Memórias Póstumas
19 Recaída
- L, você me ajudaria se parasse de comer os meus doces, da minha geladeira.
\"Eu não sou mais detetive, agora eu estou de férias permanentes, então se contente em ter pelo menos a minha ilustre companhia\"
- Hunpf! Ilustre — Near ironizou.
L, continuava entretido no pote de sorvete napolitano, brincando com as bolas que formava na colher, fazendo pequenos morros e depois os devorando, primeiro a parte de chocolate e depois as partes de morango e creme.
\"Já sabemos que o caderno não precisa estar presente pra que surta efeito, dando o poder pra que a pessoa possa escrever nomes mesmo estando em lugares diferentes, e que também é possível controlar a pessoa antes da morte, e que também é necessário que se faça um acordo especial entre o atual dono do caderno e o shinigami que o acompanha pra que se possa ver o nome de uma pessoa somente ao olhar pra ela...\"
Numa questão de segundos, L, estava parado na frente de Near, os olhos arregalados, um sorriso psicótico no rosto e o polegar na frente dos lábios que tinham pequenas quantias de sorvete em volta
- AAHHH — Near exala quase furioso.
\"Velhos hábitos não mudam não é?\"
- Hã? O que?
Sem perceber, Near, enquanto pensava, havia amassado folhas de papel, e moldado bonequinhos com os mesmos, que estavam em suas mãos.
- Ahh isso... — Near murmura quase que pra si mesmo, olhando os bonequinhos de papel amassado.
\"Quer que eu te compre a Barbie e o Ken? Não tem problema posso providenciar\"
- É tão triste te mandar ir pro inferno e você simplesmente não ir — Near choramingou, largando os \"bonecos\"de lado.
\"Onde você vai?\"
Near contou até dez, tentando manter a calma.
- Eu vou dar uma saída, caro mestre, deseja me acompanhar, Oh ser supremo?
L, sorriu.
\"É assim que eu gosto\"
\"Ahh que tédio\"
- Qual é o problema? você não gosta de parques de diversão?
\"Na verdade não, aquelas cadeiras estúpidas não foram feitas pra me acomodar\"
- Nem a mim — Near resmungou quase inaudivelmente.
\"Você vai de ônibus? Pra que serve aquele carro que você alugou?\"
- Eu devo ir de ônibus, você vai entender o porquê.
L sorriu, o polegar em frente ao lábio como costumamente.
- Ahh olhe, ele chegou.
O ônibus se aproximava lentamente, uma fila de pessoas se formava rente a ele, mas duas pessoas até então lhe chamaram mais a atenção.
Era visível a aproximação do pequeno garoto decabelos lisos e castanhos, acompanhado pela senhora de cabelos grisalhos cortados em channel.
- Que bom que você também vai — ele sorriu iluminado.
- É, eu estou aqui.
A senhora Yagami olhava Near com receio, analisando dos pés a cabeça sua forma física raqúítica e desengonçada.
- Vovó, este é Near, ele faz aulas de esgrima junto comigo.
Ela somente acenou com a cabeça, um sorriso suave e forçado no canto do rosto.
- Não sabia que adultos iam a Disneylândia — Soichiro estreitou os olhos, sorrindo suavemente.
- Na verdade eu vou pra assistir aos shows, nao gosto muito dos brinquedos, e também, afinal... Eu estou na Florida, por que não aproveitar não é?
Soichiro moveu a cabeça fazendo que sim, e fechando os olhos ao sorrir.
- Bom, vamos embarcar?
- Sim, vamos.
Entrando no ônibus, Soichiro corre pra se sentar em um dos bancos ao fundo, Near o acompanha, se sentado próximo a ele, e logo depois sua avó se senta ao lado.
L, ficava de pé no corredor, avaliando as pessoas que iam se sentando aos poucos, atravessando pelo corpo \"invisível\" dele.
\"Hunpf... L murmurou olhando para o lado com desdém, Near não entendia absolutamente nada do que ele queria dizer.
- Em que brinquedo você vai? — Soichiro perguntou animado.
Near apenas olhou em volta, mordendo o lábio.
- Eu não vou em nenhum, já disse que não gosto de brinquedos, só vou pelos shows.
Soichiro deu de ombros, dando um sorriso.
- Você está com medo.
Near retribuiu o sorriso.
- Pense como quiser.
A senhora Yagami ainda continuava o olhando de lado, receosa.
- Estamos quase chegando — Soichiro comemorou reservado.
O ônibus dá mais uma parada, pegando o último dos passageiros, e enfim fechando a porta.
Um homem alto forte e com leve calvície entra no ônibus, andando devagar em direção ao fundo, passando o braço suavemente debaixo da jaqueta, tirando uma pistola preta reluzente.
- Ninguém se move!! — o homem gritou ofegante, apontando a arma pra todos os lados.
Near não move um músculo, ele somente analisava os movimentos do homem, que segurava a arma com as mãos trêmulas.
- Todos quietos! — ele ordenou, ao ver que maioria dos passageiros estavam eufóricos.
- Estou com medo, vovó — Soichiro sussurrou, enquanto a avó envolvia suas costas num abraço de urso.
- Está tudo bem, está tudo bem — ela sussurrava, entre murmúrios baixos e preces.
- Mantenham a calma — Near sussurrou, completamente frio e calculista.
O homem segurava a arma desesperadamente, as mãos tremiam de uma forma incontrolada.
Soichiro espiava o rosto de Near, através dos cabelos brancos da avó, os olhos castanhos tremelicando e assustados, Near sorriu suavemente, lhe passando conforto.
- Tá rindo do que branquelo? — o homem gritou, encarando Near.
- Eu não estou rindo — Near murmurou, calmo e frio feito uma pedra.
- Ahhhh — o homem gritou confuso, de repente dando alguns passos pra trás, apontando a arma para a cabeça do motorista.
Quase fora do campo de sua visão, Near pode observar um dos passageiros, terminando de escrever algo em um caderno negro, e depois o fechando.
\"Será possível?...\"
O homem gritou desesperado pra que o motorista parasse o ônibus, este o fez prontamente.
O homem de repente sem porquê, sai desesperado pra fora do ônibus, se jogando na frente a um caminhão na rodovia de mais movimentada de Orlando, sendo esmagado pelas rodas majestosas.
A Sachiko Yagami tampara os olhos de Soichiro, com uma das mãos, pra que não visse a cena grotesca do outro lado do ônibus, ele tremelicava em seus braços, em pequenos espasmos.
O homem que Near observava rispidamente, havia saído do ônibus, com movimentos robóticos, após guardar um caderno negro em uma pasta.
Em meio a balbúrdia e a bagunça, era difícil distingui-lo, Near então saí sorrateiramente se esquivando do campo de visão de Soichiro, e vê, uma pequena imagem, em meio a multidão que se alastrava, várias pessoas, se juntando, curiosos, e passageiros.
\"O que foi então?\"
Near balbuciou, tentando falar algo, ou encontrar a voz, os olhos arregalados fitando a cena que havia em sua frente.
- Ele morreu? É isso mesmo?
L acompanhou o olhar de Near, vendo o homem que acabava de sair do ônibus, caído sem vida, os olhos abertos ainda, logo ao lado do banhado de sangue do assaltante esmagado.
\"Parece que seu suspeito de ser Killer, acabou de morrer com o próprio veneno\" L murmurou num tom zombeteiro.
Near ainda estava paralisado próximo a porta do ônibus, a única coisa que se movia eram a ponta dos dedos, que enrolavam furiosamente um mecha de cabelo.
- Você pode esperar um minuto, antes de prosseguir, senhor? — Near pergunta para o motorista, sem sequer olhar pra ele.
- S-si-sim — ele balbuciou nervoso.
Near então dá um sinal de vida em meio a imobilidade em que se encontrava antes, descendo do ônibus, pra avaliar a situação.
O assaltante havia virado um morro de carne e sangue entre o pneu gigante do caminhão, era impossível reconhecer um sinal de vida ali, e o suspeito com o caderno, estava caído logo ao lado, seu coração não pulsava mais.
L olhava a cena, os olhos percorrendo rápido de um corpo para o outro.
\"Quanta tragédia de uma só vez\" as pessoas murmuravam aterrorizadas.
Near vasculhou discaradamente a pasta onde o homem havia guardado o caderno, o retirando de dentro dela.
\"Droga!...\"
L se aproximou, o polegar na frente dos lábios como sempre.
- Esse caderno é falso, e muito falso.
\"Como assim?\"
- As páginas dele, são de um caderno de brochura comum, ele somente tem a capa idêntica a um Death Note, e olhe bem, não há nenhum regra impressa, o caderno original possuía as regras nas primeiras páginas que por sinal eram negras e escritas em branco, este aqui, é somente uma cópia mal feita.
L sorriu, um sorriso psicótico que era quase escondido pela névoa que o acompanhava.
\"Eu soube desde o princípio que este caderno era falso, mas é bom saber que você está exercitando sua jovem mente\"
- É muito bom ouvir isso de você, afinal você é meu mestre.
\"Sim, mas não se gabe\"
Near revirou os olhos, e guardou o caderno novamente na pasta, o esfregando no tecido de fora pra que apagasse suas digitais.
- Você descobriu alguma coisa? — Soichiro perguntou eufórico.
- Como assim? — Sachiko perguntou confusa, olhando para o neto.
- Ele é detetive vovó.
Sachiko olha pra Near, um tanto surpresa.
- Sim, eu trabalhei alguns anos atrás com seu genro.
- Mas você não... parece um detetive.
Ela disse analisando dos pés a cabeça, a imagem magra, desengonçada e altíssima de Near, que ainda enrolava uma mecha de cabelo.
- Sim, mas eu sou, por isso você pode confiar em mim.
- É vovó — Soichiro se virou para Sachiko — Pode confiar nele.
Ela torceu o nariz, e depois assentiu.
- Está bem.
O ônibus depois de algum tempo retomou o caminho, seguindo naturalmente, ou quase.
***
- Um ônibus a caminho da Disneylândia em Orlando, próximo a Pine Hills, é assaltado, porém o assaltante se joga em frente a um caminhão, apesar de um dos passageiros ter tido uma parada cardíaca, os outros passaram bem, o que seria isso? Obra de Killer?
Near se sentava incômodo, na poltrona, o pé grande e com meias brancas estavam em cima do assento, o cotovelo encostado no joelho.
\"Em que você está pensando?\"
- Como Kira/Killer, pode controlar uma pessoa antes de morrer, eu presumo de que ele tivesse feito isso com o assaltante e com o passageiro de que eu suspeitei a princípio.
L sorriu sarcástica e assustadoramente.
\"Pra isso a pessoa deveria estar escrevendo os nomes em algum lugar próximo, não é?\"
- Aí está — Near se levantou dando um murro suave em cima do criado-mudo — há possibilidades do Kira/Killer estar dentro daquele ônibus.
L ergueu as sobrancelhas, dando uma gargalhada.
\"E então?\"
- E então, que infelizmente, minhas suspeitas em Soichiro Matsuda aumentaram — Near disse em um sopro de voz.
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