Memórias Obscuras
1 Capítulo Único
-Freddy! – Gritou Mrs. McDonald, com as mãos sacudindo, deixando óbvio que o assunto era importante. Meu corpo implorava que eu saísse da clinica. Ou pelo menos em nome de minhas olheiras. Mas negar o pedido de uma mulher como ela era como provocar seu carrasco. Formei um sorriso e fui em direção dela.
— Mrs. McDonald! Algum problema? – É claro que havia um problema. O perfeccionismo tradicional dela fazia com que qualquer detalhe fosse mais que notável. De modo que a terra escura na frente de seu sapato não poderia significar outra coisa a não ser que se envolvera o suficiente num caso a ponto de andar num lugar barrento. Com “caso” me refiro ao trabalho diário dela: Ajudar órfãos. Todas as crianças sem tutores eram encaminhadas para seu orfanato, e quando uma criança tinha problemas psicológicos eu sempre era o encarregado de ajudá-las. Entretanto, ela só vinha nos casos mais urgentes, de modo que sabia que era importante. Isso fora o fato de que ela raramente me chama pelo primeiro nome. Mas creio que não é a melhor hora de bancar o Sherlock Holmes.
-Tem uma garota... É complicado... Ela precisa de ajuda e achei que o senhor deveria falar com ela.
Minhas sobrancelhas se juntaram imediatamente. Não era nada típico de McDonald ser tão hesitante. Como ela era diretora do orfanato estava acostumada a lidar com situações difíceis permanecendo sempre impassível. E ali estava ela, sem saber o que fazer. Minha curiosidade me dominava, mas meus anos de psicologia garantiam que o melhor a fazer era reagir de modo prático, sem atormentá-la.
-Me leve até ela. –respondi de modo mais tranquilizador possível.
-Certo- ela entrou em uma sala da clínica e percebi que uma menina ruiva estava sentada na cadeira. McDonald abriu a boca para falar algo, mas sem saber o que dizer, achou melhor tornar a fechá-la. E saiu com um aceno.
Tentei utilizar minhas células cinzentas para descobrir alguma coisa sobre a garota que pudesse satisfazer minha curiosidade, mas nada se formava em minha mente. Desisti e entrei na sala. Uma franja grande e lisa cobria uma parte do rosto da garota, de modo que não poderia encarar bem seu rosto e avaliá-lo. Apenas quando me sentei de frente para ela que pude vê-lo. Não havia nada familiar, parecia ser apenas uma garota normal de uns 15 anos. As únicas diferenças eram: a cor –um vermelho natural extremamente brilhante- de seu cabelo, a pele extremamente branca, e as roupas que preservavam um estilo retro tão perfeitamente que poderiam ser as roupas de infância da avó dela.
-Olá — tentei animá-la com um sorriso, mas ela apenas virou um pouco a cabeça.
-Seu nome? – a voz dela era apenas um sussurro fraco.
-Freddy. E o seu?
Um relâmpago iluminou a sala no momento em que as palavras “Elizabeth Sutcliff” escaparam de seus pequenos lábios. Achei estranho relampear essa hora, já que três horas antes eu estava olhando para um céu azul sem uma única nuvem, mas rapidamente obriguei meu pensamento a focar-se na jovem. Sabia que tinha ouvido o nome em algum lugar. E então, antes que o barulho do trovão chegasse aos nossos ouvidos, eu me lembrei do caso daquela garota. Olhei novamente para seu rosto delicado, sem acreditar no que via. Eu via uma garotinha sorrindo com o estrondo do relâmpago, sentindo prazer em saber que uma tempestade estava vindo. Sorrindo ao notar o pavor que eu lutei para esconder ao descobrir quem ela era.
-Você... – Eu gaguejei contra minha vontade. Que espécie de plano e espírito diabólico se escondia por trás daquele inocente sorriso? Qual era a chave para o mistério de Elizabeth Sutcliff? Essa cena era coberta por trovões e os barulhos que todos conhecem. Como gritos de demônios, avisando que algo está por vir, e algo não muito bom.
†
Fiz meu rosto voltar a obter a expressão indiferente de sempre e sorri.
-Como a senhorita se sente?
-Melhor do que de costume. –a voz dela era lenta e fraca, entretanto seu rosto virado de lado, não indicasse cansaço, tristeza, ou qualquer outro sentimento, assim como seus olhos vagos.
-A maioria das pessoas se sentiria mal depois de passar pelo o que você passou.
-Pessoas... -pensou a garota em voz alta.
-Conte-me... A história em que foi divulgada pela imprensa, é a verdade?
- Alguma vez a imprensa se importou em relatar apenas a verdade?
-Tem razão. Mas um caso como o seu exige esclarecimento. Você devia contar para alguém o que aconteceu. Assim as pessoas poderiam parar de te incomodar.
-Não é a verdade. As pessoas querem ter uma resposta. Mas quando a resposta é demais para que elas compreendam, não é melhor deixá-las com a mentira?
-Porque acha que seja demais para que elas compreendam?
-Porque é.
-Talvez você esteja errada, você deveria tentar falar com alguém.
-Mas quem iria me escutar e acreditar?
-Eu, por exemplo.
-Será? – ela olhou para o lado de fora da janela, observando uma arvore que se debatia com o vento do lado de fora. Era de se esperar que ela observasse a sala como todas as outras crianças e adolescentes. Normalmente eles sentiam uma enorme curiosidade nas coisas que eu acumulara em meu consultório, como o relógio, um desenho feito pelo meu filho... Mas não, ela só olhara para mim, e agora que virou seu rosto para notar algo era fora do meu consultório.
-Pode tentar me contar.
-É, acho que sim. Mas tenho uma condição.
-E o que seria?
-Não duvide dos fatos, não duvide de mim.
-Tudo bem.
-“Tudo começou algum tempo atrás. Eu vivia com meus pais, e de vez em quando visitava minha avó, já que minha família não é muito grande. Mas ela estava com uma doença grave, e sabíamos que em breve morreria.” – Ela começou a contar vagarosamente — “No leito de sua morte, ela pediu que entrássemos no porão e pegássemos uma pequena caixinha de música que ela guardava”.
“Eu entrei no porão, e como ela havia dito, encontrei umas coisas deixadas por seu marido que falecera durante a guerra. Retratos, cartas, roupas, e no meio uma pequena caixa de música bem antiga. Minha curiosidade era incontrolável, bem mais do que o normal e isso porque o normal já é bem significativo. Mas dessa vez havia algo mais. Eu sentia uma necessidade imensa de saber o que havia ali. De modo que não pude fazer outra coisa a não ser abri-la. A primeira coisa que me lembro sobre a caixa de música, não são as coisas que vi dentro dela (não que isso não tenha importância), mas o que ouvi. O som que saia era maravilhoso, uma música que parecia descrever a alma de quem ouvia. Aquele toque parecia me lembrar de algo, como uma lembrança. Entretanto, não havia nenhuma lembrança minha que pudesse ser lembrada. A segunda coisa que me recordo é o cordão que vi. Era folheado a ouro, e o pingente era o desenho de uma rosa negra. Parecia haver algo dentro do pingente, mas sabia que era algo pessoal da minha avó e decidi não abrir. Investigando mais o que havia dentro da caixa, notei que nada mais havia. O que achei um tanto estranho devido ao seu tamanho. Após observar mais um pouco, notei um fundo falso. E no fundo havia uma carta.”
“Guardei tudo, sem ler a carta, de modo que minha avó jamais pudesse imaginar que eu havia aberto a caixa. Ela agradeceu e pegou a caixa, pedindo para que lhe deixasse sozinha. Saí de seu quarto e só voltei de noite, na hora em que costumava a lhe levar um pouco de água. Aproveitei que ela estava dormindo para ver a curiosa caixa novamente. Ela estava do outro lado do quarto, e quando cheguei perto para tocar-lhe, uma mão me impediu com força. Tomada pelo medo, me virei para ver de quem era a mão. Imagine meu susto, caro doutor, quando notei que era minha avó. Eu sabia que nenhum humano teria a capacidade de cruzar o quarto em tão pouco tempo sem fazer barulho algum, ainda menos uma idosa a beira da morte. E como se não bastasse, seus olhos estavam diferentes. Estavam completamente brancos, era como se sua pupila havia virado para dentro. Ela murmurou as palavras “isso será a sua morte”, com uma voz inumana e grotesca. Aquilo me aterrorizou mais do que qualquer outra coisa em toda a minha vida e eu gritei por socorro. O grito pareceu desfazer o transe em que minha avó se encontrava, e esta voltou a ficar fraca, caiu para trás, bateu a cabeça com força na cama e... morreu. ”
“Gritei em desespero, até que minha mãe me ajudou. Contei-lhe sobre o que houve, mas ela não acreditou, achava que a morte da minha avó me abalara e por isso eu agia assim. Mas eu sabia que acontecera de verdade e queria entender. Achei que o melhor modo era investigando a caixa de música. Quando consegui ficar sozinha em meu quarto eu abri a caixinha e olhei novamente. Dessa vez a música se tornou um tanto quanto fúnebre em meus ouvidos. O colar parecia o mesmo, e a dúvida continuava em minha mente. O que havia dentro do colar? O que estava escrito na carta? Peguei a carta, cujo lacre já fora violado, e a li. Pensei que fosse uma simplória carta de amor do falecido marido de minha avó, entretanto, a cada frase se tornava mais óbvio que havia algo a mais.”
-Como assim algo a mais?
-“A carta contava que ele fora para uma guerra na África, e acabara se ferindo gravemente. Os nativos prestavam primeiros-socorros a ele, pois viam que ele estava começando a alucinar, o que é um péssimo sinal. Ele sabia que iria morrer e começou a gritar sobre sua amada esposa, dizia que se seu corpo não pudesse juntar-se á ela, ao menos sua alma haveria de fazê-lo. Implorou que fizessem eles se juntarem novamente, não importa de que modo. Um dos médicos da aldeia lhe contou que eles conheciam um bruxo voodo que talvez pudesse ajudá-lo. Ele implorou que o médico chamasse o tal bruxo e assim foi feito. O bruxo disse que poderia fazer sua alma se prender a algum objeto, e se ele quisesse poderia enviar o objeto para sua amada, para que morressem juntos. O ritual foi realizado corretamente e o objeto fora enviado, junto com a carta”.
“Comecei a rir, achando que era uma espécie de loucura, e abri o colar. Dentro havia uma foto minha, ou pelo menos foi o que pensei, mas após analisar por um tempo percebi que era minha avó quando jovem, numa época em que ela era extremamente parecida comigo. Do outro lado estava uma foto de um rapaz de cerca de dezessete anos, era o jovem mais belo que já vira em toda a minha vida. Observei o retrato e por fim decidi ficar com o colar para mim. Primeiro porque eu era a única pessoa realmente chegada a minha avó, segundo porque eu gostaria de ficar com uma foto dela por perto. E terceiro porque era simplesmente um belo e interessante colar.”
-Compreendo. – falei para a garota, enquanto ela colocava a mão sobre o peito, como se houvesse um colar escondido dentro do vestido. Ou seria apenas pela força do habito que criara?
“O dia se passou como de costume, mas de noite, eu sonhei com o rapaz da foto. — Elizabeth! — ele disse emocionado. Não sabia se ele se referia a minha avó ou a mim, pois ambas tínhamos o mesmo nome. Mas logo ele correu e me abraçou. Seu rosto era misterioso, mas mostrava que sentia um enorme prazer em me ver. Ele tinha cabelos e olhos pretos como a noite, sua pele era branca e suave. As expressões de seu rosto e a voz eram perfeitas. — Você nem imagina a falta que fez! — fiquei embaraçada, pensando se ele não havia me confundido com a minha avó. — Eu não sou... — comecei a falar, mas ele me interrompeu – O que foi? Você está diferente. É alguma coisa sobre mim? Eu continuo o mesmo Henry de antes. — Naquele momento algo me parou. Não queria decepcioná-lo, nem que tivesse que me passar por minha avó. –Claro Henry- falei seu nome novamente de modo que ficasse guardado em minha cabeça. – É só que... Eu também estava com muita saudade.”
-Mas isso foi um sonho, não é?
-Bem, foi o que eu pensei. Mas quando acordei meu pijama estava com o mesmo cheiro que eu senti no meu sonho. O cheiro do perfume dele.
-E o que você fez?
-Escondi o colar dentro do meu uniforme escolar e vivi o dia como de costume. Muitas pessoas me deram pêsames pela minha avó, mas consegui ficar livre na aula de história e acabei pegando no sono.
“E, de alguma forma, ele apareceu de novo. Agora a sala estava vazia, só estávamos eu e ele. – que roupa diferente. – Henry falou desconcertado. Creio que antigamente as mulheres não usavam saias curtas. De modo que tal vestimenta fora completamente desaprovada. – Perdão- Falei me fazendo passar por uma jovem de décadas atrás. — Peguei no sono enquanto me trocava. – ele sorriu – Nesse caso não seria muito adequado vê-la assim. Devo ir?”
“-Por favor, fique. – implorei. Ele se aproximou e roubou-me um beijo, sussurrando em meus ouvidos “sempre estive com você, Elizabeth.” E foi embora. A partir daquele dia decidi que só usaria roupas antigas, para que ele não estranhasse. Tal plano foi bem sucedido, se não contar o fato de todas as pessoas a minha volta estranharem meu comportamento”.
“Vimos-nos vários dias a partir daí. Às vezes ele cantava para mim a música que eu ouvi na caixinha. Até que no sétimo dia um menino que eu gostei certa vez falou comigo na escola. Eu acabei sonhando com este garoto cujo nome era Ron, e Henry apareceu no meu sonho. Ele ficou com ciúmes, pois o garoto estava de mãos dadas comigo.”
“-Porque, Elizabeth? — ele me perguntou e vi seu rosto se transformar. Uma espécie de crueldade nasceu nele. As mãos de Henry se transformaram em garras negras e agarram o outro garoto. Ele arrastou Ron para um quarto e eu só conseguia ouvir os gritos agonizantes. Tentei abrir a porta do quarto, mas ela estava trancada e quando eu em fim consegui , os gritos já haviam sido silenciados. Eu acordei suando frio no meio da sala de aula e vi que o menino com que eu sonhara também estava dormindo na aula. Sorri aliviada por ser só um sonho e depois de me recompor, me virei para a mesa dele, que era do meu lado. Cutuquei-o e ele não acordava. Ao conferir o pulso dele percebi que estava morto. A confusão na sala foi horrível, e em minha mente mais ainda.”
“Eu tinha medo de dormir. Tomava café, Coca-Cola e energéticos para me manter acordada e não sonhar com ele. Entretanto sabia que todo esforço seria em vão, uma hora eu teria que dormir. Mas ele não apareceu no meu sonho e assim foi por três dias.”
-Acho que estou com fome. — disse a garota saindo de seus devaneios.
-Oh, sinto muito. Providenciarei comida. – eu disse sorrindo para ela – Me acompanhe, por favor.
Saímos do consultório e a levei até o local onde normalmente nós tínhamos nossas refeições. O consultório e os corredores costumavam a formar um ambiente meio hospitalar e doentio. Entretanto, a sala de refeições era exatamente o oposto. O cheiro estonteante de um almoço bem preparado podia ser sentido. Risos das cozinheiras e conversas de doutores podiam ser ouvidos, e raramente um paciente entrava ali.
-Já comeu algo?
-Não — ela mordeu o lábio como se controlasse para não dizer que estava morta de fome. Imagino que fora difícil para ela conseguir comida, ela deveria estar muito ocupada nas ultimas horas.
-Será minha convidada de honra hoje então. – Não sei por que fazia isso, eu a tratava com mais simplicidade do que os demais pacientes. Teria sido talvez pelo fato de que ela me lembrava tanto dele? Ele... Meu filho. Concentrei-me em outra coisa para esquecer o assunto como sempre fazia. De certa forma, sempre achei que a melhor forma de lidar com isso é ignorando a dor e os fatos. Mas como podia ignorar isso quando o mais próximo que cheguei de uma lembrança se postava a minha frente?
-Você come aqui todo dia?- ela olhou em torno, como se pela primeira vez estivesse notando onde estava. Tudo era cercado de madeira, como um chalé. As mesas eram de vidro e alguns quadros estavam pendurados nas paredes. Os quadros foram colocados pela própria senhora McDonald, com o intuito de alegrar as pessoas que ali trabalhavam. Os resultados eram, quase sempre, positivos.
-Para dizer a verdade eu estou mais acostumado a comer em casa, com a minha esposa. Só como aqui quando estou ocupado.
-Estou ocupando você? Desculpe-me.
-Não, tudo bem. Minha mulher não gosta de ficar sozinha, mas prefiro mil vezes mais isso a enfrentar a fúria da Mrs. McDonald. Chegou a conversar com ela?
-Sim, ela é assustadoramente manipuladora. – controlei-me para não rir e pedi a comida para ela.
-Mas então, quer continuar o que houve? –perguntei enquanto esperava nossa comida chegar.
-Sim. “Ele voltou a aparecer no meu sonho, mas daquela vez seu olhar era forte, decisivo, imponente. Mesmo com toda a sua beleza eu ainda sentia medo. -Elizabeth, você disse que seria minha, não é?- ele perguntou e rapidamente fiz que sim com a cabeça -então não quero vê-la com nenhum outro homem- ele segurou minha mão com um olhar penetrante. -Se quiser posso aparecer fora de seus sonhos, como uma pessoa normal, em carne e osso, só precisa fazer uma coisa.- fiquei assustada, como você já pode imaginar, mas minha curiosidade me dominou novamente –o que?- perguntei esperançosa”
- O que ele respondeu? – perguntei, pois ela tinha parado de narrar quando uma garçonete apareceu para trazer a comida que pedimos.
-Que eu levasse o colar até o cadáver do garoto que ele matou.
-Isso explica o que apareceu na televisão – murmurei refletindo.
-Sim, foi realmente um episódio grotesco. Não sei o que deu na minha mente aquele dia, mas necessitava saber o que poderia acontecer. Esquivei-me pela janela de casa e fui até onde seria o velório, onde estava o seu corpo. Posicionei o cordão sobre seu peito e esperei. Já estava quase indo embora quando ouvi uma música saindo do órgão da igreja. A música que eu tão bem reconhecia. Distraí-me ao ponto de nem notar que algo se mexera atrás de mim, só notei uma mão pousando em meus ombros. Quando me virei meu rosto quase encostou com o de Ron, e meu coração parecia querer sair pela boca. -Você está vivo!- comemorei, abraçando Ron. -Sim, tinha esquecido como é bom ter um corpo- ele respondeu afagando meu cabelo. Meu coração despencou. Aquele realmente não era o Ron, era Henry. Era o jeito que ele falava, o modo como me abraçava. Eu reconheceria em qualquer lugar.”
-Porque acha que é real? – cortei ela, antes que a fantasia pudesse dominar a garota por completo.
-Pedi que confiasse em mim — ela voltou a ficar de cabeça baixa.
-Confio que acha que é real, mas não creio que possa ter acontecido. Sempre haverá a hipótese de um trauma ou de alucinações, isso pode confundir a pessoa na distinção do real e do irreal.
-Posso não saber muito sobre psicologia, mas garanto que cada sentido do meu corpo, cada memória de meu cérebro confirma a autenticidade do ocorrido.
-Tudo bem. Continue, por favor. – voltei a comer meu lanche.
-“Perguntei a ele o que acontecera com o dono do corpo. – Morto. Como espírito, posso possuir cadáveres que ainda tem capacidade de funcionar. Mas o garoto já está longe, sua alma não tem mais conexões com esse corpo. Mas agora o que importa é que posso passar meu tempo com você, Elizabeth! Poderemos passar o resto dessa vida juntos! Pode fugir comigo se quiser, nada irá nos atrapalhar. – Preciso admitir que mesmo sabendo que eu estava o enganando, mesmo sabendo que estava nos braços de um morto e que cedo ou tarde ele descobriria a mentira seja pelos meus lábios ou observando as mudanças do mundo, mesmo com tudo isso, eu me animei com a ideia. Queria passar a eternidade com ele não importa o que custasse.
Os dias que se seguiram foram divinos, cada momento que passei com ele continua gravado no meu cérebro como gravado com fogo em ferro. Foram os melhores momentos de minha vida, não me arrependo e daria tudo para torná-los eterno. Sabia que meus pais notavam meu sumiço mas fugia mais e mais. Mas o tempo o fez perceber a mentira que eu guardava e gradativamente a sombra entre nós aumentava. Até que chegou ao ponto em que ele não aguentava mais e me fez contar. Eu queria que ele pudesse me perdoar, ou que pelo menos, nunca tivesse pego aquele colar, a agonia que ele sentiu... O modo como o enganei... Foi cruel.” – A garota parou de narrar, pois agora estava em lágrimas, lágrimas que pareciam carregar o peso de sua alma. Levei ela até minha sala de volta para não se atormentar com as pessoas ali presentes.
Não sabia se a história era real ou não, mas nunca vi uma agonia tão genuína como aquela. Até que ela conseguiu parar o choro e sorriu ainda com o queixo tremendo. Ela tirou o colar debaixo do vestido e deixou a mostra para que eu visse.
-Era isso que o mantinha vivo. Após saber sobre o que eu fiz ele retirou. As lágrimas já estavam no rosto dele quando o objeto caiu de sua mão. E assim que se desprendeu da alma o corpo se transformou em cadáver novamente. Não um cadáver como quando eu o encontrei, mas todo deteriorado, com a pele rasgada se decompondo e as órbitas oculares se destacando. Tentei colocar o cordão novamente mas... nada. Não podia ser, a vida sem ele... Não faria sentido! Pensei que com outro corpo eu pudesse fazer ele voltar a vida e tentei de tudo. Matei dezenas para tentar salvá-lo, matei meus pais e meus amigos para ver se funcionava... Mas ele nunca voltou. –Elizabeth caiu no chão vomitando.
Tive que levar a garota para o hospital para parar de vomitar, e depois de um tempo ela pegou no sono e tirei o colar de seu pescoço. -Tudo isso por causa de um objeto tão pequeno... Ela deve ser internada, com certeza. –Pensei jogando o objeto no vaso sanitário e dei descarga.- Não atormentará mais.- Nesse momento Mrs. McDonald chegou.
-O que faremos com ela?
-Lobotomia.
-Sério? Não tem nenhuma outra opção?
- Ela é esquizofrênica, é o melhor, acredite.
-Entendo...- A mulher se retirou e prendeu a garota numa cadeira para a cirurgia. –Deixarei vocês a sós.
-Obrigado.
A garota acordou assustada, logo após a saída de Mrs. McDonald.
-O que fará comigo? O que fez com o colar?- ela estava apavorada, eu podia ver pelo olhar. –Você disse que confiaria em mim... MENTIROSO! É VERDADE! PELO AMOR DE DEUS E TUDO QUE É SAGRADO, É VERDADE E TENHA MINHA ALMA SE NÃO FOR!
-Sinto muito...– Apliquei um calmante nela e comecei a cirurgia.- Honestamente.
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