\"Hunpf! Não importa o que aconteça, a culpa é sempre do pobre Matt! o espírito tagarela choramingava, empoleirado em cima da mesa.
- Eu só achei que o cheiro de cigarro da roupa de Gevanni fosse seu, não se faça de vítima.
\"Eu não sou tão desleixado assim ok? Até mesmo porque, isso aqui \" Matt tira o cigarro da boca, o girando habilmente na ponta dos dedos \"Ninguém pode ver, não é real, ahh, bem, só você pode ver, mas isso não conta haha\"
Near estreita os olhos, fuzilando Matt.
\"Vocês podiam parar com essa estupidez?!\"
Near se levanta, se esticando em seus aproximadamente 1,80, olhando Matt com desdém, enquanto ele teclava eufórico no teclado do notebook, sugando o cigarro.
- Tem razão, olhe pra ele!
\"HEY!\" ele berra saltando da mesa, caindo em pé no chão.
\"Você vai aonde agora?\"
- Não te interessa.
Mello bufa enfurecido, revirando os olhos.
***
- Onde você está agora? — Near murmurava no celular.
- Estou dentro do meu carro, na frente da editora do jornal, já instalei as câmeras que me pediu.
- Ótimo, o que ela está fazendo agora?
- Adivinha, está escrevendo desde às nove horas da manhã, não parou nem pra almoçar, e está ouvindo um arranjo orquestral de Beethoven em um volume agressor.
- Mais um excêntrico pra nossa lista — Near bufou — Estou indo para o local, prometi que voltaria mais tarde, vamos lhe fazer uma surpresa.
Gevanni coloca as mãos nas têmporas, logo depois as esfregando pelo rosto.
- Pense bem Near.
- Eu já pensei, estarei aí em meia hora.
- Estarei esperando.
Near entrou no táxi que o aguardava, e pôde espiar pela janela do carro, dois vultos o observando da janela de seu quarto.

O taxista olhava com receio pelo retrovisor, Near, enrolando os cabelos na ponta dos dedos, os olhos perdidos em algo fora da janela do táxi.
- É aqui, chefia.
Near pisca algumas vezes, voltando ao seu estado normal, olhando fixamente para o taxista, que esperava uma resposta.
- Ahh, sim, obrigado, aqui está, fique com o troco.
O homem olha o maço de dinheiro lhe entregue, maravilhado, e agradece.
Near desce do táxi, ficando alguns segundos parado no meio fio, sentindo o olhar de Gevanni, um carro parado, não muito longe dali, ele fez questão de não olhar, suspirou e entrou no prédio, como se fosse carregado por uma ventania, mais forte que qualquer força humana ou inumana.
- Ahh, você — a recepcionista solta, junto com um suspiro afogado, colocando uma das mãos no peito e olhando pros lados, apreensiva — Eu quase perdi o emprego por sua causa! — ela sussurrou histérica.
Near manteve a calma de sempre, olhando em um relógio de parede, acima da cabeça da recepcionista.
- Sua chefe permitiu minhas visitas aqui, não se preocupe, seu emprego não corre riscos.
- Ahh, ufa! — ela soltou um suspiro e um gemido teatral, colocando as costas da mão na testa — Bem, se é assim, pode entrar já sabe onde é.
- Obrigado — Near engole em seco, indo em direção ao corredor longo, que atravessava a sala de esperas e terminava com a pequena porta principal, a porta que poucos entravam e que aos poucos podia se ouvir uma música suave.
Near bate na porta e um suspiro forte se ouve de dentro da sala.
- Entre!
A porta range suavemente, interrompendo um pouco a melodia harmoniosa de dentro do ambiente, Near fica parado na porta, a encarando com olhos analíticos e intensos, ela arfa e se levanta de repente, como se levasse um susto.
- Ah, é você — ela dá um meio sorriso — O que está fazendo aí parado? Sente-se aqui.
Near se aproxima lenta e silenciosamente, se sentando a cadeira a frente da mesa dela, descalçando o tênis surrado de um dos pés e o colocando em cima da cadeira.
A música ainda fluía, suave.

- Err, bem como vai? — ela perguntava puxando o óculos na ponta do nariz, expondo os olhos de um verde atraente, sedutor.
Near varria a mesa dela com os olhos, ainda calado, ela se estica na poltrona, um tanto tensa, presa com o olhar perturbador de Near.
- Estou bem — Near enfim murmura, erguendo o olhar para o rosto de Sarah, ainda frio e cético.
- Err... — ela desconversa, desviando o olhar para alguns papéis sobre a mesa — E como vão suas investigações?
- Há algum interesse particular nisso? — Near insinuou.
Ela piscou algumas vezes, confusa.
- Não, de onde tirou essa idéia?
A canção de repente foi se tornando apenas um som ambiental baixo, quase inaudível.
- Eu andei investigando algumas coisas...Sobre você.
- Sobre mim? — ela sorriu, o canto do lábio tremia sutilmente, ela tentava ao máximo o controlar — Ora, fique a vontade pra me investigar, eu não tenho nada à esconder e...
- Tem certeza? — Near em menos de segundos estava de pé, a frente da mesa, esboçando um leve sorriso, olhando fundo nos olhos de Sarah, agora irredutível.
- Sim — ela balbuciou — Absoluta.
- Então tem certeza de que posso me aprofundar, sobre suas noitadas em boates sem que seu marido saiba, e sobre suas vendas ilícitas de informações pra outros jornais, suborno por matérias, mais alguma coisa?
Ela suspira, olhando para as mãos, em cima do colo.
- O que tem demais nisso? Eu estou zelando pela minha editora, olho por olho.
Near sorriu angelicalmente.
- Sim, olho por olho, o que tem demais também em ter um caderno sobre natural em posses?
Silêncio, o som da música instrumental era abafado e parecia um zunido, ambos se entreolharam de formas diferentes, Near, parecia eufórico, em frenesi, as narinas inflando e se contraindo simultaneamente, e Sarah, tinha a epiglote dilatada, a impedindo de respirar com facilidade, e de principalmente engolir, seus olhos eram ressentidos, olhando Near de lado.
- Eu não sei do que está falando.
- Será que não?

Uma gota de suor marcou a testa maquiada.
- Será que não? É claro que não, que idéia absurda, de onde eu tiraria um caderno \"sobrenatural\" — ela fez aspas no ar, com os dedos.
Near sorriu, estreitando os olhos.
- Você não acha possível? Ou melhor, você não tem mesmo uma noção de que haja um caderno?
- Exato, eu não tenho noção alguma sobre tal caderno.
- Então isso significa que você não se incomodaria de me mostrar sua frasqueira?
Ela olha para o lado, perturbada, torcendo a sobrancelha.
- Você não tem direito de revirar meus objetos pessoais.
- Na verdade eu tenho, se tiver motivos pra revista, como é o seu caso.
Os lábios de Sarah tremiam, ela agora fuzilava Near com ódio.
- O que você está querendo de mim?
Near agora se sentava, devagar, na cadeira logo atrás dele.
- Eu gostaria de dizer uma coisa, eu não sou apenas um detetive interessado em mais um caso, talvez você não esteja tão interada assim sobre tais assuntos, pode não parecer pra você, talvez, mas esse caso é tão crucial pra que eu resolva.
- Eu imagino — ela molhou os lábios, movendo a cabeça rapidamente, olhando Near com desdém.
- Não — Near sorriu — Você não imagina o quanto e também não sabe porque.
Ela piscou confusa, sem alterar as feições de desdém e nojo.
- E...Por que?
Near se aproxima, andando desajeitado, parado ao lado de sua cadeira, ela ainda estava sentada, imóvel, ele se aproxima de seu ouvido, sussurrando claramente.
- Porque você é minha principal suspeita e...Porque eu sou o L.

Um arfar violento resvalou por seus dentes, ela então se levantou, se afastando de Near, que continuou imóvel, perto da cadeira.
- Você?...Você... é...Um mentiroso, isso sim — ela sorriu nervosa.
- Não, eu sou mesmo L — Near murmurou entediado, fitando Sarah com a mesma intensidade de antes.
- Está bem — ela se apoiou na mesa — O que você quer? Dinheiro não é problema, me diga! Qual é o seu preço?
Near revirou os olhos da sua consciência, mas ainda permanecia imóvel feito uma estátua, e ela continuou, ainda frenética.
- Todo ser humano tem seu preço, diga o seu!
- Não seja tola, eu não estou aqui por dinheiro, só quero tirar algumas conclusões que me faltam, e a cada segundo você as tira com muita facilidade.
A música ainda soava alto no ambiente, porém não foi o suficiente pra tirar a atenção de algo vibrando no bolso da jaqueta dela, o celular que tocava alto e estridente.
- Você não vai atender?
Ela passou os dedos pela jaqueta, eles tremiam com muita intensidade, a mão brilhava com tanto suor, até que enfim seus dedos buscaram o celular perdido no tecido interno do bolso, ela olhou para o visor externo do celular, logo depois fechando os olhos com força, como se algo a machucasse, e o desligou, fazendo o barulho e a vibração se cessarem.
- O que foi? Não era uma ligação importante? Eu não quero atrapalhar em nada, por favor.
Ela coloca as duas mãos sobre a mesa, abaixando a cabeça, o rosto coberto pelo cabelo ondulado, loiro com reflexos.
- Está certo, você tem razão, você me pegou, eu tenho mesmo esse tal caderno...
Near sorriu, mas ainda cético.
- Mas não espere que meu mestre o deixará vivo, não espere, não espere... — ela sussurrou as duas ultimas palavras, quase que como pra si mesma.
- Tudo bem, eu já tenho o que queria — Near murmurou.
Ela levantou a cabeça, sorrindo psicoticamente, marcas pretas em torno do olho entregando a maquiagem borrada com lágrimas, a boca em formato de coração agora estava escancarada, rindo monstruosamente.
- Adeus, Nate River.