Memórias de um Imortal
19 Capítulo XIX
As estatuetas de cavalo moviam-se para cima e para baixo, enquanto davam voltas formando um círculo perfeito dentro de uma tenda semelhante à de um circo.
Montada em um dos cavalos estava Sara, enquanto eu empurrava a estrutura, fazendo o carrossel girar.
Ela se balançava e ria como se ouvisse a mais engraçada das piadas.
Nascida em um ambiente hostil, vivendo em meio à uma guerra e ao ódio, ela certamente não teve tempo para diversão e aquele talvez tenha sido um dos primeiros momentos em que Sara teve a oportunidade de ser criança.
— MAIS RÁPIDO! — ela pedia, com um enorme sorriso no rosto.
— Então segure-se firme. — respondi, acelerando o passo.
Empurrei o mais rápido que pude e o carrossel girou como um pião, talvez até pouco seguro, mas o que era um carrossel girando rápido comparado à realidade atual, onde a morte espreitava à cada esquina?
Ela ria sem parar, até que ficou calada de repente, então fui reduzindo a velocidade aos poucos.
Um pouco antes do carrossel parar totalmente, ela saiu correndo e se agachou no chão, vomitando em seguida. Foi quando percebi que exagerei na velocidade.
— Sara? Você está bem? — perguntei, colocando uma das mãos na cabeça.
Assim que se recuperou, ela se voltou para mim, ainda sorrindo.
— Vamos de novo?
Quando algo ruim acontece conosco, nosso cérebro faz a ligação entre o acontecimento ruim e situação em que ele ocorreu, então toda vez em que você estiver em uma situação semelhante, mesmo que nada de ruim esteja ocorrendo, seu cérebro irá dizer para você se afastar e você irá ficar desconfortável.
Ainda sim, mesmo passando mal, Sara queria continuar brincando.
Acho que vomitar estava longe de ser a pior coisa pelo qual ela havia passado e isso não parece ter abalado em nada seu emocional.
— Já ficamos muito tempo aqui, precisamos ir.
— Aaaah! — choramingou Sara. — Mas ainda é cedo.
— Desculpa, mas é perigoso ficar tempo demais em um lugar aberto assim. Precisamos ir.
— Tá, bom! — disse ela, cruzando os braços emburrada.
— Quando tudo isso acabar, prometo que te levo em um parque de verdade.
— Com carrossel que gira sozinho? — voltando a sorrir e com um brilho nos olhos.
— Claro! Tem carrossel que gira sozinho, tem a roda gigante, montanha russa… Túnel do terror. — fazendo uma careta.
Sara deixou escapar um leve riso e começou a me imitar fazendo várias caretas enquanto caminhávamos.
Ficou vesga, depois puxou as laterais da boca, enquanto cerrava os dentes, então revirou os olhos enquanto mostrava a língua. Forçou, colocando o máximo possível da língua para fora da boca, até que começou a tossir. Ainda sim não perdeu o bom humor.
O pequeno parque onde havíamos feito nossa parada ficava em um campo aberto na beira de uma estrada e contava apenas com o carrossel, uma espécie de montanha russa pequena para crianças e alguns estandes de brincadeiras, como tiro ao alvo.
Saindo do parque retornamos para a estrada, de onde já era possível avistar a próxima cidade.
Era menor que a anterior, possuindo uma meia dúzia de prédios altos comerciais e o restante parecia ser de residências.
Para a época de onde vim, seria uma cidade no alto de sua tecnologia, mas para a era em que estávamos, não demonstrava ter sido próspera.
O calor estava em seu ápice, mas havia encontrado um guarda-chuva, que Sara usava para se proteger do Sol escaldante.
Minha pele conseguia regenerar rápido o suficiente para que eu não tivesse queimaduras no final do dia e suportar o calor já havia se tornado uma tarefa fácil para mim. Aliás, eu havia desenvolvido uma grande resistência a qualquer tipo de dor.
Talvez eu simplesmente tenha me acostumado com o passar dos tempos, depois de tantos ferimentos, ou talvez fizesse parte do pacote de ter me tornado imortal, assim como a suposta maldição que parecia acometer as pessoas à minha volta.
Ao colocar o primeiro pé na cidade senti um arrepio em minha espinha.
Por mais que todos os lugares em que estivemos fossem desabitados, aquela cidade parecia ainda mais solitária, como uma cidade fantasma.
As cores dos prédios, casas, muros e até mesmo dos veículos era desbotada, acinzentada.
Não havia uma planta viva sequer.
Próximo à entrada havia um tronco de árvore seco e escurecido, quase petrificado.
Olhei para Sara e ela não estava mais sorrindo. O clima era realmente deprimente.
O vento encanava pelas ruas da cidade, levando poeira consigo e Sara começou a tossir novamente e então a esfregar os olhos com as mãos.
— Tudo bem com você? — perguntei.
— Meus olhos estão ardendo.
— Acho que você é alérgica à alguma coisa aqui ou pode ser essa poeira.
— Não gosto dessa cidade. Me dá medo.
— Hei! É uma cidade como outra qualquer. Talvez por dar medo que o grupo resolveu se instalar aqui, aí ninguém viria atrás deles.
— Mas eu não quero morar aqui. — resmungou.
— Vamos fazer assim então… — me agachando para ficar na altura de Sara. — Vamos encontrar o grupo e então vemos como é a casa deles. Aí se você não gostar, a gente vai pra outro lugar ou convence eles a se mudarem, que tal?
— E eu vou ver a minha mãe?
— Provavelmente sim! Mas, como eu te disse antes, se ela não estiver lá eu vou procurar até encontrar.
— Promete?
— Prometo!
Segurei-a pela mão e continuamos a caminhar.
Não seria fácil encontrá-los, afinal, haviam centenas de instalações naquela cidade e ainda poderiam utilizar de um local secreto, como era a base do outro grupo.
No fundo eu rezava para que eles me encontrassem, como aconteceu com Lars, iria facilitar as coisas um bocado.
Debaixo do meu casaco estava um coldre, que consegui de um dos soldados da Alcatéia, com uma pistola automática. Na altura da cintura, uma faca de combate em uma bainha e o restante do armamento em uma sacola.
Abri a sacola e retirei um pequeno revolver, entregando-o para Sara.
— Fique com esse. Você pode precisar.
Ela deu um passo para trás, cruzando os braços na frente do corpo, como tentando proteger-se.
— Eu não quero.
— Sara, eu sei que assusta, mas não sei se posso te proteger o tempo todo. Você viu o que aconteceu da última vez. Algumas pessoas podem nos atacar de surpresa, aí não posso fazer nada. Você precisa ter como se proteger.
— Eu não quero. Eu atirei naquele homem. Não queria ter feito aquilo. — disse ela, já quase chorando.
— Mas você nos salvou.
— Não gostei de machucar alguém.
— Olha, se eu bem me lembro, você tentou explodir o pessoal do grupo A com uma granada.
— Eu sei, mas eu tava com raiva. Também achei que não ia ser nada atirar naquele homem, mas eu não gostei. Não gostei! — tentando, sem sucesso, impedir as lágrimas de rolarem por seu rosto.
Talvez eu tivesse forçado demais a barra, ela era apenas uma criança, não deveria ter que passar por aquilo.
Eu começava a odiar aquela era, mais do que todas as outras por qual passei.
Injustiça e sofrimento sempre houve, mas parece que a humanidade finalmente chegou em um ponto sem volta e eu não conseguia ter qualquer perspectiva de que fosse melhorar.
— Desculpa ter feito você fazer aquilo. Acho que com o tempo eu acabei ficando insensível e esqueci o quão traumatizante foi a primeira vez que atirei em alguém.
— Você também não gostou?
— Não! E, quer saber de uma coisa? Eu não queria ter me acostumado com isso. É como se a vida se tornasse algo sem valor, quando na verdade é a coisa mais valiosa que existe. Aos poucos eu me tornei menos humano e não quero que isso aconteça com você. Se existe algum futuro para este mundo, está nas pessoas que ainda conseguem se importar com os outros, pessoas como você, Sara.
Ela se alegrou novamente e sorriu, mesmo que só um pouco, então sorri de volta para ela.
Segurei-a pela mão e continuamos a caminhar pelas ruas e avenidas daquela cidade deserta. Passamos por algumas lojas, cujos vidros das vitrines estavam quebrados, construções inacabadas e até um carro capotado.
Durante a viagem até ali, por várias vezes meu instinto me dizia que estávamos sendo seguidos, mas em nenhum momento fomos atacados ou emboscados. A sensação sumiu assim que entramos na cidade.
Estariam eles tentando encontrar o gurpo B?
Se fosse o caso, eu estaria levando o inimigo até eles e isso seria um problema.
Tentei pensar em algo, mas se haviam inimigos da Alcatéia por ali, não havia como eu rastreá-los.
Tentei pensar em um plano mas nada me veio à cabeça.
Sara esfregava os olhos seguidamente, até que começaram a ficar vermelhos de irritação.
— Hei! Melhor parar de esfregar os olhos, vai acabar machucando. — adverti.
— Mas tá ardendo.
— Mais essa agora? Isso deve ser alguma alergia.
Nesse momento, uma ideia terrível me passou pela cabeça e tive uma sensação muito ruim.
— Sara, preciso que você espere aqui. Eu volto em um instante.
Ela assentiu com a cabeça e eu corri para o prédio do outro lado da rua, um dos mais altos que haviam por ali.
Chutei o vidro da janela e entrei. Me vi em um grande salão central, então segui para a direita, onde haviam dois elevadores, obviamente sem energia, mas ao seu lado estava a escadaria.
Corri o mais rápido que pude escada acima, vencendo os andares um à um, até que, após o quinto, cheguei no terraço.
Subi no ponto mais alto que encontrei, me empoleirando em uma antena de ferro que não identifiquei do que se tratava, e olhei em volta.
Girei trezentos e sessenta graus, me esforçando para encontrar algo por entre os prédios, até que algo me chamou a atenção.
Me posicionei melhor e então consegui enxergar uma fumaça saindo de uma estranha esfera, que parecia presa presa ao chão.
Uma fumaça vermelha.
Meu sangue gelou, então ouvi o som de Sara, tossindo.
Voltei em disparada pela porta do terraço, desci dois lances de escadas, mas a pressa me fez tomar uma medida drástica. Quebrei o vidro de uma janela e saltei do terceiro andar.
Aterrissei em pé e o impacto causou um estrondo seco, enquanto eu sentia minhas articulações sendo esmagadas e os ossos de meus pés trincando.
Ignorando completamente qualquer dano que eu tivesse recebido, corri até Sara, que ainda estava no local onde a deixei.
— Porque você pulou lá do alto? — perguntou a menina, com os olhos arregalados.
— Temos que sair daqui o mais rápido possível. — puxei-a pela mão. — Corre! CORRE!
Sem questionar, a menina correu ao meu lado em direção à saída da cidade.
Ela tossia seguidamente e seus olhos estavam ainda mais irritados, fazendo com que ela precisasse piscar seguidamente.
Avistei um veículo e resolvi tentar a sorte.
Segundo Lars, mesmo em um veículo não seria possível fugir daquilo, mas a pé seria pior ainda.
Quebrei o vidro da porta do lado do motorista com o cotovelo e entrei.
Obviamente não havia uma chave, então tentei abrir o compartimento abaixo da direção e tentar uma ligação direta. O que eu não contava era que a tecnologia dos veículos havia mudado demais e minhas velhas técnicas já não eram mais úteis para os veículos modernos.
Sabia que seria perda de tempo tentar fazer aquela coisa andar, então desisti e continuei correndo.
Sara não conseguia parar de tossir e então caiu no chão, com dificuldade para respirar.
Corri até ela e vi que seus olhos estavam vermelhos e lacrimejando, enquanto ela segurava a garganta.
— Tá queimando! Tá queimando muito! — disse ela, ofegante.
Ela olhava para um lado e para o outro, passava as unhas no pescoço e olhava para mim com os olhos arregalados, sem saber o que fazer.
Peguei-a no colo e corri em disparada, o mais rápido que pude.
Ao segurá-la percebi que sua pele estava extremamente quente. Não só seus olhos e garganta, mas sua pele começava a apresentar vermelhidão e bolhas.
Talvez por minha resistência ou pela adrenalina do momento, só fui perceber mais tarde que o mesmo ocorria comigo, porém, como eu já não respirava, minha garganta e pulmões demoraram mais para serem atingidos pelo gás vermelho.
Quanto mais o tempo passava, mais dor ela parecia sentir e se debatia cada vez mais em meus braços.
Eu corri e corri, na esperança de salvar aquela vida que mal tinha começado.
O efeito do gás começou a acelerar, a pele da menina se enrugou e escureceu, enquanto o branco de seus olhos se tornava completamente vermelho, até que o globo ocular não suportou mais.
Sara gritou ainda mais alto do que já estava e colocou as mãos sobre os olhos.
— EU NÃO VEJO NADA! — berrou a menina, desesperada.
Diferente de uma bomba, que geralmente mata suas vítimas na hora, aquele gás era uma arma cruel e parecia ter sido feita propositalmente para que os atingidos tivessem uma morte terrível e dolorosa, uma verdadeira monstruosidade.
A pouca fé que eu possuía na humanidade ia desaparecendo aos poucos, junto com a vida da pequena Sara.
Então foi a vez dos meus olhos não aguentarem e tudo escureceu.
Ainda sim eu não podia permitir que acabasse daquela forma, por isso continuei correndo mesmo sem poder ver.
Corri e corri, até que o osso de uma de minhas pernas, já quebrada de quando saltei do terceiro andar, terminou de quebrar e caí.
Abracei Sara e girei o corpo, de forma a não machucá-la ainda mais na queda.
Levantei-me em uma perna só, com ela nos braços e dei mais quatro passos, mancando, quando bati de frente com o que parecia uma parede.
Eu não fazia ideia de onde eu estava e senti a movimentação de Sara diminuindo aos poucos, então entendi que não havia mais nada a se fazer.
Me ajoelhei, colocando Sara suavemente no chão, com a cabeça apoiada em minha perna.
Ela tremia e convulsionava, apertando forte minha mão.
Achei que poderia entregá-la ao outro grupo antes que ela fosse alcançada pela maldição que me perseguia, mas desta vez ela parece ter agido rápido.
Definitivamente eu trazia a desgraça para todos à minha volta, mas demorei tempo demais para perceber isso.
Senti a trêmula mão de Sara tocar meu rosto e ouvi sua voz, muito fraca.
— A culpa não é sua!
Senti o coração descompassar ao ouvir aquilo.
Suas convulsões, antes tão fortes, iam diminuindo à medida em que as forças da pequena menina iam se acabando.
Eu não sabia o que dizer, então afaguei os seus cabelos, aproximei-me de seu ouvido e repeti baixinho a única coisa que me veio à cabeça.
— Brilha… Brilha estrelinha! Quero ver você brilhar! Faz de conta que é só minha! Só pra ti irei cantar! — senti ela se acalmar e sua respiração ficar cada vez mais devagar. — Brilha, brilha estrelinha! Brilha brilha lá no céu! Vou ficar aqui dormindo…
Sua pequena mão lentamente foi caindo e, poucos segundos depois, já não sentia mais a respiração de Sara.
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