Depois do falecimento dos meus pais no acidente, eu fiquei sem chão. Apesar de não estarem muito presentes comigo, pagavam tudo pra mim, e sempre em época de férias, feriado ou qualquer finalzinho de semana sem nada para eles fazerem no trabalho, viajávamos e era só alegria. Já se passou seis meses depois do ocorrido. A minha avó, Tereza, passou um tempo aqui no Green, o condomínio onde moro, num bairro de classe alta até as coisas se estabilizarem. Tinha que resolver coisas de heranças, família querendo dinheiro e depois de muita luta, pois meus tios queriam pegar a grana dos meus pais, resolvemos tudo e fui morar com a minha avó. Como ela não tem condições de pagar a casa no Green, mesmo com o dinheiro que tenho, eu prefiro juntar e gastar com outras coisas, assim como ela disse. Vendemos a casa e fomos para o Centro, bairro de classe média, onde eu vou morar agora.


Levei todos os móveis do meu quarto. A minha avó até resolveu fazer uma esperteza e pegou os móveis da sala, cozinha, enfim, de todos os cômodos e fez uma mudança básica em sua casa. Foi mais um mês de mudança, resolvendo tudo, e até fui matriculada em um colégio lá no bairro mesmo. Não era como o Colégio Green, que é um colégio de rico, remunerado, mas esse onde vou estudar, é o melhor do bairro.


A casa da minha avó, é uma casinha de porte médio, diria pequena, comparando onde eu morava. Mas é confortável aqui. E ainda tenho um quarto para mim. Não consigo imaginar como vai ser minha vida de agora em diante. Mas, com a minha avó que sempre cuidou de mim e agora vai cuidar mais ainda, ao meu lado, não tenho medo de mais nada. Sei que muitas coisas irão acontecer comigo, mas vou superar tudo. Eu espero.


Resolvi ligar para o Lucas, meu namorado. Precisava saber como ele está e como estão os meus amigos. Sei que são vinte minutos de carro daqui até o Green, mas mesmo assim não é tão longe e não vou me distanciar deles.

- Meu amor! – Falei entusiasmada ao ouvir sua voz.

- Oi, que saudades. Como está ai?

- Por enquanto eu to bem, viu. E ai, o que está fazendo? Que bom ouvir sua voz! Já estou com saudades... – Eu, cada vez mais apaixonada. Nove meses com ele. Tirando o tempo de amizade que tínhamos.

- Estou com a Mariana aqui... Mas a galera está aqui também. Chegaram agora — Riu sem graça.

- Fale a verdade, Lucas.

- Falei a verdade, poxa! Vai ficar nessa desconfiança agora é?

- Calma. Quanto estresse. Olha, quando você quiser falar direito comigo, você me liga. Vá terminar o que você está fazendo, com a galera. – Enfatizei galera, pra ele entender.

Não engoli essa dele. Mas deixa né? Acho que ele não irá me trair. Ainda mais com a Mariana, minha amiga. Quer dizer, não é bem amiga, era vizinha. Mas anda no mesmo grupo de amigos que eu, então tenho que suportá-la falando com ela. Eu sei que ela gosta do Lucas, por isso eu não a suporto.


Desci, conversei com a minha avó, comi o bolo gostoso de chocolate que ela fez, tomei meu banho e subi pra dormir. Eu estava cansada, precisava colocar as coisas no lugar e para isso se resolver, só dormindo.

Acordei ás 5 da manhã com minha avó abrindo a janela do quarto, deixando o sol todo em meu rosto. Todo o dia vai ser assim? Ela me disse que iríamos ao meu colégio novo. Ela me levaria somente hoje, para que pudesse conhecer o caminho. Ao entrar no colégio, fiquei com uma vontade imensa de sair de lá correndo. Acabei chegando atrasada na sala, pois me perdi. O colégio era imenso. Abri a porta da sala do primeiro ano, e todos os olhares foram voltados pra mim. Mas, eu já suspeitava.

- Você que é a Maria Luísa? – A professora disse, sorrindo. Acho que era a única, além dos meninos que sorriam naquela sala para mim.

- Sou eu sim — Sorri de canto.

- Muito prazer, Malu. Posso lhe chamar assim? – assentir com a cabeça e ela sorriu. — Sou a professora Natasha. Cumprimentem a nova aluna, Maria Luísa! – A professora pediu aos alunos que me dessem as boas vindas.

- Seja bem vinda, Maria Luísa! – Todos gritaram em uníssono, eu dei um sorriso envergonhado, entrei na sala e por incrível que pareça só tinha uma cadeira. Acho que é o lugar que guardaram pra mim. Era época de segundo semestre já, entrei no colégio, atrasadinha. Mas por sorte, as notas do meu antigo colégio serviriam para o primeiro semestre. Sim, sou uma boa aluna pra falar a verdade.

A pessoa que estava atrás de mim, era um menino, perfeito demais, eu dava umas olhadas pra trás o tempo todo, pois ele era hipnotizante. Eu percebia, que enquanto a professora explicava o assunto de português, ele somente prestava atenção e anotava. Coisa que particularmente eu não estava a fim de fazer e a maioria da sala também.


Não sabia o nome de ninguém ali, estava esperando somente a chamada pra eu poder recordar o nome de todos, e principalmente o dele. Era aquele tipo de menino inteligente, mas ao mesmo tempo safado. Pelo menos, eu imagino que ele seja. E como dizem, os santinhos são os piores. Eu acredito nisso.


A professora falava o nome dos outros e eu ia prestando atenção na resposta dos demais, mas só que o nome dele demorava. Também né, 40 alunos é de se esperar. Até que a professora falou o seu nome num tom melódico: Thiago . Sim, o nome do perfeito, era Thiago. E a sua voz era perfeita demais. Me apaixonei. Brincadeira, não estou nesse tom de carência e tenho namorado. Que talvez possa estar agora, nesse momento, ficando com a Mariana, mas ainda assim, tenho namorado.

Naquela sala ninguém falou comigo, só me olhavam e me achavam super patricinha. Eu espero que isso seja só por enquanto. A minha vontade é de sair daqui correndo e voltar pro meu colégio antigo. Onde eu era conhecida por todos.

Enfim, o intervalo! Estava com fome. Não falo com ninguém aqui, então não ia ser aquele típico intervalo que você não quer que acabe. Eu queria que acabasse. Na verdade, queria que essa aula acabasse para eu ir pra casa. A fila da cantina estava enorme mas a minha fome era grande, tive que enfrentá-la. Atrás de mim tinham uns garotos, provavelmente os populares desse colégio inútil. Eles ficavam me olhando o tempo todo, até que um me cutucou, quando eu me virei vi que ele não era de se jogar fora.

- Oi... Maria Luísa, não é? A nova? Do segundo ano? – Acho que ele era da minha sala, pois o reconhecia.

- Sou sim. E você, quem é?

- Sou Leonardo, e esse é o Patrick.

- Prazer! — Sorri.

- E ai, estudava aonde? – Leonardo perguntou. O Patrick não falava nada. Só comia uma coxinha super gordurosa. Não entendi por que estavam na fila de novo.

- No Green Valle. Não é aqui no bairro não.

- Colégio de rico? – Patrick perguntou, de boca cheia. Nojo.

- Acho que é. – Respondi.

- Cansei de esperar a cantina aqui. Já tinha comido mesmo. A gente se vê na sala. Vamos Patrick. Tchau, Maria Luísa. – Piscou e sorriu. Até que tinham uns gatinhos aqui nesse colégio.


Quando chegou a minha vez, só tinham salgados gordurosos. Nossa, que horrível! Eu tive que comer. Sentei sozinha em uma mesa, comi e fui tentar mandar uma mensagem pro Lucas. Depois do ocorrido ele nem me ligou.

Afe, aqui está um saco! Já estou no colégio e infelizmente, to odiando isso tudo aqui. Você vem me ver quando? To morrendo de saudades de você, meu amor.

Xx Malu.

Ele não me respondeu, estranho isso acontecer. Ele sempre responde. Achei que não tinha enviado, mas olhei de novo e enviei sim. Eu sempre tenho pressa quando se fala em mensagens, mas vou esperar um pouco. Talvez, esteja no banho.

Retornei a sala, me sentando na frente do Thiago e prestando atenção na aula de história. O professor é um lindo, mas a aula é um saco. Por incrível que pareça o celular tocou. Mensagem do Lucas. Agora que ele manda, no meio da aula. Pedi ao professor pra sair, dizendo que era a minha avó e ele deixou. Todos me olhavam curiosos, mas eu nem liguei.
Foi mal Malu, to ocupado e nem deu pra ligar. Eu vou te ver hoje, ás 12h30. Assim que sair do colégio, eu to te esperando na porta. Beijo te amo.

Lucas.

A aula de história passou devagar, eu estava me sentindo tão só que precisava dos meus amigos nesse momento. Deu o fim da aula e saí correndo para o portão. Ele estava lá, me esperando, sentado em sua moto. Corri e parti para o abraço e um beijo de saudades. Todos nos olhavam demais, acho que virei o centro das atenções hoje. E não foi só do pessoal da minha sala.

Subi em sua moto e fomos almoçar em um restaurante daqui. Não é lá um bom lugar para um casal comer, mas dá para o gasto. Não era nada romântico.

Sentamos e vi que ele estava sério demais comigo. Percebi isso desde quando falei pela primeira vez com ele ao telefone. O que será, hein?

Notas finais
Este é o primeiro capítudo da web-novela Memórias e Lembranças. Espero que gostem, agradeço se houverem comentários legais e se quiserem falar comigo, @_mimif é o meu twitter.

Beijos e até o próximo capítulo.