Memórias de Um Fantasma
1 Memória I - Céu Nublado
Memórias de um Fantasma
Memória I – Céu nublado
René Descartes disse: “Penso, logo existo” concluindo que, como ele era capaz de pensar, ele existia. Mas e quando nem mesmo a capacidade de pensar pode ser usada para se comprovar a existência? O que você pode fazer para provar que existe e que vive nesse mundo? Talvez você possa fazer mais do que eu.
Eu apenas posso ficar aqui, perdido no meio dessa rua, observando o céu que prenuncia a tempestade. As pessoas passam ao meu redor, mas parecem não me ver. Eu quase não posso vê-las também. Todo o cenário que me rodeia é como um grande quadro cinza e borrado, no qual é difícil para mim distinguir uma única imagem. Talvez eu seja o único ponto colorido nesse desenho.
Sinto uma forte vertigem e caio no chão, minhas mãos espalmadas na poça d’água. Algumas gotas geladas tocam minha nuca, fazendo um arrepio correr por meu corpo. Ouço um latido e viro meu rosto, um cachorrinho me encara, latindo para mim. Retribuo o olhar do animal, um sorriso fraco aparecendo em meus lábios.
A dona do cachorro briga com o animal. Pare de latir para o nada, ela diz. Para o nada? O animal ainda olha para mim. Eu sou nada? Sem que eu perceba, lágrimas quentes começam a escorrer por minha face, se misturando as gotas geladas da chuva que começa a cair.
A mulher reclama da chuva e puxa a coleira do cachorro, afastando-se com passos apressados. O animal a acompanha com dificuldade, os olhos grandes e escuros presos em mim. Deixo que a força suma de meus braços e que meu corpo caia sobre a poça, recebendo a chuva.
Observo as gotas caírem sobre as poças d’água espalhadas pela rua. As pessoas correm, tentando escapar da chuva. Ninguém me nota, caído e molhado. Eu sou nada. Eu sei que estou aqui, que posso ouvir e ver o mundo ao meu redor, mas é apenas isso...
Talvez eu seja um fantasma. É, talvez seja essa a resposta. Hm? Sinto um gosto estranho em minha boca. Tusso. Gosto de ferro. Sangue. Foco meu olhar na poça d’água que rodeia meu corpo e noto que a água está misturada com sangue. O brilho de uma espada invade minha mente. O que está acontecendo?
Encolho-me, a chuva ainda caindo sobre mim, misturando-se com o sangue que me rodeia. Tremo, as lágrimas ainda caindo de meus olhos. O que está acontecendo?! Eu sou mesmo um fantasma, uma ilusão? Se sim, por que estou aqui, em um mundo onde ninguém é capaz de me notar?
Segundo o dicionário, consciência é “percepção mais ou menos clara dos fenômenos que nos informam a respeito da nossa própria existência”. Eu percebo esses fenômenos. Sinto a dor, o gosto de sangue, o frio, mas não sinto que existo.
Afinal, um fantasma poderia existir?
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