Memórias de uma vida
2 Sem Romance
Notas iniciais
Pietra acordou cedo para a escola, e quando tomávamos café ela insistia para saber se eu ainda falava com a Jane.
– Papai, a Jane era legal?
– Sim meu amor, ela era a melhor amiga que alguém poderia ter.
– Ingual eu e o Danny.
– Primeiro filha, se fala “igual” e quem é esse Danny?
– É o filho da Tia Lucy, amiga da mamãe.
– Ata, Lucy do Hospital né?
– Sim papai. — Ela apontou para a TV que tinha na cozinha de repente. – PAPAI!!! VILA SÉSAMO, VOCÊ PAPAI!!!
– Pior que é. – Disse olhando para a canção que escrevi e cantei, estavam reprisando.
– Eu vivo em dois mundos diferentes, como muitos outros meninos e meninas, um é em casa, com a minha família e o outro na escola, onde eu aprendo tudo que eu posso ser... – Ela me olhou. – Canta comigo papai.
“Eu vivo em dois mundos diferentes eu vivo em dois mundos diferentes em casa, eu posso falar quando eu quiser posso falar bem alto e conversar à toa na escola eu levanto minha mão quando eu quero falar alguma coisa...“– Cantamos juntos.
– Então minha gatona, vamos para a escola?
– Papai a mamãe ainda não chegou, e eu não vou para escola antes disso.
– Mas minha querida, provavelmente sua mãe teve que cobrir o horário de outra recepcionista lá no hospital.
– Não! Eu só saio de casa quando ela chegar. Eu não saio do meu lugar até ganhar o beijo da manhã.
– Pode ser o meu beijo?
– Não papai, tem que ser o dela. – Ela cruzou os braços, costumava fazer esse drama sempre quando a mãe estava longe.
– Olha eu tive uma ideia, vamos para a escola e no caminho passamos no hospital para você receber o beijo, pode ser anjinho?
– Claro! – Ela pegou a bolsa e o burrinho de pelúcia e correu para o carro. Eu fui logo atrás desligando a TV e fechando a porta. – Anda papai. – Me apressou já dentro do carro.
– Calma filha. – Entrei no carro. – Quer ouvir música?
– Não Papai.
Seguimos o caminho todo com Pietra quieta e doida pelo beijo da manhã, isso era como uma tradição para as duas. Chegando ao Hospital, Pietra saiu da cadeira e fechou a porta me esperando, peguei em sua pequena mão e fomos entrando.
– Será que a Mamãe ainda esta aqui?
– Não sei filha, esperamos que sim. — Pietra soltando da minha mão, correu até o balcão ficando na ponta do pé tentando ver quem estava lá.
– Moça, Moça?
– Sim meu anjo? – A recepcionista ficou de pé para enxecar aquele serzinho. Ela era pequena para sua idade o que a deixava ainda mais fofa.
– Minha mãe tá aí? – Antes que a mulher pudesse responder eu me aproximei e peguei Pietra no colo. – Papai, não é a Mamãe.
– Eu sei Filha. – Olhei para a moça. – Com Licença a Senhora Sheeran esta aqui ainda?
– Sheeran, Sheeran... A Liz?
– Isso! Ela esta?
– Não sei, só um momento irei checar.
– Papai. – Ela me olhou.
– Que foi meu anjo.
– Quero descer.
– Ok. – A coloquei no chão. – E me apoiei no balcão esperando a moça me informar o paradeiro da minha esposa.
– MAMÃE!!! – Olhei instantaneamente para onde minha filha correu.
– Pietra! Não corra filha. – Ela a repreendeu e assim que a ruivinha chegou perto ela a abraçou.
– Mamãe eu queria o beijo da manhã, o papai não pode me dar. – Eu me aproximei percebendo que Liz estava diferente, talvez fosse impressão minha mas o batom dela estava borrado.
– Ed, que ideia, trazer ela aqui.
– Não pude fazer nada, Pietra me disse que eu não sei dar o beijo de bom dia. – Me aproximei para beijar Liz e ela se esquivou virando o rosto. – Liz.
– Agora não Ed.
– Não eu só queria dizer que... – Fui interrompido.
– Agora NÃO Ed.
– Mamãe, seu batom esta errado. – A olhei com um sorriso do tipo “era isso que eu ia falar”
– Eu tomei café e me borrei. – “Aham sei” pensei comigo. – Filha. – A beijou na testa, na bochecha esquerda e direita e por fim no nariz. – Agora pode ir, vai para a escola e seja inteligente.
– Obrigada Mamãe, eu te amo.
– De nada meu anjinho, eu te amo mais. – A abraçou.
– Tchau Liz. – A beijei no rosto.
– Papai, beija a mamãe direito, que coisa. – Liz sorriu sem jeito para mim, e Pietra estava com os braços cruzados nos olhando, ambos estávamos passando por certa distancia.
– Tchau Ed. – Deu um selinho em mim.
– Vamos meu amor, a escola te aguarda. – Peguei a pequena e coloquei em meu pescoço “no cangote” como dizem.
– Papai. – Ela perguntou quando estávamos passando pela porta da frente.
– Oi meu amor? Se abaixa. – Nos abaixamos e ela riu.
– Por que a Mamãe estava beijando o amigo dela?
– Como assim filha.
– Ela estava beijando o amigo dela, assim como beijava você. – Aquele pequeno pingo de gente, não tinha noção do que dizia, mas eu acreditei nela. Eu e Liz andávamos distantes, e é provável que ela tenha um caso. Mas eu não me importo mais, não enquanto Pietra estiver por perto.
– Não sei filha, esqueça esse assunto. – A desci e ela entrou se amarrando na cadeira. – Vamos para a escola e depois vou te buscar para o grande sorvetão.
– EBA!!!
Deixei Pietra na escola e fui para casa, esperar a minha esposa em casa. Queria saber a verdade, e sabia como arrancá-la. Cheguei em casa e fui para a sala assistir TV, e então Liz chegou.
– Oi. – Disse ao entrar na sala.
– Oi. – Respondi no mesmo tom.
– Então ela se comportou?
– Ela sim. – Olhei para Liz. – Pena que a mãe não.
– Como?
– Liz. – Desliguei a TV e me virei de frente para ela. – Você tem outro?
– Como? Que pergunta é essa?
– Me responde. Eu aguento a verdade.
– Claro que não Ed, da onde tirou isso?
– Da sua boca manchada pelo batom e por que tive que explicar ou tentar explicar para a minha filha o por que da mãe dela estar beijando um outro cara.
– Não me diga que...- Ela colocou a mão na boca. – Que você acreditou em uma criança de seis anos.
– Liz, ela pode ter seis anos, mas uma coisa que ela faz muito bem, é não mentir.
– Capaz Ed.
– Ah desculpe, que burrice a minha, você não sabe. Sabe por que? Porque nunca passa mais do que 2h com ela. Fica enfurnada naquele hospital e de tanto “morar” lá, já achou até um novo marido, não é?
– Para de ser infantil Edward.
– Infantil? Liz, se quer logo se separar de mim, diga logo. “Edward eu não quero mais você.”
– Eu...– Ela suspirou. – Edward, eu não quero mais você.
– Viu? Foi difícil? Não né?! Agora com licença, eu tenho umas malas para fazer. – Eu ia saindo da sala.
– Edward, você esta indo embora dessa casa?
– Claro, ela pertence a minha filha, e você é mãe dela e eu não quero te ver mais. – Parei na porta.
– Mas, para alguém que dizia me amar além das estrelas, você esta se saindo muito bem, sem choro sem sentimentos berrantes. Tenho certeza que andou me traindo.
– Eu?- Voltei para perto dela. – Eu na última sexta feira, trouxe café na cama para você, eu disse que te amo, e o que eu recebi? Um vai se foder Ed. E isso não foi só agora, há algum tempo você vem me tratando assim, então eu resolvi me dedicar o 100% do meu amor, para a única que merece.
– Quem a Sophia? — Ela riu e cruzou os braços.
– Que Sophia? A nossa vizinha? – Ela assentiu. – Não. Para a Pietra. É tão sínica e quer tanto me atacar que nem esta escutando o que diz. Com licença novamente, vou deitar e esperar a hora de buscar a MINHA filha. – Sai de novo de perto dela.
– Ela é minha também Ed. – Voltei e apontei o dedo na frente do rosto dela.
– Ela no momento é a sua conhecida. Você a colocou no mundo, mas quem cria, sou eu. – Saí sem esperar resposta, fui para o quarto da Pit e fiquei deitado lá. Comecei a chorar, a primeira vez depois de anos.
Quando estava perto de ir para a escola buscar a nanica, eu peguei as chaves e desci direto para a garagem, e antes de ligar o carro meu celular toca.
– Ed, meu grande amigo.
– Olha quem resolveu me ligar e nas minhas férias.
– Nossa como você é um amor, mesmo beirando os trinta anos.
– Além de me ligar ainda me chama de velho. Velho é teu passado Stuart.
– Ei Ed, só queria saber como esta?- Ele ria.
– Olha as coisas estão péssimas.
– Quer conversar?
– Sim, eu vou à escola buscar a Pietra, e depois vou para praça do lado, me encontra lá e traga o pequeno Nick. – Nick era filho mais novo do Stuart, ele tinha cinco anos. – Para brincar com ela.
– Ok.
Cheguei à escola estacionei, e esperei a Pit do lado de dentro do carro apoiado na porta.
Flashback on
– Jane oi.
– Edward há quanto tempo!
– Pois é, há Cinco anos já.
– Como está?
– Bem e você?
– Ótima, estou morando com uma colega de quarto agora.
– E seus pais?
– Se mudaram para a Irlanda.
– Haha, nunca param né?
– Pois é, quer almoçar lá em casa hoje?
– Pode ser.
Naquele dia encontrei Jane novamente, mas agora eu estava em Londres indo atrás de produção para mim. Ela fez almoço e assistimos filmes de tarde deitados na cama dela conversando sobre os anos perdidos, mas acabamos cochilando. Quando acordei eu estava “alegre” talvez fosse pelo fato de Jane estar de shorts curto deitada com a bunda arrebitada e eu ter dormido abraçado a ela. Então corri para o banheiro e fiquei lá, de repente a ouvi batendo na porta.
– Ed, esta tudo bem?
– Sim, só estou me arrumando, sabe. Lavando o rosto. – Mas que desculpa.
– Ed, abre a porta.
– Não Jane.
–Abri logo ou eu arrombo.
– Você não conseguiria.
– Duvida?
– Não. – Destranquei e ela mirou o olhar direto para a minha calça e corou.
Flashback off
– Papai abre a porta.
– Ah filha, desculpa – Abri a porta e ela entrou e se amarrou na cadeira.
– Pronto Papai.
– Esta preparada para o Sorvetão? – Disse virado para ela e sorrindo.
– Sim!!!!
– Vamos lá!! – E os dois berraram um “aeeee”.
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