Memórias Vagas De Lucy Graef
4 Capítulo 4
Com o passar dos dias, as poucas lembranças sobre Júlia pareciam cada vez mais distantes da mente de Lucy, sua vida monótona tinha voltado ao normal, nada de imprevistos, sua ansiedade era quase nula, de um certo modo Lucy se sentia aliviada com aquilo, nada de dúvidas ou pensamentos que estivessem fora da realidade que ela sempre vivenciou.
Mais um dia de trabalho, aquele consultório médico onde secretariava parecia cada vez mais entediante, Lucy realmente odiava aquilo, mas como os óculos, precisava dele. Ela estava cumprindo suas tarefas, até que chegou uma mulher com uma garota do lado, era Júlia, não poderia ser, não deveria ser, mas era, Júlia se aproximou da mesa em que Lucy estava, a reconheceu, porém foi direto ao ponto que realmente a interessava.
– Bom dia — Disse Júlia, com um sorriso forçado, daqueles em que não se mostra os dentes.
– Bom dia, no que posso ajudá-la? — Respondeu Lucy, com as mesmas palavras que usava para todos que passavam por ali, por dentro, Lucy aprisionava tudo que realmente queria dizer, não era a hora.
–O Doutor tem horário para hoje? Preciso marcar uma consulta para a Mariana — Júlia dizia enquanto apontava para a garota que estava ao seu lado.
–Deixa eu ver... — Lucy procurou durante um tempo naquele computador, que ela não havia se acostumado ainda — Por sorte ele tem um horário para daqui a 1 hora.
–Ótimo, pode me encaixar aí! — Júlia deu seus dados e os de Mariana para que Lucy pudesse marcar um horário para elas e foi se sentar.
30 minutos já haviam se passado,Júlia parecia nervosa, não parava de balançar os pés, Lucy se sentia incomodada com aquilo, com a presença daquela mulher, em vê-la e não poder dizer nada. Lucy se levantou, bebeu água, caminhou pelo consultório e nada conseguia conter sua inquietude, sentou-se novamente e olhou para Júlia, que continuava a balançar os pés e olhar para o relógio.
– É bom esperar, não é? — Disse Lucy, talvez pensando alto demais.
– Como? — Respondeu Júlia, sem entender.
– Você gosta de esperar? Por que eu odeio!
– Ainda não entendi o por que desta pergunta! — Júlia realmente não havia caído em si de que aquilo era uma indireta para ela, então Lucy resolveu falar.
–Albamar, 9 horas, lembra? Se era brincadeira sua, deveria ter me avisado!
–Espera aí! — Júlia não aguentou, se levantou da cadeira e virou-se para Lucy , apontando o dedo na direção dela — Quem me deixou esperando naquele dia foi você!
– Eu? Mas eu fui lá, fiquei a noite toda na frente daquele restaurante te esperando! — Lucy se levantou também e ficou frente a frente com Júlia.
– Eu fiquei até onze e meia e fui embora, pensei que não iria mais...
– Onze e meia eu ainda estava saindo de casa, tive uns imprevistos no trabalho.
– Por que não me avisou?
– Te avisar? Como? Nem seu telefone você me deu, aliás, eu nem saberia seu nome se eu não tivesse perguntado! Por que não me esperou mais?
– A Mariana me ligou dizendo que estava passando mal, e como você já estava atrasada a 2 horas e meia, minha preocupação com a Mari foi mais importante no momento.
–A Mariana é sua filha?
–Sim.
Mariana ouviu seu nome e se levantou, foi para o lado de Júlia e inconvenientemente falou:
– Eu ouvi tudo, Júlia, você está traindo minha mãe com "essazinha" aí?
Lucy ficou confusa com o que Mariana havia dito.
– Mãe? traindo? Como assim? Você não é a mãe dela? — Lucy não conseguia entender o que estava acontecendo.
–Sim, eu sou a mãe dela.
–Você está querendo me confundir?
–Não.
–Então me explica por favor o que está acontecendo? — Lucy, como sempre, deixou a curiosidade tomar conta de si.
–Olha, não quero falar sobre isso, não aqui, não agora.
Júlia demonstrava em sua face um sentimento de tristeza, como se realmente aquele assunto não a fizesse bem , Lucy resolveu então parar com as perguntas, mas a curiosidade ainda a dominava. Uma hora havia se passado, era a vez de Mariana ser atendida, Júlia e Mariana se dirigiram até a sala de atendimento, onde o Doutor, do qual Lucy se esquecia do nome com frequência, as aguardava. Quando a consulta havia acabado as duas se dirigiram até a recepção, Júlia pagou a consulta e já ia saindo quando Lucy a chamou.
– O que a Mariana tem?
– Uma infecção estomacal, já falei pra essa garota não ficar comendo bobagens na rua! — Disse Júlia, olhando para Mariana com aquele olhar julgador de mãe.
–É, comer aonde não conhecemos é muito perigoso mesmo, Mari deveria tomar cuidado!
Mariana se intrometeu na conversa.
–Vai me pagar sermão também Lúcia? E não tenho intimidades com você para ser chamada de Mari!
Ah,Mariana... 14 anos e uma língua bem afiada.
–Tenha respeito com ela, ela é mais velha que você — Gritou Júlia, bastante aborrecida com a atitude da filha.
–Não é Lúcia, é Lucy e me desculpa, não sabia que não gostava. — Lucy, sem jeito, desculpou-se com Mariana, e antes de ir embora pediu à Júlia seu número de telefone, para que pudessem manter contato, trocaram telefones e finalmente Júlia e Mariana foram para casa.
O expediente de Lucy já havia terminado, finalmente ela poderia ir para casa descansar seu corpo, pois sua mente, após mais esse encontro com Júlia, havia voltado a fervilhar, de alguma maneira Júlia mexia com os sentimentos de Lucy e, de alguma maneira , Lucy gostava daquilo.
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