Memórias de um Imortal
4 Capítulo IV
As vozes à minha volta ainda pareciam ecos em uma caverna e minha visão embaçada reconheceu os paramédicos, me colocando em uma maca e então levando-me para dentro da ambulância, enquanto um grupo de pessoas observava, curiosos.
Ainda estava escuro e não consegui identificar que hora do dia era ou quanto tempo fiquei desacordado, estava me sentindo dormente. Teria ficado paraplégico ou tetraplégico?
Mexi as pontas das mãos e dos pés, ainda estavam lá, respondendo aos meus comandos.
Observava o interior da ambulância e os paramédicos, era tudo tão estranho, não parecia como nos filmes.
Senti que a ambulância acelerava como se o próprio diabo estivesse atrás dela e, por algum motivo, gostei da sensação. Os ferimentos já não doíam e eu estava em um veículo à uns cem quilômetros por hora, em plena cidade. Me pareceu divertido e aproveitei o passeio.
Chegando no hospital, me carregaram para dentro, passando por vários corredores até chegar em uma sala de cirurgia, onde me sedaram e apaguei pela segunda vez.
O período em que se fica sedado é como se fosse um tempo roubado de sua vida, pois você não sente a passagem do tempo, diferente de quando se dorme.
Acordei em um quarto coletivo, no momento em que uma enfermeira veio ver meu estado. Ela pareceu surpresa ao me ver abrir os olhos, ficando a me observar por alguns instantes.
Olhei ao redor, tentando me localizar, vi meu tórax enfaixado e entendi onde eu estava, então fiz um sinal com a mão, chamando a enfermeira.
— Você poderia me emprestar seu telefone? — perguntei, ainda um pouco grogue. — Preciso avisar uma pessoa.
Ignorando meu pedido, ela colocou a mão em minha testa, provavelmente para ver se eu estava quente, e então me olhou nos olhos, como se procurasse algo em minhas pupilas.
— Como está se sentindo? — ela perguntou.
— Um pouco confuso, mas estou bem.
Aproveitei para mexer as mãos e os pés. Eles ainda estavam lá e conseguia mexê-los, desta vez também podia sentí-los.
— Usa drogas? — perguntou de supetão.
— Não!
— Nunca usou?
— Já experimentei, no colégio, mas só uma vez. Porque está perguntando isso?
— Você não devia ter acordado ainda, a cirurgia arressem terminou. A anestesia devia durar mais um tempo. Algumas vezes, nos dependentes químicos, ela tende a durar menos, porque o organismo deles cria uma certa resistência.
— Vocês tiraram as balas? — perguntei, recobrando quase que completamente lucidez.
— Sim! O cirurgião disse que seus sinais vitais estavam estáveis o suficiente, então ele às removeu. Inclusive ele deve estar terminando de se limpar, como eu disse, a cirurgia acabou de terminar.
— Quanto tempo eu vou precisar ficar aqui?
— Só o médico vai poder dizer. Mas você parece muito bem para quem acabou de ser baleado.
— Poderia me emprestar o seu telefone? — tentei, pela segunda vez. — Preciso ligar para uma pessoa.
Desta vez ela me atendeu, emprestando o celular.
Demorei alguns segundos para lembrar o número de cabeça. Maldita tecnologia, a gente salva os números no aparelho e nunca mais precisa digitar.
Após cinco toques ela atendeu do outro lado, com uma voz de sono.
— Alô!
— Julia, é o Arthur! Tudo bem?
— Tudo, meu bem! Aconteceu alguma coisa?
Foi quando percebi que eu não tinha a menor ideia se ainda era madrugada, manhã ou sequer o mesmo dia ainda.
— Que horas são agora? — perguntei.
— Cinco e quinze! Porque está me ligando à essa hora e que número é esse?
— Fui assaltado novamente e levaram meu celular, então pedi um emprestado para te avisar.
— Nossa, que horror! Você está bem. — respondeu, mudando o tom de voz, agora mais agitada.
— Estou bem! Perdi minha carteira, celular e mochila com o uniforme do supermercado dentro. Estou ligando mais para que não fique preocupada se tentasse me ligar e eu não atendesse. Pode vir na minha casa no sábado, depois do meio dia?
— Posso sim!
— Te espero lá então e não precisa ficar preocupada, eu estou bem.
— Ok então. Até lá! Beijinho!
— Até lá! — desligando o celular em seguida.
Entreguei o telefone para a enfermeira, que me olhou de canto de olho.
— Você não falou que foi baleado.
— Preferi não deixar ela preocupada. Já estou fora de perigo.
— Você disse pra ela te visitar em casa no sábado, mas hoje é quinta-feira. Nem sabe se vai ter alta até lá.
Era verdade, eu não sabia. Mas me sentia bem e eles não podiam me prender no hospital.
Ela retornou aos seus afazeres e eu descansei, olhando para o teto, sem sono.
Em seguida apareceu um médico, que se aproximou, puxando uma cadeira e sentando-se do meu lado.
— Olá! Meu nome é doutor Vinicius. Tudo bem? — disse ele, educadamente.
— Olá!
— Fui eu quem atendi você e gostaria de conversar um pouco. Pode ser?
— Claro!
— Quando você chegou aqui o que me foi passado é que você havia sido baleado. Três tiros, para ser mais exato. Mas quando te colocaram na mesa de cirurgia, o que eu vi foi algo diferente. Você tinha três furos, mas muito pequenos e eu teria achado que as balas eram na verdade chumbinho, se eu mesmo não tivesse removido os projéteis de dentro de você.
Olhei para ele como se perguntasse: “Do que você está falando?”
E ele continuou.
— Normalmente eu não teria feito a cirurgia, teria apenas estabilizado seu quadro para retirar os projéteis em uma cirurgia futura ou mesmo deixar elas dentro do seu corpo. Isso acontece bastante e as pessoas vivem normalmente com isso. Mas seus sinais vitais estavam praticamente normais. Tenho que lhe dizer que você é o paciente mais sortudo que já tratei.
— Fui assaltado e baleado, doutor. Não me sinto sortudo.
— Pois você podia ter sido assaltado, baleado e morto. Nesse contexto deveria se considerar sortudo, sim.
— Colocando as coisas dessa forma…
— Agora erga os braços.
Obedeci a solicitação e ele apalpou o local dos ferimentos.
— Dói?
— Um pouco. — o que me pareceu estranho, achei que deveria doer muito mais do que aquilo, ainda mais com alguém pressionando a mão contra o ferimento daquela forma.
— Seus exames já devem estar ficando prontos. Em alguns minutos eu retorno aqui e daremos continuidade, certo?
— Certo!
Mal o médico saiu e eu decidi que deveria tentar caminhar.
Sentei-me na cama, mexi o corpo para trás e para frente, bem devagar e decidi que a dor era suportável, então coloquei os pés no chão.
Quando me apoiei nas pernas, a dor ficou um pouco mais forte, mas ainda sim sabia que poderia caminhar.
Fui até o banheiro, bem devagar, mais por medo de romper os pontos do que pela dor em si.
Esvaziei a bexiga, lavei as mãos e retornei.
No caminho para a cama a enfermeira, que atendia o paciente da cama ao lado, me viu.
— Mas o que você está fazendo? — perguntou, com um ar autoritário e zangado. — Não deveria ficar caminhando por aí.
— Eu estou bem. — respondi, me desculpando. — Eu fui bem cuidadoso, os pontos não vão abrir. Precisava ir ao banheiro.
— Você realmente foi baleado, garoto? — me perguntou, incrédula.
Antes que eu pudesse voltar para a cama, o médico retornou e, ao vê-lo, a enfermeira foi logo se explicando.
— Doutor, eu disse para ele não sair da cama, mas me virei e ele estava caminhando.
— Só fui ao banheiro e caminhei devagar. — expliquei. — Eu estou bem. — sentando-me na cama.
O médico nada disse, apenas sentou-se ao meu lado novamente.
— Seus exames estão bons e sua recuperação é extraordinária. Tem um organismo muito forte, meu amigo.
— Então posso ir embora?
— Se acha que está bem, não tenho mais motivos para te manter aqui.
Àquela altura tudo o que eu queria era ir embora e assim o fiz.
O médico me deu alta e fui para casa. Felizmente já era de manhã e as primeiras linhas de ônibus começaram a passar.
A estrada era esburacada e o motorista não parecia fazer muita questão de desviar. A cada chacoalhada eu pensava que os pontos iriam abrir novamente, mas felizmente resistiram bem à viagem.
Chegando em casa, achei que estaria cansado e com sono, mas estava mais alerta do que nunca, então fiquei novamente apenas olhando para o teto e pensando em toda aquela merda que me aconteceu.
Coloquei minhas roupas no tanque, de molho. Deixaria para lavar amanhã.
Obviamente teria de faltar ao serviço e foi quando lembrei que não havia pego um atestado. Como sou burro.
Acho que dá para voltar lá e conseguir um, mas faria isso no dia seguinte. Agora eu precisava descansar.
Me forcei a dormir e, como em um passe de mágica, adormeci. Nunca foi tão fácil dormir sem ter sono.
Mas foi um sono esquisito. Era como se eu estivesse lúcido o tempo todo e, quando decidi que era a hora, pude acordar.
Não houve despertador, apenas meu desejo de acordar, pura e simplesmente.
Se eu fosse tentar explicar seria como se eu estivesse vendo meu próprio corpo dormir enquanto eu o observava do lado de fora e o tempo deixava de ter lógica. É como se eu simplesmente pudesse escolher o momento em que eu queria acordar, mas para o “eu” astral, só tivessem se passado alguns segundos.
Sim, foi bem bizarro, como a maioria dos sonhos é.
Olhei no relógio e vi que eram quatro e vinte e cinco da madrugada de sexta-feira. Eu dormi por quase vinte e quatro horas sem sequer ter sono.
Levantei-me da cama e me senti melhor do que nunca.
Movi o corpo para um lado e para o outro.
Nada.
Não havia dor alguma.
Ao caminhar ainda senti uma leve fisgada no abdômen, algo como uma picada de agulha e nada mais.
Em frente ao espelho tirei o esparadrapo que cobria o ferimento e vi apenas os pontos.
Onde estavam os buracos das balas?
Fui até cozinha, abri a gaveta da pia e encontrei uma faca de serra.
Novamente em frente ao espelho, decidi cortar aqueles pontos.
Foi um pouco mais agoniante do que imaginei, mas após rompe-los tive a certeza, os buracos das balas realmente sumiram, sem deixar marcas.
A parte difícil foi retirar a linha dos pontos, que ficaram por dentro da pele, mas quando terminei, apenas os pequenos furos das costura sobraram.
Uma hora depois, até mesmo os furos das costuras sumiram.
Meu corpo se regenerou por completo.
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