- Com licença — um homem pigarreou ao lado deles, Misa virou o rosto para o lado e limpou as lágrimas secretamente, as escondendo do enfermeiro. — Sim? — Near murmurou para o homem, mais ainda olhando para Misa. — O horário de visitas já acabou — ele sussurrou, parecendo temer a reação de Misa. — Ah claro, está tudo bem, até mais Misa. Ela sorriu, olhando pra cima, iluminando o pequeno rosto que ainda preservava um pouco da beleza de antigamente. — Até mais Near, venha me visitar mais vezes... você é tão... parecido com ele... Near estremeceu e engoliu em seco. — Você não é a primeira a me dizer isso — ele respondeu tenso. *** \"A descoberta de um filho iria ser primordial pra mim\" pensou Near enquanto andava de um lado pro outro no escritório vazio, inconsequentemente a solidão parecia amargurar Near de uma certa forma. Entre a escuridão e o vento repentino que entrara pela janela, um vulto se formara próximo ao sofá que Near usava pra descansar. Ele tinha a cabeça baixa, os cabelos escuríssimos e lisos estavam caídos sobre o rosto, a nuca pálida e morta totalmente exposta, o rosto paralisado nos 27 anos parecia amargurado. — Eu sinto muito, pelo seu... filho. \"Eu entendo\" ele sussurrou numa voz ecoada e sem vida.

Near se aproximou lentamente, a imagem não se movia, era tão real, que ele tinh aa sensação de poder tocá-la. — Você não parece legal, espíritos ficam assim? Ele apenas suspirou balançando a cabeça, movendo os cabelos arrepiados e negros. \"Digamos que eu sou um espírito meio teimoso, que teimo em ser diferente\" Near tossiu uma risada. — Misa Amane eim! L se levantou, ficando de pé com a coluna curvada e as mãos no bolso, ele e Near, ambos exatamente da mesma altura, parecendo um reflexo que somente mudava quanto a cor dos cabelos. \"Misa foi a primeira e única mulher que eu tive em meus braços, eu posso dizer que eu alimentei algum sentimento por ela, mas não sei se eles eram totalmente bons\" — Do que está falando? Não vá dizer que você se apaixonou por ela. \"Talvez sim, talvez não\" — Fantasmas são sempre assim tão enigmáticos? L sorriu entre a névoa. \"É um dom, eu preciso exercitar a dedução e inteligência do meu pupilo\" Near sorriu em resposta. — Eu não sei por que, mas a cada dia eu me sinto mais envolvido com sua história, se eu descobrisse a existência de seu filho, eu lhe prometeria que seria capaz de cuidá-lo... como se fosse meu. L sorriu, tocando o ombro de Near, transpassando sua mão entre ele. — Seria uma criança linda não acha? \" Teria que puxar a beleza da mãe com a minha inteligência, porque seria capaz de puxar a minha beleza e a inteligência dela\" Ambos estremeceram com a idéia. — As vezes eu sinto que preciso tanto de sua visita — Near sussurrou, L apenas moveu a cabeça olhando pra cima, colocando um dedo em cima do lábio. \"Eu estou sendo desobediente, vindo até aqui pra te visitar, Near, muitas dessas vezes, você vai precisar se virar sozinho\" — Eu entendo... \"Por falar nisso, a minha hora de visita já está acabando\" — O que? Mas espere!... A imagem de L já havia desaparecido em meio a neblina espessa, deixando Near falando com as paredes.

- Malditos fantasmas excêntricos! Near andou pelo escritório, pegando novamente o caderno e o lendo de onde ele parara. Quarta-feira, 11 de Outubro de 2006. As vezes eu gostava de andar pelas praças, passando o tempo todo sentado era incômodo, eu precisava acalmar a minha mente perturbada, quando eu era pequeno eu costumava acalmá-la com brinquedos, quebra-cabeças, dados, ou doces, mas agora eu precisava tomar outras atitudes e caminhar enquanto pensava era uma boa opção, ninguém iria desconfiar que um homem alto magro e desengonçado pudesse ser o tal afamado detetive L, então em certo termo eu me sentia protegido, ou quase. Passei por um vendedor de sorvete e comprei um, era muito difícil manter o foco depois... depois, bem... depois do que aconteceu. Eu não conseguia tirar meus pensamentos no que houve a noite retrasada, eu fui muito infantil, imaturo e inconsequente, nós poderíamos ser pegos, seria um triunfo para Raito, mesmo eu não tendo total certeza se aquilo fazia parte de um plano dele. Por falar nisso, parecia até profético, mas Misa Amane estava na minha frente \"coincidentemente\" andando na mesma praça que eu. — Riuuzaki-san! — ela gritou, menina escandalosa! Eu não respondi, apenas parei no meio do caminho, terminando de devorar meu sorvete e depois colocando as mãos no bolso, esperando ela se aproximar. — Porque não gritou \"hei detetive L!\" iria chamar menos atenção! — ralhei com ela, ela somente coçou a nuca fechando um olho e se encolhendo. — Ops! Virei o rosto vendo as crianças brincando e correndo, sonorizando o ambiente. — Misa, eu acho melhor não nos vermos mais. Ela arregalou os olhos abrindo a boca. — Mas por que? — Porque eu já me arrisquei demais, nós nos arriscamos demais. — Raito não ficou sabendo — ela disse com os olhinhos suplicantes. — Mas eu não posso correr o risco mas do que eu já corri. Ela abaixou a cabeça, os olhos perdidos. — Você não sente nada pela Misa-Misa? Respirei fundo e disse numa só voz: — Sim...

Ela sorriu e então eu continuei, frio e calculista olhando em seus olhos. — ...Somente atração, nada mais. Ela piscou, engolindo em seco. — Quer dizer que você não quer Misa-Misa? Funguei. — Não, eu não quero. Ela apertou os olhos, que começavam a se encharcar, e então ela fechou os punhos, os batendo contra meu peito. — Eu te odeio! Eu não reagi, seria inutil reagir. — Vá embora Misa, você não está mais em observação. Ela arregalou os olhos cheios de lágrimas, os limpando no braço que estava coberto por uma luva que ia até os cotovelos. — Não estou? — Não, não está, você pode ir pra casa, vai ser melhor pra todos nós. Ela abaixou a cabeça. — Por que então que você prolongou aquilo? Tombei a cabeça pra trás, suspirando pesado. — Eu não devia ter feito aquilo, eu peço desculpas, eu fui muito rude e grosseiro. Ela balançou a cabeça e eu pude ver um sutil sorriso se formar no canto dos lábios pequenos. — Não se desculpe, eu... gostei... Você me fez sentir de um jeito que Raito não foi capaz de fazer me sentir, eu me senti viva depois de tanto tempo. Eu não me senti no poder de me gabar, afinal o que eu fizera continuava sendo errado e o que ela havia dito não diminuía em nada a minha culpa. — Por favor Misa, somente vá embora, sim? Ela limpou as lágrimas, formando alguns riscos escuros nas maçãs do rosto. — Está bem, eu não vou mais incomodar, quando eu for até o prédio de vocês, irei somente visitar Raito, e não irei entrar, vou ficar somente na porta, está bom pra você? Concordei com a cabeça. — Sim, está ótimo, até mais senhorita. Eu então caminhei, virando de costas pra ela, andando num sentido contrário, ela então, depois de alguns segundos também caminhou para outro sentido, eu me virei discretamente, pra espiar ela indo, de vestido preto de renda, meia calça listrada, botas e luvas pretas. Não seja idiota! homens como você não devem amar, mesmo quando eu a vi chorando parecia ter feito meu coração em pedaços, um coração que eu nem sabia que tinha...

Quinta-feira, 12 de Outubro de 2006. Pedi a Watari pra que tomasse conta de nossos hóspedes sem que eles percebesse minha saída, principalmente Raito, e claro, sem que percebessem que peguei \"emprestado\" o caderno estranho que encontramos no carro de Higuchi, eu não iria demorar, pelo menos que eu calculasse, iria ser rápido. A limusine estava me esperando como combinado, uma parte do caminho eu tive que seguir a pé. — O que você está pensando em fazer? — o monstro branco e imenso que parecia se chamar Remu, estava me seguindo e resmungava no meu ouvido. — Eu não sei se posso confiar em você. Ela — ou ele — bufou profundamente irritado. — Eu não vou contar nada a ninguém, não é do meu feitio — Você é muito fiel Remu, eu só ainda não sei a quem Ela se encolheu sutilmente, e quase tive a sensação de que sabia exatamente de quem eu me tratava, mas queria continuar neutro. — Não vai me responder, não é — Se algo acontecer com o caderno, indiretamente ele te afeta também? — Você quer saber se ele me mataria? — Mais ou menos isso. — Não, um shinigami só pode ser morto se estender a vida de um humano, no mais, você pode fazer o que quiser com o caderno — Huumm entendo, já que você não quer me dizer sobre as regras, e confirmar se a regra dos 13 dias é falsa ou não, eu vou ter que me virar sozinho. Ela estremeceu, aquele monstro demonstrava muito emoções. — O que vai fazer pra descobrir? — Eu estou levando o caderno pra agentes penitenciários, há naquele presídio um detento, culpado de estupro, que em aproximadamente 15 dias irá para a punição, eu dei uma ordem expressa para os agentes de que fizessem o escrever o nome de outro criminoso, se ele continuar vivo em 13 dias ele será absolvido, esse plano ainda não foi divulgado para o meu grupo de investigação.

- Você vai sacrificar duas vidas só pra solidificar uma teoria? - Tecnicamente, sim. Ela estreitou o único olho que estava a mostra, o olho amarelo e bizarro. — Vocês humanos são tão desprezíveis... A olhei fixamente, a penitenciária a pouca distância de nós. — Vocês nunca quiseram matar com um de sua própria espécie? — Sim, muitas vezes, mas além de ser algo impossível, é uma coisa ridícula, já que de uma certa forma nós nos acostumamos a viver um com os outros, mesmo a base de escárnios e xingamentos. — Que vida boa — ironizei. — Mas depois desse plano de quem você vai suspeitar? — Huuum, as minhas suspeitas não mudaram, Misa Amane e Raito Yagami, bom hmm, Raito talvez nem tanto, mas eu ainda suspeito dele. Pude sentir o monstro se encolher quando eu disse o nome de Misa Amane, era isso! Aquilo era fiel a Amane... — E o que vai acontecer com eles? — Serão presos, e quem sabe devidamente punidos. Ela arregalou o olho. — Eu não quero que você coloque a vida deles em risco — O que você tem com isso? São só humanos como você disse. Ela se controlou, olhando para o chão. — Você que sabe, continue com seu plano idiota, eu não tô nem aí — Eu sei que não, eu irei executar o plano, e contarei ao pessoal do meu grupo de investigação depois de 13 dias, e falarei como se eu não tivesse feito nada, como seu ainda fosse executá-lo, e se caso algo der errado eu vou ser obrigado a contar a eles e executar em sua presença. — Faz sentido — ela resmungou torcendo a boca grande e com dentes que pareciam me devorar. Andamos mais alguns metros, por minha sorte estávamos em um lugar isolado, por outro lado seria idiotice minha conversar sozinho no meio do nada, porque o tal monstro só pode ser visto por mim. — Aquele ali não é o esquisito hiperativo que trabalha com você? Ela apontou pra frente, onde ao longe eu pude ver Matsuda!

- Seu idiota! — praguejei alto ao ver aquele verme perguntando sobre mim aos agentes, ele com certeza devia ter escapado das vigilâncias de Watari. — Droga, eu tenho que voltar! — resmunguei, a shinigami continuou me acompanhando. Eu entrei secretamente na limusine e arranquei pra longe dali. A minha sorte era que eu usara um outro nome com os agentes penitenciários, e eu não havia mencionado ainda sobre o caderno e nem de quando eu iria até lá, mas mesmo assim, mais uma vez eu estava me arriscando, e infelizmente eu tinha que ir para o plano B, uma coisa que eu simplesmente odiava ter que fazer.