Memórias Póstumas
37 Angústia
- Limpe essa bagunça, logo teremos um novo fotógrafo e eu não quero que ele pense que meu jornal é um lixão.
- Sim... — Susan concordou, e Sarah já tinha saído da sua frente — ...Senhora.
- Mulher idiota... — Susan sussurrou inaudível.
Mergulhou o esfregão no balde e esfregou no chão, onde havia uma poça de café com creme.
Um arrepio profundo desceu sua espinha junto com um vento gelado, ela se virou, olhando para a imensa janela do vigésimo andar do prédio, as persianas estavam fechadas e a janela também, o ventilador também não estava ligado.
\"Susan...\" Ecoou pelo corredor, e ela olhou apavorada, alguns funcionários caminhando, e alguns a olhando como se ela fosse uma maluca.
- Eu tenho que parar de ser paranoica — ela resmungou, voltando se para o chão e o esfregão.
***
- Uma semana desde a morte de Near, uma semana!
- Fique quieto, Geremy — Susan massageava as têmporas fechando os e tentando ignorar a voz de Geremy tagarelando ao seu lado.
- Ela não deixa nenhuma suspeita enquanto está sendo observada.
Gevanny ainda permaneciam em silêncio, a testa encostada na parede, o frescor que o granito passava lhe causava uma sensação boa, e o permitia que pensasse melhor sem que sua cabeça doesse.
- Ela está escrevendo os nomes à tarde, quando Susan está atarefada, é por isso que ela faz questão de deixá-la a maior parte do tempo com tarefas, muitas delas que não são do setor de Susan.
- Sim, muitas delas.
- E pelo que consta nas câmeras, ela está indo dormir mais cedo, toda noite.
- Dormir? Ela está indo mesmo dormir? Achei que ela nos liberasse mais cedo pra ter mais tempo para os assassinatos.
- Não, por incrivel que pareça, ela está realmente indo dormir.
- Talvez o Killer original, tenha lhe mostrado como usar o tal caderno — Susan balançou a cabeça para a palavra caderno — E como você e Near já mencionaram, pode se determinar a hora da morte da vítima, talvez ela esteja dormindo pra criar um álibi.
- É provável, Near me disse que ela nos levaria ao Killer, mas...como?
Gevanny recostou sua testa novamente contra a parede, a refrescando novamente, e depois se afastando pra tomar um gole de café.
- Você sabe que isso não é totalmente impossível, ela pode sim nos levar a Killer.
- Mas é fato de que ela não o conhece, e só tem contato com ele através de um celular.
Susan arregalou os olhos castanhos, e ficou imóvel, como se de repente um alfinete tivesse a espetado, e um sorriso surgiu aos poucos em seu rosto.
- O que foi, Susan?
- Por que não rastreamos de onde vem a ligação?
- Você acha que já não pensei nisso? Como vamos pegar o celular dela pra instalar um grampo? E fora isso, certamente Killer deve mudar os locais de onde liga, pra não facilitar justamente o rastreamento.
- Mas você não vê? Seria mais simples, um passo dado, teríamos uma base de locais pra investigar, se é ele mesmo, teremos em mãos os locais por onde ele passou.
- E você tem alguma idéia de como faremos pra pegar o celular dela? — Geremy perguntou entediado.
- Quanto a isso, deixe comigo — Susan murmurou.
- Ahhh — Susan suspirou.
- Você parece bem cansada, você quer parar e...
- Não, eu estou bem.
Gevanni deu de ombros, fingindo concordar.
- Preciso dar uma passada na academia de esgrima, pegar algumas coisas minhas lá.
- Tudo bem, mas eu ainda acho que você está se esforçando demais.
- Não se preocupe comigo, Gevanni — Susan sorriu, enquanto pegava a bolsa — Eu estou bem, é sério.
Um tumultuo de alunos esgrimista havia se formado na porta, eles gargalhavam e interagiam com algo.
- O que está havendo aqui? — Susan perguntou para o zelador.
Antes que ele abrisse a boca um grito familiar percorreu pelo corredor.
- Hey Susan! — gritou Soichiro.
Susan olhou, e ele estava sentado, sorrindo discarado com um dos braços engessado.
- O que aconteceu com você?
- Hehe, caí de bicicleta, foi divertido.
- Divertido? Ficar com o braço quebrado?
Ela fechou os olhinhos e sorriu novamente.
- É divertido porque agora todo o mundo está assinando no meu gesso, e — ele encosta a mãozinha na boca, abafando a fala — Agora todo o mundo me dá atenção, hehe.
- Ahh sim — Susan concordou — Err... eu posso falar com você? A sós?
- Ahh claro — ele se levantou — Hei pessoal, eu vou sair mas já volto.
Os outros alunos acenaram.
- O que foi?
- Bem, eu não vou poder mais trabalhar aqui, então você vai ter um professor substituto.
- Ahh — ele fez um biquinho — Mas por que?
- Eu resolvi trabalhar em outras coisas, é um problema pessoal mesmo.
- E você vai vir nos visitar?
- Sim, claro, sempre quando eu puder.
- Susan?
- Sim?
- Near não veio com você?
Ela abriu a boca hesitante, puxando todo o ar possivel e o guardando nos pulmões, já passava mais de semanas e falar do assunto ainda era difícil pra ela.
- Ele... Ele faleceu, Soichiro.
Soichiro piscou perplexo.
- Hã? O que?
- Sim, foi um choque pra todos nós.
- Mas — ele piscou, abaixando o olhar — Não...
Ela passou a mão pelo braço engessado.
- Escute — Susan pegou o rosto de Soichiro entre as mãos — Vai ficar tudo bem, ok?
- Está tudo bem — Susan afirmou com mais convicção, tentando convencer melhor, Soichiro.
- Mas, ele disse que teríamos uma revanche — sua voz era como um sussurro.
Susan apenas suspirou, se aproximando e abraçando Soichiro, ele retribuiu, gemendo um pouco ao mover o braço.
E então ficaram, imersos num abraço que durou por longos minutos.
***
Gevanni se levantou, eufórico, os olhos brilhando como nunca brilharam por muito tempo.
- Eu não sei como dizer isso, mas parece que finalmente as coisas estão engrenando — ele murmurou num fôlego só.
Geremy se levantou do sofá do quarto do hotel onde Gevanni estava hospedado, os cabelos castanhos lisos e finos estavam totalmente desgrenhados, a barba por fazer fazia a sua aparência levemente desleixada se assemelhava à de um bêbado.
- Do que você tá falando, cara?
- Com ajuda da Susan, consegui grampear os celulares e o telefone fixo de Sarah, e consegui rastrear a primeira chamada de Killer.
- O que?!! — Geremy deu um salto.
- Sim — Gevanny sussurrou, olhando de soslaio, Susan, adormecida na poltrona, coberta por uma jaqueta de couro — E como já se era de imaginar, ele usou um modificador, ainda protegendo sua identidade, mesmo com Sarah.
- Realmente era de se esperar, mas o que ele dizia?
- O que ja esperávamos também, nada de muito profundo, e nenhuma pista...Eu err, preciso analisar melhor essa conversa, talvez ambos estejam sendo cautelosos.
Geremy estreitou os olhos, como se desconfiasse de algo.
- Tudo bem, se preferir assim, me mande um relatório do que você suspeitar, por favor.
- Não se preocupe quanto a isso.
Geremy escorregou os olhos para Susan, que ainda ressonava tranquilamente na poltrona.
- Eu preciso acordá-la — ele observou.
Antes que Geremy se aproximasse, Susan teve um sobressalto violento.
- NÃO NEAR!! — ela gritou alterada, ofegante.
- Susan? — Geremy murmurou — Está tudo bem?
- Ahhh — ela sussurrou, ainda trêmula, as púpilas dilatadas, olhando todo o ambiente e certificando-se de que estava segura — Foi um... Pesadelo, um pesadelo horrível, horrível...
Geremy olhou confuso, para Gevanni.
- Tudo bem, você vai me contar melhor sobre isso à caminho de seu apartamento.
Ela piscou, assentindo, a testa franzida e ainda olhando pra baixo.
- Se não se importar, gostaria de não comentar mais sobre isso.
- Mas...- Geremy hesitou, logo depois assentindo e concordando com a cabeça — ...Tudo bem, se assim preferir.
- Até mais, Gevanni — Susan murmurou timidamente.
- Até mais, Susan.
Eles saíram, fechando a porta devagar e deixando Gevanni sozinho, encarando a janela.
- Ela... Teve um pesadelo com Near...
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