha atenção para garota, para saber o que deixara tão perplexo. Mary arfava, as mãos na garganta. O rosto sempre pálido ganhou um rosado, depois vermelho, até ficar roxo.
–O que foi Mary? — Questionou Graham.
–Mary, cê tá legal? — Um outro cara deu alguns tapinhas nas costas dela.
A menina não consegui proferir um único som.
–Maary! — Gritou Zóião.
Mary não respondeu, apenas continuou lutando por ar.
Por um breve segundo, seu olhar se deteve no meu, e naquele instante ele se pareceu tanto com o de Leopoldo que algo dentro de mim se encolheu.
Mary desistiu da briga. Seus olhos se reviraram. Então ela caiu no chão, morta.
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