Memórias de Lord Voldemort
2 Capítulo 1 - Sussurros
Notas iniciais
Lembro que era um quarto muito pequeno. Sentado no chão, rodeado apenas por uma cama e uma cômoda, estava eu, fazendo o pião de brinquedo rodar apenas com o poder da minha mente. Com dez anos de idade, aprisionado num mundo de trouxas, eu não podia adivinhar o motivo pelo qual apenas eu, o pobre e solitário Tommy, era capaz de fazer algo que as outras crianças só acreditavam fazer em seus sonhos.
Naquele velho orfanato, eu não tinha amigos, sequer colegas. Não se atreviam a chegar perto, a menos que fossem obrigados. Eu era um garoto sozinho. E garotos sozinhos não costumam dar motivos para serem queridos. Pelo contrário, sempre fui odiado. É claro que eu também odiava as outras crianças, e principalmente as que demonstravam confiança perante minhas ameaças. Odiava mais ainda quando zombavam da morte de minha mãe, dizendo que ela havia tirado a própria vida por preferir a morte ao ter que cuidar de mim.
Os problemas que tive na infância foram sempre os mesmos. Se algo ruim acontecia, eu era o primeiro a ser nomeado o responsável. Se um prato quebrava, "Foi o Tom.", se alguém se machucava, "Foi o Tom de novo." E eu apenas ria, com nojo. Afinal, era tudo verdade. Eu fui, e até hoje sou culpado de muitas coisas. Mas o que mais eu podia esperar de um lugar tão sujo quanto um abrigo de caridade trouxa? Imundice e sangue-ruim por toda a parte. Já estava ficando óbvio que meu lugar não era aquele.
Certa noite, a nossa tutora estava lendo uma história, como o de costume antes da hora de dormir. Eu já era capaz de decorar palavra por palavra, risada por risada, aquelas crianças tão tolas adorando o enredo excessivamente infantil e ingênuo. Cansado, pedi para ir dormir, então andei pelo corredor até o meu quarto. Atrás do orfanato, havia um grande matagal, porém a janela do meu quarto não dava acesso a ele. Foram incontáveis as vezes em que pensei em fugir, mas por algum motivo, achei que não era a hora certa e que devia esperar mais algum tempo. Minha intuição não falha. Até hoje, jamais falhou. Deitei na cama, sem mesmo tirar os sapatos. Olhei para o teto, e pela primeira e única vez na vida desejei estar morto.
“Pequeno lorde, eu lhe encontrei.” – um sussurro veio debaixo da cama.
Naquele momento, senti um misto de pânico e raiva. Estaria alguém zombando de mim?
“Não tenha medo. As cobras são leais ao pequeno lorde.”
Olhei imediatamente para baixo do colchão, e vi uma serpente de mais ou menos um metro. Acinzentada, olhos amarelos. Me julguei um louco quando cogitei a hipótese de que era o animal a estar falando comigo. Paralisado, assisti a cobra subir lentamente na cômoda, então sair pela janela. Lembro que a partir deste dia, mais cobras começaram a surgir, para o pavor das outras crianças. Uma das tutoras chegou a ter um infarto quando viu uma delas dormindo entre a roupa suja. As cobras me chamavam de lorde. Ou pelo menos era isso que eu entendia. A língua das cobras é algo complexo. Eu entendia lorde, mas hoje sei que queriam dizer “mestre” ou até mesmo “protetor”.
Eis que finalmente chegou o dia em que pude conhecer um pouco sobre mim mesmo. Um homem velho, vestes excêntricas, com barbas e cabelos grisalhos chegou para me contar o que me intrigava tanto.
“Você é um bruxo.” – disse Alvo Dumbledore, e ainda me lembro de sua voz. Gentil e tranqüilizadora, como uma brisa.
No início, senti um misto de felicidade, raiva e ansiedade. Feliz por ter confirmado minha ascendência superior, com raiva por ninguém ter me contado antes e a ansioso para por em prática tudo o que Dumbledore insinuou com o olhar, além da mágica feita que revelara meu roubo dos brinquedos de um garotinho tolo. Depois, comecei a reparar que aquele senhor que viera me visitar, parecia muito mais capaz do que demonstrava. Ele tinha uma força demoníaca em seus pensamentos, e eu podia senti-la desde aquela idade. Dumbledore invadira minha mente desde o momento em que pôs o pé para dentro do quarto.
Não demorou muito para ele voltar e me buscar. Coloquei minhas poucas, bem poucas, coisas dentro de um malote espaçoso. Então Dumbledore me guiou até o Beco Diagonal. Hoje sei que é um dos lugares mais estúpidos e também onde se encontra mais sangues ruins no mundo dos bruxos. Mas eu, como a criança ingênua que era, achei incrível. Como um pássaro sabendo pela primeira vez como é voar.
“Vai precisar de um varinha, Tom.” – disse o simpático e misterioso velho, a quem eu ainda sequer imaginava que seria meu maior inimigo um dia.
Cheguei até a loja do Sr. Olivaras e, logo que me viu, soube exatamente qual varinha me dar.
“Teixo, trinta e cinco centímetros, núcleo de fênix. Quebradiça e ágil.” – o homem me lançou uma piscadela, tentando parecer amigável.
Como eu não era acostumado com a simpatia dos adultos, não lhe retribuí qualquer gesto de que tivesse percebido sua brincadeirinha sem graça de piscar apenas um olho. Mas ele sorriu mesmo assim.
“Sabe, menino Tom, esta varinha reflete a sua personalidade e até mesmo a sua alma. A Varinha escolhe o bruxo, é o que eu sempre digo. Esta varinha é iluminada, assim como o seu interior. Acho que podemos esperar grandes coisas do senhor.”.
Ele tinha razão. Coisas grandes, eu faria. Terríveis.
Mas grandes.
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