Menina Gaunt
10 A proposta
Notas iniciais
Então eles se beijaram mais uma vez, como vinha acontecendo após as aulas na biblioteca, que haviam voltado a acontecer. Merope nunca havia beijado alguém antes, mas depois de começar a fazê-lo com certa frequência, acabara aprimorando a prática. Pelo menos, era isso que Riddle dizia.
“Por que fez isso?”, ela perguntou quando partiram o contato. Estava ofegante e sentia seu rosto e pescoço esquentarem.
“Porque ósculo significa beijo. Não achei maneira melhor de explicar.”, Tom sorriu presunçoso.
Agora, a cada dia as coisas ficavam mais intensas. Ela sempre saia dos beijos com os lábios bastante inchados e vermelhos. E, por mais estranho que parecesse, não havia constrangimento quando se separavam. Tom agia com naturalidade, como se aquilo fosse parte da aula, e Merope passara a lidar com a situação da mesma forma.
Merope, mesmo com toda sua inocência e ignorância, sabia que havia inúmeras formas de fazer alguém compreender o que era um ósculo sem precisar beijar a pessoa. Só pôde concluir que Tom a beijara por vontade, e pensar isso fez seu estado de espírito melhorar.
“Entendo.”, ela replicou um pouco irônica, perdendo parte da vergonha.
“Bom, eu já vou.”, ele anunciou simplesmente e sumiu rapidamente da vista da garota.
Estavam de pé, no canto da biblioteca. Sabiam que os pais dele não entrariam, não sem antes bater, por isso se davam ao luxo de dar longos e demorados beijos. Ele deslizava as mãos por suas costas, fazendo com que colassem mais os corpos. Ela começou a beijar o pescoço dele e sentiu algo entre os dois...
“Tom!”
Ambos sobressaltaram-se, afastando-se rapidamente. Era Thomas, chamando pelo filho com alarde. O jovem mirou Merope por milésimos de segundo e depois partiu em direção à voz de seu pai.
Ela, que se assustara, estava agradecida pelo dono da casa não entrar no recinto. Mal podia imaginar a cara que Mary Riddle faria se descobrisse que seu querido herdeiro andava aos beijos com a subalterna.
Sem mais delongas, a jovem juntou os livros e todo material que haviam utilizado em aula e os colocou no lugar. Sempre que as reuniões acabavam, ela ficava por último para limpar a pequena bagunça que faziam. Rumou para cozinha. Quando passou pelo corredor, tentou ouvir o porquê de Tom ter sido solicitado, mas nenhum som vinha da sala. Chegou ao aposento e se pôs a ajudar Penny que preparava o jantar.
“Penny.”, Mary apareceu enquanto Merope cortava os legumes, minutos mais tarde. A mais nova notou a expressão tensa da senhora. “Leve meu jantar ao quarto. Thomas e Tom saíram para... para resolver um assunto”, ela lançou um breve olhar a Merope nesse instante. “Não voltarão tão cedo.”
“Sim, senhora.”, disse Penny. A matriarca se foi.
O que teria acontecido?, Merope se perguntou um pouco ansiosa e até aflita. Terminou de cortar a cenoura, preparou uma bonita bandeja que Penny levaria para Mary, e foi se recolher sem jantar; perdera a fome. Tomou um banho quente e deitou.
Sua pergunta foi respondida horas depois. Estava num sono leve quando alguém entrou em seu cômodo. Ela sentou-se na cama, assustada. Levou alguns segundos para perceber quem fechava a porta.
“Tom?”, indagou com a voz ainda sonolenta. Um lampião no canto direito permitia-lhe distinguir o intruso.
“Sim. Acalme-se.”, o rapaz disse andando até a cama e sentando na beirada do móvel.
Merope teria ficado envergonhada por estarem naquela situação — ela de camisola e ele sentado em sua cama — se não tivesse notado o semblante extremamente carregado dele.
“O que houve?”
Ela já estava totalmente acordada. Estavam bem próximos.
“Merope, eu...”, ele hesitou, o que era bastante incomum para alguém tão arrogante.
“Diga!”, ela disse não se importando com o fato de ter soado como uma ordem. Seu coração se apertava; um mal pressentimento.
“Merope, eu e meu pai fomos ao hospital.”
“Darcey.”, ela sussurrou sentindo sua voz estrangulada.
Tom assentiu. “Ficamos sabendo que ela piorou... Eu quis voltar e te avisar, mas meu pai exigiu que eu fosse com ele imediatamente. Queriam transferi-la para uma unidade mais adequada, então tivemos que resolver a papelada de transição. Mas enquanto estávamos lá, ela...ela...”, ele falava cauteloso.
Merope já não ouvia. Era como se estivesse em um espectro, em outra dimensão. Choque, pavor e dor mesclavam-se. Ela não precisava ouvir. A julgar pela expressão de Tom, que claramente nunca havia feito aquilo, Darcey já não mais era.
Sentiu-se caindo até encostar no peito de Riddle. Braços envolveram seu pequeno corpo e ela chorou. Nunca soube se chegou a dormir ou se passara a noite acordada, só se deu conta de que já era dia quando um raio incômodo atingiu seu olho. Tom estava ao seu lado, e ela deitada sobre seu peito.
“Tenho que ir. Se minha mãe notar que não dormi em meu quarto...”,ele deixou a frase suspensa no ar ao mesmo tempo em que se levantava com delicadeza. Merope ergueu-se também e os dois sentaram novamente. “Eu não pretendia te contar, mas conhecendo minha mãe, não achei que seria bom se ela desse a notícia hoje.”
Ela agradeceu assentindo. Aquilo não era bom de modo algum, mas ouvir de Mary Riddle, com todo aquele jeito frio e arrogante, seria muito doloroso, principalmente porque não poderia chorar, como pôde com Tom.
“A cerimônia será no fim da tarde, na capela ao lado da praça. Minha mãe dirá tudo isso daqui a pouco, então se puder...”
“Fingir surpresa”, ela completou. Ter chorado a noite inteira deixara sua voz mais dura.
“Sim.”, ele abaixou a cabeça e Merope entendeu que ele sentia vergonha de pedir aquilo. Levantou-se e despediu-se: “Te vejo depois.”
Merope ficou olhando o espaço que segundos antes era preenchido por Tom Riddle. Não queria falar, nem levantar, nem trabalhar, muito menos se despedir daquela que já considerava sua mãe. No entanto, sabendo que não tinha opção, e que aquela poderia ser uma oportunidade de ocupar sua mente, ela também se levantou.
Horas mais tarde, já se encaminhava para o pequeno centro da cidade junto de Penny e Frank. Teria sido realmente um desastre se ela tivesse recebido a notícia por Mary. Mais cedo, enquanto as duas empregadas preparavam o desjejum, a patroa chegara anunciando o falecimento de Darcey como se estivesse falando do clima. Penny entrara em choque e Merope ficou em silêncio, voltando a chorar quando Mary saiu. Frank e Finn foram avisados por Thomas, e logo apareceram na cozinha para consolar as outras duas. Frank parecia bastante desolado, notara Merope.
A família Riddle já havia seguido para a capela, de carro; Finn dirigia o veículo. Os outros três trancaram a casa e seguiram juntos para o local do enterro, no mais completo silêncio. A moça estava absorta. Quando chegaram ao pequeno cemitério atrás da igreja, foi fácil reconhecer o túmulo. Os Riddle posicionaram-se de um lado da cova, e outros presentes, que Merope não conhecia, também se espalhavam pelo espaço. Ela, Penny e Frank se juntaram a Finn que chorava.
Fazia sol, porém era possível sentir uma ventania gelada que balançava as árvores atrás do cemitério. A grama estava bem verdinha e Merope pensou que aquele era um bonito lugar para uma despedida. Usava um vestido preto que ia até o joelho e o mesmo casaco do dia que fora ao hospital com Tom. Lembrando-se dele, ela o mirou enquanto o padre recitava palavras de conforto. Ele também a olhava. Ficaram nesse contato por alguns segundos até que Merope o quebrou para ver descerem o caixão marrom e bem polido que estivera fechado todo o tempo ao lado da cova.
Uma onda de desespero assolou seu peito e ela queria correr dali, mas teria que se controlar. Sabia que ainda teria muitas ondas de choque como aquela; a ficha não cairia tão cedo. A despedida terminou e os presentes foram saindo aos poucos. Em meio ao pequeno tumulto, Merope sentiu alguém segurando seu braço. Era Tom. Ele a soltou e seguiu em direção às árvores no fundo, Merope o seguiu até chegarem atrás de um tronco grande.
“O que houve?”, ela sussurrou a mesma pergunta da noite anterior, sentindo-se fraca.
“Fuja comigo.”, a voz dele era urgente.
“Desculpe?”, ela falou sem ter certeza de que ouvira direito.
“Fuja comigo.”, ele repetiu e ela se aprumou, prestando mais atenção. “Escute, tenho que falar rápido. Estamos no fim de agosto. Como você ouviu naquele dia, meu pai quer que eu vá para América estudar medicina. Isso não está nos meus planos. Vou para Londres no início de setembro e quero que você vá comigo.”
“O que? Como?”, Merope perguntou atordoada.
“Não tenho tempo, preciso da sua resposta agora para providenciar nossas passagens e hospedagem.”
Merope ficou atônita.
“Está falando sério?”
“Nunca falei tão sério em toda minha vida.”, sua expressão decidida confirmava a frase. “Então, você vem?”
“Eu não sei, não posso. O que eu faria?”
“O que você tem a perder?”, ele replicou um pouco impaciente. “Não quero ser grosseiro, tudo bem? Mas você já não tem seu pai e irmão. Darcey se foi”, ele falou a última parte com mais delicadeza. “Você não tem nada a perder! Além do mais, minha mãe mal pode esperar para se ver livre de você, e meu pai só te mantinha aqui por Darcey. Sem a minha presença, não haverá mais nenhuma razão para você permanecer naquela casa.”, Tom terminou com a voz um pouco ofegante e ansiosa.
Merope observou-o por um momento.
“Tudo bem, eu vou”, respondeu.
“Ótimo.”, ele sorriu e passou a mão pelos cabelos. “Meus pais acham que vou me encontrar com Cecilia agora. Vá para casa e não diga nada a ninguém. Não sei se conseguirei te ver mais tarde, então comece a arrumar suas coisas, mas coloque só o que menos usa, por enquanto. Ainda ficaremos aqui por mais uns dias.”
“Certo.”, ela assentiu perplexa.
Ele a beijou e ela cedeu caminho para sua boca. Foi um beijo rápido, mas o suficiente para deixá-la zonza. Tom afastou-se e virou, saindo do cemitério.
Merope olhou uma última vez o local onde Darcey agora descansava. Quando chegou ao grande casarão, Frank, Penny e Finn já haviam ido embora. Thomas avisara que todos estariam dispensados de seus afazeres depois do velório. Grata por isso, não queria interrogatórios a respeito de sua demora, ela foi para seu quarto assim que fechou o portal da cozinha.
Enquanto guardava as roupas que menos usava numa bolsa grande, marrom e velha que ganhara de Darcey, — dias antes da queda da senhora — lágrimas escorreram por seu rosto.
Fale com o autor