Memórias Irreais
1 Tic Tac Clap
Tic Tac Clap. Silêncio. O som do relógio confunde-se com o gotejar da chuva e ambos morrem no vazio. A luz pouco ilumina os cantos sombrios do quarto, parece temer o desconhecido. Aninho-me sem conforto nas pobres cobertas, tão gélidas quanto o olhar bucólico que trago na face. O vento treme as janelas num instante de fúria, dando o último aviso que o mundo afora existe.
Silêncio novamente.
Olhos percorrem friamente a parede branca pontilhada de retratos, cor da saudade. Perco-me em minutos, horas, mas a terrível realidade desperta-me do sonho prodígio. Deslizo a mão pelo casaco surrado que abriga braços inóspitos. Suspiros derradeiros de solidão permeiam meus lábios a cada toque sem vida que ofereço para saciar o anseio do calor.
A Luminosidade, aos pouco, torna-se quase imperceptível à vista cansada, sem dom de ver. Deito-me, encaro o teto para mergulhar na tortura da depressão que cerca-me. Riso sarcástico, mexo e remexo os pensamentos, buscando razões para ainda existir. Tic Tac Clap. O som da rotina perturba. Afogo-me nas poucas lágrimas que caminham pelo resto, lavam o fim de esperança que restava, deixam-me na agonia, doce ilusão perpétua.
Conto infinitamente os tempos que convivo com o sofrer. Sozinha em minha companhia. Amor ao oco que perambula no peito maldito. Que adianta descrever essa dor tão comum à minha alma? Perguntas sem respostas entendiam-me, destroem a sanidade já abalada.
Fins oriundos da tristeza não podem findar as ideias do meu próprio fim. Alterno-me em meus desatinos, prazer inigualável ao coitado. Redefino filosofia, religião, verdades. Meu Inferno incerto atribuí-me essas habilidades. Onipotente sem domínio. Nada vejo, digo ou sinto. Estou em minha utopia difamada. Senhora do inexistente.
Ouço, ao fundo da razão, tilintar mais comum aos meus ouvidos. Tic Tac Clap.
Ruído amaldiçoado, querido por meu ser. Emana das estruturas de minha habitação. Está preso entre quatro paredes, assim como eu. Sinto as vibrações clamarem por ajuda. O som quer liberdade. Fugirá pelo cimento, escorre por meus dedos. Já não o possuo para me sustentar sobre dolorosas miragens. É ensurdecedor. Ecoa pelos universos. Mistura-se com a saudosa presença dos retratos. A lembrança uiva em meus olhos, grita lágrimas, verte sangue, suspira choros sem término. Acaba por se desfazer no chão frio. Inacabada como sentimento que acaba-me como criatura.
A voz daquele que não está mais em meu viver abate-me na implicância da morte. O amor que despertou em pecado insiste em corroer as entranhas que deixou como resto do que um dia fui. Transformou-me em gente, em pecadora, em sofredora, em nada. Arrancou-me as razões, ofereceu em troca sua presença e, agora, estou sem ambos. Deixou a memória, destruidora daquilo que não lhe serviu.
Ainda assim, com peso no espírito, consumo e sou consumida por esse amor. Amo tanto que engasgo-me com o arrependimento de amar. Chamo, uma última vez, pelo nome do meu carrasco e protetor. O vento, então, responde-me com uma singela música. Tic Tac Clap.
Silêncio.
Sozinha novamente, como sempre estive. Desespero toma-me por inteira. Agarro-me às brilhantes esperanças, pontiagudas amigas, cortantes destinos. Em meu corpo, alimentam-se da carne macia, rasgam meus sentimentos e vestes tão inúteis. Vermelho, cor da liberdade. Empesteio meu dormitório com a certeza do não futuro. Verto, por toda pele, rios de pura insanidade. Sinto o medo esvaziar-se por cada rasgo, cada corte.
Enfim desfiz-me da minha indesejável companhia. Aliviada, calmamente, sinto minha cabeça pesada deitar-se com delicadeza, o corpo desaba em desistência. Os olhos, tão sensíveis, fecham-se em sono eterno. Sem luz, retratos, paredes, quarto, vida. Sorriso descansará em meu rosto.
Finalmente, Silêncio. Mente vazia. Ao fundo, desprezo das amarras, ouve-se pela última vez, um tímido e terminante...
Tic Tac Clap.
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