Está vendo aquela mulher sentada em frente à câmera no pequeno estúdio com paredes de tijolo aparente? Repare como seus cabelos negro se movem com graça, emoldurando-lhe o rosto como um manto sedoso. Percebe a maciez daquela pela perfeita sem nenhuma mancha ou ruga? Olhe bem o desenho daquela boca cheia de suave , de um rubor natural tal qual um botão de rosa prestes a desabrochar. E os olhos! O espocar do flash, com a ajuda dos refletores, os transformou numa imensa escuridão.

Ela não é a mulher mais linda e perfeita que você já viu na vida?

Eu concordo. E tenho a grata satisfação de vê-la todos os dias quando me olho no espelho.

Ah, bem, creio que esse é só um pontos sobre o qual a imprensa não mentiu. Eu sou a mulher mais bela que já pisou nesta terra.

Não precisa me olhar deste jeito. Estou apenas sendo honesta. Modéstia é uma palavra que não consta no meu vocabulário. ou em minha profissão.

–Incrível Regina! — elogiou Sidney, clicando sua Nikon — Você é perfeita! Uma deusa! A câmera te ama. Faça amor com ela. Isso!

Já desfilei para os maiores estilistas, posei diante dos mais renomados fotógrafos — como Sidney Glass — e jantei com celebridades e personalidades importantes ao redor do mundo. Meu rosto estampou 156 capas das mais conceituadas revistas de moda nos últimos três anos.

Isso me torna uma pessoa ruim? Não do meu ponto de vista; simplesmente tenho consciência do meu potencial. Sei que ninguém como você podo compreender, mas acredite, beleza é um fardo!

No entanto, ela era que pagava minha contas e abastecia minha taça com champanhe francês. e descolava entradas para os melhores e mais disputados eventos, onde quer que eu fosse.

–Doçura. Quero sua doçura, Regina — Flash. Flash. Flash. — Ah, meu Deus, esse olhar! Mantenha esse olhar!

Particularmente, eu acredito que seria uma atriz formidável. Minhas expressões faciais são invejáveis. Certa vez até cogitei essa possibilidade, mas Leopoldo não gostou da ideia, e na época eu não queria desagradá-lo. Você com certeza já ouviu falar de Leopoldo Mills, o talentoso piloto de Formula Indy. Isso mesmo, aquele que morreu no ano passado, em um trágico acidente.

Eu sei, o termo "viúva" não cai bem para uma mulher tão linda e jovem quanto eu.

Sinto saudades de Leo. Apesar de mais velho, ele era um cara legal e sabia tratar uma mulher. Ainda perco o fôlego quando admiro a gargantilha de diamantes azuis que ele me deu em meu último aniversário que passamos juntos.

Confesso que nunca consegui me apaixonar por Leopoldo — ou por qualquer outro homem, diferente dos meus sentimentos em relação a gargantilha — mas ele era lindo, rico e me fazia rir. Quando me pediu em casamento, como amor nos olhos e um anel da Tiffany na mão esquerda, não podia dizer não. Além disso, ele me deu a única que eu sempre desejei. Não o anel. Meu trabalho compraria cem deles. Leopoldo me ofereceu um sobrenome. Eu teria feito qualquer coisa por isso.

O Rei das Pistas e a Rainha das Passarelas, diziam os jornais. Éramos um casal perfeito.

No entanto ele foi estúpido o bastante para perder o controle de seu Indy, errar uma curva, bater e morrer aos 37 anos, me deixando sozinha outra vez e com um legado mais que inconivente. A tutela de...

–Mary! — exclamou Sidney quando a porta de ferro do estúdio, grande e barulhenta foi aberta bruscamente.