Notas iniciais
Olá, caro leitor, se chegou até aqui é porque se interessou pela história. Fico grata por isso e lhe desejo uma ótima leitura.

Acordei sobressaltado por memórias do passado, o coração palpitava as margens do pesadelo a pouco. Levantei-me devagar e fui até a janela olhar as estrelas. A noite ia densa e profundamente silenciosa, penetrando dentro de mim e reavivando meus fantasmas. O escuro tem o poder de acordar o que se quer esquecer. Suor frio descia pelo meu rosto quando me lembrei da medicação noturna em minha gaveta. Com mãos trêmulas, consigo tomá-la. Os comprimidos descem feito espinhos pela minha garganta. Volto a me sentar na cama e espero a tormenta passar enquanto vejo minhas mãos perdendo o controle. Lembro-me com pesar que um dia essas mesmas mãos empunharam armas.

Eu era um jovem patriota, como todo americano, só queria defender meu país. Passei muito tempo na trincheira por ele, dividindo o minúsculo espaço com meus companheiros de farda, os cadáveres dos que caíram, ratos e o medo de não retornar vivo para casa. Minhas mãos quando firmes vestiam luvas vermelhas, o vermelho da guerra, do sangue dos meus inimigos. Fiz minha carreira militar sobre um mar de desgraça, ignorando gritos de horror e pedidos de misericórdia. Ainda posso sentir o cheiro repugnante da morte impregnado em meu passado. Quanto sofrimento eu causei...

Conheci a fúria dos homens cegos pelo heroísmo ilusório, a bravura dos resistentes, a covardia de quem se abstém atrás de ideologias tortas. Sou testemunha de quanto uma ideia pode irracionalizar o homem. Vi quando a esperança morreu, o amor se tornou ódio e seres humanos animais. Eu fui um deles. Ganhei condecorações militares, homenagens, medalhas de honra, mal sabendo que havia perdido a minha.

Hoje vivo em um lar que dizem ser para aqueles que glorificaram a pátria. Que glória? Não há glória na guerra. Não há glória em meus olhos, meu corpo ou em minha consciência dilacerada. Os jovens me tem como herói de bravura. Pobres tolos. Nenhum deles sabe que heróis como eu terminam abandonados em abrigos como esse. Minha mulher morreu, meus filhos não me visitam mais, não conheço os netos que suponho ter. Eu meio que os entendo, afinal, quem iria querer olhar para a face do arrependimento?

Isso foi o que a guerra me deixou: pesadelos, tremores e dores. Não tenho como calcular as perdas, porém, quando olho para trás, a única conclusão a que chego é a de que perdi a vida.

Notas finais
Então, o que acharam? Repito: fique livre para comentar o que quiser.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!