Daryl desceu as escadas o mais rápido que pode, vendo o mundo ao redor passar por ele feto um borrão esfumaçado. Quando passou pelo portão principal, um errante avançou em sua direção e foi prontamente repelido por uma flecha, que acertou sua cabeça causando um ruído seco, como se ele não mais tivesse sangue. O corpo putrefato caiu e Daryl saltou por cima dele, correndo na direção da fumaça e dos sons de tiros, agora acompanhados de gritos.

Havia um carro em chamas no meio do que parecia ser outra avenida, três corpos jaziam em chamas ao redor do veículo e uma dezena, talvez mais, de errantes se aproximava lentamente. Próximo ao carro em chamas, haviam quatro pessoas, atirando freneticamente nos errantes que se aproximavam ao longe, enquanto uma quinta pessoa parecia desesperada tentando trocar o pneu de um furgão preto, sozinha. Daryl poderia ter dado risada da situação e de como aquele grupo estava sendo imprudente. Os errantes se aproximavam tão lentamente, que demorariam uns bons minutos até se aproximarem de uma boa posição para que um disparo certeiro os mandassem de volta para o inferno. Estavam gastando munição à toa e chamando ainda mais atenção. Ele desceu a rua sem se apressar, porém, um movimento atrás da mulher despertou seus instintos.

O errante se arrastou das sombras de uma árvore, que tapava a entrada para mais uma ruela escura. A mulher que trocava o pneu não percebera sua presença, estava absorta em sua tarefa. Por que diabos haviam deixado-a sozinha? Daryl correu tanto quanto suas pernas puderam, saltando por entre as raízes rançosas das árvores gigantescas que cresciam ao redor. Enquanto corria, mirou com a besta na direção do errante, um disparo certeiro cortou o ar, a flecha acertou a criatura na boca, levando parte de seu maxilar no processo. A mulher se virou para olhá-lo, totalmente indiferente da criatura caída aos seus pés e ele percebeu que ela era apenas uma garota, os olhos azuis eram firmes e não expressavam medo, os cabelos castanhos estavam amarrados num rabo de cavalo, ela usava um moletom preto de capuz, e calças jeans bem maiores do que o seria apropriado para o seu tamanho. Ele quase havia parado no tempo, tentando assimilar aquelas feições à da pessoa a qual ele se lembrava ter deixado há muito tempo, a mesma garota da foto. Ela o olhou com um ar de surpresa, num misto de incredulidade, em seguida sacou sua arma e disparou na direção de Daryl, o tiro acertou um errante que se aproximava pelo outro lado do veículo e ele não deixou de pensar no quanto ela fazia valer o apelido que ele lhe dera. Ambos sorriram de maneira tímida, contida num misto de emoções que fluía de um para o outro.

– É o Dixon? —gritou um homem próximo a barricada improvisada, olhando para Daryl enquanto recarregava a espingarda de cano duplo.

– Vocês estão desperdiçando munição! —bradou com sua voz rouca, relembrando aos poucos as entonações das palavras. Voltou-se para Judith que ainda o olhava da mesma maneira – Isso não é trabalho para uma mulher!

– Eu não sou apenas uma mulher! —reclamou Judith, voltando-se imediatamente para sua tarefa

– É uma pequena chutadora de traseiros mesmo... — sussurrou mais para si do que para Judith e se voltou para as pessoas que tentavam barrar o avanço dos errantes. O maior deles, segurava um rifle antigo, era negro e robusto. Havia uma mulher usando um boné dos Yankes, que parecia saber muito bem o que fazer com a pistola que segurava, um rapaz que nem deveria ter passado dos dezesseis e um homem usando um cachecol vermelho, a única pessoa que parecia saber o quão inútil era atirar nos errantes àquela distância, ele segurava duas pistolas abaixadas e apenas observava a situação com um olhar frio. Daryl, manteve a guarda ao lado de Judith, que mostrava uma incrível habilidade em trocar o pneu do carro. Quando a troca foi realizada, ela gritou chamando os outros, que abandonaram suas posições e correram em sua direção. Antes que pudessem chegar ao carro, a porta de metal de uma loja ao lado, cedeu ruidosamente, derrubando uma dezena de errantes como se fossem um amontoado de carne decomposta, separando os sobreviventes do transporte. A massa de criaturas avançou velozmente contra os homens que agora retrocediam, Daryl atirou em dois, perfurando seus crânios com uma flecha, uma terceira atingiu a perna de um deles, o fazendo tombar e rastejar. O homem com o rifle foi o primeiro a ser pego, tendo a garganta dilacerada por uma mulher que não possuía olhos. A mulher com boné dos Yankes disparava a arma que segurava firmemente, acertou três antes de ser derrubada por um quarto, que se lançou sobre ela. O homem com o cachecol vermelho se mantinha firme em sua posição, com uma habilidade exemplar, suas armas cuspiam balas certeiras com precisão cirúrgica. O jovem foi o primeiro a chegar ao carro, tão assustado quanto um animal acuado, Judith o acompanhou para dentro junto com Daryl, que ainda disparava suas flechas nos errantes que se aproximavam do furgão.

O homem do cachecol saltou sobre um veículo e continuou a batalha, recarregando suas armas velozmente. Daryl acertou outros dois errantes, lhe dando uma brecha para escapar e ele prontamente entendera o recado, saltando por cima dos restantes e correndo na direção do veículo. Os quatro sobreviventes saíram apressadamente do local, o furgão queimando os pneus no asfalto, um guincho estridente soou e o cheiro de borracha queimada preencheu o ar. O silêncio tomara conta da noite novamente.

– Merda! Merda! Merda! —xingou Judith socando o volante enquanto dirigia velozmente pelas ruas desertas, desviando dos troncos e raízes que esburacavam o asfalto coberto por vegetação. – Martim? Você foi mordido?

– Eu... eu … acho que... não – respondeu o garoto ainda assustado.

– Você acha?! Que porra Martim! Como assim você “acha”?!

– Ele está bem. Não foi mordido. — respondeu o homem de cachecol. Seu rosto estava baixo, parcialmente coberto pelos cabelos cacheados, verificava suas armas distraidamente.

– O que aconteceu aqui? —perguntou Daryl, sentado no banco do carona ao lado de Judith, porém ela não respondeu.

– Você é o Dixon? —perguntou o homem sem tirar os olhos das armas – Já ouvi falar de você, acho que todos por aqui já ouvimos. Deveria ter sido uma missão de resgate, mas como você pode ver, fracassamos. — e levantou os olhos castanhos na direção de Daryl, o cachecol cobrindo parte do rosto.

– Quem vocês estavam tentando resgatar? – perguntou Daryl, temendo a resposta.

– Carl. Imagino que você saiba quem seja também.

Judith contorceu o rosto, passando a mão trêmula num dos olhos, respirando fundo em seguida. Daryl retirou a foto de um dos bolsos e a entregou a Judith, que a pegou com a mão trêmula, quase largando o volante completamente.

– Ele não virou um deles. — disse Daryl, com a voz o mais suave que conseguia forçar.

Judtith quase sorriu, mas, na verdade, seus lábios apenas se esticaram de maneira que aparentassem isso. Ela apertou a foto na mão, junto do volante e nada disse. Lágrimas escorriam descontroladas por seu rosto e a viagem seguiu em silêncio.

O furgão atravessou uma pequena ponte improvisada, cruzando uma espécie de fosso e atravessando em seguida, um grande portão. O local parecia uma espécie de depósito abandonado, onde dezenas de carcaças de barcos e navios se amontoavam ao redor como monumentos, a ferrugem alaranjada havia corroído boa parte do metal leve, deixando em alguns, apenas um esqueleto escuro, como um enorme animal parcialmente decomposto.

O veículo cruzou pequenos galpões, igualmente arrasados pela ferrugem oriunda da brisa marítima, num emaranhado de ruelas que mais se pareciam um labirinto. Em algumas delas, Daryl percebeu postos de vigia, escondidos por entre as ferragens de torres de energia, onde homens armados observavam o carro silenciosamente. Judith dirigiu rumo ao norte, atravessando um segundo portão e parando o carro próximo ao que deveria ser o posto de controle principal do porto. O pequeno prédio de três andares, estava amarelado e boa parte da ala esquerda, havia ruído, painéis solares se esticavam aos pés da construção, ao lado de antenas e um guindaste, que parecia ter sido adaptado para funcionar parcialmente sem energia.

O furgão parou e seus ocupantes desceram. Um homem alto, com barba rala e acinzentada apareceu para lhes receber. Judith o ignorou e correu para dentro do prédio, as mãos levadas ao rosto. O jovem se aproximou e abraçou o homem, em seguida adentrou assim como Judith.

– Temos visita? – perguntou o homem, com uma voz grave, porém gentil.

– Daryl... — respondeu o homem de cachecol, com a cabeça baixa, passando pelo homem em seguida.

– Daryl Dixon? – perguntou o homem com surpresa – Você é o Daryl Dixon? Do incidente em Woodbury?

Woodbury. Ele não gostava de lembrar daquele nome.

– Quem é você? – perguntou Daryl em resposta, olhando friamente para o homem.

– Sou Edmund Pikes, as pessoas por aqui me chamam de Ed. É uma verdadeira honra conhecê-lo Sr. Dixon, acreditávamos que estava morto – e estendeu a mão para cumprimentá-lo.
Daryl encarou a mão do homem esticada por alguns segundos e tentou lembrar-se do sentido daquele gesto. Apertou-a com a sutileza de uma britadeira e perguntou em seguida:

– Vocês estão em quantos?

– Eramos em mais de quarenta no começo. Depois de hoje – e olhou para o furgão vazio – somos apenas vinte e três.

– Esse lugar não é seguro. O que foi essa missão de resgate estúpida?

– Eu sei que não é seguro. Chegamos aqui a pouco tempo e não nos demoraremos mais. Você é bem-vindo aqui, vamos, entre, poderemos conversar a respeito disso depois.

Os dois entraram pela porta principal, passando por corredores onde era possível visualizar quartos improvisados com cobertores, adesivos nas paredes, caixas. Algumas pessoas pelas quais cruzaram, o encaravam com estranheza e ele sabia o motivo. Esperavam que ele pudesse salvá-los, como nas histórias que eram contadas sobre ele e seu antigo grupo, seus amigos, sua família.

Sorriu para uma criança que retribuiu timidamente o gesto e Ed falou:

– Você chegou em boa hora, o café da manhã já será servido. Temos água caso você deseje tomar um banho.

Daryl apenas acenou em confirmação com a cabeça e Ed o levou até a sala do chuveiro, que consistia em uma saleta de azulejo com um encanamento quebrado na parede, o qual alguém instalara uma válvula. Tomou um banho rápido, havia se esquecido da sensação de deixar a guarda baixa, resolveu tentar, mesmo assim não conseguiu, a arma estava bem ao alcance de sua mão. Não se demoraria ali, assim como aquelas pessoas. Judith já estava crescida o bastante para se cuidar sozinha, ela havia aprendido bem.

– Daryl... — ele ouviu-a sussurrar enquanto o abraçava pelas costas, era quase como se pudesse sentir o calor da pele macia de suas mãos – Por que você está se punindo tanto? Nunca foi sua culpa... de nenhum de nós.

– Foi sim... — ele sussurrou em resposta – Eu não pude salvar ninguém... todos os que se aproximam de mim morrem, mas eu... continuo aqui. O que eu fiz para salvá-los não foi o bastante...

Ele saiu apressado, deixando aquelas lembranças que o cortavam feito navalha para trás, pegou suas coisas e logo foi acompanhado novamente por Ed, que o levou até a cozinha. Uma mesa estava de metal escovado retangular estava posicionada no centro do cômodo, ladeada de cadeiras. Três homens e uma mulher estavam sentados e assim que ele chegou, levantaram-se em cumprimento. Ed fez um gesto para que Daryl se sentasse também, haviam ovos mexidos, carne seca e chá.

– Antes que você pergunte de onde vieram os ovos – começou um homem de óculos finos e cabelo ralo – criamos galinhas. E não é bacon, mas é bom. Sinto falta do café...

– Todos sentimos – concordou a mulher, que aparentava ter passado dos quarenta, com os cabelos negros enrolados num coque.
Daryl se sentou e comeu silenciosamente, a comida estava boa, estava quente. Faziam anos e anos que ele não comia ovos mexidos, e ele pensou que aquele era o tipo de coisa da qual nunca se esquecia o gosto.

– Como estão os preparativos para a partida? – perguntou Ed.

– Está quase tudo pronto – respondeu a mulher – sairemos em algumas horas, se tudo correr bem. Ainda precisamos fazer a trava remota funcionar, se não teremos que explodir os gatilhos de liberação do navio.

– Eu ainda acho que sair sem o equipamento de navegação é um erro. Vamos ficar à deriva e morrer no oceano, simplesmente isso! Nenhum de nós é foi um marinheiro! – reclamou um homem magro, com feições profundas e marcadas.

– James, já não basta termos perdido tantos na aquisição das peças para o motor? Com a exceção do cara do cachecol, não acredito que ninguém queira entrar no depósito principal para retirar aquele equipamento. Já perdemos mais de dez pessoas tentando conseguir aquela peça. O grupo do Carl foi pego enquanto conseguia parte dela... não podemos nos arriscar mais!

– Exatamente por isso que devemos ir, não podemos deixar a morte de Carl e dos outros serem em vão! É morrermos aqui ou no mar!

– Ed, — começou a mulher – precisamos encontrar aquele navegador. James tem razão, não sabemos de ninguém ainda vivo que possa nos guiar até o ártico. Com os sistemas ligados, poderemos traçar uma rota segura até o nosso destino. E se as cartas marítimas que achamos estiverem erradas? Essas coisas nem mesmo tem data...

– O fato é que vocês devem decidir logo. As últimas mensagens da torre de vigia diziam que os marchantes chegarão aqui em menos de seis horas. — informou um homem negro, sentado na última cadeira.

– O que diabos está acontecendo? – perguntou Daryl, sua voz rouca e grave instantaneamente silenciou os demais. – Não acho que vocês me chamaram aqui apenas pelo café da manhã.

– Eles estão vindo até aqui, marchando como soldados. Já cruzaram um belo pedaço de estrada... eles estão mudando Dixon, não sabemos o que exatamente aconteceu, mas algo os tornou mais... letais. — começou James – É só uma questão de tempo até que esta cidade... este país esteja condenado.

– Mas descobrimos uma fraqueza. Eles não sobrevivem no frio. — disse a mulher, ajeitando o cabelo – é o único lugar seguro para nós. Finalizamos os reparos de um pequeno navio de transporte para tirar essas pessoas daqui, pretendemos chegar ao Ártico com ele. Temos painéis solares e combustível, comida e munição que encontramos aqui. Mas para isso precisamos do equipamento de navegação que está no depósito, que por sinal está cheio de errantes.

– Você e o do cachecol vermelho são os únicos que se arriscariam a ir num lugar desses, os únicos que provavelmente “voltariam” de um lugar desses. — disse o homem negro.

Daryl ficou em silêncio, apenas ouvindo o que aqueles desconhecidos tinham a dizer, o quanto precisavam de sua ajuda, quer fosse pelas histórias que contavam, quer fosse pelo fato de que possuíam apenas meia dúzia de pessoas que sabiam como se usar uma arma, mas não como de fato “usá-la”. Eles não tinham a menor chance. Não precisou pensar muito, pois no final das contas, ele devia isso a ela, a todos eles. Era uma chance de redenção.

Judith estava de costas, olhando para a imensidão do mar naquele horizonte infinito e inalcançável, inalterado. Uma paz sem igual. Em sua mão, a foto que o irmão carregava já estava amassada de tanto que ela a apertara, como se aquilo fosse tudo o que lhe restara, como se temesse que a qualquer momento a imagem de Carl desaparecesse de sua mente.

Daryl se aproximou silenciosamente e parou ao seu lado, mas ela não o olhou, continuou fitando a imensidão do oceano e disse:

– Fui eu que organizei a missão de resgate... obviamente eu não tinha autorização para isso, mas todos eram amigos do Carl... eles nem mesmo consideraram os riscos. Eles morreram por minha culpa...

– Eles morreram por acreditarem em algo e lutarem por isso com suas vidas. Não foi sua culpa.

– Eu só queria trazer o Carl de volta... só queria que ele estivesse aqui comigo. Depois que a Carol...- e a voz de Judith começou a sumir entre soluços – eramos só nos dois, sabe? Eu achei que você nunca mais voltaria...

Seus olhos estavam vermelhos quando ela se virou para olhá-lo, as lágrimas rolavam sem rumo, deixando sulcos na pele empoeirada. Ela saltou em seus braços, o apertando com todas as forças que ainda lhe restavam no corpo cansado e sofrido. Daryl retribuiu o abraço, e sorriu como há muito não fazia, naquele momento ele fez uma promessa para si mesmo, a de que a protegeria de tudo e todos, não importando o que precisasse fazer para tal. Não a deixaria morrer como fizera com os outros, com ela seria diferente, mesmo que isso custasse sua vida. Judith era algo que valia a pena lutar, era algo pelo qual valia a pena morrer.