Memórias Perdidas
6 O fim de um pesadelo
Notas iniciais
Estavam Cecil, Camus, Ren e Natsuki conversando na sala quando entra Tokiya com uma expressão preocupada.
–Oi, Toki. Algum problema? Questiona Ren.
–Ahm, ah! Vocês viram o Otoya? Eu tinha ficado de ajudar ele a terminar uma letra depois do trabalho, mas ele não apareceu até agora.
–Hum, não. Eu não vejo o Ikki desde o ensaio. Responde Ren. -Mas não se preocupa Toki, ele deve ter saído pra dar uma volta, ou algo assim.
–Eu não estou preocupado! Resmungou irritado. -Só achei estranho ele não ter aparecido no quarto. Além disso já está ficando bem tarde.
–O Ichinose tem razão. Ponderou Camus. — Mas talvez ele esteja no jardim não?
–Não, eu já olhei. Suspirou Tokiya cansado.
XXX
Algumas horas haviam passado desde que Otoya foi trancado no banheiro daquele apartamento. Cansado, confuso e dolorido o jovem acabou dormindo por algumas horas. Acordou sentindo alguma coisa vibrar no bolso da calça, levantou com alguma dificuldade e procurou no bolso. O ruivo teve uma grande surpresa com o que encontrou. Aquele homem bêbado esqueceu de pegar o celular dele e Otoya, depois de tudo que havia passado nas mãos do próprio pai, também esquecera que estava com o aparelho.
Várias chamadas não atendidas de seus amigos contavam no visor. Era obvio que aquela era provavelmente a sua última chance de escapar daquelas pessoas, então sem perder tempo o ruivo escreveu uma pequena mensagem e enviou. Depois desligou o aparelho para poupar a bateria e procurou pelo banheiro algum lugar seguro onde pudesse esconde-lo, já que se o mantivesse com ele o mais provável é que o pai acabasse percebendo o celular mais cedo ou mais tarde. Tudo o que poderia fazer agora era esperar. Seu destino só dependeria de seus amigos agirem e o encontrarem antes que as pessoas que lhe compraram o levassem.
Mais algum tempo passou e Otoya voltou a dormir. Acordou de novo, contudo, desta vez com um dolorido chute nos rosto desferido pelo pai, o qual provocou um profundo corte em sua bochecha.
–Oi, Shi, não danifique a mercadoria bêbado idiota. Ouviu alguém dizer enquanto era arrastado pelos cabelos de volta para a sala.
–Tudo que eu fiz foi acordar esse inútil, afinal isso aqui não é festa do pijama. Está aqui o moleque, então o que achou? Perguntou friamente o pai de Otoya.
–Hum, é bem bonitinho. Tenho certeza que aqueles alemães vão ficar satisfeitos. Ha, ha. Você vai ficar muito bem de vida depois desse negócio e não se esqueça da nossa parte, já que meu irmão e eu tivemos muito trabalho em conseguir esse negócio pra você. Falou o homem com um sorriso sínico no rosto. -E você rapaz deveria estar mais animado, nós garantimos um ótimo trabalho pra você na Alemanha, deveria estar agradecido. Tenho certeza que eles vão te tratar muito bem. Sorri e acaricia o peito do ruivo. -Mas eu quero ver mais. O que acha de nós nos divertimos um pouquinho irmão? Ha, ha... Tire a roupa rapaz. Ordenou secamente.
–O-O quê! De jeito nenhum! Ofegava e tremia o pobre Otoya.
–Anda logo maldito não nos faça perder tempo.
–Não, não, me solta não! Gritava e se debatia o jovem enquanto suas roupas eram brutalmente arrancadas.
–Não sejam muito bruscos com ele. Se os alemães perceberem que vocês experimentaram a mercadoria antes vão ficar furiosos e eu não quero perder meu negócio. Avisou o pai de Ittoki.
–Como faz barulho. Me pergunto se os alemães se importariam se cortássemos a língua. Riu alto, ameaçando Otoya com uma faca.
Foram tirando todas as roupas do ruivo e ao mesmo tempo desferindo alguns golpes, tentando domina-lo.
Otoya sentia-se humilhado e envergonhado diante daquela situação. Fora o fato de ser absolutamente claro o que aqueles homens pretendiam fazer com ele e isso fazia o seu coração bater como louco e doer, o medo o consumindo, e o desespero por saber o que viria e não ser capaz de fazer nada para se defender. Um dos homens sujeitava as mãos do menor e lhe tapava a boca, enquanto o outro estava sentado sobre a cintura do garoto para restringir o movimento de suas pernas. A tudo isso o pai de Ittoki assistia com uma expressão fria e indiferente, como se os gritos abafados do filho, o terror em seus olhos vidrados, ou a visão de seu corpo maltratado sendo assediado por aqueles dois homens, simplesmente não chegassem à ele.
O homem por cima do ruivo deslizava suas mãos ásperas apertando com força cada músculo do rapaz, explorando seu corpo sem nenhum pudor. Seus lábios percorriam o pescoço e peito, lambendo e dando leves mordidas para não deixar marcas.
Otoya sentia que sua mente não podia mais suportar aquilo. Tinha nojo daqueles homens, do corpo pressionando o seu, das mãos que o acariciavam, o hálito quente sobre seu peito, em seu ouvido murmurando palavras obscenas e sobretudo nojo e ódio daquele olhar cheio de luxuria que devorava cada parte de seu corpo nu. A vontade de vomitar era quase incontrolavél, os olhos ardiam e as lágrimas corriam livres contra sua vontade.
Um pouco antes de perder a consciência tudo o que Otoya pôde distinguir foram duas pancadas fortes e a luz que entrava na sala vinda do corredor.
XXX
–Uma hora! Uma hora da manhã e o Otoya não deu nenhuma notícia! Gritou o rapaz de cabelos azulados bastante frustrado.
–Isso é estranho, Ittoki-kun nunca ficou fora sem avisar antes.
–Tem razão Cecil, mas ele pode ter ido para o orfanato não?
–Não Masato-kun. Eu liguei antes pra perguntar e ele não foi lá hoje. Negou com expressão abatida.
–Eu tentei ligar várias vezes, e nada dele atender. Afirmou Tokiya enquanto andava de um lado a outro na sala com o celular na mão. -Espera chegou uma mensagem dele!
Na hora em que leu a mensagem a expressão de Tokiya mudou drasticamente de preocupado a apavorado.
–O-O que foi Ichi? Inquiriu Renji.
–Natsuki... On-Onde está aquele revista do outro dia. A que você mostrou do hotel com o nome e o cartaz estranho na frente?
–Não acho que esta seja hora pra você querer ler revista. Respondeu Natsuki sem entender nada.
–Não estou falando de ler nada! Eu quero o endereço do lugar, temos que chamar os senseis também, alguém sequestrou o Otoya! Gritou
XXX
Era quase de manhã quando Otoya foi finalmente trazido de volta para a academia.
Depois da mensagem recebida por Tokiya, os professores chamaram a polícia. Ryuuya foi junto com os policiais enquanto Ringo ficou na academia para acalmar os alunos e impedir que qualquer um deles saísse, principalmente um certo rapaz de cabelos azulados. Eles já tinham problemas demais para deixarem que a impulsividade dos membros do grupo criasse alguns mais. O diretor Saotome também foi avisado e utilizou toda a sua influência para pressionar os policiais e assim encontrar o ruivo o mais rápido possível.
Com o endereço do lugar a polícia chegou ao hotel rapidamente e invadiu o apartamento onde Otoya estava sendo mantido. Ryuuya não acreditava que seu aluno pudesse estar em uma situação como aquela, nem mesmo em seus filmes mais violentos ele poderia imaginar uma cena tão grotesca! Otoya estava completamente nu e inconsciente enquanto era sujeitado por dois homens e um terceiro assistia a coisa toda.
Os sujeitos tentaram resistir a prisão, porém não conseguiram fugir, enquanto o ruivo foi levado para o hospital e após alguns exames, pontos, curativos e um ombro deslocado posto de volta no lugar foi liberado para ir para casa.
Quando chegou os amigos queriam falar com Otoya, saber como ele estava e o que aconteceu, no entanto, este parecia completamente distante e não falou com os amigos uma única vez sequer. O sensei tentou amenizar e pediu a todos para ter paciência, porque o rapaz tinha passado por uma situação muito difícil e no momento precisava descansar. Sendo assim, Otoya dirigiu-se para o quarto, cabisbaixo e mudo, sem dar a mínima atenção aos amigos.
XXX
Tokiya ouvia calado e com uma enorme ira contida Ryuuya falar sobre o que Ittoki havia passado naquela noite e sobre o homem insano que alegava ser pai de Otoya e por isso ter todo o direito de fazer o que bem entendesse com rapaz, além de ter confessado a venda do garoto para um grupo alemão de prostituição. Não aguentando mais aquela história e sentido uma vontade sufocante de ver e abraçar o ruivo, Tokiya resolveu voltar para o quarto.
Chegando no cômodo Ichinose encontrou Ittoki sentado na cama, abraçado as pernas e com o olhar perdido em algum ponto indefinido do piso, o corpo tremulo e as lágrimas manchando todo o rosto. Ver alguém a quem amava tanto, sim amava, tão machucado, e isso não só fisicamente, fazia ele sentir uma mistura confusa de emoções. Era dor por vê-lo em tal estado, raiva de si mesmo por não poder fazer nada para diminuir o seu sofrimento, ódio daqueles que ousaram machucar Otoya, medo por não saber até quando e quão profundamente isso poderá afeta-lo e um frustrante sentimento de impotência diante de tudo isso. Pelo menos para uma coisa essa terrível situação tinha servido, o medo de perder aquele ruivo, o seu ruivo, fez Tokiya finalmente perceber como são profundos os seus sentimentos por ele, muito além da amizade, era amor, tão forte como ele nunca imaginou que poderia sentir.
Aproximou-se do ruivo devagar, sentou-se na cama próximo e estendeu a mão tentando tocar o rosto do menor, ao que este reagiu afastando-se rapidamente.
–Otoya não precisa ter medo. Você está em casa agora, aquelas pessoas não vão poder te machucar. Disse colocando todo carinho que podia naquelas palavras. -Nós estamos aqui pra você, eu estou aqui, vai ficar tudo bem eu prometo.
–...Não obteve nenhuma reação do ruivo.
–Tudo bem. Suspirou. -Quando você quiser falar qualquer coisa eu vou estar aqui pra você. Ainda é cedo, mas vou procurar alguma coisa pra você comer. Você não comeu nada desde ontem não é?
Novamente não obtendo resposta alguma, Tokiya resolveu levantar e caminhou em direção a porta. No momento em que coloca a mão na maçaneta ele sente dois braços envolverem o seu peito com força. Podia sentir o corpo tremulo de Ittoki pegado ao seu, a respiração ofegante e as lágrimas quentes que molhavam sua camisa.
–N-Não vai...Fica comigo por favor... Eu...Eu..Lembrei. A voz que pronunciavam estas palavras não era nada mais que um sussuro.
Otoya abraçou Tokiya muito mais apertado e o maior decidiu apenas deixar que o ruivo se livrasse daquilo que o estava machucando tanto, sem ser interrompido.
–Lembrei de tudo o que houve antes de chegar ao orfanato. E-Eu...Não queria... Eu tentei tanto esquecer. Aquele homem, aquela casa, tudo, eu só queria esquecer tudo, mesmo que isso significasse esquecer a minha mãe também... Eu só não podia mais. O que ele disse é verdade, ele é meu pai, apesar de eu nunca o considerar assim. Eu não podia considerar um homem que estava sempre bêbado ou drogado, embora eu não pudesse entender direito o significado de tudo isso na época, mas eu sabia que havia alguma coisa errada. Ele estava sempre alterado, já chegava em casa gritando e reclamando de tudo. Também levava bebidas e até drogas pra casa e sempre que a minha mãe brigava com ele por isso, aquele homem perdia a razão, batia nela e dizia coisas horríveis sobre nós. Eu sempre ouvia ela gritando do meu quarto quando ele começava a bater, eu nem podia entender direito tudo aquilo, e depois quando tudo parava e ele por fim ia embora ela sempre estava no chão ensanguentada e inconsciente. Aquele homem é um monstro! Gritou Otoya. As palavras não eram mais sussurradas, mas sim angustiadas e entrecortadas por soluços, ofegava ainda mais e seu corpo tremia tanto que Tokiya temia que o menor pudesse ter um colapso a qualquer momento.
Deu a volta encarando Otoya de frente, o abraçou com força e deixou que ele escondesse o rosto na curva de seu pescoço. Tokiya sabia que por pior que estivesse isso era algo que Ittoki precisava falar, então apenas continuou a apoia-lo e deixou que o menor desabafasse.
–Sabe que eu tinha um irmãozinho? Questionou com um riso triste. -Minhã mãe quase perdeu ele três vezes por causa dos espancamentos. Nem sei como ele chegou a nascer depois de tudo que nós passamos. -Eu já era um pouco maior e então tentava proteger a minha mãe, mas no fim só acabava apanhando também. Doia tanto que as vezes era insuportável. Muitas vezes não tinha forças seguer pra mover um único dedo, eu realmente cheguei a pensar que fosse morrer! Nessas horas a minhã mãe sempre me abraçava e dizia ... Gomem, gomem, Otoya ... Sempre. Sei que ela sofria muito com isso, mas ela tinha tanto medo dele e nós não tinhamos ninguém, nada, nem mesmo pra onde ir. Mas... Mas...te-teve um dia que foi muito pior. Ele chegou louco, quebrando tudo, revirou a casa inteira, bateu na minha mãe e em mim. A minha mãe ficou inconsciente como muitas outras vezes, porém eu não e quando vi aquele louco avançando pro bebê, mesmo que cada parte do meu corpo parecesse destruído, eu peguei uma garrafa que estava no chão e joguei com toda força na cabeça dele. Ha, ha. Pela primeira vez vi aquele homem caído e com sangue. Não mais eu. Não mais a minha mãe. Ha, ha. Ri e treme descontroladamente.
–Otoya...Chama Tokyia encarando o ruivo preocupado. -Melhor você par...
–Não! Grita. Não...Eu t-tenho...Soluça.
–Tudo bem, tudo bem. Responde abraçando o menor de maneira protetora.
–E-Eu nem sei como o fogo começou. Acho que fiquei desacordado também. Lembro de ouvir os gritos da mamãe e o choro do meu irmãozinho, mas tinha tanto fogo...Eu tentei Tokiya...Eu juro que tentei...Porém eu não podia chegar até eles. Minha mãe gritava pra que eu fugisse, corresse. Ela nem podia levantar, muito menos chegar até o bebê. Nunca ouvi ela com tanta dor, nem mesmo depois das agressões, provavelmente porque sabia o que ia acontecer. A sensação do fogo era tão...sufocante...eu só tinha seis anos...então eu corri...eu sai, mas, mas eu só salvei a mim mesmo. Corri na rua, pedi ajuda, só que quando chegaram já era tarde demais. O-O fogo não fui eu, não fui, não fui Tokiya. Fala segurando firme a camisa do maior e puxando. Eu nem vi o fogo começar, aposto que ele também não. Eu apenas sai...sai sem eles...apenas sai.
–Já chega Otoya. Você não tem culpa, era apenas uma criança pelos deuses. Você não poderia ter feito nada!
–Com pouco tempo então eu fui pro orfanato. Era tudo muito diferente Tokiya. Os adultos eram gentis e as crianças pareciam sempre felizes. Eu não queria esquecer minha mãe, nem meu irmãozinho, porém, também não queria lembrar de tudo aquilo. Queria uma vida normal como as outras crianças, mesmo que eu nunca tivesse pais de novo...não queria mais sofrer...Chora o ruivo.
–Eu sei. Você não fez nada de errado, já te disse isso. Você sobreviveu como pôde a todas as coisas monstruosas que aquele homem te fez passar. Se alguém tem culpa é aquele maldito. E eu tenho certeza que a sua mãe deve ser imensamente feliz onde ela estiver por você estar vivo, por te ver sorrindo todos os dias. Então por favor, por favor Otoya, não deixe esse monstro te ferir de novo. Não deixei o que aconteceu matar o Otoya que eu sempre amei. Pede Tokiya segurando o rosto de Ittoki e enxugando suas lágrimas.
–Tokiya!?
–Me deixa ficar com você Otoya? Deixa eu cuidar de você? Onegai. Implora.
–Hai...
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