Memórias de Minha Vida e Outras Histórias
1 Epílogo: Vazio - A Triste História De Nossa Origem
Notas iniciais
Por muitos e muitos anos, o Vazio conhecido como Espaço tinha um filho. Este filho, um corpo luminoso, uma gigantesca estrela conhecida como Giga, teve seus próprios filhos. Três esferas incandescentes foram retiradas de seu núcleo e lançadas ao Vazio. Estes corpos celestes aderiram-se a uma órbita cada um em torno de Giga e formaram-se, então, três pequenos planetas.
O primeiro filho e corpo celeste mais próximo se chamou Primera. Formara campos vastos, vegetação abundante, grandes árvores, mares vastos e límpidos e uma variedade de formas de vida inimaginável. Sua estrutura era praticamente insignificante para com o tamanho de Giga, mas sua aparência era maravilhosa vista do Vazio: uma imensidão verde de lagos gigantescos. Primera se sentia exaltada e alegre por sua conquista, sua criação. Com o passar do tempo, Giga se sentiu Menosprezada pela beleza de Primera e a arrastou ao encontro de sua atmosfera. Seus mares secaram transformando-se em nuvens de vapor quente que circulava a atmosfera, sua vegetação incendiou e foi reduzida a nada menos que pó, deixando o terreno árido e desértico que com o tempo fora transformado em um mar de vidro derretido. As formas de vida daquele planeta não mais existiam, foram dizimadas em segundos.
O terceiro filho e corpo celeste mais afastado se chamou Neptus. Suas formações rochosas eram incríveis. Formavam-se cada vez mais montanhas de formas elegantes e variadas, deixando-o incrivelmente belo mesmo visto a distancia. Seus mares eram calmos no vasto oceano de seu corpo, expondo lindas nuvens brancas ao amanhecer. Em comparação a Primera, Neptus era três vezes maior, mas seu tamanho em comparação a Giga ainda era insignificante. Visto do espaço, Neptus era tão belo quanto seus irmãos, com sua cor azulada, conseguia refletir imagens do Vazio para até Giga. Tudo parecia bem, até o trágico dia.
Neptus vira seu irmão sendo sugado para a atmosfera de Giga e presenciou o momento de sua morte, e começara a entrar em depressão. Vendavais, ciclones e tempestades elétricas começaram a pulsar no grande corpo celeste azulado. Após a morte de seu irmão, Neptus começara a produzir suas primeiras formas de vida vegetal, ficara triste por não ter tido a oportunidade de mostrar-lhe seu trabalho e foi se afastando cada vez mais de sua família. Ao se afastar, a luz e o calor de Giga não mais conseguiam iluminar e aquecer sua atmosfera. Suas formas de vida começaram a morrer congelada na neve que ventava por entre suas montanhas tão grandiosas, seus mares congelaram por completo, expondo varias criaturas de gelo, formadas pelas ondas antes de se entregarem ao frio do congelamento. Seus lagos foram transformados em desertos de gelo seco, cuja fumaça pálida enchera a atmosfera de Neptus, que também recebera um fim trágico.
O segundo filho e corpo celeste intermediário se chamou Nommad. Este se sentia aflito pela perda de seus dois irmãos, pois presenciara a morte dos dois ainda quando pequeno. Quando seu irmão, Primera, foi morto por Giga, as nuvens de Nommad se condensaram e choveram por todos os cantos de seu corpo, formando um mar vasto e sem fim. Tempos depois, quando presenciou a morte de seu outro irmão, Neptus, por desolação e afastamento, se enfureceu e erupções surgiam em seu corpo e formaram vastos campos terrestres que cobriram quase toda sua superfície, transformando seus mares em lagos gigantescos e espalhando grandes rios ao seu redor. Depois de seu tremor emocional, Nommad adormeceu.
Muito tempo se passou e, nesse período, novas formas de vida começaram a surgir em Nommad. A numerosidade de seres diferentes, as espécies e as cores eram incríveis. Elas foram se alastrando por todo o corpo de Nommad até cobrir todo o seu espaço. Não demorou muito para que essas formas de vida começassem a apresentar inteligência e capacidade de raciocínio, pois logo foi erguida uma gigantesca civilização.
No inicio, eram apenas pequenos corpos acinzentados por entre suas florestas e savanas, mas logo se tornou uma densa mancha por entre corpos azulados. Os pólos de Nommad se congelaram com o passar do tempo. Era comum se estar caminhando e encontrar ao final de uma densa floresta um mar de neve com imensas montanhas. Por fim, o tempo novamente passou, e, por enquanto, tudo corria bem. Mas estes seres que se denominavam racionas cometeram o terrível erro da ganância. Decidiram ampliar seu espaço territorial, construir inúmeras empresas e fábricas de que estavam cientes de que poderia destruir a seus rios e lagos.
Passou-se mais algum tempo e, finalmente, Nommad havia sido tomado pelo caos. Todo seu corpo estava coberto de concreto, que deixaram sua bela vista em condições precárias. Seu corpo estava completamente cinza. Seus lagos foram totalmente contaminados pelas grandes fabricas e empresas de produtos químicos. Seu corpo havia sido dizimado. Suas florestas haviam sido derrubadas e seus pólos degelaram com o calor que provinha das gigantescas cidades. Ele estava ameaçado. O color da superfície requentou o solo, que reagiu com o núcleo do pequeno planeta, fazendo com que este se revirasse, acordando Nommad que há tanto tempo estava adormecido. Ao ver o que fizeram com seu corpo, sua atmosfera tão bela, Nommad se revoltou e começou a tremer de raiva. Seu corpo começou a pulsar em enormes veias avermelhadas que expeliam seu sangue por todo canto. Foi quando Nommad teve um colapso nervoso e seu núcleo explodiu arrancando-lhe uma parte de seu corpo. Finalmente Nommad estava morto.
Com o Nommad destruído, parte de seus habitantes também se foi, tanto pelas explosões quanto pelas erupções. A pequena parcela que restara não previa um futuro prospero naquele lugar morto, pois logo também morreriam. Tendo aprendido com seus erros passados, decidiram então rumar para outro planeta, a fim de tentar formar uma nova vida. Mas Giga, que tudo observara, não estava disposta a deixar que destruíssem um outro planeta assim como fizeram com Nommad. Estava disposto a acabar de vez com todos os seres restantes que viviam naquela cratera celeste. Giga pulsou sua energia interior para usá-la contra os sobreviventes de Nommad, juntando cada centelha de sua força existente, mas o que Giga não sabia era que estava usando de energia em escala muito além de sua capacidade.
Quando Giga libera sua energia contra a cratera de Nommad, seu corpo não agüenta. A gigantesca estrela não conseguia suportar a descarga de tamanha energia que se autodestruíra com a pressão. A onda de choque se alastrou pelo Vazio. Primeiro ela chegou a Primera, que rapidamente evaporou seus mares de vidro derretido e incendiou seus desertos áridos que se transformaram em poeira cósmica. Ao atingir o que restara de Nommad, o planeta simplesmente se desfez com toda a energia liberada. E, por fim, Neptus degelara com toda a energia que Giga liberara, e teve seus mares evaporados junto com suas terras em milésimos de segundo. Logo, todo o Sistema Giga estava extinto.
Mas, nem tudo fora perdido. Muitos dos habitantes de Nommad possuíam um grande intelecto, e conseguiram detectar, com uma grande antecedência, o possível ataque de Giga. Prepararam grandes naves equipadas com uma variedade de complexos e usinas, carregadas de suprimentos e morada periódica para os seus viajantes, os quais fugiam do ataque de Giga. Ao terminarem seus preparativos, as naves foram lançadas ao Vazio pouco antes de a onda de energia colidir com a superfície morta de Nommad. Acelerando ao máximo, muitas das naves conseguiram sobreviver, escapando da onda de choque. Mesmo assim, ao se autodestruir, vários corpos celestes incandescentes foram expelidos por Giga, numa tentativa de acabar com todas as formas de vida restantes. Muitos destes corpos incandescentes acabaram atingindo algumas das poucas naves que decolaram, reduzindo seus sobreviventes. Estes corpos celestes, chamados primeiramente de “Os Corpos do Nada” pelos sobreviventes, se juntaram ao Vazio, formando uma imensidão de corpos celestes luminosos denominados estrelas, assim como era Giga, formando nosso universo.
Os seres sobreviventes da “Grande Explosão” entraram em hibernação em suas grandes naves durante um bom tempo, e assim se fez até o universo se definir e estabilizar. Quando tudo e todos já não mais se moviam, os sobreviventes acordaram de seu sono, nos quais sonhavam infinitamente com um novo começo. Lúcidos, em fim decidiram rumar ao encontro de seu novo lar, um novo corpo que aqueceria aos seus e lhes dariam um aconchego similar ao antigo Nommad. Encontrado seu lugar, após muitas luas de viagem por entre vários novos Sistemas, os sobreviventes formaram uma nova civilização. Uma na qual seria lembrada através dos tempos pelos erros do passado, na qual aprenderiam a não destruir e sim a construir, e a se multiplicar. Essa civilização, considerada a primeira de todo o universo, era a que daria origem a toda uma nova vida a estas tão belas galáxias que se originaram de uma terrível briga sem sentido, cheia de inveja, ganância, raiva e solidão.
ALEXANDER, Yohan T.
Cientista Chefe de Laboratório e Pesquisa das
Empresas Geopardi Ltda.
Conto extraído de “Memórias de Minha Vida e Outras Histórias”, página x.
Publicação original em 22 de Novembro de 30XX pela Editora Ynca.
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