Era uma tarde bonita de verão, mas o calor dificilmente chegava às montanhas e colinas que cercavam a costa leste da Floresta Encantada. A neve dava uma trégua neste período do ano, mas o vento ainda era frio o bastante para necessitar das lareiras para deixar o ambiente agradável de verdade. Por este motivo, Regina, que havia pouco aprendera como fazer bolas de fogo minimamente decentes, treinava, totalmente sozinha as suas habilidades.

Gostava de estar ali, o único lugar do mundo em que se sentia totalmente segura para usar a sua magia: a Fortaleza Proibida. Era difícil fugir de seu marido para poder estudar encantamentos, mas, depois de muito trabalho, quando este viajava, conseguia alguns dias para si, tempo que dividia entre os seus professores. Por mais que Rumpelstiltskin fosse um exímio mentor, os métodos do feiticeiro eram agressivos e já a haviam levado a matar uma vez, lado da Rainha que ainda a deixava reflexiva sobre si mesma. Não, ela preferia a calmaria da Fortaleza, cercada de livros sobre tudo que pudesse vir a precisar, sentindo o cheiro do mar e ainda com uma companhia muito mais agradável. Malévola era gentil e a tratava muito bem, embora houvesse muito pouco na dragoa que pudesse ser chamado de humano além de sua aparência física, e às vezes nem isso.

Então se divertia ali sozinha, esperando enquanto a senhora do castelo ia passar horas voando e caçando sobre os vales. Se fechava na biblioteca e era como se o tempo parasse, o silêncio absoluto, pontuado pelo som das aves era tudo como música para os seus ouvidos cansados de sua própria sorte.

Deve ter adormecido no meio de tantos tomos e pergaminhos, pois acordava assustada, levantando a cabeça de uma mesa. Escutara o som de algo metálico caindo, isso era fato, mas também tinha certeza de estar sozinha, pois Malévola jamais chegaria em casa sem vir diretamente falar com ela. Tomada de toda a coragem que possuía, munida da confiança em seu poder, a mesma que tivera em si quando enfrentara o Rei Estevão, pôs-se de pé e tratou de seguir a origem do barulho. A mão já ficava ao lado de si, a palma para cima e os dedos abertos, invocando as chamas com o seu ódio, sua raiva e o desejo de sobrevivência e vingança, fez um pequeno fogo e o utilizava para ir acendendo as tochas durante o caminho.

Parou diante de uma porta aberta, não era para haver ninguém ali, era a Sala do Tesouro, onde a dragoa guardava todos os seus bens mais preciosos, fosse pelo valor financeiro, mágico, ou até mesmo sentimental. Era dali que viera o barulho. Tratou de aumentar as chamas o máximo que conseguiu e foi entrando no ambiente com uma voz firme:

— Quem está aí? Eu sei que tem um invasor! Apareça, ou eu vou queimar tudo!

Claro que não passava de uma ameaça vazia, mas, ainda assim, esperava ser o suficiente. Imaginava o quanto Malévola ficaria agradecida quando soubesse dos seus esforços para proteger a Fortaleza e os seus tesouros. Talvez assim a dragoa passasse a ensiná-la magia de verdade e não só ficar assistindo-a treinar.

— Apareça! – Repetiu mais uma vez.

Uma flecha veio em sua direção, ou ao menos foi o que lhe pareceu, pois errou por muito pouco, o que a fez desequilibrar e, ao perder a concentração, o fogo apagou e Regina caiu no chão. Se levantou o mais rápido que conseguiu, mas as chamas não retornavam, estava nervosa demais e não conseguia fazer o feitiço da forma adequada. Em seu desespero, não viu que um homem se aproximava, o arco com a flecha apontada para ela:

— Você não se parece com um dragão – ele disse.

— Isso é porque eu não sou um dragão! – A resposta agressiva. – O que está fazendo aqui?

Uma vez que constatava se tratar apenas de uma jovem humana, ele abaixou o arco e guardou a flecha. Em seguida, jogou o capuz para trás, desta forma ela via que se tratava de um rapaz jovem, pouco mais velho do que ela própria e bastante bonito. Não parecia ser uma ameaça, não a ela, por isso continuava com a sua postura soberana, quase como se fosse a dona daquele palácio.

— Eu ouvi falar do castelo da poderosa dragoa e feiticeira Malévola – o homem respondeu. – Então pensei que uma criatura tão vil, que destruiu tantas aldeias, matou tanta gente e ainda enfeitiçou uma princesa e desapareceu com um príncipe, merecia uma visita minha.

— Então você é basicamente um ladrão – ela comentou com desgosto.

— Não qualquer ladrão – e fez uma reverência. – Sou Robin de Locksley, mas deve me conhecer como Robin Hood, senhorita – falou cheio de orgulho.

Ela o olhou bem e demoradamente, fazendo algum esforço mental, até que disse:

— Nunca ouvi falar.

O homem parecia decepcionado.

— Sério? – Ele perguntou. – O Príncipe dos Ladrões? Que tira dos ricos para dar aos pobres?

— Ah... – Regina parecia ter se lembrado de algo. – Sim, escutei... – não diria que fora o seu marido. – Escutei uma pessoa falar de um transtorno nas estradas, acho que era você.

Ele então abria um largo sorriso e fazia mais uma vez a reverência, pegando a mão dela para beijá-la:

— É um prazer conhecê-la, senhorita...

Era de se esperar que ele desejaria um nome, mas apenas um nome não faria mal, desde que não falasse muito sobre si. O Rei Leopold dificilmente acreditaria em qualquer coisa vinda de um ladrão, logo não precisava ter medo.

— Regina – respondeu já mais simpática, no entanto era cínica. – Então veio até aqui para roubar os tesouros da feiticeira? Cuidado, tem mais magia neste lugar do que um reles mortal é capaz de lidar. Vai acabar morto antes de conseguir sair com o ouro.

— Há coisas que são mais importantes que dinheiro – ele respondeu, e a olhava de forma tão intensa e penetrante com os seus olhos claros que a fez corar e desviar um pouco. – Então, Regina, o que uma moça tão bonita como você faz num lugar destes? Suponho que seja uma das posses da dragoa, uma donzela sequestrada pela vil criatura. Soube de dragões que sequestravam princesas e as levavam para altas torres, onde ficavam a espera de príncipes, mas nunca escutei de uma princesa que fizesse magia.

— Você errou – ela disse sem conter o riso. – Errou bastante. Eu estou aqui porque quero, Malévola é minha amiga.

— Amiga? – Ele parecia chocado. – Amiga de um dragão?

O comentário a deixava indignada. Quem ele pensava que era para criticar a sua escolha de amizades? Além disso, Malévola era a única pessoa que ela poderia chamar de amiga neste universo, desde a morte de Daniel.

— Ela é uma pessoa muito legal, sabia? – Falou indignada, ao que cruzava os braços. – Se acha que ela é tão ruim assim, melhor ir embora, pois não vou te ajudar quando ela chegar e quiser servir churrasco de ladrão fajuto no jantar.

— Ei, ei! – Robin tratou de amansar a voz, ao que dava um passo na direção dela. – Me desculpe. Se é sua amiga, não vou dizer mais nada. Você parece ser uma pessoa legal, então ela tem sorte.

Regina foi pega desprevenida pelo comentário. Acostumada a sempre entrar em discussões ou fingir ser subserviente em suas opiniões, não sabia como reagir quando alguém não simplesmente cedia a ela, mas quando ela de fato convencia alguém e a pessoa era humilde desta forma.

— Ok... – Ela disse sem jeito. – Mas você entende porque não posso deixar que leve qualquer uma das coisas desta sala?

— Sim, porque Malévola é sua amiga – ele repetiu.

— Isso também, mas porque quase tudo aí pode te matar ou coisa pior – Regina acrescentou, mas não deixava de ficar curiosa. – O que um ladrão que tira dos ricos para dar aos pobres faria com coisas tão perigosas ou tão carregadas de magia?

— Eu não sei – ele foi sincero. – Eu pretendia levar apenas ouro e joias, não tenho a intenção de ferir ninguém.

— Mas sua flecha quase pegou em mim – o lembrava.

— Se eu quisesse que minha flecha te machucasse, ela teria machucado – agora era a vez dele sorrir, mas não como uma ameaça, era um sorriso bonito.

Mas ela não poderia se deixar distrair, precisava ter foco, tirar ele dali, fechar a porta, fingir que nada havia acontecido, ou Malévola saberia que um intruso havia estado na Fortaleza. Então disse:

— Venha comigo, tem bastante prataria na cozinha, não acho que ela vá se importar e lá não há proteções como aqui.

Desta forma, ela arrumou o cômodo para que a visita de ambos passasse despercebida e fechou a porta com cuidado. Seguiram então pelos longos corredores e galerias. O ladrão parecia desconfortável com o silêncio e o sentimento era partilhado por Regina, mas ela não ousava falar nada, sabia que não poderia criar mais laços do que teria a capacidade de cultivar. Veio dele a iniciativa:

— Você pratica magia, certo? Eu vi a bola de fogo.

— É, aprendendo – ela acabou sorrindo orgulhosa de si.

— Malévola quem está te ensinando? – Parecia uma conversa até trivial, como falar do tempo. – Nunca vi moças que fizessem magia, geralmente só feiticeiros velhos.

— Mais ou menos — não era bem uma verdade, queria se desviar do assunto e não falar sobre si.

Felizmente caminharam até o andar térreo, onde havia uma cozinha bastante ampla, o suficiente para se fazer um banquete. Regina se dirigiu até um armário de canto, uma cristaleira, na qual havia diversos conjuntos de prata com castiçais, travessas, tigelas, conchas e alguns outros utensílios de cozinha. Ela então fez um gesto para o rapaz, que já tirava um saco que estivera preso no cinto e começava a enchê-lo com tudo que suas mãos conseguiam alcançar.

A jovem Rainha apenas assistia com uma expressão curiosa.

— O que vai fazer com esse dinheiro? – E acrescentou. – Já tem uma destinação?

— Eu penso em ajudar uma vila de pequenos pecuaristas aqui perto – ele respondeu fechando o armário e jogando o saco nas costas. – Eles têm tido problemas devido ao dragão, sabe? Perderam a maior parte do gado nos últimos tempos, desde que o monstro... – e logo se corrigiu ao ver a cara dela. – Sua amiga voltou. As crianças estão morrendo de fome e os adultos desnutridos. Isso vai ajudar a comprar mais animais e assim eles podem continuar o trabalho ou deixarem as proximidades do castelo para começarem novas vidas.

Isto era algo que nunca havia ocorrido a Regina. Claro, o gado precisava vir de algum lugar, mas nunca pensara que poderia ter um impacto nocivo na região. Fazia se sentir um pouco boba e inocente, pois ela era só uma pirralha do lado de alguém que pensava tão a longo prazo.

— Me prometa que vai ser para isso mesmo – foi só o que ela pediu.

Por mais que ele parecesse ser de confiança, ela não poderia ter absoluta certeza, mas, vendo-o sorrir em resposta, algo a acalmou e ela teve certeza que aquele encontro que quase foi uma tragédia teria um final feliz, ao menos para algumas crianças que não precisavam mais passar fome.

E ficaram assim, um encarando o outro por vários instantes. Ninguém dizia nada ou se movia, até que Robin deu um passo a frente, chegando muito perto, e lhe estendeu a mão.

— Foi um prazer conhecê-la, Regina – ele disse com ternura.

Ela o estendeu a mão de volta e sorriu, porém não houve mais o que pudesse fazer.

O som de pesadas asas era escutado a distância, ao que a Rainha tornou-se lívida como o mármore, abrindo os seus grandes olhos castanhos.

— Ela está chegando! Rápido, se esconda!

Não haveria tempo para fugir, sabia que o ladrão teria dificuldades para sair enquanto a dragoa não pousasse, ela poderia enxergar qualquer movimento suspeito a quilômetros de distância e certamente o mataria sem nem perguntar. Assim, ela já o empurrava para dentro da dispensa, onde haveria espaço suficiente para ser um esconderijo.

— Venha comigo! – Ele a convidou antes de aceitar que fechasse a porta. – Eu não ligo para quem você seja ou o que faz, venha comigo, para o meu acampamento.

Aquele homem era cheio de surpresas e a deixou sem voz mais uma vez. Havia algo nela que desejava acompanhá-lo. Uma pequena faísca, um leve calor sob a sua pele. Era aquela a sensação da esperança? Talvez essa fosse finalmente a sua chance de tentar de novo. Então o som das asas ficava ainda mais alto e não conseguia mais pensar.

— Entre! – Ela disse finalmente. – E não saia daí até eu sair da cozinha! A porta dos fundos vai estar aberta.

Foi apenas o suficiente para fechar a dispensa e poucos segundos depois a entrada do castelo era aberta. Uma bela mulher, alta e de longos cabelos loiros e soltos entrava na Fortaleza. Ela sorria exibindo muitos dentes brancos e seu olhar estava fixo, vidrado como um gato na moça que a esperava.

— Regina! – Ela disse. – Que surpresa a encontrar aqui na cozinha. Esperava que estivesse na biblioteca.

Sim, a lógica era estar na biblioteca. Precisava inventar algo e bem rápido para se justificar.

— Quis te fazer uma surpresa! – Disse. – Você disse que traria o jantar então eu pensei em ver o que mais encontraria por aqui que ficaria bom para acompanhar. E onde está a vaca? – Buscava puxar conversa.

— Lá fora – a dragoa respondeu e seu olhar agora vagava pelo ambiente, esquadrinhando o lugar.

Regina sabia que ela encontraria algo se não mudasse o seu foco imediatamente.

— Malévola – chamou. – Eu... Eu achei um rato na sua Sala do Tesouro. Desculpe, eu fiquei com pena de matá-lo e o deixei escapar. Eu sei que gosta de dar esses animais a Diablo, mas ele era tão filhote, fiquei com pena.

Esperava que a desculpa idiota funcionasse ao menos para atrair a atenção. Para a sua surpresa, um novo sorriso se formou em sua direção e a mulher chegava cada vez mais perto, até tocar em seus cabelos negros e depois seu queixo em uma carícia.

— Eu não me importo com ratos – disse a feiticeira. – Por que não me mostra o que esteve praticando e acende o forno?

Quando estava dando tão certo, mais um problema. Regina precisava tirá-la dali para Robin poder fugir.

— Eu posso mostrar esquentando o seu banho – as palavras saíram antes mesmo que pudesse pará-las. Só depois se deu conta e ficou constrangida, olhando para o lado e depois para a loira. – Quer dizer... Você deve estar cansada depois de tanto voar, um banho faria bem.

O olhar que a jovem Rainha recebeu então foi o mesmo que seria lançado a uma bela corça que cruzasse o caminho da dragoa no meio de uma caçada, mas esta não fez qualquer comentário em tal sentido. Acima de qualquer coisa, Malévola respeitava Regina e conhecia os seus medos e traumas o bastante para não fazer qualquer movimento que pudesse assustá-la, no sentido que fosse. Sendo assim, apenas se afastou e foi andando em direção a parte de dentro do castelo.

Regina suspirou aliviada e foi seguindo-a com bastante cautela. Num breve vislumbre antes de deixar a cozinha de vez, viu que Robin saía da dispensa e se encaminhava para a porta, como ela havia instruído. Sabia que ele estaria bem e seguro até deixar a Fortaleza Proibida e alguns quilômetros além, ao menos enquanto Malévola estivesse suficientemente entretida.